Memorial do Convento
De tais desafogamentos se vêem privadas as…
De tais desafogamentos se vêem privadas as rainhas, principalmente se já estão
grávidas, e do seu legítimo senhor, que por nove meses não voltará a aproximar-se delas,
regra aliás comum ao popular, mas que vai sofrendo as suas infracções.
D. Maria Ana, como razões acrescentadas de recato, tem a mais a maníaca devoção
com que foi educada na Áustria, e a cumplicidade que deu ao artifício franciscano, assim
mostrando ou dando a entender que a criança que em seu ventre se está formando é tão
filha do rei de Portugal como do próprio Deus, a troco de um convento.
D. Maria Ana deitou-se muito cedo, rezou antes de ir para a cama, em murmurado
coro com as damas que a servem, e depois, coberta já pelo seu cobertor de penas, torna a
rezar, reza infinitamente, começam as damas a cabecear, mas resistem como sábias, se não
como virgens, e enfim se retiram, fica apenas a luz do lampadeiro vigiando, e a dama que
ali passará a noite, num leito baixo, não tarda que adormeça, sonhe se quiser, que
importância hão-de ter os sonhos que por trás das suas pálpebras se estão sonhando, a nós
o que nos interessa é o trémulo pensamento que ainda se agita em D. Maria Ana, à beira do
sono, que na Quinta-Feira Santa há-de ir à igreja da Madre de Deus, onde está um Santo
Sudário que as freiras desdobrarão diante dela antes de o exporem aos fiéis, e nele serão
claramente vistas as marcas do corpo de Cristo, este é o único e verdadeiro Santo Sudário
que existe na cristandade, minhas senhoras e meus senhores, como todos os outros são
igualmente verdadeiros e únicos, ou não seriam à mesma hora mostrados em tão diferentes
lugares do mundo, mas, porque está em Portugal, é o mais vero de todos e único mesmo.
Quando, ainda consciente, D. Maria Ana se vê a si própria inclinando-se para o pano
santíssimo, não se chega a saber se o ia beijar devotamente, porque de repente adormece e
acha-se dentro do coche, recolhendo-se ao paço noite já escura, com a sua guarda de
archeiros, e subitamente um homem a cavalo, que vem da caça, com quatro criados em
mulas e animais de pêlo e pena pendurados dos arções, dentro de redes, rompe o homem
em direcção ao coche, de espingarda na mão, o cavalo raspando lume nas pedras e deitando
fumo pelas ventas, e quando como um raio rompe a guarda da rainha e chega à estribeira
dificilmente sofreando a montada, dá-lhe na cara a luz das tochas, é o infante D. Francisco,
de que lugares do sono veio ele e porque virá tantas vezes. Espantou-se-lhe o cavalo, não
podia ter sido outra coisa, com o tropear do coche e dos archeiros sobre as pedras da
calçada, mas, comparando sonho e sonho, observa a rainha que de cada vez chega o infante
mais perto, que quererá ele, e ela que quererá.
Quaresma sonho de uns e vigília de outros.
Passou a Páscoa, que acordou toda a gente, mas reconduziu as mulheres à sombra
dos quartos e ao carrego das saias. Em casa há mais uns tantos maridos cucos, mas bastante
ferozes para o caso de outras quedas fora da estação. E porque andando, andando,
acabámos por falar de aves, é altura de ouvirmos os canários que, dentro das igrejas, em
gaiolas enfeitadas de fitas e de flores, cantam loucos de amor, enquanto no púlpito o frade
prega o seu sermão e fala de coisas que presume de mais sagradas. É Quinta-Feira de
Ascensão, sobe para as abóbadas o canto dos pássaros, subirão ou não as preces ao céu, se
eles as não ajudam não haverá esperança, talvez se nos calássemos todos.
Este que por desafrontada aparência, sacudir da espada e desparelhadas vestes, ainda
que descalço, parece soldado, é Baltasar Mateus, o Sete-Sóis. Foi mandado embora do
exército por já não ter serventia nele, depois de lhe cortarem a mão esquerda pelo nó do
pulso, estraçalhada por uma bala em frente de Jerez de los Caballeros, na grande entrada de
onze mil homens que fizemos em Outubro do ano passado e que se terminou com perda
de duzentos nossos e debandada dos vivos, acossados pelos cavalos que os espanhóis
fizeram sair de Badajoz. A Olivença nos recolhemos, com algum saque que tomámos em
Barcarrota e pouco gosto para gozar dele, que não tinha valido a pena marchar dez léguas
para lá e correr outras tantas para cá, deixando no campo tanta gente morta e metade da
mão de Baltasar Sete-Sóis. Por muita sorte, ou graça particular do escapulário que traz ao
peito, não gangrenou a ferida ao soldado nem lhe rebentaram as veias com a força do
garrote, e, sendo hábil o cirurgião, bastou desarticular-lhe as juntas, desta vez nem foi
preciso meter o serrote ao osso. Com ervas cicatrizantes lhe almofadaram o coto, e tão
excelente era a carnadura de Sete-Sóis que ao cabo de dois meses estava sarado.
Por ser pouco o que pudera guardar do soldo, pedia esmola em Évora para juntar as
moedas que teria de pagar ao ferreiro e ao seleiro se queria ter o gancho de ferro que lhe
havia de fazer as vezes da mão. Assim passou o Inverno, forrando metade do que
conseguia angariar, acautelando para o caminho metade da outra metade, e entre a comida
e o vinho se lhe ia o resto.
Já era Primavera quando, pago aos poucos por conta, o seleiro, com a última verba,
lhe entregou o gancho, mais o espigão que, por capricho de ter duas diferentes mãos
esquerdas, Baltasar Sete-Sóis encomendara. Eram asseadas obras de couro, ligadas
perfeitamente aos ferros, sólidos estes de malho e têmpera, e as correias de dois tamanhos,
para atar acima do cotovelo e ao ombro, por maior reforço. Começou Sete-Sóis a sua
viagem ao tempo de se saber que já o exército da Beira se deixava ficar pelos quartéis e não
vinha ajudar ao Alentejo por ser a fome muita nesta província, sobre ser geral nas outras. A tropa andava descalça e rota, roubava os lavradores, recusava-se a ir à batalha, e tanto
desertava para o inimigo como debandava para as suas terras, metendo-se fora dos
caminhos, assaltando para comer, violando mulheres desgarradas, cobrando, enfim, a
dívida de quem nada lhes devia e sofria desespero igual. Sete-Sóis, mutilado, caminhava
para Lisboa pela estrada real, credor de uma mão esquerda que ficara parte em Espanha e
parte em Portugal, por artes de uma guerra em que se haveria de decidir quem viria a
sentar-se no trono de Espanha, se um Carlos austríaco ou um Filipe francês, português
nenhum, se completos ou manetas, se inteiros ou mancos, salvo se deixar membros
cortados no campo ou vidas perdidas não é apenas sina de quem tiver de nome soldado e
para se sentar o chão ou pouco mais. Saiu Sete-Sóis de Évora, passou Montemor, não leva
por companhia e ajuda frade ou diabinho, e para mão furada já lhe basta a sua.
Veio andando devagar. Não tem ninguém à sua espera em Lisboa, e em Mafra,
donde partiu anos atrás para assentar praça na infantaria de sua majestade, se pai e mãe se
lembram dele, julgam-no vivo porque não têm notícias de que esteja morto, ou morto
porque as não têm de que seja vivo. Enfim, tudo acabará por saber-se com o tempo. Agora
faz sol, não tem chovido, e os matos estão cobertos de flores, os pássaros cantam. Baltasar
Sete-Sóis leva os ferros no alforge porque há momentos, horas inteiras, em que sente a
mão como se ainda a tivesse na ponta do braço e não quer roubar a si próprio a felicidade
de se achar inteiro e completo como inteiros e completos se hão-de sentar Carlos e Filipe
em seus tronos, afinal haverá para os dois, quando a guerra acabar. A Sete-Sóis basta-lhe,
para seu contentamento, e desde que não olhe onde lhe falta, a comichão que sente na
ponta do dedo indicador, e imaginar que está coçando com o polegar o sítio onde lhe
come. E quando esta noite sonhar, se a si próprio se olhar no sono, ver-se-á sem que nada
lhe falte e poderá apoiar a cabeça cansada nas palmas das duas mãos.
Também por outra interesseira razão traz Baltasar os ferros guardados. Aprendeu
rapidamente que com eles postos, em particular o espigão, lhe escusam a esmola, ou dão-
lha sovina, ainda que a alguma moeda sempre forçados pela espada que leva à cintura,
descaída sobre a anca, apesar de que espada toda a gente a usa, até os pretos, porém não
com este perfeito ar de quem aprendeu a servir-se dela, agora mesmo se for preciso. E se o
número de viajantes não equilibra a desconfiança causada por aquele vulto que no meio do
caminho, cortando a passagem, pede auxílio para um soldado a quem cortaram a mão e só
por milagre não a vida, se quem vem teme que a súplica possa mudar-se em assalto, a
esmola sempre cai na mão que resta, é o que vale a Baltasar, ter ainda a mão direita.
Passado Pegões, à entrada dos grandes pinheirais onde começa a terra de areia,
Baltasar, ajudando-se com os dentes, ata ao coto o espigão, que fará, urgindo a necessidade, as vezes de adaga, em tempo que foi esta proibida por ser arma facilmente mortal. Sete-Sóis
tem, por assim dizer, carta de privilégio, e, duplamente armado de espigão e espada, mete-
se ao caminho, na penumbra das árvores. Matará adiante um homem, de dois que o
quiseram roubar, mesmo tendo-lhes ele gritado que não levava dinheiros, porém, vindo nós
de uma guerra onde vimos morrer tanta gente, não é este caso que mereça relato singular,
salvo ter Sete-Sóis trocado depois o espigão pelo gancho para mais facilmente arrastar o
morto para fora do caminho, assim ficando experimentados os préstimos de ambos os
ferros. O salteador safo seguiu-o ainda por meia légua entre os pinheiros, por fim desistiu,
e só de longe lhe lançou palavras de insulto e maldição, porém, como quem não acreditava
que umas empecessem e outras ofendessem.
Quando Sete-Sóis chegou a Aldegalega, estava anoitecendo. Comeu umas sardinhas
fritas, bebeu uma tigela de vinho, e, não lhe chegando o dinheiro para a pousada, tão-só, à
escassa, para a passagem amanhã, meteu-se num telheiro, debaixo de uns carros, e aí
dormiu, enrolado no capote, mas com o braço esquerdo de fora e o espigão armado.
Passou a noite em paz. Sonhou com o choque de Jerez de los Caballeros, que os
portugueses desta vez irão vencer porque à frente deles avança Baltasar Sete-Sóis
segurando na mão direita a mão esquerda cortada, prodígio para que os espanhóis não têm
escudo nem esconjuro. Quando acordou, não havia ainda então luzeiro de madrugada no
levante do céu, sentiu umas grandes dores na mão esquerda, nem era para admirar, com um
espigão de ferro ali espetado. Desatou as correias, e, podendo tanto a ilusão, muito mais
sendo noite, e espessa a treva debaixo dos carros, não ver Baltasar as suas duas mãos, não
significava que não estivessem lá Ambas. Aconchegou com o braço esquerdo o alforge,
enroscou-se no capote e tornou a adormecer. Ao menos livrara-se da guerra. Com menos
um bocado, mas vivo.
Ia claridade do primeiro alvorecer, levantou-se. O céu estava muito limpo,
transparente até às últimas e pálidas estrelas. Era um bonito dia para entrar em Lisboa, com
bom tempo para lá ficar ou continuar viagem, logo veria. Meteu a mão ao alforge, tirou as
botas arruinadas que em todo o caminho, do Alentejo nunca calçara, e calçasse-as ele nesse
mesmo caminho teriam ficado, e pedindo à mão direita habili-dades novas, com o frouxo
amparo que o coto, ainda em primeira aprendizagem, podia oferecer, conseguiu acomodar
os pés, se pelo contrário não ia sacrificá-los em bolhas e roeduras, tão antigo era o hábito
de andarem descalços, em sua vida de paisano, ou, no tempo militar, quando a
impedimenta nem para jantar tinha sola, quanto mais para botas. Não há pior vida que a do
soldado. Quando chegou ao cais, era já sol-fora. Começara a vazante, o mestre da barca
gritava que ia largar não tarda, Está a maré boa, quem embarca para Lisboa, e Baltasar Sete-Sóis correu pela prancha, tilintavam-lhe os ferros dentro do alforge, e quando um gracioso
disse que o maneta levava as ferraduras no saco, se calhar para as poupar, olhou-o de revés,
meteu a mão direita e tirou o espigão, onde, agora bem se via, se não era aquilo sangue
seco, era o diabo que o fingia.
O gracioso desviou os olhos, encomendou-se a S. Cristóvão, que defende de maus
encontros e acidentes de viagem, e dali até Lisboa não abriu mais o bico. Uma mulher que
calhou ir sentada ao lado de Sete-Sóis, com o marido, desatou o farnel do almoço, e se à
vizinhança ofereceu por comprazer, mas nenhuma vontade de repartir, com o soldado
insistiu tanto, que ele aceitou.
Baltasar não gostava de comer diante de gente, com aquela sua mão direita que
sozinha parecia canha, o pão que escorregava, o conduto que caía, mas a mulher ajeitou-lhe
a comida em cima duma larga fatia e assim, alternando o uso dos dedos com a ponta da
faquita que tirara do bolso, pôde comer com descanso e suficiente asseio. A mulher tinha
idade para ser sua mãe, o homem para ser seu pai, não se tratava ali de nenhum namoro
sobre as águas do Tejo, nas barbas de involuntário ou consentidor pau-de-cabeleira.
Apenas alguma fraternidade, dó de quem vem da guerra aleijado para sempre.
O mestre levantara uma pequena vela triangular, o vento ajudava a maré, e ambos o
barco. Os remadores, frescos da noite dormida e da aguardente bebida, remavam certo e
sem pressa. Quando dobraram a ponta de terra, a barca foi apanhada na força da corrente e
da vazante, parecia uma viagem para o paraíso, com o sol relampejando na superfície da
água e duas famílias de toninhas, qual uma, qual outra, cruzando à frente da barca, escuros
os seus lombos luzidios, arqueados como se imaginassem o céu perto e lhe quisessem
chegar. Na outra margem, assente sobre a água, ainda longe, Lisboa derramava-se para fora
das muralhas. Via-se o castelo lá no alto, as torres das igrejas dominando a confusão das
casas baixas, a massa indistinta das empenas. E o mestre começou a contar, Boa foi a que
sucedeu ontem, quem quer ouvir, e todos queriam, sempre era um modo de passar o
tempo, que a viagem não é curta, Então foi assim, começou o mestre, chegou aí uma frota
inglesa, que está além, em frente da praia de Santos, e traz tropas que hão-de ir para a
Catalunha, para a guerra, com as outras que cá estavam à espera, mas veio também com ela
um navio que trazia uns casais de facinorosos desterrados para a ilha das Barbadas, e umas
cinquenta mulheres de má vida que para lá também iam, a fazerem casta, que em terras
dessas tanto monta honrada como desonrada, mas o capitão do navio entendeu, diabo do
homem, que em Lisboa a poderiam fazer melhor e assim se aligeirou da carga, mandou pôr
as mulheres em terra, com o corpinho que têm, que algumas vi-as eu, não era nada má a
inglesia. Riu-se de gosto antecipado o mestre, como se estivesse fazendo seus próprios planos de navegação carnal e calculando os proveitos da abordagem, riram grosso os
remadores algarvios, Sete-Sóis espreguiçou-se como um gato ao sol, a mulher do farnel fez
que não ouvira, o marido estava sem saber se havia de achar graça à história ou ficar sério,
justamente porque histórias destas já a sério as não podia tomar, se alguma vez pudera,
vivendo longe, em terra de Pancas, onde, do nascer ao morrer, é sempre o mesmo rego da
charrua, a própria e a figurada. E, pegando numa ideia, depois noutra, por alguma razão
desconhecida as ligando, perguntou ao soldado, E vossemecê, que idade tem, e Baltasar
respondeu, Vinte e seis anos.
Lisboa ali estava, oferecida na palma da terra, agora alta de muros e de casas. A barca
aproou à Ribeira, fez o mestre manobra para encostar ao cais depois de ter arreado a vela, e
os remadores levantaram num só movimento os remos do lado da atracação, os do outro
lado harpejaram a amparar, mais um toque no leme, um cabo lançado por cima das
cabeças, foi como se se tivessem juntado as duas margens do rio. Estando vaza a maré,
ficava alto o cais, e Baltasar ajudou a mulher do farnel e o seu homem, de peito feito pisou
o gracioso que não tugiu nem mugiu, e, alçando a perna, num só impulso se achou em
firme.
Havia uma confusão de muletas e caravelões que descarregavam peixe, os olheiros
gritavam e maltratavam de palavras e algum safanão os carregadores pretos que passavam
ajoujados, encharcados pela água que escorria das grandes alcofas, com a pele dos braços e
da cara salpicada de escamas. Parecia que tinham vindo juntar-se no mercado todos os
moradores de Lisboa. A Sete-Sóis crescia-lhe a água na boca, era como se uma fome
acumulada em quatro anos de campanha militar estivesse saltando agora os diques da
resignação e da disciplina. Sentiu o estômago aos torcegões, inconscientemente procurou
com os olhos a mulher do farnel, onde é que ela já iria, mais o seu sossegado marido, este
provavelmente a mirar as fêmeas que passavam, a adivinhar se eram inglesas e de má vida,
um homem precisa de fazer a sua provisão de sonhos.
Com pouco dinheiro no bolsilho, umas só moedas de cobre que soavam bem menos
que os ferros do alforge, desembarcado numa cidade que mal conhecia, tinha Baltasar de
resolver que passos daria a seguir, se a Mafra onde não poderia a sua única mão pegar
numa enxada que requer duas, se ao paço onde talvez lhe dessem uma esmola por conta do
sangue perdido. Alguém lhe tinha dito isto em Évora, mas também lhe foram dizendo que
era necessário pedir muito e por muito tempo, com muito empenho de padrinhos, e apesar
disso muitas vezes se apagava a voz e acabava a vida antes que se visse a cor ao dinheiro.
Na falta, aí estavam as irmandades para a esmola e as portarias dos conventos que proviam
ao caldo e ao tassalho do pão. E um homem a quem falte a mão canhota não tem muito de que se queixar se ainda lhe ficou a destra para pedir a quem passa. Ou exigir com um ferro
aguçado.
Sete-Sóis atravessou o mercado do peixe. As vendedeiras gritavam desbocadamente
aos compradores, provocavam-nos, sacudiam os braços carregados de braceletes de ouro,
batiam juras no peito onde se reuniam fios, cruzes, berloques, cordões, tudo de bom ouro
brasileiro, assim como os longos e pesados brincos ou argolas, arrecadas ricas que valiam a
mulher. Mas, no meio da multidão suja, eram miraculosamente asseadas, como se as não
tocasse sequer o cheiro do peixe que removiam às mãos cheias. A porta duma
taberna que ficava ao lado da casa dos diamantes, Baltasar comprou três sardinhas
assadas, que, sobre a indispensável fatia de pão, soprando e mordiscando, comeu enquanto
caminhava em direcção ao Terreiro do Paço. Entrou no açougue que dava para a praça, a
regalar a vista sôfrega nas grandes peças de carne, nos bois e porcos abertos, quartos
inteiros pendurados dos ganchos. A si próprio prometeu um festim de viandas quando lhe
desse o dinheiro para isso, não sabia então que ali viria a trabalhar, um dia próximo, e que
deveria o emprego, a padrinho sim, mas também ao gancho que trazia no alforge, tão
prático para puxar uma carcaça, para escoar umas tripas, para arredar umas mantas de
gordura. Tirando a sangueira, o lugar é limpo, com as paredes forradas de azulejos brancos,
e se o homem da balança não enganar no peso, com outros enganos ninguém dali sai,
porque em qualidades de macieza e saúde é muito verdadeira a carne.
Aquilo além é o palácio do rei, está o palácio, o rei não está, anda a caçar em Azeitão,
com o infante D. Francisco e os seus outros irmãos, mais os criados da casa, e os
reverendos padres jesuítas João Seco e Luís Gonzaga, que decerto não foram só para
comer e rezar, talvez quisesse el-rei refrescar as lições de matemáticas e latinidades que
deles, quando príncipe, recebeu. Levou também sua majestade uma espingarda nova, que
lha fez João de Lara, mestre de armas dos armazéns do reino, obra fina, adamasquinada de
prata e ouro, que se a perder em caminho tornará prestes a seu dono, pois tem ao
comprido do cano, em boa letra romana embutida, como a do frontão de S. Pedro de
Roma, estes dizeres explicados SOU DE EL-REI NOSSO SENHOR AVE DEUS
GUARDE DOM JOAM O V, todos em maiúsculas, como se copia, e ainda dizem que as
espingardas só sabem falar pela boca e em linguagem de pólvora e chumbo. Essas são as
comuns, como foi a de Baltasar Mateus, o Sete-Sóis, agora desarmado e parado no meio do
Terreiro do Paço, a ver passar o mundo, as liteiras e os frades, os quadrilheiros e os
mercadores, a ver pesar fardos e caixões, dá-lhe de repente uma grande saudade da guerra,
e se não fosse saber que não o querem lá, ao Alentejo voltaria neste instante, mesmo
adivinhando que o esperava a morte.
Meteu-se Baltasar pela rua larga, em direcção ao Rossio, depois de ter entrado na
igreja de Nossa Senhora da Oliveira, onde assistiu a uma missa e trocou sinais com uma
mulher sozinha que dele se agradou, divertimento aliás geral, porque, mulheres a um lado,
homens ao outro, recados, gestos de mão, movimentos de lenço, trejeitos de boca,
piscadelas de olhos, não faziam mais, se não é pecado fazer tanto, que transmitir
mensagens, combinar encontros, pactuar acordos, mas vindo Baltasar de tão longe,
afalcoado do caminho, sem dinheiros para manjares-do-céu e fitas de seda, não foi por
diante com o namoro, e, saindo da igreja, meteu pela rua larga, em direcção ao Rossio. Era
este um dia de mulheres, como se confirmava pela dúzia delas que vinham saindo duma rua
estreita, rodeadas de quadrilheiros pretos que as tocavam para a frente, com um corregedor
de vara na mão, e eram quase todas louras, de claros olhos, azuis, verdes, cinzentos, Quem
são estas, perguntou Sete-Sóis, e quando um homem cerca lho disse, já ele estava acertando
que seriam inglesas levadas ao navio donde por fraude do capitão haviam sido largadas, e
que remédio agora senão irem para as ilhas Barbadas, em vez de ficarem nesta boa terra
portuguesa, tão favorecedora de putas estrangeiras, ofício que se ri das confusões de Babel,
porque nas oficinas dele se pode entrar mudo e sair calado, desde que antes tenha falado o
dinheiro. Mas o mestre da barca dissera que eram ao todo umas cinquenta e ali não iam
mais que doze, Que é das outras, e o homem respondeu, Já apanharam umas tantas, mas
não as levam todas, porque algumas se esconderam muito bem escondidas, se calhar a esta
hora já sabem se há diferença entre ingleses e portugueses. Seguiu Baltasar o seu caminho,
fazendo a S. Bento promessa de um coração de cera se lhe pusesse adiante, ao menos uma
vez na vida, uma inglesa loura, de olhos verdes, e que fosse alta e delgada. Se no dia da
festa daquele santo vai a gente bater-lhe à porta da igreja a pedir que não falte o pão, se as
mulheres que querem arranjar bons maridos mandam rezar-lhe missas às sextas-feiras, que
mal tem que peça um soldado a S. Bento uma inglesa, ao menos uma vez, para não morrer
ignorante.
Baltasar Sete-Sóis girou pelos bairros e praças durante toda a tarde. Foi beber um
caldo à portaria do convento de S. Francisco da Cidade, informou-se das irmandades mais
generosas na esmola, retendo três delas para ulterior averiguação, a de Nossa Senhora da
Oliveira, onde já estivera, que era a dos confeiteiros, a de Santo Elói, dos ourives da prata, e
a do Menino Perdido, por alguma semelhança que consigo encontrava, mesmo lembrando-
se tão pouco de ter sido menino, perdido sim, se me acharão um dia.
Caiu a noite, e Sete-Sóis foi procurar onde dormir. Já então se tinha ligado de
amizade com outro antigo soldado, mais velho de anos e experiência, chamava-se este João
Elvas, agora com modo de vida na rufiagem, que justamente se acoitava para a noite, estando suave o tempo, nuns telheiros abandonados, rentes com os muros do convento da
Esperança, para o lado do olival. Fez-se Baltasar hóspede de ocasião, sempre era um amigo
novo, uma companhia para a conversa, mas, pelo sim pelo não, dando como desculpas
convir-lhe muito aliviar o braço são do peso do alforge, encairou o gancho no coto, não
querendo ofuscar João Elvas e mais quadrilha com o espigão, arma mortal, como sabemos.
Ninguém lhe fez mal, e eram seis debaixo do telheiro, e ele não fez mal a ninguém.
Enquanto não adormeceram, falaram de crimes acontecidos. Não dos seus próprios,
cada qual sabe de si, Deus saberá de todos, mas dos de gente principal, sem castigo quase
sempre quando conhecidos os autores, e sem escrúpulo extremo da justiça nas
averiguações se fora misterioso o acto. Ladrãozito, briguento, matador de a real e meio, se
não havia perigo de soltar este a língua para denunciar o mandante, esses malhavam com os
ossos no Limoeiro, e ainda assim tinham as sopas garantidas, tanto como a merda e o mijo
em que viviam. A pontos de há pouco tempo terem soltado uns cento e cinquenta de
culpas menos pesadas, que então estavam no Limoeiro, por junto, mais de quinhentos, com
as muitas levas de homens que vieram para a Índia e que acabaram por não ser necessários,
e era tanto o ajuntamento, e a fome tanta, que se declarou uma doença que nos ia matando
a todos por isso soltaram aqueles, um deles sou eu. E outro disse, Isto é terra de muito
crime, morre-se mais que na guerra, é o que diz quem lá andou, e tu que dizes, Sete-Sóis, e
Baltasar respondeu, Vi como se morre na guerra, não sei como se morre em Lisboa, por
isso não posso comparar, mas que fale aí o João Elvas, tanto sabe de praças de guerra
como de praças de gente, e João Elvas só encolheu os ombros, não disse nada.
Tornou a conversa ao ponto primeiro, e foi contado o caso do dourador que deu
uma facada numa viúva com quem queria casar, e não queria ela, que por castigo de não
coroar o desejo do homem ficou morta, e ele foi-se meter no convento da Trindade, e
também aquela desventurada mulher que tendo repreendido o marido de descaminhos em
que andava, lhe passou ele uma espada de parte a parte, e mais o que aconteceu ao clérigo
que por história de amores levou três formosas cutiladas, tudo em tempo de Quaresma,
que é sazão de sangue ardido e humor retraído, como se tem averiguado, Mas Agosto
também não é bom, como ainda o ano passado se viu, quando aí apareceu uma mulher
cortada em catorze ou quinze pedaços, nunca se chegou a saber a conta, o que se percebia
é que tinha sido açoitada com muita crueldade nas partes fracas, como traseiras e barriga
das pernas, cortadas fora, separadas dos ossos, os pedaços foram deixados na Cotovia,
metade postos nas obras do conde de Tarouca, e os outros abaixo nos Cardais, mas tão
manifestos que facilmente foram encontrados, nem os enterraram, nem os deitaram ao
mar, parecia que de propósito os deixavam à vista, para que fosse geral o horror.
Tomou então a palavra João Elvas, que declarou, Foi grande chacina, e deve ter sido
feita em vida da infeliz, porque teria sido rigor demasiado tratar assim um cadáver, e
porquê, quando o que ali se via era o retalhado das partes sensíveis e menos mortais, só
alguém de coração mil vezes danado e perdido pode ter praticado tal crime, nunca na
guerra viste uma coisa assim, Sete-Sóis, mesmo não sabendo eu o que na guerra viste, e o
que começara a contar o caso pegou nesta vírgula e continuou, Depois foram aparecendo
as partes que faltavam, ao outro dia achou-se na Junqueira a cabeça e uma mão, e um pé à
Boavista, e por mão, pé e cabeça se viu ser pessoa mimosa e bem criada, mostrava o rosto
ter de idade não mais que dezoito, vinte anos, e no saco onde apareceu a cabeça vinham as
tripas e mais partes interiores, e os seios, cortados como laranjas, e com eles uma criança
que mostrava três ou quatro meses, estrangulada com um cordão de seda, em Lisboa tem-
se visto muito, nunca um caso assim.
Tornou João Elvas, acrescentando o que do sucesso sabia, El-rei mandou pôr cartéis
com promessa de que se dariam mil cruzados a quem descobrisse os culpados, mas já lá vai
quase um ano e nunca se descobriram, pudera, que logo toda a gente viu que deviam ser
pessoas com quem se não havia de entender, que os tais homicidas não eram sapateiros
nem alfaiates, que estes só nas bolsas fazem cortes, e os da tal mulher foram feitos com tal
arte e ciência, sem se errar nenhuma junta de tantas partes do corpo que se lhe cortaram,
quase osso por osso, que os cirurgiões chamados à vistoria disseram que aquilo fora feito
por pessoa peritíssima na arte anatómica, só não confessaram que nem eles sabiam tanto.
Por trás do muro do convento ouviam-se ladainhar as freiras, mal sabem elas do que se
livram, parir um filho e tão violentamente pagar por ele, então Baltasar perguntou, E não
veio a saber-se mais, nem quem fosse a mulher, Nem dela nem dos homicidas houve
notícia, puseram-lhe a cabeça na porta da Misericórdia para ver se alguém a conhecia, foi o
mesmo que nada, e um dos que ainda não tinham falado, de barbas mais brancas do que
negras, disse, Deviam de ser de fora da corte, se fossem moradores nela dava-se pela falta
da mulher e começavam a murmurar, terá sido algum pai que determinou matar a filha por
causa de desonra e a mandou trazer, espedaçada, em cima de mula ou escondida a carniça
numa liteira, para a espalhar na cidade, se calhar, lá onde mora, enterrou um porco a fingir
que era a assassinada, e disse que a sua pobre filha tinha morrido de bexigas, ou de
humores corruptos, para não ter de abrir a mortalha, ele há gente capaz de tudo, até do que
está por fazer.
Calaram-se os homens, indignados, das freiras não se ouvia agora um suspiro, e Sete-
Sóis declarou, na guerra há mais caridade, A guerra ainda está uma criança, duvidou João
Elvas. E não havendo mais que dizer depois desta sentença, puseram-se todos a dormir.
D. Maria Ana não irá hoje ao auto-de-fé. Está de luto por seu irmão José, O
imperador da Áustria, que em pouquíssimos dias o tomaram as bexigas, verdadeiras, e
morreu delas, tendo somente trinta e três anos, mas a razão porque ficará no resguardo dos
aposentos não é essa, muito mal andariam os Estados quando uma rainha afracasse por
esse pouco se para tão grandes e maiores golpes são educadas. Apesar de já ir no quinto
mês, ainda sofre dos enjoos naturais, que, no entanto, também não bastariam a desviar-lhe
a devoção e os sentidos de vista, Ouvido e cheiro da solene cerimónia, tão levantadeira das
almas, acto tão de fé, a procissão compassada, a descansada leitura das sentenças, as
descaídas figuras dos condenados, as lastimosas vozes, O cheiro da carne estalando quando
lhe chegam as labaredas e vai pingando para as brasas a pouca gordura que sobejou dos
cárceres. D. Maria Ana não estará no auto-de-fé porque, apesar de prenha, três vezes a
sangraram, e isso foi-lhe causa de grande debilitação, em acréscimo dos afrontamentos de
que vem padecendo há muitos meses. Demoraram-lhe as sangrias como lhe tinham
demorado a notícia da morte do irmão, que queriam os médicos segurá-la mais, sendo de
tão pouco tempo a gravidez. Que, em verdade, os ares não andam bons no paço, como
ainda agora se averiguou ao dar a el-rei um flato rijo, de que pediu confissão e logo lha
deram, pelo bem que sempre faz à alma, mas terão sido imaginações suas, que tudo se
desatou num bom sucesso quando o purgaram, afinal era só a tripa empedernida. Está o
palácio triste, sobre a tristeza em que de costume está, com o luto que el-rei mandou dar a
toda a sua casa, e ordem para que os títulos e oficiais dela o pusessem, como ele pôs,
fechando-se oito dias e tomando seis meses de nojo, três de capa comprida e três de capa
curta, por demonstração do grande sentimento da morte do imperador seu cunhado.
Porém, hoje é dia de alegria geral, porventura a palavra será imprópria, porque o
gosto vem de mais fundo, talvez da alma, olhar esta cidade saindo de suas casas,
despejando-se pelas ruas e praças, descendo dos altos, juntando-se no Rossio para ver
justiçar a judeus e cristãos-novos, a hereges e feiticeiros, fora aqueles casos menos
correntemente qualificáveis, como os de sodomia, molinismo, reptizar mulheres e solicitá-
las, e outras miuçalhas passíveis de degredo ou fogueira. São cento e quatro as pessoas que
hoje saem, as mais delas vindas do Brasil, úbere terreno para diamantes e impiedades,
sendo cinquenta e um os homens e cinquenta e três as mulheres. Destas, duas serão
relaxadas ao braço secular, em carne, por relapsas, e isto quer dizer reincidentes na heresia,
por convictas e negativas, e isto quer dizer teimosas apesar de todos os testemunhos, por contumazes, e isto quer dizer persistentes nos erros que são suas verdades, só desacertadas
no tempo e no lugar. E estando já passados quase dois anos que se queimaram pessoas em
Lisboa, está o Rossio cheio de povo duas vezes em festa por ser domingo e haver auto-de-
fé, nunca sé chegará a saber de que mais gostam os moradores, se disto, se das touradas,
mesmo quando só estas se usarem. Nas janelas que dão para a praça estão as mulheres,
vestidas e toucadas a primor, à alemoa, por graça da rainha, com o seu vermelhão nas faces
e no colo, fazendo trejeitos com a boca em modo de a fazer pequena e espremida, visagens
várias e todas viradas para a rua, a si próprias se interrogando as damas se estarão seguros
os sinaizinhos do rosto, no canto da boca o beijocador, na borbulhinha o encobridor,
debaixo do olho o desatinado, enquanto o pretendente confirmado ou suspirante em baixo
se passeia, de lenço na mão e circulando a capa. E sendo o calor tanto, vão-se refrescando
os assistentes, com a conhecida limonada, o geral púcaro de água, a talhada de melancia,
que não seria por irem morrer aqueles que se consumiriam estes. E se o estômago pede
recheio mais substancial, não faltam aí os tremoços e os pinhões, as queijadas e as tâmaras.
El-rei, com os infantes seus manos e suas manas infantas, jantará na Inquisição depois de
terminado o acto de fé, e estando já aliviado do seu incómodo honrará a mesa do
inquisidor-mor, soberbíssima de tigelas de caldo de galinha, de perdigões, de peitos de
vitela, de pastelões, de pastéis de carneiro com açúcar e canela, de cozido à castelhana com
tudo quanto lhe compete, e açafroado, de manjar-branco, e enfim doces fritos e frutas do
tempo. Mas é tão sóbrio el-rei que não bebe vinho, e porque a melhor lição é sempre o
bom exemplo, todos o tomam, o exemplo, o vinho não.
Outro exemplo, mais do proveito da alma, se o corpo tão repleto está, será dado hoje
aqui. Começou a sair a procissão, vêm os dominicanos á frente, trazendo a bandeira de S.
Domingos, e os inquisidores depois, todos em comprida fila, até aparecerem os
sentenciados, foi já dito que cento e quatro, trazem círios na mão, ao lado os
acompanhantes, e tudo são rezas e murmúrios, por diferenças de gorro e sambenito se
conhece quem vai morrer e quem não, embora um outro sinal haja que não mente, que é ir
o alçado crucifixo de costas voltadas para as mulheres que acabarão na fogueira, pelo
contrário mostrando a sofredora e benigna face àqueles que desta escaparão com vida,
maneiras simbólicas de se entenderem todos quanto àquilo que os espera, se não
reparassem no que trazem vestido, e isso sim, é tradução visual da sentença, o sambenito
amarelo com a cruz de Santo André a vermelho para os que não mereceram a morte, o
outro com as chamas viradas para baixo, dito fogo revolto, se confessando as culpas a
evitaram, e a samarra cinzenta, lúgubre cor, com o retrato do condenado cercado de diabos
e labaredas, o que, passado a linguagem, significa que aquelas duas mulheres vão arder não tarda. Pregou frei João dos Mártires, provincial dos arrábidos, e certamente ninguém o
estaria merecendo mais, se nos lembrarmos de que arrábido foi o frade cuja virtude Deus
coroou engravidando a rainha, assim aproveite a prédica à salvação das almas como
aproveitarão a dinastia e a ordem franciscana em sucessão assegurada e prometido
convento.
Grita o povinho furiosos impropérios aos condenados, guincham as mulheres
debruçadas dos peitoris, alanzoam os frades, a procissão é uma serpente enorme que não
cabe direita no Rossio e por isso se vai curvando e recurvando como se determinasse
chegar a toda a parte ou oferecer o espectáculo edificante a toda a cidade, aquele que ali vai
é Simeão de Oliveira e Sousa, sem mester nem benefício, mas que do Santo Ofício
declarava ser qualificador, e sendo secular dizia missa, confessava e pregava, e ao mesmo
tempo que isto fazia proclamava ser herege e judeu, raro se viu confusão assim, e para ser
ela maior tanto se chamava padre Teodoro Pereira de Sousa como frei Manuel da
Conceição, ou frei Manuel da Graça, ou ainda Belchior Carneiro, ou Manuel Lencastre,
quem sabe que outros nomes teria e todos verdadeiros, porque deveria ser um direito do
homem escolher o seu próprio nome e mudá-lo cem vezes ao dia, um nome não é nada, e
aquele é Domingos Afonso Lagareiro, natural e morador que foi em Portel, que fingia
visões para ser tido por santo, e fazia curas usando de bênçãos, palavras e cruzes, e outras
semelhantes superstições, imagine-se, como se tivesse sido ele o primeiro, e aquele é o
padre António Teixeira de Sousa, da ilha de S. Jorge, por culpas de solicitar mulheres,
maneira canónica de dizer que as apalpava e fornicava, decerto começando na palavra do
confessionário e terminando no acto recato da sacristia, enquanto não vai corporalmente
acabar em Angola, para onde irá degredado por toda a vida, e esta sou eu, Sebastiana Maria
de Jesus, um quarto de cristã-nova, que tenho visões e revelações, mas disseram-me no
tribunal que era fingimento, que ouço vozes do céu, mas explicaram-me que era efeito
demoníaco, que sei que posso ser santa como os santos o são, ou ainda melhor, pois não
alcanço diferença entre mim e eles, mas repreenderam-me de que isso é presunção
insuportável e orgulho monstruoso, desafio a Deus, aqui vou blasfema, herética, temerária,
amordaçada para que não me ouçam as temeridades, as heresias e as blasfémias, condenada
a ser açoitada em público e a oito anos de degredo no reino de Angola, e tendo ouvido as
sentenças, as minhas e mais de quem comigo vai nesta procissão, não ouvi que se falasse da
minha filha, é seu nome Blimunda, onde estará, onde estás Blimunda, se não foste presa
depois de mim, aqui hás-de vir saber da tua mãe, e eu te verei se no meio dessa multidão
estiveres, que só para te ver quero agora os olhos, a boca me amordaçaram, não os olhos,
olhos que não te viram, coração que sente e sentiu, ó coração meu, salta-me no peito se Blimunda aí estiver, entre aquela gente que está cuspindo para mim e atirando cascas de
melancia e imundícies, ai como estão enganados, só eu sei que todos poderiam ser santos,
assim o quisessem, e não posso gritá-lo, enfim o peito me deu sinal, gemeu profundamente
o coração, vou ver Blimunda, vou vê-la, ai, ali está, Blimunda, Blimunda, Blimunda, filha
minha, e já me viu, e não pode falar, tem de fingir que me não conhece ou me despreza,
mãe feiticeira e marrana ainda que apenas um quarto, já me viu, e ao lado dela está o padre
Bartolomeu Lourenço, não fales, Blimunda, olha só, olha com esses teus olhos que tudo
são capazes de ver, e aquele homem quem será, tão alto, que está perto de Blimunda e não
sabe, ai não sabe não, quem é ele, donde vem, que vai ser deles poder meu, pelas roupas
soldado, pelo rosto castigado, pelo pulso cortado, adeus Blimunda que não te verei mais, e
Blimunda disse ao padre, Ali vai minha mãe, e depois, voltando-se para o homem alto que
lhe estava perto, perguntou, Que nome é o seu, e o homem disse, naturalmente, assim
reconhecendo o direito de esta mulher lhe fazer perguntas, Baltasar Mateus, também me
chamam Sete-Sóis.
Já passou Sebastiana Maria de Jesus, passaram todos os outros, deu volta inteira a
procissão, foram açoitados os que esse castigo haviam tido por sentença, queimadas as duas
mulheres, uma primeiramente garrotada por ter declarado que queria morrer na fé cristã,
outra assada viva por perseverança contumaz até ha hora de morrer, diante das fogueiras
armou-se um baile, dançam os homens e as mulheres, el-rei retirou-se, viu, comeu e andou,
com ele os infantes, recolheu-se ao paço no seu coche puxado a seis cavalos, guardado pela
sua guarda, a tarde desce depressa, mas o calor sufoca ainda, sol de garrote, sobre o Rossio
caem as grandes sombras do convento do Carmo, as mulheres mortas são descidas sobre
os tições para se acabarem de consumir, e quando já for noite serão as cinzas espalhadas,
nem o Juízo Final as saberá juntar, e as pessoas voltarão às suas casas, refeitas na fé,
levando agarrada à sola dos sapatos alguma fuligem, pegajosa poeira de carnes negras,
sangue acaso ainda viscoso nas brasas não se evaporou. Domingo é o dia do Senhor,
verdade trivial, porque dele são todos os dias, e a nós nos vêm gastando os dias se em
nome do mesmo Senhor não nos gastaram mais depressa as labaredas, por duplicada
violência, que é a de me queimarem quando por minha razão e vontade recusei ao dito
Senhor ossos e carne, e o espírito que me sustenta o corpo, filho de mim e de mim, cópula
directa de mim comigo mesmo, infuso do mundo sobre o rosto escondido, igual ao
mostrado e por isso ignorado. No entanto, é preciso morrer.
Frias hão-de ter parecido, a quem perto estivesse, as palavras ditas por Blimunda, Ali
vai minha mãe, nenhum suspiro, lágrima nenhuma, nem sequer o rosto compadecido, que
ainda assim não faltam estes no meio do povo apesar de tanto ódio, de tanto insulto e escárnio, e esta que é filha, e amada como se viu pelo modo como a olhava a mãe, não teve
mais dizer senão, Ali vai, e depois voltou-se para um homem a quem nunca vira e
perguntou, Que nome é o seu, como se contasse mais sabê-lo que o tormento dos açoites
depois do tormento do cárcere e dos tratos, e que a certa certeza de ir Sebastiana Maria de
Jesus, nem o nome a salvou, degredada para Angola e lá ficar, quem sabe se consolada
espiritual e corporalmente pelo padre António Teixeira de Sousa, que muita pratica leva de
ca, e ainda bem, para não ser tão infeliz o mundo, mesmo quando já tem garantida a
condenação. Porém; agora, em sua casa, choram os olhos de Blimunda como duas fontes
de água, se tornar a ver sua mãe será no embarque, mas de longe, mais fácil é largar um
capitão inglês mulheres de má vida que beijar uma filha sua mãe condenada, encostar a uma
face outra face, a pele macia, a pele frouxa, tão perto, tão distante, onde estamos, quem
somos, e o padre Bartolomeu Lourenço diz, Não somos nada perante os desígnios do
Senhor, se ele sabe quem somos, conforma-te Blimunda, deixemos a Deus o campo de
Deus, não atravessemos as suas fronteiras, adoremos deste lado de cá, e façamos o nosso
campo, o campo dos homens, que estando feito há-de querer Deus visitar-nos, e então,
sim, será o mundo criado. Baltasar Mateus, o Sete-Sóis, está calado, apenas olha fixamente
Blimunda, e de cada vez que ela o olha a ele sente um aperto na boca do estômago, porque
olhos como estes nunca se viram, claros de cinzento, ou verde, ou azul, que com a luz de
fora variam ou o pensamento de dentro, e às vezes tornam-se negros nocturnos ou brancos
brilhantes como lascado carvão de pedra. Veio a esta casa não porque lhe dissessem que
viesse, mas Blimunda perguntara-lhe que nome tinha e ele respondera, não era necessária
melhor razão. Terminado o auto-de-fé, varridos os restos, Blimunda retirou-se, o padre foi
com ela, e quando Blimunda chegou a casa deixou a porta aberta para que Baltasar entrasse.
Ele entrou e sentou-se, o padre fechou a porta e acendeu uma candeia à última luz duma
frincha, vermelha luz do poente que chega a este alto quando já a parte baixa da cidade
escurece, ouvem-se gritar soldados nas muralhas do castelo, fosse a ocasião outra, havia
Sete-Sóis de lembrar-se da guerra, mas agora só tem olhos para os olhos de Blimunda, ou
para o corpo dela, que é alto e delgado como a inglesa que acordado sonhou no preciso dia
em que desembarcou em Lisboa.
Blimunda levantou-se do mocho, acendeu o lume na lareira, pôs sobre a trempe uma
panela de sopas, e quando ela ferveu deitou uma parte para duas tigelas largas que serviu
aos dois homens, fez tudo isto sem falar, não tornara a abrir a boca depois que perguntou,
há quantas horas, Que nome é o seu, e apesar de o padre ter acabado primeiro de comer,
esperou que Baltasar terminasse para se servir da colher dele, era como se calada estivesse
respondendo a outra pergunta, Aceitas para a tua boca a colher de que se serviu a boca deste homem, fazendo seu o que era teu, agora tornando a ser teu o que foi dele, e tantas
vezes que se perca o sentido do teu e do meu, e como Blimunda já tinha dito que sim antes
de perguntada, Então declaro-vos casados. O padre Bartolomeu Lourenço esperou que
Blimunda acabasse de comer da panela as sopas que sobejavam, deitou-lhe a bênção, com
ela cobrindo a pessoa, a comida e a colher, o regaço, o lume na lareira, a candeia, a esteira
no chão, o punho cortado de Baltasar. Depois saiu.
Por uma hora ficaram os dois sentados, sem falar. Apenas uma vez Baltasar se
levantou para pôr alguma lenha na fogueira que esmorecia, e uma vez Blimunda espevitou
o morrão da candeia que estava comendo a luz, e então, sendo tanta a claridade, pôde Sete-
Sóis dizer, Por que foi que perguntaste o meu nome, e Blimunda respondeu, Porque minha
mãe o quis saber E queria que eu o soubesse, Como sabes, se com ela não pudeste falar, Sei
que sei, não sei como sei, não faças perguntas a que não posso responder, faze como
fizeste, vieste e não perguntaste porquê, E agora, Se não tens onde viver melhor, fica aqui,
Hei-de ir para Mafra, tenho lá família, Mulher, Pais e uma irmã, Fica, enquanto não fores,
será sempre tempo de partires, Por que queres tu que eu fique, Porque é preciso, Não é
razão que me convença, Se não quiseres ficar, vai-te embora, não te posso obrigar, Não
tenho forças que me levem daqui, deitaste-me um encanto, Não deitei tal, não disse uma
palavra, não te toquei, Olhaste-me por dentro, Juro que nunca te olharei por dentro, Juras
que não o farás e já o fizeste, Não sabes de que estás a falar, não te olhei por dentro, Se eu
ficar, onde durmo, Comigo.