Memorial do Convento

José Saramago · Capítulo 2 de 30

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Memorial do Convento

No geral do ano há quem morra…

No geral do ano há quem morra por muito ter comido durante a vida toda, razão por

que se repetem os acidentes apoplécticos, primeiro, segundo, terceiro, e às vezes um basta

para levar à cova, e se o acidentado provisoriamente escapou, fica leso de um lado, de boca

à banda, sem voz se o lado foi esse, e também sem remédios que lhe acudam, tirando as

sangrias, que se receitam às meias dúzias. Mas não falta, por isso mesmo falecendo mais

facilmente, quem morra por ter comido pouco durante toda a vida, ou o que dela resistiu a

um triste passadio de sardinha e arroz, mais a alface que deu a alcunha aos moradores, e

carne quando faz anos sua majestade. Quer Deus que o rio seja pródigo de peixe, louvemo-

los aos três por isso. E que a alface, mais as outras hortaliças, venham nas burricadas do

termo, ceirões repletos, a toque de saloios e saloias, que neste trabalho não se distinguem.

E que o arroz não falte além do tolerável. Mas esta cidade, mais que todas, é uma boca que

mastiga de sobejo para um lado e de escasso para o outro, não havendo portanto mediano

termo entre a papada pletórica e o pescoço engelhado, entre o nariz rubicundo e o outro

héctico, entre a nádega dançarina e a escorrida, entre a pança repleta e a barriga agarrada às

costas. Porém, a Quaresma, como o sol, quando nasce, é para todos.

Correu o Entrudo essas ruas, quem pôde empaturrou-se de galinha e de carneiro, de

sonhos e de filhós, deu umbigadas pelas esquinas quem não perde vaza autorizada,

puseram-se rabos surriados em lombos fugidiços, esguichou-se água à cara com seringas de

clisteres, sovaram-se incautos com réstias de cebolas, bebeu-se vinho até ao arroto e ao

vómito, partiram-se panelas, tocaram-se gaitas, e se mais gente não se espojou, por

travessas praças e becos, de barriga para o ar, é porque a cidade é imunda, alcatifada de

excrementos, de lixo, de cães lazarentos e gatos vadios, e lama mesmo quando não chove.

Agora é tempo de pagar os cometidos excessos, mortificar a alma para que o corpo finja

arrepender-se, ele rebelde, ele insurrecto, este corpo parco e porco da pocilga que é Lisboa.

Vai sair a procissão de penitência. Castigámos a carne pelo jejum, maceremo-la agora

pelo - açoite. Comendo pouco purificam-se os humores, sofrendo alguma coisa escovam-se

as costuras da alma. Os penitentes homens todos, vão à cabeça da procissão, logo atrás dos

frades que transportam os pendões com as representações da Virgem e do Crucificado.

Seguinte a eles aparece o bispo debaixo do pálio rico, e depois as imagens nos andores, o

regimento interminável de padres, confrarias e irmandades, todos a pensarem na salvação

da alma, alguns convencidos de que a não perderam, outros duvidosos enquanto se não

acharem no lugar das sentenças, porventura um deles pensando secretamente que o mundo está louco desde que nasceu. Passa a procissão entre filas de povo, e quando passa rojam-se

pelo chão homens e mulheres, arranham a cara uns, arrepelam-se outros, dão-se bofetões

todos, e o bispo vai fazendo sinaizinhos da cruz para este lado e para aquele, enquanto um

acólito balouça o incensório. Lisboa cheira mal, cheira a podridão, o incenso dá um sentido

à fetidez, o mal é dos corpos, que a alma, essa, é perfumada.

Nas janelas só há mulheres, é esse o costume. Os penitentes vão de grilhões

enrolados às pernas, ou suportam sobre os ombros grossas barras de ferro, passando por

cima delas os braços como crucificados, ou desferem para as costas chicotadas com as

disciplinas feitas de cordões em cujas pontas estão presas bolas de cera dura, armadas de

cacos de vidro, e estes que assim se flagelam é que são o melhor da festa porque exibem

verdadeiro sangue que lhes corre da lombeira, e clamam estrepitosamente, tanto pelos

motivos que a dor lhes dá como de óbvio prazer, que não compreenderíamos se não

soubéssemos que alguns têm os seus amores à janela e vão na procissão menos por causa

da salvação da alma do que por passados ou prometidos gostos do corpo.

 

Presas no alto gorro ou na própria disciplina, levam fitinhas de cores, cada um a sua,

e se a mulher eleita que à janela anseia de angústia, de piedade pelo ama, dor sofredor, se

não também de gozo a que só muito mais tarde aprenderemos a chamar sádico, não

souber, pela fisionomia ou pelo vulto, reconhecer o amante na confusão dos penitentes,

dos pendões, do povinho derramado em pavores e súplicas, do vozear das ladainhas, do

bambear desacertado dos pálios, dos cabeceamentos bruscos das imagens, adivinhará ao

menos pela fitinha cor-de-rosa ou verde, ou amarela, lilás, se não vermelha ou cor do céu, é

aquele o seu homem e servidor, que lhe está dedicando a vergastada violenta e que, não

podendo falar berra como o toiro em cio, mas se às mais mulheres, da rua, e a ela própria,

pareceu que faltou vigor ao braço do penitente ou que a vergastada foi em jeito de não

abrir lanho na pele e rasgões que cá de cima se vejam, então levanta-se do coro feminil

grande assuada, e possessas, frenéticas as mulheres reclamam força no braço, querem ouvir

o estralejar dos rabos do chicote que o sangue corra como correu o do Divino Salvador,

enquanto latejam por baixo das redondas saias, e apertam e abrem as coxas segundo o

ritmo da excitação e do seu adiantamento. Está o penitente diante da janela da amada, em

baixo na rua, e ela olha-o dominante, talvez acompanhada de mãe ou prima ou aia, ou

tolerante avó, ou tia azedíssima, mas todas sabendo muito bem o que se passa, por

experiência fresca ou recordação remota, que Deus não tem nada que ver com isto, é tudo

coisa de fornicação, e provavelmente o espasmo de cima veio em tempo de responder ao

espasmo de baixo, o homem de joelhos no chão, desferindo golpes furiosos, já frenéticos, enquanto geme de dor, a mulher arregalando os olhos para o macho derrubado, abrindo a

boca para lhe beber o sangue e o resto.

Parou a procissão o tempo bastante para se concluir o acto, o bispo abençoou e

santificou, a mulher sente aquele delicioso relaxamento dos membros, o homem passou

adiante, vai pensando, aliviadamente, que daqui para a frente não precisará vergastar-se

com tanta força, outros o façam para gáudio doutras.

Assim maltratadas as carnes, alimentadas de magro, parece que se haveriam de

recolher as insatisfações até à libertação pascal e que as solicitações da natureza poderiam

esperar que se limpassem as sombras do rosto da Santa Madre Igreja, agora que se

aproximam Paixão e Morte. Mas talvez que a riqueza fosfórica do peixe atice o sangue,

talvez que o costume de deixar que as mulheres corram as igrejas sozinhas na Quaresma,

contra o uso do resto do ano, que é tê-las em casa presas, salvo se são populares com porta

para a rua ou nesta vivendo, tão presas aquelas que se diz saírem, se são de nobre

extracção, para ir à igreja somente, e apenas três vezes na vida, a ser baptizada, a ser casada,

a ser sepultada, para o resto lá está a capela da casa, talvez que o dito costume mostre,

afinal, quanto é insuportável a Quaresma, que todo o tempo quaresmal é tempo de morte

antecipada, aviso que devemos aproveitar, e então, cuidando os homens, ou fingindo

cuidar, que as mulheres não fazem mais que as devoções a que disseram ir, é a mulher livre

uma vez no ano, e se não vai sozinha por não o consentir a decência pública, quem a

acompanha leva iguais desejos e igual necessidade de satisfazê-los, por isso a mulher, entre

duas igrejas, foi a encontrar-se com um homem, qual seja, e a criada que a guarda troca

uma cumplicidade por outra, e ambas, quando se reencontram diante do próximo altar,

sabem que a Quaresma não existe e o mundo está felizmente louco desde que nasceu. Pelas

ruas de Lisboa, cheias de mulheres que vestem por igual, com os seus biocos, a saia de cima

pela cabeça, uma nesga apenas a abrir para o sinal de olhos ou de beiços, código geral

aprendido na clandestinidade dos sentimentos e das volúpias proibidas, por estas ruas, com

uma igreja a cada esquina, um convento por quarteirão, corre um vento de Primavera que

dá volta à cabeça e, não correndo o vento, fazem os suspiros as vezes dele os que se

desabafam nos confessionários ou em lugares escusos, propícios a outras confissões, as da

carne adúltera, oscilando na beirada do prazer e do inferno, ambos gostosos nestes dias de

mortificação, de altares despidos, de lutos rituais, de pecado omnipresente. Entretanto, se é

dia, estarão dormindo a sesta o maridos ingénuos, ou que fingem sê-lo, e se noite, quando

soturnamente as ruas e as praças se enchem de multidões que cheiram a cebola e a

alfazema, e o murmúrio das orações sai pelas portas escancaradas das igrejas, se é noite,

mais descansados se sentem, porque assim a demora não será tanta, já se ouviu bater a porta, soaram os passos na escada, vêm falando familiarmente a ama e a criada, pudera não,

ou a escrava preta, se a levou, e pelas frinchas dançam as luzes da palmatória ou do candil,

finge o marido que acorda, finge a mulher que o acordou, e se ele pergunta, Então, já

sabemos o que ela responderá, que vem morta de canseira, moídinha dos pés, arrastadinha

dos joelhos, mas consolada a alma, e diz o misterioso número, Sete igrejas visitei, tão

apaixonada-mente o disse que ou foi a devoção muita ou muita a falta dela.