Memorial do Convento
Estes são mais fáceis. Desde que o…
Estes são mais fáceis. Desde que o sol nasce até que se põe, Baltasar, e com ele,
quantos mais, setecentos, mil, mil e duzentos homens, carregam os carros com terra e
pedras, no caso de Baltasar o gancho ampara o cabo da pá, o braço direito anda há quase
quinze anos a triplicar o jeito e a força, e depois, infindável procissão do Corpus Homini,
vão uns atrás dos outros despejar o entulho pela encosta abaixo, e não é só mato o que vão
cobrindo, também alguma terra de cultivo, além uma horta do tempo mourisco, vai-se-lhe
acabar a vida, pobre dela, tantos séculos a dar couves tenras, alfaces que estalavam de
frescura, orégãos, pezìnhos de salsa e hortelã, primícias e primores, e agora adeus, já não
correrá mais a água por estas regueiras, já não virá o hortelão puxar o comorozinho de terra
para dar de beber ao canteiro que tem sede, enquanto o do lado se regala, da sede que
matou: E dando o mundo tantas voltas, muitas mais as dão os homens que nele vivem,
talvez que aquele que lá em cima agora mesmo despejou um carro de mão, aí vêm as pedras
aos saltos e rebolões, a terra escorregando, adiante a mais pesada, talvez seja ele o hortelão
da horta, porém não deve de ser ele, se nem sequer as lágrimas lhe caem.
Passam os dias, as semanas, e as paredes mal crescem. Os tiros vão rebentando a
rocha duríssima que os soldados andam a atacar agora, bom proveito ela daria, e
pagamento do trabalho que dá, se pudesse servir; como outra, para encher as paredes, mas
esta, que agarrada ao monte só consente desprender-se dele com grande violência, quando
posta ao ar não demora a esfarelar-se, às lascas, em pouco tempo se tornaria terriço se não
viesse o carro de mão deitá-la a fundo. Andam também no transporte carros maiores, com
rodas de sege, puxados a mulas, não falta carregarem-nos em excesso, e, como nestes dias
tem chovido, atascam-se as bestas no lamaçal, donde por fim se arrancam apertadas pelo
chicote que lhes desaba nos lombos, na cabeça quando Deus não está a olhar, embora tudo
isto seja para serviço e glória do mesmo Deus, e assim não se sabe se ele não estará
desviando os olhos de propósito. Os homens dos carros de mão, porque levam menos
carga, não se atolam tanto, além de terem feito, com tábuas que ficam ao desbarato quando
se alteiam os andaimes, uns passadiços firmes, mas, não chegando estes para todos, há
sempre uma guerra de espreita e corre, a ver quem primeiro chega, e, chegando a par, a ver
quem mais empurra, e a partir daí já se conta que salte murro e pontapé, se não cortarem
sarrafos o ar, momento em que avança a patrulha de soldados, manobra em geral suficiente
para esfriar os ânimos aquecidos, ou, caso não, duas pranchadas, dois vergões na lombeira,
como às mulas.
Vem chovendo, mas não tanto que o trabalho tenha de parar, excepto o dos
pedreiros, pois a água desfaz a argamassa, empoça nas larguíssimas paredes, por isso
recolhem-se os operários aos telheiros, à espera que levante, enquanto os canteiros, que são
gente fina, batem abrigados o mármore, tanto para a cantaria como para o lavrado,
provavelmente prefeririam descansar. A estes tanto faz que as paredes cresçam depressa
como devagar, têm o risco da pedra a seguir, caneluras, acantos, festões, acrotérios,
grinaldas, estando acabada a obra logo a levam os carregadores a pau e corda, para o
telheiro onde com outras ficará guardada, chegando a hora a irão buscar do mesmo modo,
salvo se for tão pesada que requeira cabrestante e plano inclinado. Mas têm os canteiros o
privilégio de trabalhar pelo seguro, quer chova, quer faça sol, com o jornal sempre
garantido, ali debaixo de telha, brancos do pó do mármore, parecem fidalgos de cabeleira,
truca-truca, truca-truca, com o cinzel e a maceta, trabalho de duas mãos. Esta chuva de
hoje não tem sido tão forte que mandassem os olheiros recolher toda a gente, sequer os
dos carros de mão, menos afortunados que as formigas, que essas, estando o céu de
aguagem, levantam a cabeça a farejar os astros, e recolhem aos buracos, não são nenhuns
homens para terem de trabalhar à chuva. Enfim, vem do lado do mar, caminhando sobre
os campos, uma escura cortina de água, largam os homens, mesmo sem ordem, os carros
de mão, e debandam para os telheiros ou chegam-se à revessa das paredes, se vale a pena,
mais molhados do que estavam não podem ficar. As mulas atreladas ficam quietas sob o
grande chuveiro que cai, o pêlo empapado de suor está agora ensopado da contínua água,
os bois ruminam jungidos e indiferentes, quando a chuva bate com mais força sacodem as
cabeças, quem haverá aí capaz de dizer o que sentem estes animais, que fibras lhes
estremecem, e até onde, se no movimento que fazem se tocam os cornos luzidios,
porventura apenas, Estás aí. Quando a chuva se afasta ou se tornou aturável, voltam os
homens e tudo recomeça, carregar e descarregar, puxar e empurrar, arrastar e levantar, hoje
não há tiros de pólvora por causa desta geral humidade, melhor para os soldados que
gozam a folga debaixo dos telheiros, de gorra com as sentinelas também recolhidas, é a
alegria da paz. E como a chuva voltou novamente, caindo de um céu escuríssimo, tão cedo
não vai acabar, deu-se ordem para largarem os homens o trabalho, só os canteiros
continuaram a bater a pedra, truca-truca, truca-truca, são largos os telheiros, nem os
salpicos soprados pelo vento vêm macular o grão do mármore.
Baixou Baltasar à vila pelo carreiro escorregadio, um homem que descia à sua frente
estatelou-se na lama e todos riram, de riso caiu outro, o que vale são estas distracções, que
nesta terra de Mafra não há pátios de comédias, não há cantarinas nem representantes,
ópera só em Lisboa, para vir o cinema ainda faltam duzentos anos, quando houver passarolas a motor, muito custa o tempo a passar, até que chegue a felicidade, olá. O
cunhado e o sobrinho já terão chegado a casa, ainda bem para eles, não há nada que valha
uma fogueira quando um homem está enregelado, aquecer as mãos à labareda alta, o
coirato dos pés descalços rente ao brasido, e o frio a retirar-se dos ossos, devagarinho,
como geada que se derrete ao sol. A bem dizer, melhor do que isto, que o há, só uma
mulher na cama, e se a mulher é a que se quer, não precisa mais que aparecer no caminho,
como agora vemos Blimunda, veio partilhar o mesmo frio e a mesma chuva, e traz uma saia
das suas que lança sobre a cabeça do homem, este cheiro de mulher que faz subir lágrimas
aos olhos, Estás cansado, perguntou ela, quanto basta para que o mundo se torne
suportável, uma aba da saia cobre as duas cabeças, mal comparado é um céu, assim vivesse
Deus com os nossos anjos.
A Mafra chegaram soltas notícias de que em Lisboa se sentiu um terramoto, sem
outros estragos que caírem beirais e chaminés, e abrirem-se algumas rachas em paredes
velhas, mas, como todo o mal traz de caminho o seu bem, fizeram negócio magnífico os
cerieiros, foi um corropio de velas para as igrejas, com particular preferência pelos altares
de S. Cristóvão, santo de grande valimento em casos de peste, epidemias, raios, incêndios e
tempestades, inundações, más viagens e tremores de terra, em concorrência com Santa
Bárbara e Santo Eustáquio, que também não são pecos nestas protecções. Mas os santos
são como os homens, estes que andam aqui a construir o convento, e quem diz estes diz
outros, noutras construções e destruições, os santos cansam-se, estimam muito o seu
repouso, que só eles sabem quanto trabalho dá segurar as forças naturais, fossem elas
torças de Deus, e seria fácil, bastava ir a Deus pedir-lhe, Olhe lá, não sopre agora, não
sacuda, não ateie e não alague, não deite praga nem ladrão à estrada, e só se ele fosse um
deus de maldade é que não atenderia aos rogos, mas, como as forças o que são é naturais e
os santos se distraem, mal acabámos de suspirar de alívio por ter sido benigno o abalo, aí
temos uma tempestade como doutra não há memória, porém, sem chuva nem granizo,
antes fosse, talvez lhe quebrassem esta força do vento que joga livremente com os navios
ancorados, como cascas de noz, repuxando, esticando e rebentando as amarras ou
arrancadas do fundo as âncoras, e logo os arrasta dos surgidoiros, e vão bater uns contra os
outros, arrombando-se os costados e indo a pique com os marinheiros clamando, só eles é
que saberão a quem pedem socorro, ou encalhando em terra onde a força das águas
derradeiramente os despedaça. Todos os cais se desmoronam rio acima o vento e as vagas
arrancam de raiz as pedras e lançam-nas para terra, arrombando janelas e portas como
pelouros, que inimigo é este que fere sem ferro nem fogo. Na presunção de que seja o
demónio o autor do distúrbio, tudo quanto é mulher, ama, criada ou escrava, está de joelhos no oratório, Maria Santíssima, Virgem Nossa Senhora, enquanto os homens,
pálidos de morte, sem mouro ou tapuia em quem meter a espada, debulham as contas do
rosário, padre nosso, ave-maria, afinal, se tanto chamamos por estes, o que nos falta é pai e
mãe. As ondas batem com tal força na praia deste sítio da Boavista, que os borrifos,
levantados e levados pelo vento, vão cair de chapa, como chuveiros, contra os muros do
convento das Bernardas e, mais longe ainda, do mosteiro de S. Bento. Se o mundo fosse
barca e vogasse num grande mar, iria desta vez ao fundo, juntando-se água e águas num
dilúvio enfim universal que não pouparia nem Noé nem a pomba. Desde a Fundição até
Belém, quase légua e meia, não se viram mais que destroços nas praias, madeiras quebradas,
e das cargas dos navios o que por seu peso não ia ao fundo, às praias vinha dar, com
lastimosa perda de seus donos e muito prejuízo de el-rei. A alguns navios foram cortados
os mastros para que não se virassem, e, mesmo assim, três naus de guerra foram
empurradas para a praia, onde se perderiam se não lhes acudisse prontamente socorro
particular. Não têm conto as barcas, muletas e lanchas que se despedaçaram nas praias,
embarcações de maior porte foram cento e vinte as que encalharam e se perderam, e
quanto a gente morta nem vale a pena falar, sabe-se lá quantos cadáveres a maré levou
barra fora ou ficaram presos no fundo, o que se sabe é que nas praias, arrojados pelo mar,
foram contados cento e sessenta, contas de um rosário que andam por aí a chorar as viúvas
e os órfãos, ai o meu rico pai, são poucas as mulheres afogadas, algum homem dirá, ai a
minha rica mulher, depois de mortos todos somos ricos. Sendo tantos os mortos,
enterram-nos onde calha, ao acaso, alguns não se chegou a apurar quem eram, moravam
longe os parentes, não vieram a tempo, mas, para grandes males, grandes remédios, se o
terramoto passado tivesse sido maior, e extensa a mortandade, assim mesmo se faria,
enterrar os mortos e cuidar dos vivos, fica o aviso para o futuro se tal calamidade vier a
acontecer, livre-nos Deus.