Memorial do Convento

José Saramago · Capítulo 6 de 30

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Memorial do Convento

Outro ferro anda agora no alforge de…

Outro ferro anda agora no alforge de Sete-Sóis, é a chave da quinta do duque de

Aveiro, que tendo vindo ao padre Bartolomeu Lourenço os falados ímanes, mas ainda não

as substâncias de que faz segredo, podia enfim adiantar-se a construção da máquina de voar

e pôr-se em obra material o contrato que fazia de Baltasar a mão direita do Voador, já que a

esquerda não era precisa, tão pouco que o próprio Deus a não tem, consoante declarou o

padre, que estudou essas reservadas matérias e há-de saber o que diz. E sendo a Costa do

Castelo longe de S. Sebastião da Pedreira, de mais para ir e vir todos os dias, decidiu

Blimunda que deixaria a casa para estar onde estivesse Sete-Sóis. Não era a perda grande,

um telhado e três paredes inseguras, solidíssima a quarta por ser a muralha do castelo, há

tantos séculos implantada, se ninguém por ali passar e disser, Olha uma casa vazia, e

dizendo, nela não se instalar, um ano não tardará que as paredes abatam, e o telhado, e

então ficarão apenas alguns adobes partidos ou desfeitos em terra no lugar onde viveu

Sebastiana Maria de Jesus e onde abriu Blimunda pela primeira vez os olhos para o

espectáculo do mundo, porque em jejum nasceu.

Sendo os haveres tão poucos, uma viagem chegou para transportar, à cabeça de

Blimunda e às costas de Baltasar, a trouxa e o atado a que se resumiu tudo. Descansaram

aqui e além no caminho, calados, nem tinham que dizer, se até uma simples palavra sobra

se é a vida que está mudando, muito mais que estarmos nós mudando nela. Quanto à

leveza do fardo, assim deveria ser de cada vez levarem consigo mulher e homem o que têm,

e cada um deles ao outro, para não terem de tornar subir os mesmos passos, é sempre

tempo perdido, e basta.

Num canto da abegoaria desenrolaram a enxerga e a esteira, aos pés delas encostaram

o escano, fronteira a arca, como os limites de um novo território, raia traçada no chão e em

panos levantada, suspensos estes de um arame, para que isto seja de facto uma casa e nela

possamos encontrar-nos sós quando estivermos sozinhos. Em vindo o padre Bartolomeu

Lourenço, poderá Blimunda, se não tem trabalhos de lavar ou cozinhar que ao tanque a

levem ou ao forno a retenham, ou se não prefere assistir a Baltasar passando-lhe o martelo

ou a turquês, a ponta do arame ou o feixe de vime, poderá Blimunda estar no seu resguardo

de mulher de casa, que às vezes até a mais habituais aventureiras apetece, ainda quando não

seja a aventura tanta como a que por derradeiro aqui se promete. Servem também os panos

pendurados ao acto da confissão, posto o confessor deste lado de fora, postos os

confitentes, um de cada vez, do lado de dentro, precisamente onde constantes pecados de luxúria ambos cometem, além de serem concubinos, se não é pior a palavra que a situação,

aliás facilmente absolvida pelo padre Bartolomeu Lourenço que tem diante dos próprios

olhos um maior pecado seu aquele de orgulho e ambição de fazer levantar um dia aos ares,

aonde até hoje apenas subiram Cristo a Virgem e alguns escolhidos santos, estas espalhadas

partes que trabalhosamente Baltasar vai conjugando, enquanto Blimunda diz do outro lado

do pano, em voz alta bastante para que Sete-Sóis a ouça, Não tenho pecados a confessar:

Para o dever da missa não faltariam igrejas perto, a dos agostinhos descalços, por

exemplo, que é a mais cerca, mas se o padre Bartolomeu Lourenço, como acontece, tem

obrigações do seu ministério ou atenções e serviços na corte que o ocupem mais que o

costumado de quem aqui nem precisaria vir todos os dias, se não acode o padre a espevitar

o fogo da alma cristã que sem dúvida habita Blimunda e Baltasar, ele com os seus ferros,

ela com o seu lume e a sua água, ambos com a ardência que os lança sobre a enxerga, não é

raro esquecerem o sacrifício divino e do esquecimento não ficarem repesos, com o que

passa a ser lícito duvidar se finalmente é cristã a suposta alma de ambos. Vivem dentro da

abegoaria, ou saem a tomar o sol, cerca-os a grande quinta abandonada onde as árvores de

fruto vão regressando à braveza natural, as silvas cobrindo os caminhos, e no lugar da horta

encrespam-se florestas de milhãs e figueiras-do-inferno, mas já Baltasar, com a foice, rapou

a maior, e Blimunda, com o enxadão, cortou e pôs ao sol as raízes, havendo tempo ainda

esta terra dará alguma coisa do que deve ao trabalho. Mas também não faltam lazeres, por

isso, quando a comichão aperta, Baltasar pousa a cabeça no regaço de Blimunda e ela cata-

lhe os bichos, que não é de espantar terem-nos os apaixonados e os construtores de

aeronaves, se tal palavra já se diz nestas épocas, como se vai dizendo armistício em vez de

pazes. Blimunda é que não tem quem a cate. Faz Baltasar o que pode, mas se lhe chegam

mãos e dedos para filar o insecto, faltam-lhe dedos e mão que segurem os pesados,

espessos cabelos de Blimunda, cor de mel sombrio, que mal ele os afasta logo regressam, e

assim escondem a caça. A vida dá para todos.

Nem sempre o trabalho corre bem. Não é— verdade que a mão esquerda não faça

falta. Se Deus pode viver sem ela, é porque é Deus, um homem precisa das duas mãos,

uma mão lava a outra, as duas lavam o rosto, quantas vezes já teve Blimunda de vir limpar

o sujo que ficou agarrado às costas da mão e doutro modo não sairia, são os desastres da

guerra, mínimos estes, porque muitos outros soldados houve que ficaram sem os dois

braços, ou as duas pernas, ou as suas partes de homem, e não têm Blimunda para ajudá-los

ou por isso mesmo a deixaram de ter. É excelente o gancho para travar uma lâmina de

ferro ou torcer um vime, é infalível o espigão para abrir olhais no pano de vela. mas as

coisas obedecem mal quando lhes falta a carícia da pele humana, cuidam que se sumiram os homens a quem se habituaram, é o desconcerto do mundo. Por isso Blimunda vem ajudar,

e, chegando ela, acaba-se a rebelião, Ainda bem que vieste, diz Baltasar, ou sentem-no as

coisas, não se sabe ao certo.

Uma vez por outra, Blimunda levanta-se mais cedo, antes de comer o pão de todas as

manhãs, e, deslizando ao longo da parede para evitar pôr os olhos em Baltasar afasta o

pano e vai inspeccionar a obra feita, descobrir a fraqueza escondida do entrançado, a bolha

de ar no interior do ferro, e, acabada a vistoria, fica enfim a mastigar o alimento, pouco a

pouco se tornando tão cega como a outra gente que só pode ver o que à vista está. Quando

isto fez pela primeira vez e Baltasar depois disse ao padre Bartolomeu Lourenço, Este ferro

não serve, tem uma racha por dentro, Como é que sabes, Foi Blimunda que viu, o padre

virou-se para ela, sorriu, olhou um e olhou outro, e declarou, Tu és Sete-Sóis porque vês às

claras, tu serás Sete-Luas porque vês às escuras, e, assim, Blimunda que até aí só se

chamava, como sua mãe, de Jesus, ficou sendo Sete-Luas, e bem baptizada estava, que o

baptismo foi de padre, não alcunha de qualquer um. Dormiram nessa noite os sóis e as luas

abraçados, enquanto as estrelas giravam devagar no céu, Lua onde estás, Sol aonde vais.

Quando calha, vem o padre Bartolomeu Lourenço experimentar aqui os sermões que

compôs, pela bondade do eco que as paredes têm, o bastante apenas para ficar redonda a

palavra, sem a ressonância excessiva que encavala os sons e acaba por empastar o sentido.

Assim é que deviam soar as imprecações dos profetas no deserto ou nas praças públicas,

lugares sem paredes ou que as não têm próximas, e por isso inocentes das leis da acústica,

está a graça no órgão que profere a palavra, não nos ouvidos que a ouvem ou nos muros

que a devolvem. Porém, esta religião é de oratório mimoso, com anjos carnudos e santos

arrebatados e muitas agitações de túnica, roliços braços, coxas adivinhadas, peitos que

arredondam, revirações dos olhos, tanto está sofrendo quem goza como está gozando

quem sofre, por isso é que não vão os caminhos dar todos a Roma, mas ao corpo. Esforça-

se o padre na oratória, tanto mais que logo li está quem o ouça, mas, ou por efeito

intimidativo da passarola ou por frieza egoísta dos auditores, ou por faltar o ambiente

eclesial, as palavras não voam, não retumbam, enredam-se umas pelas outras, parece

impróprio que tenha o padre Bartolomeu Lourenço tão grande fama de orador sacro, ao

ponto de o terem comparado ao padre António Vieira, que Deus haja e o Santo Ofício

houve. Aqui ensaiou o padre Bartolomeu Lourenço o sermão que foi pregar a Salvaterra de

Magos, estando lá el-rei e a corte, aqui está provando agora o que pregará na festa dos

desponsórios de S. José, que lho encomendaram os dominicanos, afinal não lhe

desaproveita muito a fama que tem de voador e extravagante, que até os filhos de S.

Domingos o requestam, de el-rei não falemos, que sendo tão moço ainda gosta de brinquedos, por isso protege o padre, por isso se diverte tanto com as freiras nos mosteiros

e as vai emprenhando, uma após outra, ou várias ao mesmo tempo, que quando acabar a

sua história se hão-de contar por dezenas os filhos assim arranjados, coitada da rainha, que

seria dela se não fosse o seu confessor António Stieff, jesuíta, por lhe ensinar resignação, e

os sonhos em que lhe aparece o infante D. Francisco com marinheiros mortos pendurados

dos arções das mulas, e que seria do padre Bartolomeu Lourenço se aqui entrassem os

dominicanos que o sermão lhe encomendaram, e dessem com esta passarola, este maneta,

esta feiticeira, este pregador a burilar palavras e talvez a esconder pensamentos, que esses

não os veria Blimunda nem que jejuasse um ano inteiro.

Acaba o padre Bartolomeu Lourenço de dizer o sermão, nem quer saber do seu

religioso efeito, só pergunta alheado, Então, gostaram, e os outros depois respondem, Lá

isso, gostámos, sim senhor, mas este é um falar dos dentes para fora, que o coração não dá

mostras de ter entendido o que ouviu, e se o coração não entendeu, não chega a ser

mentira o falar da boca, mas sim ausência. Recomeçou Baltasar a bater nos seus ferros,

Blimunda varreu para o pátio os fragmentos de vime que não serviam, pelo empenho

pareciam dois trabalhos urgentes, mas o padre disse de súbito, como quem não pode

segurar mais uma preocupação, Assim nunca chegarei a voar, disse-o em voz cansada, e fez

um gesto de tão fundo desânimo que Baltasar teve a instantânea percepção da inutilidade

do que estava fazendo, por isso largou o martelo, mas querendo emendar o que podia ser

tomado por renúncia, disse, Temos de construir aqui uma forja, temperar os ferros se não

até o peso da passarola os fará vergar, e o padre respondeu, Não se me dá que verguem ou

não o caso é que ela voasse, e assim não pode voar se lhe falta o éter, Que é isso,

perguntou Blimunda, É o onde se suspendem as estrelas, E como se há-de ele trazer para

cá, perguntou Baltasar, Pelas artes da alquimia, em que não sou hábil, mas sobre isto não

dirão nunca uma palavra, suceda o que suceder, Então como faremos, Partirei leve para a

Holanda, que é terra de muitos sábios, e lá aprenderei a arte de fazer descer o éter do

espaço, de modo a introduzi-lo nas esferas, porque sem ele nunca a máquina voará, Que

virtude é essa do éter, perguntou Blimunda, É ser parte da virtude geral que atrai os seres e

os corpos, e até as coisas inanimadas, se os libertam do peso da terra, para o sol, Diga isso

por palavras que eu perceba, padre, Para que a máquina se levante ao ar, é preciso que o sol

atraia o âmbar que há-de estar preso nos arames do tecto, o qual, por sua vez, atrairá o éter

que teremos introduzido dentro das esferas, o qual, por sua vez, atrairá os ímanes que

estarão por baixo, os quais, por sua vez, atrairão as lamelas de ferro de que se compõe o

cavername da barca, e então subiremos ao ar, com o vento, ou com o sopro dos foles, se o

vento faltar, mas torno a dizer, faltando o éter, falta-nos tudo. E Blimunda disse, Se o sol atrai o âmbar, e o âmbar atrai o éter, e o éter atrai o íman, e o íman atrai o ferro, a máquina

irá sendo puxada para o sol, sem parar. Fez uma pausa e perguntou como se falasse

consigo própria, Que será o sol por dentro. Disse o padre, Não iremos ter ao sol, para o

evitar lá estarão as velas de cima, que podemos abrir e fechar à vontade, de sorte que

pararemos na altura que quisermos. Fez uma pausa também, e rematou, Quanto a saber

como será o sol por dentro, levante-se da terra a máquina e o resto virá por acréscimo,

querendo nós e não o contrariando insuportavelmente Deus.

É contudo um tempo de contrariedades. Agora sairão as freiras de Santa Mónica em

extrema indignação, insubordinando-se contra as ordens de el-rei de que só pudessem falar

nos conventos a seus pais, filhos, irmãos e parentes até segundo grau, com o que pretende

sua majestade pôr cobro ao escândalo de que são causa os freiráticos, nobres e não nobres,

que frequentam as esposas do Senhor e as deixam grávidas no tempo de uma ave-maria,

que o faça D. João V, só lhe fica bem, mas não um joão-qualquer ou um josé-ninguém.

Acudiu o provincial da Graça, querendo reduzi-las ao sossego e ao acatamento da real

vontade, sob pena de excomunhão se a quebrassem, mas elas num rompante se

amotinaram, trezentas mulheres catolicamente enfurecidas por assim as cortarem do

mundo, primeira vez o fizeram, segunda vez tornam, agora se verá como forçam portas

frágeis mãos femininas, e já saem as freiras, trazem consigo violentamente a madre

prioresa, vêm com sua cruz alçada, em procissão pela rua fora, até que ao encontro lhes sai

a comunidade dos frades da Graça e lhes rogam que, pelas Cinco Chagas, detenham o

motim, e aí temos armado um santo colóquio entre frades e freiras, disputando cada qual

suas razões, e foi ele caso que correu o corregedor do crime a el-rei, se havia ou não de

suspender-se a ordem, e entre ir, chegar e debater o sucesso se passou a manhã, que, para

começar-lhes o dia cedo, de madrugada se tinham levantado as protestativas, e enquanto o

corregedor não volta, corregedor vai, corregedor vem, ficaram por ali as freiras, sentadinhas

no chão natural as mais vetustas, alertas e vivíssimas as da última safra, a apanhar o bom

solzinho da estação que faz subir os corações, olhando quem ia de passagem e por

curiosidade parava, que pratos destes não os temos todos os dias, e conversando com

quem bem apetecia, em modo de ali se terem fortalecido laços com proibidos visitantes que

sabendo acorreram, e em acordos, requebros, horas combinadas, palavras de passe, sinais

de dedos ou lencinho foi correndo o tempo até ao meio-dia, e porque enfim estava o corpo

querendo alimento, ali mesmo comeram dos doces que traziam nos alforges, quem vai à

guerra empadas leva, e ao cabo desta manifestação chegou contra-ordem do paço, que tudo

voltava à moralidade primeira, posto o que recolheram vitoriosas as freiras a Santa Mónica

entoando jubilosos cantos, ainda por cima consoladas com a absolvição do provincial que a mandou por portador, não em pessoa, porque bem podia apanhá-lo uma bala perdida, que

isto de freiras amotinadas é a pior das batalhas. Metem, quantas vezes forçadamente, estas

mulheres em reclusão conventual, aí ficas, por esta forma aliviando partições de heranças,

favorecendo o morgadio e outros irmãos varões, e, estando assim presas, até o simples

apertar de dedos à grade querem recusar-lhes, o clandestino encontro, o suave contacto, a

doce carícia, mesmo trazendo ela tantas vezes consigo o inferno, abençoado seja. Porque,

enfim, se o sol atrai o âmbar e o mundo a carne, alguém haverá de ganhar alguma coisa

com isso, nem que seja para aproveitar os restos daqueles que nasceram para cobrar tudo.

Outra contrariedade esperada é o auto-de-fé, não para a Igreja, que dele aproveita em

reforço piedoso e outras utilidades, nem para el-rei que, tendo saído no auto senhores. de

engenho brasileiros, aproveita da fazenda deles, mas para quem leva seus açoites, ou vai

degredado, ou é queimado na fogueira, vá lá que desta vez saiu relaxada em carne só uma

mulher, não será muito o trabalho de lhe pintar o retrato na igreja de S. Domingos, ao lado

de outros chamuscados, assados, dispersos e varridos, que parece impossível como não

serve de escarmento a uns o suplício de tantos, porventura gostarão os homens de sofrer

ou estimam mais a convicção do espírito do que a preservação do corpo, Deus não sabia

no que se metia quando criou Adão e Eva. Que se há-de dizer, por exemplo, desta freira

professa, que era afinal judia, e foi condenada a cárcere e hábito perpétuo, e também esta

preta de Angola, caso novo, que veio do Rio de Janeiro com culpas de judaísmo, e este

mercador do Algarve que afirmava que cada um se salva na lei que segue, porque todas são

iguais, e tanto vale Cristo como Mafoma, o Evangelho como a Cabala, o doce como o

amargo, o pecado como a virtude, e este mulato da Caparica que se chama Manuel Mateus,

mas não é parente de Sete-Sóis, e tem por alcunha Saramago, sabe-se lá que descendência a

sua será, e que saiu penitenciado por culpas de insigne feiticeiro, com mais três moças que

diziam pela mesma cartilha, que se dirá de todos estes e de mais cento e trinta que no auto

saíram, muitos irão fazer companhia à mãe de Blimunda, quem sabe se ainda está viva.

Sete-Sóis e Sete-Luas, se nome tão belo lhe puseram, bom é que o use, não desceram

de S. Sebastião da Pedreira ao Rossio para ver o auto-de-fé, mas não faltou o povo geral à

festa, e de alguns que lá estiveram, mais os registos que sempre ficam apesar de incêndios e

terramotos, ficou memória do que viram e a quem viram, queimados ou penitentes, a preta

de Angola, o mulato da Caparica, a freira judia, os religiosos que diziam missa, confessavam

e pregavam sem terem ordens para tal, o juiz de fora de Arraiolos compartes de cristão-

novo por ambas as vias, ao todo cento e trinta e sete pessoas, que o Santo Ofício, podendo,

lança as redes ao mundo e trá-las cheias, assim peculiarmente praticando a boa lição de

Cristo quando a Pedro disse que o queria pescador de homens.

A grande tristeza de Baltasar e Blimunda é não haver uma rede que possa ser lançada

até às estrelas e trazer de lá o éter que as sustenta, conforme afirma o padre Bartolomeu

Lourenço, que vai partir um destes dias e não sabe quando volta. A passarola, que parecia

um castelo a levantar-se, é agora uma torre em ruínas, uma babel cortada a meio voo,

cordas, panos, arames, ferros confundidos, nem sequer ficou a consolação de abrir a arca e

contemplar o desenho, porque já o padre o leva na sua bagagem, amanhã partirá, vai por

mar e sem maior risco que o natural de viagens, porque finalmente foram as pazes com a

França apregoadas, com solene procissão de juizes, corregedores e meirinhos, todos muito

bem montados, e atrás os trombeteiros, de trombetas bastardas, depois os porteiros do

paço com as suas maças de prata ao ombro, e por fim sete reis-de-armas, com as

sobrevestiduras ricas, e o último deles levava na mão um papel, que era o pregão das pazes,

primeiramente lido no Terreiro do Paço, debaixo das janelas onde estavam as majestades e

altezas à vista do mar de povo que enchia a praça, formada a companhia da guarda, e,

depois de deitado aqui o pregão, foram deitá-lo outra vez ao adro da Sé e dali terceiro ao

Rossio, no adro do hospital, enfim estas pazes com a França estão feitas, agora venham as

outras com os mais países, Mas nenhumas me tornam a dar a mão que perdi, diz Baltasar,

Deixa lá, tu e eu temos três mãos, isto responde Blimunda.

Deitou o padre Bartolomeu Lourenço a bênção ao soldado e à vidente, eles beijaram-

lhe a mão, mas no último momento se abraçaram os três, teve mais força a amizade que o

respeito, e o padre disse, Adeus Blimunda, adeus Baltasar, cuidem um do outro e da

passarola, que eu voltarei um dia com o que vou buscar, não será ouro nem diamante, mas

sim o ar que Deus respira, guardarás a chave que te dei, e como vão partir para Mafra,

lembra-te de vir aqui de vez em quando ver como está a máquina, podes entrar e sair sem

receio, que a quinta confiou-ma el-rei e ele sabe o que nela está, e tendo dito, montou na

mula e partiu.

Já lá vai pelo mar fora o padre Bartolomeu Lourenço, e nós que iremos fazer agora,

sem a próxima esperança do céu, pois vamos às touradas, que é bem bom divertimento,

Em Mafra nunca as houve, diz Baltasar, e, não chegando o dinheiro para os quatro dias da

função, que este ano foi arrematado caro o chão do Terreiro do Paço, iremos ao último,

que é o fim da festa com palanques ao redor todo da praça, até do lado do rio, que mal se

vêem as pontas das vergas dos barcos além fundeados, arranjaram bons lugares Sete-Sóis e

Blimunda, e não foi por chegarem mais cedo que os outros, mas porque um gancho de

ferro, na ponta de um braço, abre caminho tão fácil como a colubrina que veio da Índia e

está na torre de S. Gião, sente um homem tocarem-lhe nas costas, volta-se para trás, é

como se tivesse a boca de fogo apontada à cara. A praça está toda rodeada de mastros, com bandeirinhas no alto e cobertos de volantes até ao chão, que adejam com a brisa, e à

entrada do curro armou-se um pórtico de madeira, pintada como se fosse mármore branco,

e as colunas fingindo pedra da Arrábida, com os frisos e cornijas dourados. Ao mastro

principal sustentam-no quatro grandíssimas figuras, pintadas de várias cores e sem avareza

de ouro, e a bandeira, de folha-de-flandres, mostra de um lado e do outro o glorioso Santo

António sobre campos de prata, e as guarnições são igualmente douradas, com _um grande

penacho de plumas de muitas cores, tão bem pintadas que parecem naturais e verdadeiras,

com que se remata o varão da bandeira. Estão as bancadas e os terrados formigando de

povo, reservadamente acomodadas as pessoas principais, e as majestades e altezas miram

das janelas do paço, por enquanto ainda andam os aguadores a aguar a praça, oitenta

homens vestidos à mourisca, com as armas do Senado de Lisboa bordadas nas opas que

trazem vestidas, impacienta-se o povinho que quer ver sair os touros, já se foram embora

as danças, e agora retiraram-se os aguadores, ficou o terreiro um brinco, cheirando a terra

molhada, parece que o mundo se acabou agora mesmo de criar, esperem-lhe pela pancada,

não tardam aí o sangue e a urina, e as bostas dos touros, e os benicos dos cavalos, e se

algum homem se borrar de medo oxalá o amparem as bragas, para não fazer má figura

diante do povo de Lisboa e de D. João V.

Entrou o primeiro touro, entrou o segundo, entrou o terceiro, vieram os dezoito

toureiros de pé que o Senado contratou em Castela a peso de muito dinheiro, e os

cavaleiros saíram à praça, espetaram as suas lanças, e os de pé cravaram dardos enfeitados

de papéis recortados, e aquele cavaleiro a quem o touro desfeiteou, fazendo-lhe cair o

manto, atira o cavalo contra o animal e fere-o à espada, que é o modo de vingar a honra

manchada. E entram o quarto touro, o quinto, o sexto, entraram já dez, ou doze, ou

quinze, ou vinte, é uma sangueira por todo o terreiro, as damas riem, dão gritinhos, batem

palmas, são as janelas como ramos de flores, e os touros morrem uns após outros e são

levados para fora numa carroça de rodas baixas puxada a seis cavalos, como só para gente

real ou de grande título se usa, o que, se não prova a realeza e a dignidade dos touros, está

mostrando quanto eles são pesados, digam-no os cavalos, aliás bonitos e luzidamente

aparelhados, encabuzados de veludo carmesim lavrado, com as mantas franjadas de prata

falsa, assim como as cabeçadas e cobertas de pescoço, e lá vai o touro crivado de flechas,

esburacado de lançadas, arrastando pelo chão as tripas, os homens em delírio apalpam as

mulheres delirantes, e elas esfregam-se por eles sem disfarce, nem Blimunda é excepção, e

por que havia de o ser, toda apertada contra Baltasar, sobe-lhe à cabeça o sangue que vê

derramar-se, as fontes abertas nos flancos dos touros, manando a morte viva que faz andar

a cabeça à roda, mas a imagem que se fixa e arrefece os olhos é a cabeça descaída de um touro, a boca aberta, a língua grossa pendendo, que já não ceifará áspera, a erva dos

campos, ou só os pastos de fumo do outro mundo dos touros, como haveremos de saber

se inferno ou paraíso.

Paraíso será, se justiça houver, nem pode haver inferno depois do que sofrem estes,

os das mantas de fogo que são umas capas grossas, em camadas, recheadas de várias ordens

de foguetes, e pelas duas pontas delas se lhes chega o lume, e então começa a manta a

arder, e os foguetes rebentam, por largo espaço vão rebentando, estouram e resplandecem

por toda a praça, é como assar o touro em vida, e assim vai o animal correndo o terreiro,

louco e furioso, saltando e bramindo, enquanto D. João V e o seu povo aplaudem a mísera

morte, que nem o touro, ao menos, se pode defender e morrer matando. Cheira a carne

queimada, mas é um cheiro que não ofende estes narizes, habituados que estão ao

churrasco do auto-de-fé, e ainda assim vai o boi ao prato, sempre é um final proveito, que

do judeu só ficam os bens que cá deixou.

Trazem agora umas figuras de barro pintadas, de maior tamanho que o natural de

homens citando de braços levantados, e põem-nas no meio do terreiro, que número será

este, pergunta quem nunca viu, talvez descansassem da carnificina os olhos, enfim, se as

figuras são de barro, o pior que pode sair disto é um monte de cacos, que depois terão de

varrer tudo, está a festa estragada, é o que é, dizem os cépticos e os violentos, venha outra

manta de fogo para rirmos todos e el-rei, não são assim tantas as ocasiões em que podemos

rir juntos, e neste instante saem do curro dois touros que, pasmados, dão com a praça

deserta, só aqueles manipanços de braços alevantados e sem pernas, redondos de bojo e

sarapintados como demónios, nestes vingaremos todas as ofensas sofridas, e os touros

investem, rebentam-se os potes com surdo estrondo e de dentro saem dezenas de coelhos

espavoridos, correndo à disparada por todos os lados, perseguidos e mortos a porrete pelos

capinha e outros homens que saltaram à praça, um olho no bicho que foge, outro no bicho

que marra, enquanto o povo ri em gargalhadas estentóreas, de gente excessiva, subitamente

mudam os clamores de tom porque de dois outros bonecos de barro, agora despedaçados,

saem estalando bruscamente as asas bandos de pombas, desorientadas pelo choque, feridas

pela luz crua, algumas perdem o sentido do voo, não conseguem ganhar altura e vão

esbarrar com os altos palanques onde caem em mãos sôfregas, não tanto por mira do

salubre petisco que é o pombo estufado, mas para ler a quadra que vai escrita num papel

atado ao pescoço da ave, como são estes exemplos, Eu tinha uma ruim prisão e que de boa

escapei, mas aqui ditosa serei, se for dar em certa mão, Aqui me traz minha pena com

bastante sobressalto, porque quem voa mais alto, a mais queda se condena, Ora já estou

descansada, e se hei-de morrer enfim, Deus, que o determina assim, me mate com gente honrada, Eu venho fugindo aos tombos dos que por matar-me morrem, que aqui, quando

touros correm, também querem correr pombos, porém nem todos, que alguns abrem voos

circulares, escapam ao vórtice das mãos e dos gritos, e sobem, sobem, acertam o bater das

asas, colhem nas alturas a luz do sol, e quando se afastam, por cima dos telhados, são como

pássaros de ouro.

Na madrugada seguinte, ainda noite, Baltasar e Blimunda, sem outro carrego que

uma trouxa de roupa e alguma comida no alforge, saíram de Lisboa para Mafra.