Memorial do Convento

José Saramago · Capítulo 29 de 30

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Memorial do Convento

Em toda essa noite, Blimunda não dormiu.…

Em toda essa noite, Blimunda não dormiu. Pusera-se a esperar que Baltasar

regressasse ao cair do dia, como em outras ocasiões acontecera, nessa crença saiu da vila,

andou quase meia légua pelo caminho que ele traria, e, durante muito tempo, até fechar-se

por completo o crepúsculo, se deixou estar sentada num valado, vendo passar a gente que

ia para Mafra, de romaria à sagração, não era festa que se perdesse, certamente haveria

esmola e comida para quantos aparecessem, ou elas não faltariam aos mais lestos e

lamuriosos, procura a alma as suas satisfações, o corpo não as dispensa. Ao ver aquela

mulher ali sentada, alguns melquetrefes vindos de longe julgaram que era assim que a vila

de Mafra recebia os visitantes machos, com oferecidas facilidades, e atiravam-lhe chufas

obscenas, logo engolidas diante do rosto de pedra que os fitava. E um que se atreveu a

experimentar outras aproximações, recuou assustado quando Blimunda lhe disse, numa voz

baça, Tens um sapo no coração, cuspo nele, em ti e em toda a tua geração. Quando a noite

desceu completamente, acabaram-se os peregrinos, a estas horas já Baltasar não virá, ou

chegará tão tarde que o receberei deitada, ou então estará cá amanhã, se teve muito que

consertar, foi o que ele disse. Voltou Blimunda para casa, ceou com os cunhados e o

sobrinho, Então o Baltasar não veio, disse um deles, Nunca na vida hei-de perceber que

saídas são estas, disse o outro, Gabriel é que não abriu a boca, é ainda moço de mais para

falar estando gente mais velha, mas, lá consigo, pensa que os pais não têm nada que meter-

se na vida dos tios, é cisma de metade do mundo a curiosice pela vida da outra metade, que

aliás lhe paga na mesma moeda, ora este rapaz, tão novinho, as coisas que já vai sabendo.

Acabada a ceia, Blimunda esperou que todos se deitassem, depois saiu para o quintal. A

noite estava serena, o céu limpo, mal se sentia a frescura do ar. Talvez àquela mesma hora

viesse Baltasar caminhando ao longo da ribeira de Pedrulhos, com o espigão atado ao braço

esquerdo em vez do gancho, de maus encontros e perguntas indiscretas ninguém está livre,

conforme se disse já e tem sido comprovado. Nasceu a lua, melhor verá ele o caminho,

daqui a pouco lhe ouviremos certamente os passos, no grande silêncio avisador da noite,

empurrará a cancela do quintal, e ali estará Blimunda a recebê-lo, o mais não veremos,

porque é nossa obrigação ser discretos, basta que saibamos que é muita a inquietação desta

mulher.

Em toda a noite não dormiu. Deitada na manjedoura, envolvida nas mantas que

cheiravam a corpo e ao surro das ovelhas, abria os olhos para as frinchas do caniçado da

barraca, por onde o luaceiro coava, depois a lua pôs-se, era quase madrugada, nem a noite teve tempo de escurecer. Na primeira claridade levantou-se Blimunda, foi à cozinha buscar

algum alimento, que desassossego é este, mulher, ainda não estamos fora do que Baltasar

prometeu, talvez aí chegue pelo meio-dia, tinha muito que consertar na máquina, tão velha,

à chuva e ao vento, ele preveniu. Blimunda não nos ouve, saiu já de casa, vai pelo caminho

que conhece, aquele por onde Baltasar virá, não é possível desencontrarem-se.

Desencontro, sim, haverá, mas com el-rei, que precisamente entrará hoje na vila de Mafra,

logo à tarde, trazendo em sua companhia o príncipe D. José e o senhor infante D. António,

mais os criados todos da casa real, em suprema grandeza de estado, ricos coches, soberbos

cavalos, tudo em boa arrumação aparecendo na boca da estrada, rodando, tropeando, que

nunca se terá visto tão assombrosa perspectiva. Porém, de pompas reais temos nós avonde,

as diferenças conhecemo-las, ele é mais brocado, menos brocado, ele é mais ouro, menos

ouro, o nosso dever é ir atrás daquela mulher que a quantos encontra vai perguntando se

viram um homem com estes sinais, assim, e assim, o mais formoso do mundo, por tal

engano se vê como nem sempre se pode dizer o que se sente, quem por este retrato

reconheceria Baltasar, escuro, grisalho e maneta, Não, mulher, 'não vimos, e Blimunda

continua a andar, agora já fora dos caminhos principais, atalhando como na viagem que

fizeram ambos, aquele monte, aquela mata, quatro pedras alinhadas, seis colinas em

redondo, vai o dia adiantado, de Baltasar nem a sombra. Não se sentou Blimunda para

comer, ia andando e mastigando, mas a noite em claro fatigara-a, a inquietação come-lhe as

forças, o alimento enrola-se-lhe na boca, e o Monte Junto, que já de longe avultava, parece

que se afasta, que prodígio será. Não é mistério nenhum, é apenas o passo vagaroso em que

vai, arrastado, assim nunca mais lá chego. Há lugares onde Blimunda não se lembra de ter

passado, outros reconhece-os por uma ponte, um encontro de vertentes, um prado

fundeiro. E soube que já passou nesta terra porque àquela mesma porta está aquela mesma

velha cosendo aquela mesma saia, tudo está na mesma, excepto Blimunda, que vai sozinha.

Por estes sítios se recorda de terem encontrado o pastor que lhes disse estarem na

serra do Barregudo, além Monte Junto, parece uma colina como qualquer outra, mas não a

reteve assim a memória, talvez por causa do abaulado que tem, como se fosse uma

miniatura deste lado do planeta, assim uma pessoa acredita que a terra é realmente redonda.

Não há pastor nem rebanho, apenas um profundo silêncio quando Blimunda pára, uma

solidão profunda quando olha em redor. O Monte Junto está tão perto que parece bastar

estender a mão para lhe chegar aos contrafortes, como uma mulher de joelhos que estende

o braço e toca as ancas do seu homem. Não é possível que Blimunda tenha pensado esta

subtileza, e daí, quem sabe, nós não estamos dentro das pessoas, sabemos lá o que elas

pensam, andamos é a espalhar os nossos próprios pensamentos pelas cabeças alheias e depois dizemos, Blimunda pensa, Baltasar pensou, e talvez lhes tivéssemos imaginado as

nossas próprias sensações, por exemplo, esta de Blimunda nas suas ancas, como se lhes

tivesse tocado o seu homem. Parou para descansar, porque lhe tremiam as pernas, fatigadas

do caminho, amolecidas do imaginário contacto, mas de repente entrou-lhe no coração o

convencimento de que vai encontrar lá em cima Baltasar, trabalhando e suando, talvez

atando os últimos nós, talvez lançando para cima do ombro o alforge, talvez já descendo

para o vale, por causa disto gritou, Baltasar.

Não houve resposta, nem podia havê-la, um grito não é nada, chega ali àquela

escarpa e volta para trás, enfraquecido, nem parece a nossa voz. Blimunda começou a subir

rapidamente, voltaram-lhe as forças em afluxo, chega a correr se a encosta se reduz antes

de aprumar-se outra vez, e adiante, entre duas azinheiras anãs, distingue o quase invisível

carreiro aberto pelas espaçadas passagens de Baltasar, por ali se chega à passarola. Grita

outra vez, Baltasar, agora por força a ouvirá ele, não há montes de permeio, apenas uns

covões, se pudesse parar ouviria certamente o grito dele, Blimunda, está tão certa de tê-lo

ouvido que sorri, com as costas da mão enxuga o suor ou as lágrimas, ou talvez esteja a dar

um jeito aos cabelos, ou a limpar a cara suja, é um gesto de tão vário sentido.

Ali é o lugar, como o ninho de uma grande ave que levantou voo. O grito de

Blimunda, terceiro, e sempre o mesmo nome, não foi agudo, apenas uma explosão

sufocada, como se as tripas lhe estivessem sendo arrancadas por gigantesca mão, Baltasar, e

ao dizê-lo compreendeu que desde o princípio soubera que viria encontrar deserto este

lugar. As lágrimas secaram-se-lhe subitamente como se um vento escaldante tivesse

soprado de dentro da terra. Aproximou-se aos tropeções, viu os arbustos arrancados, a

depressão que o peso da máquina fizera no chão, e, do outro lado, a meia dúzia de passos,

o alforge de Baltasar. Não havia outros sinais do que acontecera ali. Blimunda levantou os

olhos para o céu, agora menos limpo, algumas nuvens vogavam serenas no quebrar da

tarde, e pela primeira vez sentiu o vazio do espaço, como se estivesse pensando, Não há

nada além, mas isto mesmo era o que não queria acreditar, em qualquer parte do céu

deveria andar Baltasar voando, lutando com as velas para fazer descer a máquina. Tornou a

olhar o alforge, foi buscá-lo, sentiu o peso do espigão dentro dele, e então lembrou-se de

que a máquina, se subira no dia anterior, a noite fizera-a descer, por isso Baltasar não estava

no céu, estaria na terra, em qualquer parte, talvez morto, talvez vivo, mas ferido, que ainda

se lembrava de como fora violenta a descida, porém com maior carga.

Deitou o alforge para o ombro, não havia ali mais que fazer, e começou a procurar

nas proximidades, subindo e descendo as encostas cobertas de mato, escolhendo os pontos

altos, agora desejosa de ter olhos agudíssimos, não os que o jejum lhe dava, mas outros que da superfície nada deixassem escapar, como os do falcão, ou do lince. Com os pés a

sangrar, a saia esfarrapada pelo mato espinhoso, deu a volta pelo lado norte do monte,

depois tornou ao sítio de partida procurando um nível superior, e então descobriu que

nunca tinham ido, nem ela, nem Baltasar, ao cume do Monte Junto agora deveria subir lá,

antes que se fizesse noite, dali teria mais larga vista, é certo que à distância a máquina faria

pouca figura, mas o acaso às vezes ajuda, quem sabe se, lá chegando, veria Baltasar acenar-

lhe com o braço, à beira duma fonte onde ambos matariam a sede.

Começou Blimunda a subir, consigo mesma ralhando que aquela deveria ter sido a

sua primeira lembrança, não agora, com a tarde já a despedir-se. Sem dar por isso,

encontrou um carreiro que subia, serpenteando, e mais acima um caminho largo, de carros,

surpreendeu-se com a novidade, que será que há no alto do monte para que tenha sido

aberta esta estrada, e com sinais de passagem, e antiga, quem sabe se Baltasar também deu

com ela. Ao dobrar uma curva, Blimunda estacou. À sua frente caminhava um frade,

dominicano pelo hábito que vestia, homem corpulento, de pescoço grosso. Inquieta,

Blimunda hesitava em correr, em chamar, O frade pareceu ter sentido uma presença.

Parou, olhou a um lado e a outro, depois para trás. Fez um gesto de bênção e aguardou.

Blimunda aproximou-se, Deo gratias, disse o dominicano, que fazes por aqui, perguntou.

Ela não pôde mais que responder, Ando à procura do meu homem, e não sabia como

continuar, o frade pensaria que ela estava doida se lhe fosse falar em máquina voadora, em

passarola, em nuvens fechadas. Recuou alguns passos, Somos de Mafra, o meu homem

veio aqui ao Monte Junto por causa de um grande pássaro que ouvimos dizer que vivia cá,

o meu medo é que o pássaro o tenha levado, Nunca ouvi falar de tal, nem ninguém da

congregação, Há neste monte algum convento, Há, Não sabia. O frade desceu um pouco o

caminho, como se o fizesse distraidamente. O sol baixara muito, e, como as nuvens se

amontoavam do lado do mar, o entardecer tornava-se cinzento. Então não viu por aqui um

homem que tem falta da mão esquerda e usa um gancho a fazer as vezes dela, perguntou

Blimunda, É esse o teu homem, É, Não, não vi ninguém, E não viu nenhum pássaro

grande voar daquele lado de além, ontem ou hoje, Não, não vi nenhum pássaro grande,

Sendo assim, vou-me embora, deite-me a sua bênção, padre, Daqui a pouco é noite, vais-te

perder se te metes ao caminho algum lobo te apanha, que os há, Se for agora, ainda chego

ao vale com luz de dia, É mais longe do que parece daqui, ouve, ao lado do convento há

uma ruína, de um outro convento que não se chegou a acabar, podes passar lá a noite e

amanhã continuas a procurar o teu homem, Vou-me embora, Faze como quiseres, depois

não te queixes de que não te avisei dos perigos, e, tendo dito isto, o frade recomeçou a

subir pelo caminho largo.

Blimunda ficou ali parada, outra vez hesitante. Ainda não era noite, mas todo o

campo, lá em baixo, se cobria de sombra. As nuvens alastravam-se por todo o céu,

começou a soprar um vento húmido, talvez chovesse. Sentia-se cansada, tanto que podia

deixar-se morrer de pura fadiga. Já mal pensava em Baltasar. Acreditava confusamente que

o encontraria no dia seguinte, que portanto não ganhava nada em procurá-lo hoje. Sentou-

se na beira do caminho, sobre uma pedra, meteu a mão ao alforge, encontrou o que restava

do farnel de Baltasar, uma sardinha ressequida, uma côdea duríssima. Se alguém passasse ali

àquela hora, sentiria um medo mortal, uma mulher assim sentada, sem medo ela, é

certamente uma bruxa, à espera de viajante para lhe chupar o sangue ou das companheiras

com quem irá ao aquelarre. Contudo, é apenas uma desgraçada mulher que perdeu o seu

homem, levado por ares e ventos, que faria todos os bruxedos para que ele regressasse, mas

desses não conhece nenhum, de que lhe serviu ser capaz de ver o que os outros não vêem,

de que lhe serviu ser recolhedora de vontades, se justamente elas foram que o levaram.

Fez-se noite. Blimunda pôs-se de pé. O vento tornou-se mais frio e mais forte. Havia

um grande desamparo naqueles montes, por isso ela começou a chorar, já era tempo de lhe

ser trazido esse desafogo. A escuridão encheu-se de sons assustadores, o piar de um

mocho, o ramalhar das azinheiras, e, se não era perdição dos ouvidos, para aquele lado

ululara um lobo. Ainda a coragem de Blimunda a fez descer cem passos na direcção do

vale, mas era como se estivesse a baixar devagarinho para o fundo de um poço, sem saber

que goelas a esperavam, abertas ao lume da água. Mais tarde viria a lua, que lhe mostraria o

caminho se o céu descobrisse, mas que a tornaria visível a quanto ser vivo batesse os

montes, se a alguns assustaria, outros a gelariam de medo. Parou, toda arrepiada. A pouca

distância, qualquer coisa rastejara bruscamente. Não aguentou mais. Começou a correr,

caminho acima, como se levasse atrás de si todos os diabos do inferno e todos os monstros

que povoam a terra, os viventes e os imaginados. Quando dobrou a última curva, viu o

convento, uma construção baixa, atarracada. Pelas frestas da igreja coava-se uma luz pálida.

Havia um grande silêncio sob o céu estrelado, sob o sussurro das nuvens, tão próximas

como se o Monte Junto fosse a mais alta montanha do mundo. Blimunda foi-se

aproximando, pareceu-lhe ouvir um murmúrio entoado de orações, seriam as completas,

quando chegou perto tornou-se mais forte a melopeia, agora eram cheias as vozes, ali

orando ao céu, tão humildemente orando que Blimunda tornou a chorar, talvez estes

frades, sem o saber, estivessem trazendo Baltasar das alturas, ou das perdições da selva,

talvez as mágicas e latinas palavras estivessem curando as feridas de que certamente padece,

por isso Blimunda se juntou às preces, dizendo mentalmente as que sabe e que servem para tudo, perdimento, maleita, alma ansiosa, alguém lá em cima estará encarregado de fazer a

destrinça.

Do outro lado do convento, num rebaixo que dava para a encosta, é que eram as

ruínas. Havia paredes altas, abóbadas, recantos que se adivinhava serem de celas, bom lugar

para passar a noite ao abrigo do frio e das feras. Blimunda, ainda receosa, entrou no breu

profundo das abóbadas, apalpou o caminho com as mãos e os pés, temendo cair em algum

buraco. Aos poucos, os olhos foram-se habituando ao negrume, depois a claridade difusa

do espaço recortou os vãos das frestas, assinalando as paredes. O chão, de erva rasteira,

estava limpo. Havia um piso superior aonde não se podia chegar, pelo menos não era agora

visível o acesso. Blimunda estendeu a manta a um canto, fez do alforge travesseira, e

deitou-se. As lágrimas vieram outra vez. Ainda chorando adormeceu, passou da vigília ao

sono entre duas lágrimas, e chorando continuou enquanto dormia, sonhando que chorava.

Não durou isto muito tempo. Afastando as nuvens, a lua surgiu, o luar entrou pelas ruínas

como uma presença, e Blimunda acordou. Julgou que a luz a sacudira de mansinho, lhe

tocara no rosto, ou na mão que repousava sobre a manta, mas o som raspado que ouviu

agora era igual ao que percebeu ter ouvido antes, quando dormia ainda. O rumor ouvia-se

ora mais perto, ora mais afastado, como de alguém que procura e não acha, mas não

desiste, torna e teima, um animal que neste lugar se refugia e que perdeu o sentido dele.

Blimunda soergueu-se sobre os cotovelos, apurou o ouvido. O som era agora um pisar

cauteloso, quase inaudível, mas próximo. Um vulto passou diante duma fresta, a luz

desenhou um perfil torcido na parede rugosa de pedra. Imediatamente Blimunda soube que

era o frade do caminho. Dissera-lhe onde podia arranjar abrigo, vinha saber se fora seguido

o conselho, mas não por caridade cristã. Deitou-se Blimunda para trás, silenciosamente, e

ficou quieta, talvez que ele a não visse, talvez a visse e dissesse, Descansa, pobre alma

fatigada, se assim fosse seria um verdadeiro milagre, e tão edificante, mas a verdade não é

essa, a verdade é que o frade vem a saciar a carne, nem lho podemos levar a mal, aqui neste

deserto, no tecto do mundo, que dolorosa é a vida das pessoas. O vulto cobre toda a luz da

fresta, é de homem alto e forte, ouve-se-lhe a respiração. Blimunda puxara o alforge para o

lado, e, quando o homem se ajoelhou, meteu rapidamente a mão na bolsa, segurou o

espigão pelo encaixe, como um punhal. Já sabemos o que vai acontecer, está escrito desde

que em Évora o ferreiro fez o espigão e o gancho, um está aqui na mão de Blimunda, o

outro quem o virá dizer. O frade tacteou os pés de Blimunda, afastou-lhe devagarinho as

pernas, para um lado, para o outro, excita-o terrivelmente a imobilidade da mulher,

porventura está acordada e lhe apetece o homem, já as saias foram atiradas para cima, já o

hábito arregaçado, a mão avança a reconhecer o caminho, estremeceu a mulher, mas não faz outro movimento, jubiloso o frade empurra o membro para a invisível fenda, jubiloso

sente que os braços da mulher se fecham nas suas costas, há grandes alegrias na vida de um

dominicano. Empurrado pelas duas mãos, o espigão enterra-se entre as costelas, aflora por

um instante o coração, depois continua o seu trajecto, há vinte anos que este ferro

procurava esta segunda morte. O grito que começou a formar-se na garganta do frade

mudou-se em estertor rouco, brevíssimo. Blimunda torceu o corpo, aterrada, não por ter

matado, mas por sentir aquele peso, duas vezes esmagador. Usando os cotovelos,

empurrou-o violentamente, enfim saiu de debaixo dele. O luar mostrou um pouco do

hábito branco, a mancha escura que alastrava. Blimunda levantou-se, apurou o ouvido. O

silêncio era total dentro das ruínas, apenas o seu coração batia. Apalpou o chão, recolheu o

alforge e a manta, que teve de puxar com força porque se enrodilhara nas pernas do frade,

e foi pô-los num sítio iluminado. Depois voltou ao homem, agarrou o encaixe do espigão e

puxou uma vez, duas vezes. Com a torção do corpo, o ferro devia ter ficado entalado entre

duas costelas. Em desespero, Blimunda pôs um pé em cima das costas do homem e, num

sacão brusco, extraiu o ferro. Houve um gorgolejo espesso, a mancha negra alastrou como

uma inundação. Blimunda limpou o espigão ao hábito, guardou-o no alforge, que atirou

para as costas, com a manta. Quando ia sair dali, olhou para trás e viu que o frade tinha

umas sandálias calçadas, foi tirar-lhas, homem morto vai por seu pé aonde tiver que ir,

inferno ou paraíso.

Na sombra que as paredes arruinadas projectavam, Blimunda parou a escolher o

caminho. Não se arriscaria a atravessar o terreiro defronte do convento, podia vê-la

alguém, acaso outro frade sabedor do segredo, à espera que regressasse o primeiro, que,

pela demora, devia estar retoiçando muito a seu gosto, Malditos sejam os frades, murmurou

Blimunda. Agora tinha de desafiar todos os sustos, o lobo, se não era fábula, o invisível

rastejar, que esse ouvira-o ela, meter-se ao mato até encontrar o caminho, lá adiante, onde

não pudesse ser vista. Descalçou as chancas arruinadas, enfiou as sandálias do morto,

grandes, espalmadas, mas sólidas, atou as tiras de couro aos tornozelos, e pôs-se a caminho,

de maneira a ter sempre as ruínas entre si e o convento, enquanto a não escondesse o mato

ou um acidente do terreno. Rodearam-na os rumores dos montes, banhava-a a brancura do

luar, depois vinham as nuvens e cobriam-na de escuridão, mas subitamente descobriu que

nada a assustava, que iria descer para o vale sem que o coração lhe vacilasse, podiam

aparecer avantesmas e lobisomens, almas penadas e luzeiros, com o espigão os arredaria

para o lado, arma poderosa mais que todos os malefícios e atentados, candeia que vai

adiante alumia o meu caminho.

Toda a noite Blimunda andou. Precisava estar muito longe do Monte Junto quando a

madrugada apontasse, quando a congregação se reunisse para as primeiras orações. Davam

por falta do frade, começariam por buscá-lo na cela, depois por todo o convento, no

refeitório, na sala do capítulo, na livraria, na horta, o abade dá-lo-ia por fugido, haveria

infinitas murmurações pelos cantos, mas, se algum dos irmãos soubesse do segredo, sobre

brasas estaria, quem sabe se invejoso da fortuna do outro, boa saia seria aquela para que ele

lançasse o hábito às urtigas, depois a busca passaria para fora dos muros, talvez seja dia

claro quando encontrarem o morto, olha do que eu me livrei, pensa o frade já não invejoso,

afinal na graça de Deus.

Quando, a meio da manhã, Blimunda chegou à ribeira de Pedrulhos, decidiu que ali

descansaria da cega caminhada em que vinha. Atirara fora as sandálias do frade, não fosse o

diabo armar-lhe com elas uma ratoeira, do seu próprio calçado se desfez por sem remédio,

agora mergulhava as pernas na água fria, enfim lembrando-se de examinar as roupas, se

haveria sangue nelas, talvez esta mancha na saia esfarrapada, rasgou o que rasgado estava,

lançou fora o farrapo. Vendo a água correr, perguntou, E agora. Já lavara o espigão de

ferro, foi como se lavasse a perdida mão de Baltasar ausente, perdido ele, onde. Saiu da

água, E agora, tornou a perguntar. Então ocorreu-lhe a ideia, e da bondade dela se

convenceu, de que Baltasar afinal estaria em Mafra, à sua espera, tinham-se desencontrado

no caminho, se calhar á máquina de voar subira sozinha, depois Baltasar viera-se embora,

por esquecimento deixara ficar o alforge e a manta, ou talvez tivesse largado a fugir de

susto, um homem também tem direito aos seus medos, e agora ele não sabe que há-de

fazer, se esperar, se meter pernas à estrada, aquela mulher é uma doida, ah, Blimunda.

Por estes caminhos já próximos de Mafra corria Blimunda como doida, tão

extenuada por fora, duas noites sem dormir, tão resplandecendo por dentro, duas noites

batalhando, alcança. deixa para trás os que vão á sagração, se se juntam tantos não caberão

em Mafra. De longe vêem-se pendões e panos, distinguem-se ranchos de gente, até

domingo ninguém trabalha, tudo é esmerar galas e apurar enfeites. Desce Blimunda para

casa, ali é o palácio do visconde, estão soldados da guarda real à porta, seges e coches pela

rua acima, aqui se terá hospedado el-rei. Empurrou a cancela do quintal, gritou, Baltasar,

mas ninguém lhe apareceu. Então, sentou-se no degrau de pedra, deixou cair: os braços, e

ia abandonar-se ao desespero quando pensou que não poderia explicar como estavam na

sua posse a manta e o alforge de Baltasar, se justamente teria de dizer que fora por ele e

não o encontrara. Mal se segurando nas pernas, dirigiu-se para a barraca e escondeu-os

debaixo dum molho de canas. Já não teve forças para regressar. Deitou-se na manjedoura e,

daí a pouco, porque o corpo tem às vezes dó da alma, adormeceu. Por isso não deu pela chegada do patriarca de Lisboa, que veio em um riquíssimo coche, com mais quatro onde

vinham os criados, e à frente o cruciferário, a cavalo, com a cruz patriarcal levantada, e o

meirinho dos clérigos, e vinham também os oficiais da câmara, que haviam saído a esperá-

lo a uma grande distância, não se concebe cortejo assim magnífico, a multidão o gozava

deleitadamente, quase saltavam os olhos a Inês Antónia, embasbacava gravemente Álvaro

Diogo como convém a um lavrante da pedra, quanto a Gabriel, valdevinos, anda por aí. E

também não viu Blimunda como chegaram, vindos de vários lugares, mas não por seu pé,

mais de trezentos franciscanos para assistir ao acto, por assim dizer o abrilhantando, se de

dominicanos fosse a ordem, faltaria um. Perdeu o desfile da milícia triunfante, marchando a

quatro de fundo, vinham ver se estavam prontas as obras do quartel, a carreira de tiro à

alma, o arsenal das hóstias, o paiol dos sacramentos, a bordadura do estandarte, In hoc

signo vinces, e se, para a vitória, não bastar o sinal, usem-se as persuasões violentas. A esta

hora Blimunda dorme, é uma pedra que caiu no chão, se não lhe tocarem com o pé, ali

ganhará cama, crescer-lhe-á a erva ao redor, assim acontece nas grandes esperas.

À tardinha, acabadas as festividades do dia, desceram a casa Álvaro Diogo e a

mulher, não entraram pelo quintal, por isso não viram logo Blimunda, mas quando Inês

Antónia foi recolher as galinhas que andavam soltas, deu com a cunhada a dormir, porém,

gesticulando violentamente no sono, pudera não, se estava a matar um dominicano, mas

isso não podia Inês Antónia adivinhar. Entrou na barraca, sacudiu Blimunda por um braço,

não lhe tocou com o pé, não é pedra a que tal se possa fazer, e ela abriu os olhos

espavorida, sem saber onde estava, no sonho não havia mais que trevas, aqui ainda o

entardecer, e, em vez do frade, esta mulher quem é, ah, a irmã de Baltasar, E Baltasar onde

está, pergunta Inês Antónia, veja-se como são as coisas, por estas mesmas palavras se

interrogava Blimunda, que resposta há-de dar, a custo levantou-se, todo o corpo lhe dói,

cem vezes tinha morto um frade que cem vezes ressuscitava, Baltasar ainda não pode vir,

dizer isto é o mesmo que estar calada, a questão não é se pode ou não pode vir, a questão é

não vem porquê, Tem na ideia ficar de abegão no Turcifal, todas as explicações são boas

desde que sejam recebidas, às vezes a indiferença ajuda, é o caso de Inês Antónia, que não

liga muito ao irmão, quando dele quer saber, é curiosidade e pouco mais.

Durante a ceia, depois de estranhar a ausência prolongada, há três dias que Baltasar

saiu de casa, deu Álvaro Diogo informações completas sobre quem já está e quem vai

chegar, a rainha e a princesa D. Mariana Vitória ficaram em Belas por não haver

acomodação em Mafra, e pela mesma razão foi o infante D. Francisco para a Ericeira, mas

o que, acima de tudo, faz orgulhar-se Álvaro Diogo é, por assim dizer, cobrirem-no os

mesmos ares que cobrem a el-rei, ao príncipe D. José e ao infante D. António, aqui mesmo defronte, no palácio do visconde, quando ceamos nós, ceiam eles, cada um do seu lado da

rua, ó vizinha dá-me salsa. Também já vieram o cardeal Cunha e o cardeal Mota, e os

bispos de Leiria e de Portalegre, do Pará e de Nanquim, que não estão lá, estão aqui, e vem

chegando a corte, fidalgos que não acabam, Queira Deus que Baltasar cá esteja no domingo

para ver a festa, disse Inês Antónia em tom de obrigação, Há-de estar, murmurou

Blimunda.

Nessa noite dormiu em casa. Esqueceu-se de comer o pão antes de se levantar, e

quando entrou na cozinha viu dois fantasmas translúcidos, rapidamente tornados em

molhos de vísceras e feixes de paus brancos, é o horror da vida, deu-lhe um vómito,

precipitadamente virou a cara e começou a mastigar o pão, mas Inês Antónia soltou uma

risada sem maldade, Querem ver que estás prenha ao cabo de todos estes anos, são

palavras inocentes que duplicaram a dor de Blimunda, Agora nem que eu o quisesse,

pensou, aos gritos por dentro de si. Este foi o dia de se benzerem as cruzes, os quadros das

capelas, os paramentos e mais objectos do. culto, e depois o convento e todas as suas

dependências. O povo ficou da banda de fora, Blimunda nem chegou a sair de casa,

contentou-se com ver el-rei subir para o coche, mais o príncipe e o infante, ia encontrar-se

com a rainha e altezas, à noite Álvaro Diogo explicou o melhor que pôde.

Enfim, chegou o mais glorioso dos dias, a data imorredoira de vinte e dois de

Outubro do ano da graça de mil setecentos e trinta, quando el-rei D. João V faz quarenta e

um anos e vê sagrar o mais prodigioso dos monumentos que em Portugal se levantaram,

ainda por acabar, é verdade, mas pela catadura se conhece o catacego. Não se descrevem

tantas maravilhas, Álvaro Diogo não viu tudo, Inês Antónia tudo confundiu, Blimunda foi

com eles, parecia mal não ir, mas não se sabe se sonha, se está acordada. Eram quatro da

manhã quando saíram de casa para apanharem um bom lugar no terreiro, às cinco formou

a tropa, ardiam archotes por toda a parte, depois começou a amanhecer, bonito dia, sim

senhores, Deus cuida bem da sua fazenda, agora se vê o magnífico trono patriarcal, ao lado

esquerdo do pórtico, com as suas cadeiras e dossel de veludo carmesim, com guarnições de

ouro, o chão coberto de alcatifas, um primor, e numa credência a caldeirinha e o hissope,

mais os restantes instrumentos, já se armou a procissão solene que dará a volta à igreja, el-

rei vai nela, atrás os infantes e a fidalgaria, conforme as suas precedências, mas o principal

da festa é o patriarca, benze o sal e a água, atira água benta às paredes, porventura não foi

tanta quanta devia de ser, ou não cairia Álvaro Diogo de trinta metros daqui a poucos

meses, e depois vai bater por três vezes com o báculo na porta grande do meio, que estava

fechada, às três foi de vez, é a conta que Deus fez, abriu-se a porta e entrou a procissão,

pena temos nós de que não entrem Álvaro Diogo e Inês Antónia, e também Blimunda, apesar do nenhum gosto, veriam as cerimónias, umas sublimes, outras tocantes, umas de

derrubar-se prostradamente o corpo, outras de sublimar-se aceleradamente a alma, por

exemplo, estar o patriarca escrevendo com a ponta do báculo, em montes de cinza

dispostos no pavimento da igreja, os alfabetos grego e latino, parece mais obra de bruxedo,

eu te talho e retalho, do que ritual canónico, como é também o caso de toda aquela

maçonaria que além está, ouro moído, incenso, cinza outra vez, sal, vinho branco numa

garrafa de prata, cal e pó de pedra numa bandeja, uma colher de prata, uma concha

dourada, sei lá que mais, não faltam hieroglifos, gatimanhos, passos e passes, para lá e para

cá, óleos santos, benzimentos, relíquias dos doze apóstolos, doze, e nisto se passou a

manhã e grande parte da tarde, eram cinco horas quando o patriarca começou a missa de

pontifical, que, claro está, levou o seu tempo, e não foi pouco, enfim chegou a termo, dali

subiu à tribuna da casa de Benedictione para lançar a bênção ao povo que esperava cá fora,

setenta mil, oitenta mil pessoas, que num grande sussurro de movimentos e vestes se

derrubaram de joelhos no chão, momento inesquecível, por muitos anos que eu viva, D.

Tomás de Almeida recitando lá do alto as palavras da bênção, tendo boa vista percebe-se-

lhe o mexer dos beiços, ouvidos é que não há que alcancem, havia de ser hoje, clamariam

por todo o orbe, urbi et orbis, as trombetas electrónicas, voz verdadeira de Jeová que teve

de esperar milénios para que enfim o ouvisse a terra, mas a maior sabedoria do homem

ainda continua a ser contentar-se com o que tem, enquanto não inventa melhor, por isso é

tão grande a felicidade da vila de Mafra e de quem lá está, bastam-lhe os gestos

compassados da mão, de cima para baixo, da esquerda para a direita, o anel faiscante, os

ouros e os carmesins resplandecentes, as alvas cambraias, o retumbar do báculo sobre a

pedra que veio de Pêro Pinheiro, lembram-se, vede com ela sangra, milagre, milagre,

milagre, aquele foi o último gesto, tirar o calço, retirou-se o pastor com o séquito, as

ovelhas já se levantaram, a festa continuará, oito são os dias da sagração e este é o primeiro.

Blimunda disse aos cunhados, Já volto. Desceu a ladeira para a vila deserta. Com a

pressa, alguns moradores tinham deixado portas e postigos abertos. Os lumes estavam

apagados. Blimunda foi à barraca buscar a manta e o alforge, entrou em casa, juntou o que

podia de comida, uma escudela de pau, uma colher, algumas roupas suas, outras de

Baltasar. Depois meteu tudo no alforge e saiu. Começava a escurecer, mas, agora, de

nenhuma noite teria medo, se tão negra é a que leva dentro de si.