Memorial do Convento

José Saramago · Capítulo 21 de 30

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Memorial do Convento

Terra solta, pedrisco, calhau que a pólvora…

Terra solta, pedrisco, calhau que a pólvora ou o alvião arrancaram ao pedernal

profundo, esse pouco o transportam por mão de homem os carrinhos, enchendo o vale

com pó que se vai arrasando do monte ou extraindo dos novos caboucos. Para o entulho

de maior porte e arrastado peso andam os carros grandes, chapeados de ferro, que os bois e

as bestas puxam sem mais pausa que carregar e descarregar. Aos andaimes, pelas travejadas

rampas de madeira, sobem homens as pedras suspensas do jugo que sobre os ombros e a

nuca lhes assenta, para sempre seja louvado quem inventou o chinguiço, alguém a quem lhe

doía. São trabalhos já ditos, que mais facilmente se recapitulam por serem de força bruta,

porém, é causa da sua reiteração não consentir que esqueçamos o que, por tão comum é de

tão mínima arte, se costuma olhar sem mais consideração que distraidamente vermos os

nossos próprios dedos escrevendo, assim de um modo e outro ficando oculto aquele que

faz sob aquilo que é feito. Muito melhor veríamos, e muito mais, se olhássemos de alto, por

exemplo, pairando na máquina voadora sobre este lugar de Mafra, o passeado monte, o

conhecido vale, a Ilha da Madeira que as estações escureceram de chuva e sol, e alguns

tabuados apodrecem já, o derrubamento das árvores no pinhal de Leiria e nos termos de

Torres Vedras e Lisboa, os fumos diurnos e nocturnos dos fornos de tijolo e cal que entre

Mafra e Cascais são centenas, os barcos que outros tijolos trazem do Algarve e de Entre-

Douro-e-Minho e os vão descarregar, Tejo adentro, por um canal aberto a braço, ao cais de

Santo António do Tojal, os carros que por Monte Achique e Pinheiro de Loures trazem

estas e outras matérias ao convento de sua majestade, e aqueles outros que carregam as

pedras de Pêro Pinheiro, não há melhor miradouro que este onde estamos, não faríamos

ideia da grandeza da obra se o padre Bartolomeu Lourenço não tivesse inventado a

passarola, a nós nos sustentam no ar as vontades que Blimunda juntou dentro das esferas

de metal, lá em baixo outras vontades andam, presas ao globo terra pela lei da gravidade e

da necessidade, se pudéssemos contar os carros que se movem por estes caminhos de ir e

voltar, próximos ou mais longe, chegaríamos aos dois mil e quinhentos, vistos daqui parece

que estão parados, é por ser tão pesada a carga. Mas os homens, se os quisermos ver, tem

de ser de mais perto.

Durante muitos meses, Baltasar puxou e empurrou carros de mão, até que um dia se

achou cansado de ser mula de liteira, ora à frente, ora atrás, e, tendo prestado públicas e

boas provas perante oficiais do ofício, passou a andar com uma junta de bois, das muitas

que el-rei tinha comprado. Fora de boa ajuda na promoção o José Pequeno, a cuja corcundice o abegão achava sua graça, ao ponto de dizer que o boieiro ficava com a cara à

altura do focinho dos bois, e era quase verdade, mas, se pensou que com isso o ofendeu,

muito enganado estava, porque o José Pequeno, pela primeira vez, ganhou consciência do

gosto que lhe dava poder olhar a direito com os seus olhos de homem os imensos olhos

dos animais, imensos e mansos, onde via reflectida a sua própria cabeça, o tronco, e, lá para

baixo, sumindo-se na fímbria inferior da pálpebra, as pernas, quando um homem cabe

inteiro no olho de um boi, pode-se enfim reconhecer que o mundo está bem construído.

Fora de boa ajuda o José Pequeno porque instou com o abegão que passasse Baltasar Sete-

Sóis a boieiro, se já andava com os bois um aleijado, podiam andar dois, fazem companhia

um ao outro, e se ele não se entender com o trabalho, não arrisca nada, volta para os carros

de mão, em um dia se verá a habilidade do homem. De bois sabia Baltasar o bastante,

mesmo não lidando com eles há tantos anos, e em dois trajectos logo se viu que o gancho

não era defeito e que a mão direita não esquecera nenhuma cláusula da arte da aguilhada.

Quando nessa noite chegou a casa, ia tão contente como quando, em garoto, descobrira o

primeiro ovo num ninho, quando homem estivera com a primeira mulher, quando soldado

ouvira o primeiro toque de trombeta, e de madrugada sonhou com os seus bois e a mão

esquerda, nada lhe faltava, se até Blimunda ia montada num dos animais, entenda isto quem

souber de sonhos sonhados.

Estava Baltasar há pouco tempo nesta sua nova vida, quando houve notícia de que

era preciso ir a Pêro Pinheiro buscar uma pedra muito grande que lá estava, destinada à

varanda que ficará sobre o pórtico da igreja tão excessiva a tal pedra que foram calculadas

em duzentas as juntas de bois necessárias para trazê-la, e muitos os homens que tinham de

ir também para as ajudas. Em Pêro Pinheiro se construíra o carro que haveria de carregar o

calhau, espécie de nau da Índia com rodas, isto dizia quem já o tinha visto em acabamentos

e igualmente pusera os olhos, alguma vez na nau da comparação. Exagero será, decerto,

melhor é julgarmos pelos nossos próprios olhos, com todos estes homens que se estão

levantando noite ainda e vão partir para Pêro Pinheiro, eles e os quatrocentos bois, e mais

de vinte carros que levam os petrechos para a condução, convém a saber, cordas e calabres,

cunhas, alavancas, rodas sobressalentes feitas pela medida das outras, eixos para o caso de

se partirem alguns dos primitivos, escoras de vário tamanho, martelos, torqueses, chapas de

ferro, gadanhas para quando for preciso cortar o feno dos animais, e vão também os

mantimentos que os homens hão-de comer, fora o que puder ser comprado nos lugares,

um tão numeroso mundo de coisas carregando os carros, que quem julgou fazer a cavalo a

viagem para baixo, vai ter de fazê-la por seu pé, nem é muito, três léguas para lá, três para

cá, é certo que os caminhos não são bons, mas tantas vezes já fizeram os bois e os homens esta jornada com outros carregos, que só de pôr no chão a pata e a sola logo vêem que

estão em terra conhecida, ainda que custosa de subir e perigosa de descer.

Daqueles homens que conhecemos no outro dia, vão na viagem José Pequeno e

Baltasar, conduzindo cada qual sua junta, e, entre o pessoal peão, só para as forças

chamado, vai o de Cheleiros, aquele que lá tem a mulher e os filhos, Francisco Marques é o

nome dele, e também vai o Manuel Milho, o das ideias que lhe vêm e não sabe donde. Vão

outros Josés, e Franciscos, e Manuéis, serão menos os Baltasares, e haverá Joões, Álvaros,

Antónios e Joaquins, talvez Bartolomeus, mas nenhum o tal, e Pedros, e Vicentes, e

Bentos, Bernardos e Caetanos, tudo quanto é nome de homem vai aqui, tudo quanto é vida

também, sobretudo se atribulada, principalmente se miserável, já que não podemos falar-

lhes das vidas, por tantas serem, ao menos deixemos os nomes escritos, é essa a nossa

obrigação, só para isso escrevemos, torná-los imortais, pois aí ficam, se de nós depende,

Alcino; Brás, Cristóvão, Daniel, Egas, Firmino, Geraldo, Horácio, Isidro, Juvino, Luís,

Marcolino, Nicanor, Onofre, Paulo, Quitério, Rufino, Sebastião, Tadeu, Ubaldo, Valério,

Xavier, Zacarias, uma letra de cada um para ficarem todos representados, porventura nem

todos estes nomes serão os próprios do tempo e do lugar, menos ainda da gente, mas,

enquanto não se acabar quem trabalhe, não se acabarão os trabalhos, e alguns destes

estarão no futuro de alguns daqueles, à espera de quem vier a ter o nome e a profissão. De

quantos pertencem ao alfabeto da amostra e vão a Pêro Pinheiro, pese-nos deixar ir sem

vida contada aquele Brás que é ruivo e camões do olho direito, não tardaria que se

começasse a dizer que isto é uma terra de defeituosos, um marreco, um maneta, um

zarolho, e que estamos a exagerar a cor da tinta, que para heróis se deverão escolher os

belos e formosos, os esbeltos e escorreitos, os inteiros e completos, assim o tínhamos

querido, porém, verdades são verdades, antes se nos agradeça não termos consentido que

viesse à história quanto há de belfos e tartamudos, de coxos e prognatas, de zambros e

epilépticos, de orelhudos e parvos, de albinos e de alvares, os da sarna e os da chaga, os da

tinha e do tinhó, então sim, se veria o cortejo de lázaros e quasímodos que está saindo dá

vila de Mafra, ainda madrugada, o que vale é que de noite todos os gatos são pardos e

vultos todos os homens, se Blimunda tivesse vindo à despedida sem ter comido o seu pão,

que vontade veria em cada um, a de ser outra coisa.

Mal o sol nasceu, logo se pôs quente o dia, nem admira, se Julho é. Três léguas, para

este povo de andarilhos, não é jornada de matar, tanto mais que o comum do pessoal

regula o passo pela andadura dos bois, e estes não sabem de nenhum motivo para ir

depressa. Soltos de carga, apenas jungidos aos pares, vão desconfiados da fartura e quase

sentem inveja dos manos que vêm puxando os carros dos petrechos, é como estar na engorda antes do matadouro. Os homens, já se disse, vão devagar, calados uns, outros

conversando, cada qual puxado aos amigos que tem, mas a um deles chegou-se-lhe o fogo

ao rabo e, mal saiu de Mafra, largou num trote curto, parecia que ia a Cheleiros salvar o pai

da forca, era o Francisco Marques que aproveitava a ocasião para ir enforcar-se entre as

pernas da mulher, agora que ela já despejou, ou não será tal a ideia, talvez queira apenas

estar com os filhos, dar uma palavra à esposa, cortejá-la somente, sem pensar em

fornicações que teriam de ser apressadas porque os companheiros vêm aí atrás, e pelo

menos a Pêro Pinheiro convém que chegue ao mesmo tempo que eles, já à nossa porta

estão passando, afinal sempre me deitei contigo, o menino está a dormir, não dá por nada,

os outros mandámo-los ver se está a chover, e eles entendem que o pai quer estar com a

mãe que seria de nós se el-rei tem mandado fazer o convento no Algarve, e ela perguntou,

Já te vais, e ele respondeu, Que remédio, mas na volta, acampando nós perto, fico toda a

noite contigo.

Quando Francisco Marques chegou a Pêro Pinheiro a deitar os bofes pela boca, de

perna fraca, já estava armado o arraial, enfim, não havia barracas, não havia tendas, os

soldados eram apenas os da vigilância costumada, mas parecia aquilo uma feira de gado,

mais de quatrocentas cabeças, e os homens andando pelo meio dos bois, apartando-os para

um lado, e com isso espantavam-se alguns animais, davam grandes cabeçadas, aparatosas,

mas sem malícia, depois acomodaram-se a comer o feno que estava a ser descarregado dos

carros, iam ter muito que esperar, agora comiam rapidamente os homens da pá e da

enxada, que esses eram precisos lá adiante. A manhã estava em meio, o sol batia já violento

no chão duro e seco, coberto de miúdos fragmentos de mármore, lascas, esquírolas, e, a um

lado e outro do rebaixo fundo da pedreira, grandes blocos esperavam a sua vez de ser

levados a Mafra. Estava-lhes certa a viagem, mas hoje não.

Alguns homens tinham-se juntado no meio do caminho, os de trás tentavam olhar

por cima das cabeças dos outros, ou forcejavam por furar pelo meio deles, e Francisco

Marques aproximou-se, compensando o atraso com o — empenho de saber, Que é que

estão a ver além, por acaso foi o ruivo que lhe respondeu, É a pedra, e outro acrescentou,

Nunca vi uma coisa assim em dias da minha vida, e abanava a cabeça, abismado. Nisto

vieram os soldados, e com ordens e empurrões afastaram o ajuntamento, Cheguem-se para

lá, os homens são tão curiosos como os cachopos, e veio o oficial da vedoria que tinha

encargo deste transporte, Apartem-se, dêem campo, lá se afastaram os homens

atropelando-se, e ela apareceu, bem tinha dito o Brás ruivo e zarolho, A pedra.

Era uma laje rectangular enorme, uma brutidão de mármore rugoso que assentava

sobre troncos de pinheiro, chegando mais perto sem dúvida ouviríamos o gemer da seiva, como ouvimos agora o gemido de espanto que saiu da boca dos homens, neste instante em

que a pedra desafogada apareceu em seu real tamanho. Aproximou-se o oficial da vedoria e

pôs-lhe a mão em cima, como se estivesse tomando posse dela em nome de sua majestade,

mas se estes homens e estes bois não fizerem a força necessária, todo o poder de el-rei será

vento, pó e coisa nenhuma. Porém, farão a força. Foi para isso que vieram, para isso

deixaram terras e trabalhos seus, trabalhos que eram também de força em terras que a força

mal amparava, pode o vedor estar sossegado que aqui ninguém se irá negar.

Os homens da pedreira aproximam-se, vão terminar e apurar o corte da pequena

elevação para onde a pedra havia sido arrastada, em modos de fazer-lhe uma parede

vertical, à face do lado mais estreito da laje. É aqui que virá acostar a nau da Índia, mas

primeiro terão os homens vindos de Mafra de abrir uma larga avenida por onde baixará o

carro, uma rampa que suavemente vá até à estrada, só depois a viagem poderá começar.

Armados de alviões e pás, os homens de Mafra avançaram, já o oficial riscou no chão o

traçado deste rebaixo, e Manuel Milho, que estava ao lado do de Cheleiros, medindo-se

com a laje agora tão próxima, disse, E a mãe da pedra, não disse que era o pai da pedra, sim

a mãe, talvez porque viesse das profundas, ainda maculada pelo barro da matriz, mãe

gigantesca sobre a qual poderiam deitar-se quantos homens, ou ela esmagá-los a eles,

quantos, faça as contas quem quiser, que a laje tem de comprimento trinta e cinco palmos,

de largura quinze, e a espessura é de quatro palmos, e, para ser completa a notícia, depois

de lavrada e polida, lá em Mafra, ficará só um pouco mais pequena, trinta e dois palmos,

catorze, três, pela mesma ordem e partes, e quando um dia se acabarem palmos e pés por

se terem achado metros na terra, irão outros homens a tirar outras medidas e encontrarão

sete metros, três metros, sessenta e quatro centímetros, tome nota, e porque também os

pesos velhos levaram o caminho das medidas velhas, em vez de duas mil cento e doze

arrobas, diremos que o peso da pedra da varanda da casa a que se chamará de Benedictione

é de trinta e um mil e vinte e um quilos, trinta e uma toneladas em números redondos,

senhoras e senhores visitantes, e agora passemos à sala seguinte, que ainda temos muito

que andar.

Entretanto, durante todo o dia, os homens cavaram a terra. Vieram os boieiros dar

uma ajuda, Baltasar Sete-Sóis tornou ao carro de mão, sem desdouro, é bom que não

esqueçamos os trabalhos pesados, ninguém está livre de voltar a precisar deles, imaginemos

que amanhã se perde o sentido da alavanca, não haverá mais remédio que meter o ombro e

o braço, até que ressuscite Arquimedes e diga, Dêem-me um ponto de apoio para vocês

levantarem o mundo. Quando o sol se pôs, estava aberta a avenida, numa extensão de cem

passos, até à estrada calcetada, que mais folgadamente fora andada durante a manhã. Cearam os homens e foram dormir, espalhados por estes campos, debaixo das árvores, ao

abrigo dos blocos de pedra, alvíssimos, que se tornaram fulgurantes quando a lua nasceu.

A noite estava quente. Se algumas fogueiras ardiam, era apenas para companhia dos

homens. Os bois ruminavam, deixando coar o fio de baba que devolvia à terra os sucos da

terra, aquela aonde tudo volta, até as pedras com tanto trabalho alçadas, os homens que as

erguem, as alavancas que as suportam, os calços que as amparam, nem os senhores

imaginam a soma de trabalho que está neste convento.

Escuro ainda, tocou a corneta. Os homens levantaram-se, enrolaram as mantas, os

boieiros foram jungir os bois, e da casa onde dormira desceu o vedor à pedreira com os

seus ajudantes, mais os olheiros, para saberem estes que ordens haveriam de dar e para quê.

Descarregaram-se dos carros as cordas e os calabres, dispuseram-se as juntas de bois pelo

caminho acima, em dois cordões. Mas ainda faltava vir a nau da Índia. Era uma plataforma

de grossos madeiros assente sobre seis rodas maciças, de eixos rígidos, no tamanho um

pouco maior que a laje que teria de transportar. Vinha puxada a braço, em grande alarido

de quem fazia a força e de quem a mandava fazer, um homem distraiu-se, deixou ficar um

pé debaixo da roda, ouviu-se um berro, um grito de dor insuportada, a viagem começa mal.

Baltasar estava perto com os seus bois, viu o sangue esguichar, e num repente achou-se em

Jerez de los Caballeros, quinze anos atrás, como o tempo passa. Com ele costumam passar

as dores, mas para passarem estas é cedo ainda, o homem já lá vai, gritando sempre, levam-

no num esquife para Morelena onde há uma enfermaria, talvez escape com menos um

bocado da perna, merda. Também em Mórelena dormiu Baltasar uma noite com Blimunda,

é assim o mundo, junta no mesmo lugar o grande gosto e a grande dor, o bom cheiro dos

humores sadios e o podre fétido da ferida gangrenada, para inventar céu e inferno não seria

preciso mais que conhecer o corpo humano. Já não se vê sinal do sangue que ficou no

chão, passaram as rodas da carro, pisaram os pés dos homens, as patas patudas dos bois, a

terra sugou e confundiu o resto, só um calhau que foi arredado para o lado ainda conserva

alguma cor.

A plataforma desceu muito devagar, amparada no declive pelos homens que

prudentemente iam folgando as cordas, até finalmente entestar com a parede de terra que

os pedreiros tinham alisado. Agora sim, se veriam ciência e arte. Com grandes pedras foram

calçadas as rodas todas do carro, para que não se afastasse da parede quando a laje fosse

puxada de cima dos troncos e descaísse e deslizasse sobre a plataforma. Toda a superfície

desta foi coberta de barro para reduzir o atrito da pedra contra a madeira, e enfim

começaram a ser passados os calabres, de modo a abraçarem a laje no sentido do

comprimento, um de cada lado, por fora dos troncos, outro que a cingia em toda a sua largura, assim se formando seis pontas que na dianteira do carro se juntaram e ataram a um

rijo madeiro reforçado de cintas de ferro, donde nasciam dois outros calabres, mais

grossos, que eram os tirantes principais, sucessivamente acrescentados com ramos de

menor grossura, a que deviam puxar os bois. Não é este, aqui, o caso de levar menos

tempo a fazer do que a explicar, pelo contrário, o sol já nasceu, já se levantou por cima

daqueles montes que além vemos, e ainda agora estão a ser reforçados os últimos nós,

deitou-se água para cima do barro que entretanto secara, mas primeiro é preciso dispor as

juntas de bois a boa distância, tensas todas as cordas o bastante para que não se perca a

força de arrastamento por causa dos desencontros, puxo eu, puxas tu, tanto mais que,

afinal, não há espaço que chegue para as duzentas juntas e a tracção tem de ser exercida a

direito, em frente e para cima, É um bico-de-obra, disse o José Pequeno, que era o

primeiro do cordão da esquerda, se de Baltasar veio alguma opinião, não chegou a ser

ouvida porque está mais longe. Lá no alto, o mestre da manobra vai dar a voz, um grito que

começa arrastado e depois acaba secamente como um tiro de pólvora, sem ecos, Êeeeeeüi-

ô, se os bois puxarem mais de um lado que do outro, estamos mal aviados, Êeeeeeüi-ô,

agora saiu o grito, duzentos bois agitaram-se, puxaram, primeiro de esticão, depois com

uma força contínua, logo interrompida, porque há os que escorregam, outros inclinam para

fora ou para dentro, questão de ciência do boieiro, as cordas roçam asperamente os

costados, enfim, entre clamores, insultos, incitamentos, acertou-se a tracção por alguns

segundos e a laje avançou um palmo, trilhando debaixo de si os troncos. O primeiro puxão

foi certo, o segundo errou, o terceiro teve de ajustar os dois, agora só puxam estes, aqueles

aguentam, finalmente a laje começou a avançar sobre a plataforma, ainda mantida acima

dela pela altura dos troncos, até que se desequilibrou, desceu bruscamente e caiu para. o

carro, tumba, a aresta rugosa mordeu os madeiros e aí se imobilizou a pedra, ter ou não ter

estendido ali o barro seria o mesmo que nada, se não aparecessem outras providências.

Subiram homens à plataforma com longas e fortíssimas alavancas, esforçadamente

soergueram a pedra ainda instável, e outros homens introduziram-lhe debaixo calços com o

rasto de ferro, que puderam deslizar sobre ó barro, agora vai ser fácil, Êeeeeeüi-ô,

Êeeeeeüi-ô, Êeeeeeüi-ôô, todo o mundo puxa com entusiasmo, homens e bois, pena é que

não esteja D. João V no alto da subida, não há povo que puxe melhor que este. Já os

calabres laterais foram largados, toda a tracção se exerce naquele que abraça a pedra no

sentido da largura, é quanto basta, parece a laje leve, tão facilmente escorrega sobre a

plataforma, só quando enfim descai por inteiro se ouve retumbar o peso, todo o arcaboiço

do carro range, se não fosse estar o chão naturalmente calcetado, calhaus sobre calhaus,

enterrar-se-iam as rodas até aos cubos. Foram retirados os grandes blocos de mármore que serviam de calços, já não há perigo que o carro fuja. Agora avançam os carpinteiros, com

maços, trados e formões abrem, a espaços, na espessa plataforma, ao rente da laje, janelas

rectangulares onde vão encaixando e batendo cunhas, depois fixam-nas com pregos

grossos, é um trabalho que leva o seu tempo, o resto do pessoal está por aí, descansando

pelas sombras, os bois ruminam e sacodem os moscardos, o calor é muito. Tocara para o

jantar quando os carpinteiros acabaram a tarefa, e o vedor vem dar ordens para se atar a

laje ao carro, é operação que está a cargo dos soldados, talvez por causa da disciplina e da

responsabilidade, talvez por estarem habituados com a artilharia, em menos de meia hora a

pedra fica solidamente atada, cordas e mais cordas, como se fizesse corpo com a

plataforma, aonde uma for, vai a outra. Não há nada a emendar, é obra asseada. Visto de

largo, o carro é um bicho de carapaça, um cágado atarracado, sobre pernas curtas, e como

está sujo de barro, parece ter acabado de sair da terra funda, é ele próprio terra que

prolonga a elevação a que ainda está encostado. Os homens e os bois já estão no seu jantar,

depois será a hora da sesta, se a vida não tivesse tão boas coisas como comer e descansar,

não valia a pena construir conventos.

Diz-se que o mal não atura, embora, pela fadiga que traz consigo, pareça às vezes que

sim, mas o que nenhuma dúvida tem, é não durar o bem sempre. Está um homem em

suavíssimo torpor, ouvindo as cigarras, não foi a comida fartura, mas um estômago avisado

sabe encontrar muito no pouco, e além disso temos o sol, que também alimenta, eis senão

quando ressoa a corneta, se estivéssemos no vale de Josafá mandávamos acordar os

mortos, assim não há outro remédio que levantarem-se os vivos. Recolhem-se aos carros os

petrechos diversos, que de tudo é preciso dar contas no inventário, verificam-se os nós,

faz-se a ligação dos calabres ao carro, e, à nova voz de Eeeeeeüi-ô, os bois, em

desencontrada agitação, começam a puxar, fincam os cascos no solo irregular da pedreira,

as aguilhadas picam os cachaços, e o carro, como se estivesse a ser arrancado do forno da

terra, move-se devagar, as rodas trituram os fragmentos de mármore que juncam o chão,

pedra como esta de hoje é que nunca daqui saiu. O vedor e certos seus auxiliares graduados

já montaram nas mulas, outros deles farão o caminho a pé por necessidade da obrigação,

são subalternos, mas todos têm uma parte de ciência e outra de mando, a ciência por causa

do mando, o mando por causa da ciência, não é o caso deste arraial de homens e bois, que

são mandados só, uns e outros, e o melhor é sempre o que mais força for capaz de fazer.

Aos homens pede-se, por acrescentamento, algum jeito, não puxar ao contrário, meter a

tempo o calço à roda, dizer as palavras que estimulam os animais, saber juntar a força à

força e multiplicar ambas, o que, enfim, não é despecienda ciência. O carro já subiu até

meio da rampa, cinquenta passos, se tanto, e continua, oscilando duramente nos ressaltos das pedras, que isto não é coche de alteza nem sege de eclesiástico, esses molejam como

Deus manda. Aqui os eixos são rígidos, as rodas trambolhos, não luzem arreios nas

lombeiras dos bois nem os homens apuram librés nos encontros, é uma tropa-fandanga

que não irá aos triunfais cortejos nem seria admitida na procissão do Corpus Christi. Uma

coisa é transportar a pedra para a varanda donde o patriarca, daqui por uns anos, nos há-de

abençoar a todos, outra e melhor seria sermos nós a bênção e o abençoador, assim como

semear pão e comê-lo.

Vai ser uma grande jornada. Daqui a Mafra, mesmo tendo el-rei mandado consertar

as calçadas, o caminho é custoso, sempre a subir e a descer, ora ladeando os vales, ora

empinando-se para as alturas, ora mergulhando a fundo, quem fez as contas aos

quatrocentos bois e aos seiscentos homens, se as errou, foi na falta, não que estejam de

sobra. Os moradores de Pêro Pinheiro desceram à estrada para admirar o aparato, nunca se

viu tanta junta de bois desde que começou a obra, nunca se ouviu tão alto vozear, e há

quem comece a ter saudades de ver partir aquela tão formosa pedra, criada aqui nesta nossa

terra de Pêro Pinheiro, oxalá não se parta pelo caminho, para isso não valia a pena ter

nascido. O vedor já seguiu à frente, é como um general de batalha com o seu estado-maior,

os seus ajudantes-de-campo, os seus ordenanças, vão reconhecer o terreno, medir a curva,

calcular o declive, prever o acampamento. Depois regressam ao encontro do carro, quanto

andou, se de Pêro Pinheiro saiu, em Pêro Pinheiro ainda está. Neste primeiro dia, que foi

só a tarde, não avançaram mais que quinhentos passos. A estrada era estreita, atropelavam-

se nela as juntas de bois, um cordão de cada lado, sem espaço de manobra, metade da força

de tracção perdia-se por não haver igualdade no arranque, as ordens ouviam-se mal. É lá

estava o peso assombroso da pedra. Quando o carro tinha de parar, ou porque uma roda se

metesse numa cova do caminho, ou porque o esforço compassado dos bois se medisse de

repente com uma subida e obrigasse a uma pausa, parecia que já não seria possível movê-lo

mais. E quando, finalmente, avançava, todos os madeiros rangiam como se fossem libertar-

se das cintas e dos grampos de ferro. E esta ainda era a parte mais fácil da viagem.

Nessa noite, os bois foram descangados, mas deixaram-nos na estrada, não os

reuniram em malhada. A lua nasceu mais tarde, muitos homens já dormiam, com a cabeça

em cima das botas, os que as tinham. A alguns chamava-os a luz fantasmal, ficavam a olhar

o astro, e nele viam distintamente o vulto do homem que foi cortar silvas em dia de

domingo e a quem o Senhor castigou obrigando-o a carregar por toda a eternidade o

molho que juntara antes que o fulminasse a sentença, assim ficando, em desterro lunar, a

servir de emblema visível da justiça divina, para escarmento de irreverentes. Baltasar fora à

procura de José Pequeno, os dois encontraram Francisco Marques, e, com mais alguns, arrumaram-se em redor duma fogueira, que a noite arrefecia. Mais tarde chegou-se-lhes

Manuel Milho que contou uma história, Era uma vez uma rainha que vivia com o seu real

marido em palácio, mais os filhos, que eram um infante e uma infanta assim deste tamanho,

e então diz-se que o rei gostava muito de ser rei, mas a rainha é que não sabia se gostava,

ou não, de ser o que era, porque nunca lhe tinham ensinado a ser outra coisa, por isso não

podia escolher e dizer, gosto mais de ser rainha, ainda se ela fosse como o rei, que esse

gostava de ser o que era porque outra coisa também lhe não tinham ensinado, mas a rainha

era diferente, se fosse igual não haveria história, então aconteceu que lá no reino havia um

ermitão que correra muitas aventuras e, depois de levar anos e anos a corrê-las, foi meter-se

naquela cova, ele vivia numa cova do monte, não sei se já tinha dito, e não era ermitão

desses de reza e penitência, chamavam-lhe ermitão porque vivia sozinho, a comida dele era

o que apanhava, se lhe davam outra não recusava, mas pedir nunca pediu, ora uma vez a

rainha foi passear ao monte com o seu séquito e disse à aia mais velha que queria falar ao

ermitão para lhe fazer uma pergunta, e a aia respondeu, saiba vossa majestade que este

ermitão não é de igreja, é homem como os outros, a diferença é que vive sozinho num

buraco, isto disse a aia, mas nós já sabíamos, e a rainha respondeu, a pergunta que quero

fazer não é de religião; e então foram andando e quando chegaram à boca da cova um

pajem gritou para dentro e o ermitão apareceu, era um homem já avançado na idade, mas

robusto, assim como uma árvore de encruzilhada, e quando apareceu perguntou, quem me

chama, e o pajem disse, sua majestade a rainha, e pronto, por hoje acabou-se a história,

vamos dormir. Protestaram os outros, queriam saber o resto do conto da rainha e do

ermitão, porém Manuel Milho não se deixou convencer, que amanhã também era dia,

tiveram de conformar-se, foi cada qual ao seu sono, cada qual pensando, antes que ele

chegasse, consoante as suas conhecidas inclinações, José Pequeno que o rei se calhar já não

se atrevia com a rainha, mas se o ermitão é velho, como é que vai ser, Baltasar que a rainha

é Blimunda e ele próprio o ermitão, nisto se confirma por ser a história de homem e

mulher, embora as diferenças sejam tantas, Francisco Marques que como esta história vai

acabar sei eu, em chegando a Cheleiros explico. A lua já acolá vai, não é que pese muito um

molho de silvas, o pior são os espinhos, mal parece vingar-se Cristo da coroa que lhe

puseram.

O dia seguinte foi de grandes aflições. A estrada alargava-se um pouco, podiam

portanto as juntas de bois manobrar mais à vontade, sem atropelos, mas o carro, pelo seu

tamanho, pela rigidez dos eixos, e também pela carga que suportava, virava

dificultosamente nas curvas, por isso tinham de arrastá-lo lateralmente, primeiro à frente,

depois atrás, as rodas resistiam, empeçavam nas pedras, que era preciso desfazer a malho, e ainda assim não se queixavam os homens se havia espaço para desatrelar e tornar a atrelar

os bois suficientes para deslocar o carro, de modo a entestá-lo novamente com o caminho.

As subidas, se não havia curvas, resolvia-as a força bruta, tudo a puxar, os bois esticando as

cabeças para diante, quase a tocarem com os focinhos os quartos traseiros dos da frente,

resvalando às vezes na bosta e na urina que faziam regueiros em valetas abertas aos poucos

pelo calcar das patas e pelo trilhar das rodas. A cada duas juntas de bois ia um homem,

viam-se-lhes as cabeças e as aguilhadas até longe, entre as armações dos animais, por sobre

os dorsos fulvos, só do José Pequeno se não distinguia o vulto, nem admira, estaria falando

à orelha dos seus bois, manos na altura, Puxem, boizinhos, puxem.

Mas a aflição tornava-se agonia se o caminho era a descer. A todo o momento o

carro se escapava, era preciso meter-lhe logo os calços, desatrelar as juntas quase todas, três

ou quatro de cada lado chegavam para mover a pedra, mas então tinham os homens de

pegar às cordas da traseira da plataforma, centenas de homens como formigas, de pés

fincados no chão, corpos inclinados para trás, músculos retensos, sustentando o carro que

ameaçava arrastá-los para o vale, lançá-los para fora da curva como uma chicotada. Os

bois, mais acima ou mais abaixo, ruminavam sossegadamente, olhando a agitação, as

correrias dos homens que davam ordens, o vedor a cavalo na mula, os rostos

congestionados e alagados de suor, e eles ali, quietos, à espera da sua vez, tão tranquilos

que nem a aguilhada se movia, apoiada contra o jugo. Alguém teve a ideia de atrelar bois à

parte de trás da plataforma, mas tiveram de desistir porque o boi não compreende uma

aritmética de esforço que venha a resultar em dois passos em frente e três à retaguarda. O

boi, ou vence a rampa e faz subir o que deveria descer, ou é arrastado sem resistência e

chega esfacelado onde deveria poder repousar.