Memorial do Convento
Pelas quatro horas da tarde, chegou el-rei…
Pelas quatro horas da tarde, chegou el-rei a Vendas Novas, pelas cinco João Elvas.
Daí a pouco fez-se noite, o céu carregou-se, parecia que levantando o braço se chegava às
nuvens, acho que já uma vez dissemos isto, e quando, à hora da ceia, distribuíram comida,
preferiu o antigo soldado fornecer-se de alimentos sólidos para ir comer em paz e sozinho
debaixo de um telheiro qualquer, de um carro de lavoura, se possível longe da conversa dos
lazarentos, que o enfadava. Parece não ter que ver o ameaço da chuva com o desejo de
isolamento de João Elvas, é não pensar em quanto de estranho há em certos homens,
sozinhos toda a vida e que amam a solidão, muito mais se está chovendo e é dura a côdea.
Às tantas, não sabia João Elvas se estava acordado ou adormecera, sentiu um
restolhar na palha, alguém se aproximava trazendo na mão um candil. Pela cor e qualidade
da meia e do calção, pelo estofo da capa, pela laçaria dos sapatos, percebeu João Elvas que
o visitante era fidalgo, e logo o reconheceu como aquele que tão seguras informações lhe
dera em cima do valado. Esbaforida e queixosa, sentou-se a nobre pessoa, Estou cansado
de andar à tua procura, corri as Vendas Novas todas, onde está o João Elvas, onde está o
João Elvas, ninguém me sabia dar resposta, porque será que os pobres não dizem uns aos
outros quem são, enfim, já te encontrei, vinha contar-te como é o palácio que el-rei
mandou fazer para esta passagem, olha que se trabalhou nele durante dez meses, de noite e
de dia, só para o trabalho nocturno se gastaram mais de dez mil archotes, e aqui andaram
para cima de dois mil homens, entre pintores, ferreiros, entalhadores, ensambladores,
serventes, soldados de infantaria e cavalaria, e sabes tu que a pedra de alvenaria vinha de
três léguas de distância, carretas de transporte passaram de quinhentas, e outras de menor
porte, foi assim que veio todo o necessário, a cal, as vigas, os tabuados, as cantarias, os
tijolos, as telhas, as cavilhas, as ferragens, e as cavalgaduras de tiro foram mais de duzentas,
de maior vulto que isto só o convento de Mafra, não sei se conheces, mas valeu a pena e o
trabalho, e também o dinheiro, digo-te em confidência, mas disto não farás uso, que neste
palácio e na casa que viste em Pegões se gastou um milhão de cruzados, sim, um milhão
claro que não imaginas o que é um milhão de cruzados, João Elvas, porém, não sejas
mesquinho, nem sequer saberias o que havias de fazer a tanto dinheiro, ao passo que el-rei
sabe-o muito bem, aprendeu desde pequenino, os pobres não sabem gastar, os poderosos
sim, o que lá vai de pinturas e de armações sumptuosas, com acomodações para o cardeal e
para o patriarca, e tem casa de dossel, gabinete e câmara para o senhor D. José, e aposentos
iguais para a infanta D. Maria Bárbara quando cá passar, e as duas alas, uma é para a rainha, outra para o rei, assim ficam à vontade, escusam de dormir apertados, em todo caso
largueza de cama como a tua é que não se vê muitas vezes, parece que tens a terra inteira
para teu uso, aí ressonando como um porco, salvo seja, de braços e pernas abertos em cima
da palha, capote a cobrir, e não cheiras nada bem, João Elvas, deixa lá que se nos
tornarmos a encontrar, trago-te um frasquinho de água-da-hungria, e estas são as novas que
tinha para te dar, não te esqueças de que el-rei sai para Montemor às três da madrugada, se
quiseres ir com ele, não te deixes dormir.
Deixou-se dormir João Elvas, quando acordou passava das cinco e chovia se Deus a
dava. Pelo clarear da manhã percebeu que el-rei, se pontualmente saíra, já iria longe.
Enrolou-se no capote, encolheu as pernas como se ainda estivesse dentro da barriga da
mãe, e dormitou ao calor da palha, no bom cheiro dela quando a aquece um corpo
humano. Há gente fidalga, ou nem tanto, que não suporta cheiros assim, disfarçam se
podem os seus próprios cheiros naturais, e ainda falta vir o tempo de com falso perfume de
rosa se ungirem rosas falsas, e dizerem esses, Que bem que cheiram. Qual fosse o motivo
por que lhe estavam vindo à ideia estes pensamentos, não o sabia João Elvas, duvidoso de
estar sonhando ou em devaneio acordado. Enfim abriu os olhos, saiu do sono.
A chuva caía com força, vertical e sonora, coitadas de suas majestades, sujeitas a
terem de viajar com um tempo destes, os filhos nunca poderão agradecer os sacrifícios que
os pais fazem por eles. A caminho de Montemor ia D. João V, sabe Deus com que
coragem lutando contra as dificuldades, os enxurros, os lamaçais, as ribeiras de engrossadas
águas, aperta-se o coração só de imaginar o susto daqueles senhores, os camaristas e
confessores, os clérigos e fidalgos, aposto que meteram os trombeteiros as trombetas no
saco para não se engasgarem e que os atabales não precisam das macetas para se lhes ouvir
o rufo, tão forte cai a chuva. E a rainha, que terá acontecido à rainha, a estas horas já saiu
de Aldegalega, vem com a infanta D. Maria Bárbara, mais o infante D. Pedro, este é outro,
com o mesmo nome do primeiro, frágeis mulheres, criança frágil, expostas aos agravos do
mau tempo, ainda dizem que o céu está com os poderosos, vede, vede como é para todos a
chuva quando cai.
João Elvas passou todo este dia no quente das tabernas, adubando com a malga do
vinho as viandas do alforge, prodigamente abastecido pela ucharia de sua majestade. No
geral, os pedintes do coice tinham-se deixado ficar pela vila, esperando que estiasse para
irem no encalce do cortejo. Mas a chuva não parou. Caía a noite quando as primeiras
viaturas da comitiva de D. Maria Ana começaram a entrar em Vendas Novas, mais
parecendo um exército em debandada que cortejo real. As cavalgaduras, derreadas, mal
podiam arrastar as berlindas e os coches, algumas iam-se abaixo das mãos e morriam ali mesmo, presas aos arreios. Os criados e os moços de cavalaria agitavam archotes, a
vozearia atroava, e foi a confusão tamanha que se achou ser impossível encaminhar aos
seus respectivos aposentos todos os acompanhantes da rainha, de modo que muitos deles
tiveram de voltar para Pegões, onde finalmente se instalaram, sabe Deus em que deplorável
estado. Foi uma noite de grande desastre. No dia seguinte, deitaram-se contas e viu-se que
tinham morrido dezenas de bestas, não contando as que ficaram pelo caminho, com os
peitos rebentados ou os membros partidos. As damas davam-lhes esvaimentos de cabeça e
delíquios, os senhores disfarçavam a estafa rodando a capa pelos salões, e a chuva
continuava a inundar tudo, como se Deus, por alguma zanga particular não comunicada à
humanidade, tivesse, à falsa fé, decidido repetir o dilúvio universal, agora definitivo.
Quisera a rainha seguir para Évora nessa mesma madrugada, mas foi-lhe
representado o perigo da empresa, além de virem atrasadas muitas carruagens, o que
resultaria em prejuízo da dignidade do cortejo, E os caminhos, saiba vossa majestade, estão
que não se pode, quando el-rei por eles passou, foi uma calamidade, que fará agora, com a
interminável chuva que caiu, dia e noite, noite e dia, mas já está despachada ordem ao juiz-
de-fora de Montemor para que mande juntar homens que vão reparar os caminhos, cegar
os atoleiros e aplainar as quebradas, vossa majestade descansa este dia onze em Vendas
Novas, no majestoso palácio que el-rei mandou construir, tem aqui todas as comodidades,
distrai-se com a princesa e aproveita para lhe dar os últimos conselhos de mãe, Olha, minha
filha, os homens são sempre uns brutos na primeira noite, nas outras também, mas esta é
pior, eles bem nos dizem que vão ter muito cuidado, que não vai doer nada, mas depois,
credo em cruz, não sei o que lhes passa pela cabeça, põem-se a rosnar, a rosnar, como uns
dogues, salvo seja, e as pobrezinhas de nós não temos mais remédio que sofrer-lhes os
assaltos até conseguirem os seus fins, ou então ficam em pouco, às vezes sucede, e nesse
caso não devemos rir-nos deles, não há nada que mais os ofenda, o melhor é fingir que não
demos por nada, porque se não for na primeira noite, é na segunda, ou na terceira, do
sofrimento ninguém nos livra, e agora vou mandar chamar o senhor Scarlatti para nos
distrair dos horrores desta vida, a música é uma grande consolação, minha filha, a oração
também, acho que tudo é música, se não é oração tudo.
Enquanto foram dados os conselhos e se dedilhou o cravo, aconteceu ser João Elvas
engajado para o conserto dos caminhos, são azares a que nem sempre se pode escapar, vai
um homem a correr de um beiral para outro, a fugir à chuva, e ouve uma voz, Alto, é um
quadrilheiro, conhece-se logo pelo tom, e tão supitânea foi a interpelação que nem deu
tempo a João Elvas de fingir-se velho caduco, a autoridade ainda hesitou ao dar com mais
cabelos brancos do que esperava, mas finalmente prevaleceu a agilidade da corrida, quem assim é capaz de se mexer, pode bem com pá e enxada. Quando João Elvas, com outros
apanhados, chegou ao descampado onde o caminho desaparecia entre charcos e lodaçais, já
lá andavam muitos homens carreando terra e pedras dos cômoros mais enxutos, era um
trabalho de tirar dali e lançar aqui, outras vezes abriam-se canais para escoamento das
águas, cada homem era um fantasma de barro, um fantoche, um espantalho, em pouco
tempo ficou João Elvas como os outros, melhor teria feito se se tivesse deixado ficar em
Lisboa, por mais que uma pessoa se esforce, não pode voltar à infância. Todo o dia
andaram na dura faina, a chuva abrandou, e essa foi a melhor ajuda, pois assim ganharam
os aterros alguma consistência, se não vier de noite outro temporal desfazer tudo. D. Maria
Ana dormiu bem, debaixo do seu alto cobertor de penas, que para todo o lado leva,
embalada no suave sono pela chuva que caía, mas, como as mesmas causas não produzem
sempre os mesmos efeitos, depende das pessoas, das ocasiões, dos cuidados que se levam
para a cama, aconteceu à princesa D. Maria Bárbara prolongarem-se-lhe pela noite dentro
os ecos das bátegas que tombavam do céu, ou seriam as palavras inquietantes que ouvira da
mãe. Dos que tinham andado na estrada, uns dormiram bem, outros mal, dependia do
cansaço, que quanto a agasalho e alimento não se podiam queixar, sua majestade não
regateou cómodos e comida quente, à estimação do mérito dos trabalhadores.
Manhã cedo, enfim, saiu de Vendas Novas a comitiva da rainha, já com as carruagens
que tinham ficado para trás, nem todas, perdidas essas para sempre ou de mais demorado
conserto, mas vai tudo com um ar pingão, empapados os panos, desluzidos os ouros e as
cores, se não vier um arzinho de sol, será o casamento mais triste que alguma vez se viu.
Agora não está a chover, mas o frio aperta e queima as carnes, não faltam frieiras por essas
mãos, apesar dos regalos e das mantas, falamos das damas, claro está, tão entanguidas e
constipadas que fazem dó. A frente do cortejo vai a pandilha cantoneira, em carros de bois,
e, havendo atoleiro, ribeira transbordada ou aluimento, saltam abaixo e vão remediar,
entretanto fica parado o comboio, esperando no meio da grande desolação da natureza. De
Vendas Novas e outros lugares ao redor tinham vindo juntas de bois, não uma nem duas,
dezenas para tirarem dos lamaçais as seges, as berlindas, as galeras, os coches que neles
constantemente se atolavam, passava-se o tempo nisto, desatrelar as mulas e os cavalos,
atrelar os bois, puxar, desatrelar os bois, atrelar os cavalos e as mulas, no meio de muita
gritaria e chicotada, e quando o coche da rainha se atascou até aos cubos das rodas e foi
preciso tirá-lo do atoleiro com seis juntas de bois, um homem que ali estava e viera da sua
terra por mandado do juiz de fora, disse, como se consigo próprio falasse, más estava João
Elvas perto e ouviu, Até parece que estamos aqui a puxar a pedra de Mafra. Sendo altura de
se esforçarem os bois, folgavam um pouco os homens, por isso João Elvas perguntou, Que pedra era essa, homem, e o outro respondeu, Era uma pedra do tamanho duma casa, que
foi levada de Pêro Pinheiro para a obra do convento de Mafra, só a vi quando chegou, mas
ainda dei uma ajuda, foi no tempo em que eu lá andava, E era grande, Era a mãe da pedra,
isto dizia um amigo que a trouxe da pedreira e que depois foi para a terra dele, eu vim logo
a seguir, não quis mais. Os bois, atascados até à barriga, puxavam sem esforço aparente,
como se quisessem, às boas, convencer a lama a deixar de fazer presa. Enfim, as rodas do
coche assentaram em firme e a grande maquineta foi arrancada do atoleiro, entre aplausos,
enquanto a rainha sorria a princesa acenava e o infante D. Pedro, garoto, disfarçava o seu
grande desgosto de não poder patinhar na lama.
Foi assim todo o caminho até Montemor, menos de cinco léguas que levaram quase
oito horas de contínuo trabalho, de extenuamento de homens e bestas, cada qual segundo a
sua especialidade. Bem desejava a princesa D. Maria Bárbara dormitar, repousar daquela
aflita insónia, mas os solavancos do coche, a gritaria dos atletas da força, o tropear dos
cavalos que iam e vinham com ordens, atordoavam-lhe a pobre cabecinha, punham-na em
grande angústia, que trabalhos, meu Deus, tanta confusão para casar uma mulher, é certo
que princesa. A rainha vai murmurando orações, menos para esconjurar os limitados
perigos do que para passar o tempo, e como já anda cá neste mundo há não poucos anos,
habituou-se, uma vez por outra desliza para o sono, donde logo regressa, e torna às orações
desde o princípio, como se nada fosse. Do infante D. Pedro, por enquanto, não há mais
que dizer.
Mas a conversa entre João Elvas e v homem que falara da pedra continuou mais
adiante, disse o velho, De Mafra era um amigo meu de há muitos anos, nunca mais tive
notícias dele, vivia em Lisboa, um dia desapareceu-me da vista, coisas que acontecem,
quem sabe se teria voltado para a terra, Se voltou para lá, talvez eu o tivesse encontrado,
que nome era o dele, Chamava-se Baltasar Sete-Sóis e era maneta da mão esquerda, ficou-
lhe na guerra, Sete-Sóis, Baltasar Sete-Sóis, não conheci eu outra pessoa, fomos camaradas
no trabalho, Fico muito contente, afinal o mundo é bem pequeno, viemos dar os dois a
esta estrada, e temos o mesmo amigo, Sete-Sóis era um bom homem, Terá morrido, Não
sei, acho que não, com uma mulher como a dele, uma tal Blimunda, que tinha uns olhos de
que. nunca se sabia bem a cor, com uma mulher daquelas, um homem agarra-se à vida, não
a larga nem que tenha só a mão direita, À mulher não a conheci, Sete-Sóis vinha às vezes
com umas ideias esquisitas, um dia até disse que já tinha estado perto do sol, Seria efeito de
vinho, Estávamos todos a beber quando ele o disse, mas nenhum de nós estava bêbedo, ou
estaríamos e já me esqueci, o que ele queria dizer na sua, é que tinha voado, Voado, Sete-
Sóis, essa nunca tal ouvi.
Veio a ribeira de Canha atravessar-se na conversa, caudalosa, espumejante, do outro
lado juntara-se o povo de Montemor que viera esperar a rainha fora de portas, e, com o
trabalho de todos, mais a ajuda de uns barris que ajudaram à flutuação das carruagens, daí a
uma hora estavam a jantar na vila, os senhores nos lugares próprios da sua distinção, os
ajudas ao acaso, uns comendo calados, outros conversando, como João Elvas que dizia no
tom de quem continua duas conversas, uma com o interlocutor, outra consigo próprio,
Estou-me a lembrar de que o Sete-Sóis, quando viveu em Lisboa, se dava muito com o
Voador, que até fui eu que lho apontei, um dia que estávamos no Terreiro do Paço,
lembro-me como se fosse ontem, Quem era o tal Voador, O Voador era um padre, o padre
Bartolomeu Lourenço, que depois veio a morrer em Espanha, fez agora quatro anos, foi
um caso de que se falou muito, o Santo Ofício meteu o nariz, quem sabe se estaria Sete-
Sóis nesse negócio, Mas o Voador chegou a voar, Houve quem dissesse que sim, houve
quem dissesse que não, vá lá agora saber-se, Certo certo é ter o Sete-Sóis declarado que
esteve perto do sol, isso ouvi eu, Deve haver um segredo, Haverá, e com esta resposta que
perguntava calou-se o homem da pedra, e ambos acabaram de comer.
As nuvens tinham-se levantado, pairavam alto, a chuva já não ameaçava tanto. Os
homens que vieram de lugares entre Vendas Novas e Montemor não continuam. Foram
pagos pelo trabalho, jornal a dobrar por bondade interventora da rainha, tem sempre sua
compensação levar às costas os poderosos. João Elvas seguia viagem, agora talvez com
mais comodidade, porquanto se fizera conhecido de sotas e cocheiros, acaso o deixariam ir
sentado numa galera, com as pernas penduradas, a dar a dar, acima da lama e da bosta. O
homem que falara da pedra estava na berma da estrada, olhava com os seus olhos azuis o
velho que se acomodava entre dois arcazes. Não tornarão a ver-se mais, é o que se supõe,
que o futuro nem Deus o sabe, e quando a galera começou a andar, disse João Elvas, Se um
dia encontrares o Sete-Sóis, diz-lhe que falaste com o João Elvas, ele deve lembrar-se de
mim, e que lhe mando um abraço, Lá direi, lá darei, mas se calhar não o torno a ver, E tu,
como é que te chamas, O meu nome é Julião Mau-Tempo, Então adeus, Julião Mau-
Tempo, Adeus, João Elvas.