Memorial do Convento

José Saramago · Capítulo 26 de 30

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Memorial do Convento

De Montemor a Évora não vão faltar…

De Montemor a Évora não vão faltar trabalhos. Voltou a chover, tornaram os

atoleiros, partiram-se eixos, rachavam-se como gravetos os raios das rodas. A tarde caía

rapidamente, o ar arrefecia, e a princesa D. Maria Bárbara, que enfim adormecera, auxiliada

pelo torpor emoliente dos caramelos com que aconchegara o estômago e por quinhentos

passos de estrada sem buracos, acordou com um grande arrepio, como se um dedo gelado

lhe tivesse tocado na testa, e, virando os olhos ensonados para os campos crepusculares,

viu parado um pardo ajuntamento de homens, alinhados na beira do caminho e atados uns

aos outros por cordas, seriam talvez uns quinze.

Afirmou-se melhor a princesa, não era sonho nem delírio, e turbou-se de tão

lastimoso espectáculo de grilhetas, em véspera das suas bodas, quando tudo devia ser ledice

e regozijo, já não chegava o péssimo tempo que faz, esta chuva, este frio, teriam feito bem

melhor se me casassem na Primavera. Cavalgava à estribeira um oficial, a quem D. Maria

Bárbara ordenou que mandasse saber que homens eram aqueles e o que tinham feito, que

crimes, e se iam para o Limoeiro ou para a África. Foi o oficial em pessoa, talvez por muito

amar esta infanta, já sabemos que feia, já sabemos que bexigosa, e daí, e vai levada para

Espanha, para longe do seu puro e desesperado amor, querer um plebeu a uma princesa,

que loucura, foi e voltou, não a loucura, ele, e disse, Saiba vossa alteza que aqueles homens

vão trabalhar para Mafra, nas obras do convento real, são do termo de Évora, gente de

ofício, E vão atados porquê, Porque não vão de vontade, se os soltam fogem, Ah.

Recostou-se a princesa nas almofadas, pensativa, enquanto o oficial repetia e gravava em

seu coração as doces palavras trocadas, há-de ser velho, caduco e reformado, e ainda se

recordará do mavioso diálogo, como estará ela agora, passados todos estes anos.

A princesa já não pensa nos homens que viu na estrada. Agora mesmo se lembrou de

que, afinal, nunca foi a Mafra, que estranha coisa, constrói-se um convento porque nasceu

Maria Bárbara, cumpre-se o voto porque Maria Bárbara nasceu, e Maria Bárbara não viu,

não sabe, não tocou com o dedinho rechonchudo a primeira pedra, nem a segunda, não

serviu com as suas mãos o caldo dos pedreiros, não aliviou com bálsamo as dores que Sete-

Sóis sente no coto do braço quando retira o gancho, não enxugou as lágrimas da mulher

que teve o seu homem esmagado, e agora vai Maria Bárbara para Espanha, o convento é

para si como um sonho sonhado, uma névoa impalpável, não pode sequer representá-lo na

imaginação, se a outra lembrança não serviria a memória. Ai as culpas de Maria Bárbara, o

mal que já fez, só porque nasceu, nem é preciso ir muito longe, bastam aqueles quinze homens que além vão, enquanto passam as seges com os frades, as berlindas com os

fidalgos, as galeras com os guarda-roupas, as estufas com as damas, e destas as arcas com as

jóias, e todo o mais recheio, os sapatinhos bordados, as frasqueiras de água-de-flor, as

contas de ouro, as charpas bordadas de ouro e prata, as roupinhas, as pulseiras, os

opulentos manguitos, as borlas de polvilhas, as pelatinas de arminho, oh quão

deliciosamente pecadoras são as mulheres, e belas, ou mesmo quando bexigosas e feias

como esta infanta que vamos acompanhando, bastaria a sedutora melancolia, o cismático

semblante, nem lhe faz falta o pecado, Senhora mãe e rainha minha, aqui estou eu indo

para Espanha, donde não voltarei, e em Mafra sei que se constrói um convento por causa

de voto em que fui parte, e nunca ninguém de cá me levou a vê-lo, há nisto muita coisa que

não sei entender, Minha filha e futura rainha, não retires ao tempo que deve ser de oração o

tempo de vãos pensamentos, tais são esses, a real vontade de teu pai e, senhor nosso quis

que se levantasse o convento, a mesma real vontade quer que vás para Espanha e o

convento não vejas, só a vontade de el-rei prevalece, o resto é nada, Então é nada esta

infanta que eu sou, nada os homens que vão além, nada este coche que nos leva, nada

aquele oficial que ali vai à chuva e olha para mim, nada, Assim é, minha filha, e quanto mais

se for prolongando a tua vida, melhor verás que o mundo é como uma grande sombra que

vai passando para dentro do nosso coração, por isso o mundo se torna vazio e o coração

não resiste, Oh, minha mãe, que é nascer, Nascer é morrer, Maria Bárbara.

O melhor das viagens longas são estes filosóficos debates. O infante D. Pedro,

cansado, dorme com a cabeça apoiada no ombro da mãe, é um bonito quadro familiar, e

veja-se como esta criança é finalmente igual a todas as outras, dormindo deixa pender o

queixo, em confiante abandono, e um fio de saliva corre-lhe para os folhos do cabeção

bordado. A princesa enxuga uma lágrima. Ao longo do cortejo começam a acender-se os

archotes, são como um rosário de estrelas caído das mãos da Virgem e que, por acaso, se

não especial preferência, veio pousar em terra portuguesa. Entraremos em Évora já noite

fechada.

Está el-rei à espera, com os infantes D. Francisco e D. António, está o povo de

Évora dando vivas, a luz dos archotes tornou-se esplendoroso sol, os soldados disparam as

salvas do estilo, e quando a rainha e a princesa passam para o coche de seu marido e pai, o

entusiasmo atinge o delírio, nunca se viu tanta gente feliz. João Elvas já saltou da galera em

que veio, doem-lhe as pernas, a si próprio promete que futuramente lhes dará o uso para

que foram feitas, em vez de se deixar ir no embalo do carroção, não há nada melhor que

andar um homem por seu pé. Durante a noite não lhe apareceu o fidalgo, e se aparecesse

que diria, notícias de banquetes e dosséis, de visitas a conventos e distribuição de títulos, de esmolas e beija-mãos. De tudo, só a esmolinha lhe faria arranjo, mas não hão-de faltar

oportunidades. Hesitou João Elvas, no dia seguinte, se acompanharia o rei ou a rainha, mas

acabou por escolher D. João V, e bem fez, porque a pobre D. Maria Ana, saindo um dia

depois, veio a apanhar uma chuva de neve que parecia estar nas suas terras de Áustria,

quando não fazia mais que dirigir-se a Vila Viçosa, lugar de assinalados calores em outra

estação, como todos estes espaços que vimos atravessando. Enfim, pela manhãzinha do dia

dezasseis, oito dias depois de ter partido el-rei de Lisboa, saiu completo o cortejo para

Elvas, rei, capitão, soldado, ladrão, são irreverências de garotos que nunca viram tanta

magnificência junta, imagine-se, só as carruagens da casa real são cento e setenta, agora

ponham-me as dos muitos nobres que também vão, e as das comunidades de Évora, e as

de particulares que não querem perder a ocasião de ilustrar a história da família, teu trisavô

acompanhou a família real a Elvas quando foi da troca das princesas, nunca te esqueças,

ouviste.

À estrada saía o povo miúdo daquelas terras e de joelhos implorava a piedade real,

parece que adivinhavam os míseros, porque a seus pés levava D. João V um baú de moedas

de cobre, que ia lançando, às mãos cheias, a um lado e a outro, em gestos largos de

semeador, o que causava grande alvoroço e gratidão, violentamente se desfaziam as fileiras

e se disputavam os dinheiros arremessados, e então era ver como velhos e novos remexiam

na lama onde se enterrara um real, como tacteavam cegos o fundo das águas lodosas onde

um real se afundara, enquanto as reais pessoas iam passando, passando, graves, severas,

majestosas, sem abrirem um sorriso, porque também Deus não sorri, ele lá saberá porquê,

talvez tenha acabado por se envergonhar do mundo que criou. João Elvas está por aí,

quando estendeu o chapéu a el-rei, questão de o saudar como era sua obrigação de súbdito,

caíram-lhe dentro umas poucas moedas, é um homem de sorte este velho, nem precisa

baixar-se, vão-lhe bater as felicidades à porta e as moedas à mão.

Passava das cinco da tarde quando o cortejo chegou à cidade. Salvou a artilharia, e

tão combinadas estas coisas pareciam, que do outro lado da fronteira retumbaram

igualmente uns tiros, era a entrada dos reis de Espanha em Badajoz, quem aqui tivesse

vindo desprevenido julgaria que estaria para travar-se uma grande batalha, contra o

costume indo ao combate o rei e o ladrão, além do soldado e capitão que sempre vão.

Porém, são tiros de paz, fogos de outro artifício, como à noite as luminárias e as artes

pirotécnicas, agora desceram o rei e a rainha do coche, o rei quer ir a pé, da porta da cidade

até à catedral, mas o frio é tanto, rapa nas mãos que as engadanha, rapa na cara que a

arrepanha, a pontos tais que D. João V se resigna a perder esta primeira escaramuça, volta a

subir para o coche, logo à noite talvez diga duas palavras secas à rainha, pois ela foi quem se negou, queixosa do gelado ar, quando a el-rei daria gosto e satisfação percorrer por seu

pé as ruas de Elvas, atrás do cabido que o esperava de cruz alçada e Santo Lenho, beijado

sim, mas não acompanhado, esta via crucis não a palmilhou D. João V.

Provado está que Deus ama muito as suas criaturas. Depois de, por espaço de tantos

quilómetros e tempo de tantos dias, as ter experimentado em paciência e constância,

mandando-lhes insuportáveis frios e chuvas diluviais, consoante foi miudamente explicado,

quis premiar a resignação e a fé. E como a Deus nada é impossível, bastou-lhe fazer subir a

pressão atmosférica, pouco a pouco se levantaram as nuvens, apareceu o sol, e tudo isto se

deu enquanto os embaixadores combinavam a forma em que os reis se haviam de tratar,

espinhosa negociação, foram precisos três dias para se rematar o acordo, combinados

finalmente todos os passos, gestos e dizeres, minuto por minuto, para que se não

desdourasse nenhuma das coroas em atitude ou palavra de menor preço por comparação

com a vizinha. Quando, no dia dezanove, saiu el-rei de Elvas a caminho do Caia, que é logo

ali adiante, levando a rainha e os príncipes, com os infantes todos, estava o mais formoso

tempo que se podia desejar, cheio de sereno e agradável sol. Imagine, pois, quem lá não

esteve, as galas do extensíssimo cortejo, os frisões de crinas entrançadas puxando os

coches, as cintilações do ouro e da prata, as trombetas e os atabales à compita, os veludos

os archeiros, os esquadrões da guarda, as insígnias da religião, as faiscantes pedrarias, já

tínhamos visto tudo isto debaixo de chuva, agora juraremos que não há nada como o sol

para alegrar a vida dos homens e honrar as cerimónias.

O povo de Elvas e de muitas léguas em redor assiste na estrada, depois larga a correr

através dos campos para se colocar, espectador, ao longo do rio, é um mar de gente de um

e outro lado, portugueses de cá, espanhóis de lá, dão vivas e parabéns, ninguém diria que há

tantos séculos andamos a matar-nos uns aos outros, posto o que estaria talvez o remédio

em casar os de além com os de aquém, guerras, se as houver, serão só as domésticas, que

essas não se podem evitar. João Elvas está aqui há três dias, arranjou um bom lugar, que

seria de palanque, se os houvesse. Por singular capricho não quis entrar na cidade onde

nasceu, deram as saudades nesta abstenção. Há-de lá ir quando todos partirem, quando

puder andar, sozinho, pelas ruas silenciosas, sem mais jubilamento que o seu próprio, se

ainda o sentir, se não for antes dolorosa amargura repetir em velho os passos dados quando

novo. Foi graças a esta decisão que pôde, para dar ajuda à transportação de materiais, entrar

na casa onde se encontrarão os reis e os príncipes, a qual foi construída sobre a ponte de

pedra que atravessa o rio. Tem essa casa três salas, uma de cada lado para os soberanos de

cada país, outra central para as entregas, toma lá Bárbara, dá cá Mariana. Dos apuros finais

é que nada sabe, a ele competiu-lhe carregar a obra grossa, mas mesmo agora se afastou daqui aquele caridoso fidalgo, providência de João Elvas nesta viagem, Se visses como

aquilo ficou, nem reconhecias, do nosso lado são tudo tapeçarias e cortinados de damasco

carmesim com sanefas de brocado de ouro, e igualmente a metade da sala do meio que nos

pertence, e no tocante a Castela os adornos são tiras de brocado branco e verde, tendo ao

meio um grosso ramo de ouro donde aquelas saem, e ao centro da sala de encontro há uma

grande mesa com sete cadeiras do lado de Portugal e seis do lado de Espanha, todas

forradas de tissu de ouro as nossas, e de prata as deles, isto é só o que te posso dizer,

porque mais não vi, e agora vou-me, mas não tenhas inveja de mim, porque lá nem eu

posso entrar, quanto mais tu, imagina se fores capaz, se um dia nos tornarmos a encontrar,

eu te contarei como foi, se a mim mo contarem antes, para sabermos as coisas é assim que

terá de ser, vamo-las dizendo uns aos outros.

Foi muito comovente, choraram as mães e as filhas, os pais carregaram o cenho para

disfarçar o sentimento, os nubentes olhavam-se de soslaio, gostando-se ou não, eles o

sabem, eles o calarão. Aglomerado nas margens do rio, o povo não via nada, mas servia-se

das suas próprias experiências e recordações de boda, e assim imaginava os abraços dos

compadres, as efusões das comadres, as malícias sonsas dos noivos, os rubores calculados

das noivas, ora, ora, tanto faz rei como carvoeiro, não há melhor que o parrameiro, isto, a

bem dizer, é um povo de grosseirões.

Levou seu tempo a cerimónia. Às tantas calou-se por milagre a multidão, mal se

moviam as auriflamas e os estandartes nos mastros, os soldados olharam todos na direcção

da ponte e da casa. Começara a ouvir-se uma música delgadinha, suavíssima, um tilintar de

sininhos de vidro e prata, um harpejo às vezes rouco, como se a comoção apertasse a

garganta da harmonia, Que é isto, perguntou uma mulher ao lado de João Elvas, e o velho

respondeu, Não sei, alguém que está a tocar para divertimento das majestades e altezas, se

estivesse aqui o meu fidalgo perguntava-lhe, ele sabe tudo, é lá deles. Acabará a música,

todos irão aonde têm de ir, corre sossegadamente o rio Caia, de bandeiras não resta um fio,

de tambores um rufo, e João Elvas nunca chegará a saber que ouviu Domenico Scarlatti

tocando no seu cravo.