Memorial do Convento

José Saramago · Capítulo 18 de 30

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Memorial do Convento

Estes são mais fáceis. Desde que o…

Estes são mais fáceis. Desde que o sol nasce até que se põe, Baltasar, e com ele,

quantos mais, setecentos, mil, mil e duzentos homens, carregam os carros com terra e

pedras, no caso de Baltasar o gancho ampara o cabo da pá, o braço direito anda há quase

quinze anos a triplicar o jeito e a força, e depois, infindável procissão do Corpus Homini,

vão uns atrás dos outros despejar o entulho pela encosta abaixo, e não é só mato o que vão

cobrindo, também alguma terra de cultivo, além uma horta do tempo mourisco, vai-se-lhe

acabar a vida, pobre dela, tantos séculos a dar couves tenras, alfaces que estalavam de

frescura, orégãos, pezìnhos de salsa e hortelã, primícias e primores, e agora adeus, já não

correrá mais a água por estas regueiras, já não virá o hortelão puxar o comorozinho de terra

para dar de beber ao canteiro que tem sede, enquanto o do lado se regala, da sede que

matou: E dando o mundo tantas voltas, muitas mais as dão os homens que nele vivem,

talvez que aquele que lá em cima agora mesmo despejou um carro de mão, aí vêm as pedras

aos saltos e rebolões, a terra escorregando, adiante a mais pesada, talvez seja ele o hortelão

da horta, porém não deve de ser ele, se nem sequer as lágrimas lhe caem.

Passam os dias, as semanas, e as paredes mal crescem. Os tiros vão rebentando a

rocha duríssima que os soldados andam a atacar agora, bom proveito ela daria, e

pagamento do trabalho que dá, se pudesse servir; como outra, para encher as paredes, mas

esta, que agarrada ao monte só consente desprender-se dele com grande violência, quando

posta ao ar não demora a esfarelar-se, às lascas, em pouco tempo se tornaria terriço se não

viesse o carro de mão deitá-la a fundo. Andam também no transporte carros maiores, com

rodas de sege, puxados a mulas, não falta carregarem-nos em excesso, e, como nestes dias

tem chovido, atascam-se as bestas no lamaçal, donde por fim se arrancam apertadas pelo

chicote que lhes desaba nos lombos, na cabeça quando Deus não está a olhar, embora tudo

isto seja para serviço e glória do mesmo Deus, e assim não se sabe se ele não estará

desviando os olhos de propósito. Os homens dos carros de mão, porque levam menos

carga, não se atolam tanto, além de terem feito, com tábuas que ficam ao desbarato quando

se alteiam os andaimes, uns passadiços firmes, mas, não chegando estes para todos, há

sempre uma guerra de espreita e corre, a ver quem primeiro chega, e, chegando a par, a ver

quem mais empurra, e a partir daí já se conta que salte murro e pontapé, se não cortarem

sarrafos o ar, momento em que avança a patrulha de soldados, manobra em geral suficiente

para esfriar os ânimos aquecidos, ou, caso não, duas pranchadas, dois vergões na lombeira,

como às mulas.

Vem chovendo, mas não tanto que o trabalho tenha de parar, excepto o dos

pedreiros, pois a água desfaz a argamassa, empoça nas larguíssimas paredes, por isso

recolhem-se os operários aos telheiros, à espera que levante, enquanto os canteiros, que são

gente fina, batem abrigados o mármore, tanto para a cantaria como para o lavrado,

provavelmente prefeririam descansar. A estes tanto faz que as paredes cresçam depressa

como devagar, têm o risco da pedra a seguir, caneluras, acantos, festões, acrotérios,

grinaldas, estando acabada a obra logo a levam os carregadores a pau e corda, para o

telheiro onde com outras ficará guardada, chegando a hora a irão buscar do mesmo modo,

salvo se for tão pesada que requeira cabrestante e plano inclinado. Mas têm os canteiros o

privilégio de trabalhar pelo seguro, quer chova, quer faça sol, com o jornal sempre

garantido, ali debaixo de telha, brancos do pó do mármore, parecem fidalgos de cabeleira,

truca-truca, truca-truca, com o cinzel e a maceta, trabalho de duas mãos. Esta chuva de

hoje não tem sido tão forte que mandassem os olheiros recolher toda a gente, sequer os

dos carros de mão, menos afortunados que as formigas, que essas, estando o céu de

aguagem, levantam a cabeça a farejar os astros, e recolhem aos buracos, não são nenhuns

homens para terem de trabalhar à chuva. Enfim, vem do lado do mar, caminhando sobre

os campos, uma escura cortina de água, largam os homens, mesmo sem ordem, os carros

de mão, e debandam para os telheiros ou chegam-se à revessa das paredes, se vale a pena,

mais molhados do que estavam não podem ficar. As mulas atreladas ficam quietas sob o

grande chuveiro que cai, o pêlo empapado de suor está agora ensopado da contínua água,

os bois ruminam jungidos e indiferentes, quando a chuva bate com mais força sacodem as

cabeças, quem haverá aí capaz de dizer o que sentem estes animais, que fibras lhes

estremecem, e até onde, se no movimento que fazem se tocam os cornos luzidios,

porventura apenas, Estás aí. Quando a chuva se afasta ou se tornou aturável, voltam os

homens e tudo recomeça, carregar e descarregar, puxar e empurrar, arrastar e levantar, hoje

não há tiros de pólvora por causa desta geral humidade, melhor para os soldados que

gozam a folga debaixo dos telheiros, de gorra com as sentinelas também recolhidas, é a

alegria da paz. E como a chuva voltou novamente, caindo de um céu escuríssimo, tão cedo

não vai acabar, deu-se ordem para largarem os homens o trabalho, só os canteiros

continuaram a bater a pedra, truca-truca, truca-truca, são largos os telheiros, nem os

salpicos soprados pelo vento vêm macular o grão do mármore.

Baixou Baltasar à vila pelo carreiro escorregadio, um homem que descia à sua frente

estatelou-se na lama e todos riram, de riso caiu outro, o que vale são estas distracções, que

nesta terra de Mafra não há pátios de comédias, não há cantarinas nem representantes,

ópera só em Lisboa, para vir o cinema ainda faltam duzentos anos, quando houver passarolas a motor, muito custa o tempo a passar, até que chegue a felicidade, olá. O

cunhado e o sobrinho já terão chegado a casa, ainda bem para eles, não há nada que valha

uma fogueira quando um homem está enregelado, aquecer as mãos à labareda alta, o

coirato dos pés descalços rente ao brasido, e o frio a retirar-se dos ossos, devagarinho,

como geada que se derrete ao sol. A bem dizer, melhor do que isto, que o há, só uma

mulher na cama, e se a mulher é a que se quer, não precisa mais que aparecer no caminho,

como agora vemos Blimunda, veio partilhar o mesmo frio e a mesma chuva, e traz uma saia

das suas que lança sobre a cabeça do homem, este cheiro de mulher que faz subir lágrimas

aos olhos, Estás cansado, perguntou ela, quanto basta para que o mundo se torne

suportável, uma aba da saia cobre as duas cabeças, mal comparado é um céu, assim vivesse

Deus com os nossos anjos.

A Mafra chegaram soltas notícias de que em Lisboa se sentiu um terramoto, sem

outros estragos que caírem beirais e chaminés, e abrirem-se algumas rachas em paredes

velhas, mas, como todo o mal traz de caminho o seu bem, fizeram negócio magnífico os

cerieiros, foi um corropio de velas para as igrejas, com particular preferência pelos altares

de S. Cristóvão, santo de grande valimento em casos de peste, epidemias, raios, incêndios e

tempestades, inundações, más viagens e tremores de terra, em concorrência com Santa

Bárbara e Santo Eustáquio, que também não são pecos nestas protecções. Mas os santos

são como os homens, estes que andam aqui a construir o convento, e quem diz estes diz

outros, noutras construções e destruições, os santos cansam-se, estimam muito o seu

repouso, que só eles sabem quanto trabalho dá segurar as forças naturais, fossem elas

torças de Deus, e seria fácil, bastava ir a Deus pedir-lhe, Olhe lá, não sopre agora, não

sacuda, não ateie e não alague, não deite praga nem ladrão à estrada, e só se ele fosse um

deus de maldade é que não atenderia aos rogos, mas, como as forças o que são é naturais e

os santos se distraem, mal acabámos de suspirar de alívio por ter sido benigno o abalo, aí

temos uma tempestade como doutra não há memória, porém, sem chuva nem granizo,

antes fosse, talvez lhe quebrassem esta força do vento que joga livremente com os navios

ancorados, como cascas de noz, repuxando, esticando e rebentando as amarras ou

arrancadas do fundo as âncoras, e logo os arrasta dos surgidoiros, e vão bater uns contra os

outros, arrombando-se os costados e indo a pique com os marinheiros clamando, só eles é

que saberão a quem pedem socorro, ou encalhando em terra onde a força das águas

derradeiramente os despedaça. Todos os cais se desmoronam rio acima o vento e as vagas

arrancam de raiz as pedras e lançam-nas para terra, arrombando janelas e portas como

pelouros, que inimigo é este que fere sem ferro nem fogo. Na presunção de que seja o

demónio o autor do distúrbio, tudo quanto é mulher, ama, criada ou escrava, está de joelhos no oratório, Maria Santíssima, Virgem Nossa Senhora, enquanto os homens,

pálidos de morte, sem mouro ou tapuia em quem meter a espada, debulham as contas do

rosário, padre nosso, ave-maria, afinal, se tanto chamamos por estes, o que nos falta é pai e

mãe. As ondas batem com tal força na praia deste sítio da Boavista, que os borrifos,

levantados e levados pelo vento, vão cair de chapa, como chuveiros, contra os muros do

convento das Bernardas e, mais longe ainda, do mosteiro de S. Bento. Se o mundo fosse

barca e vogasse num grande mar, iria desta vez ao fundo, juntando-se água e águas num

dilúvio enfim universal que não pouparia nem Noé nem a pomba. Desde a Fundição até

Belém, quase légua e meia, não se viram mais que destroços nas praias, madeiras quebradas,

e das cargas dos navios o que por seu peso não ia ao fundo, às praias vinha dar, com

lastimosa perda de seus donos e muito prejuízo de el-rei. A alguns navios foram cortados

os mastros para que não se virassem, e, mesmo assim, três naus de guerra foram

empurradas para a praia, onde se perderiam se não lhes acudisse prontamente socorro

particular. Não têm conto as barcas, muletas e lanchas que se despedaçaram nas praias,

embarcações de maior porte foram cento e vinte as que encalharam e se perderam, e

quanto a gente morta nem vale a pena falar, sabe-se lá quantos cadáveres a maré levou

barra fora ou ficaram presos no fundo, o que se sabe é que nas praias, arrojados pelo mar,

foram contados cento e sessenta, contas de um rosário que andam por aí a chorar as viúvas

e os órfãos, ai o meu rico pai, são poucas as mulheres afogadas, algum homem dirá, ai a

minha rica mulher, depois de mortos todos somos ricos. Sendo tantos os mortos,

enterram-nos onde calha, ao acaso, alguns não se chegou a apurar quem eram, moravam

longe os parentes, não vieram a tempo, mas, para grandes males, grandes remédios, se o

terramoto passado tivesse sido maior, e extensa a mortandade, assim mesmo se faria,

enterrar os mortos e cuidar dos vivos, fica o aviso para o futuro se tal calamidade vier a

acontecer, livre-nos Deus.