Memorial do Convento
Não veio el-rei, não veio o padre,…
Não veio el-rei, não veio o padre, o céu apareceu limpo outra vez, o sol brilhou, e
Blimunda e Baltasar tornaram à mesma ansiosa espera. Então o padre chegou. Ouviram
fora do portão os cascos da mula batendo com força, insólito caso, que isto não é animal
de arrebatamentos, temos novidade, talvez finalmente venha assistir el-rei ao grande
levantamento da passarola, mas assim, sem aviso, sem virem primeiro criados da sua casa
averiguar da limpeza do lugar, assegurar as comodidades, levantar os pavilhões, há-de ser
outra coisa. Era outra coisa. O padre Bartolomeu Lourenço entrou violentamente na
abegoaria, vinha pálido, lívido, cor de cinza, como um ressuscitado que já fosse
apodrecendo, Temos de fugir, o Santo Ofício anda à minha procura, querem prender-me,
onde estão os frascos. Blimunda abriu a arca, retirou umas roupas, Estão aqui, e Baltasar
perguntou, Que vamos fazer. O padre tremia todo, mal podia sustentar-se de pé, Blimunda
amparou-o, Que faremos, repetiu, e ele gritou, Vamos fugir na máquina, depois, como
subitamente assustado, murmurou quase inaudivelmente, apontando a passarola, Vamos
fugir nela, Para onde, Não sei, o que é preciso é fugir daqui. Baltasar e Blimunda olharam-
se demoradamente, Estava escrito, disse ele, Vamos, disse ela.
São duas horas da tarde e há tanto trabalho a fazer, não se pode perder um minuto,
retirar as telhas, cortar as ripas e os barrotes que não puderem ser arrancados, mas antes
disso colocar as bolas de âmbar nos cruzamentos dos arames, abrir as velas superiores para
que a luz do sol não caia cedo de mais sobre a máquina, transferir para as esferas as duas
mil vontades, mil deste lado, mil daquele, não vão puxar umas mais que outras, com perigo
de dar a máquina uma cambalhota no ar, se tiver de dá-la, que seja por razões que não
podíamos prever. Tanto trabalho ainda, e tão pouco o tempo. Baltasar já está no telhado,
retirando as telhas e lança-as para baixo, vai um estrilho de cacos em redor da abegoaria, e
o padre Bartolomeu Lourenço conseguiu vencer a prostração em que estava, e usa as suas
fracas forças para arrancar, de dentro, as ripas mais delgadas, que os barrotes requerem um
vigor que lhe falta, esses vão ter de esperar, enquanto Blimunda, calma como se em toda a
sua vida não tivesse feito mais que voar, verifica o estado das velas, se o breu está
espalhado por igual, e reforça algumas bainhas.
E agora que farás tu, Anjo Custódio, nunca tão necessário foste desde que te
nomearam para esse lugar, aqui tens estes três que não tarda se erguerão aos ares, lá aonde
nunca foram homens, e precisam de quem os proteja, eles por eles já fizeram quanto
podiam, reuniram os materiais e as vontades, conjugaram o sólido e o evanescente, juntaram tudo à sua própria ousadia, estão prontos, é só acabar de tirar este telhado, fechar
as velas, deixar entrar o sol, e adeus, cá vamos, se tu, Anjo Custódio, não ajudares ao
menos um poucochinho, não és anjo nem coisa nenhuma, claro está que não faltam santos
invocáveis, mas nenhum é, como tu, aritmético, tu sim, que sabes as treze palavras, e de
uma a treze, sem falha, as enumeras, e sendo esta uma obra que requer todas as geometrias
e matemáticas que se puderem reunir, podes começar já pela primeira palavra, que é a Casa
de Jerusalém onde Jesus Cristo morreu por todos nós, é o que dizem, e agora as duas
palavras, que são as duas Tábuas de Moisés onde Jesus Cristo pôs os pés, é o que dizem, e
agora as três palavras, que são as três pessoas da Santíssima Trindade, é o que dizem, e
agora as quatro palavras, que são os quatro evangelistas, João, Lucas, Marcos e Mateus, é o
que dizem, e agora as cinco palavras, que são as cinco chagas de Jesus Cristo, é o que
dizem, e agora as seis palavras, que são os seis círios bentos que Jesus Cristo teve no seu
nascimento, é o que dizem, e agora as sete palavras, que são os sete sacramentos, é o que
dizem, e agora as oito palavras, que são as oito bem-aventuranças, é o que dizem, e agora as
nove palavras, que são os nove meses que Nossa Senhora trouxe o seu bendito filho no seu
puríssimo ventre, é o que dizem, e agora as dez palavras, que são os dez mandamentos da
lei de Deus, é o que dizem, e agora as onze palavras, que são as onze mil virgens, é o que
dizem, e agora as doze palavras, que são os doze apóstolos, é o que dizem, e agora as treze
palavras, que são os treze raios que tem a lua, e isto sim, não é preciso que o digam, porque
pelo menos está Sete-Luas aqui, é aquela mulher que tem na mão um frasco de vidro, cuida
dela, Anjo Custódio, se se parte o vidro, lá se vai a viagem e não poderá fugir aquele padre
que pelos modos parece louco, cuida também do homem que está no telhado, falta-lhe a
mão esquerda, foi culpa tua, estavas desatento lá na batalha, talvez ainda não soubesses
bem a tua tabuada.
São quatro horas da tarde, a abegoaria é só paredes, parece imensa, a máquina de
voar ao meio, a forja minúscula cortada por uma faixa de sombra, no outro extremo o
canto da enxerga onde durante seis anos dormiram Baltasar e Blimunda, a arca já não está,
transportaram-na para dentro da passarola, que mais nos falta, os alforges, alguma comida,
e o cravo, que se há-de fazer do cravo, pois que fique, são egoísmos que devemos
compreender e desculpar, tanta é a aflição, nenhum destes três se lembra de que, ficando o
cravo, as justiças eclesiásticas e seculares hão-de sentir despertar a curiosidade, porquê e
para quê está aqui um instrumento tão pouco adequado ao sítio, e se foi um tufão que
arrancou as telhas e o travejamento, como é possível que não tenha destruído o cravo, tão
delicado que até mesmo a ombro de carregadores se lhe desacertaram os saltarelos, Não
tocará o senhor Escarlate no céu, disse Blimunda.
Agora, sim, podem partir. O padre Bartolomeu Lourenço olha o espaço celeste
descoberto, sem nuvens, o sol que parece uma custódia de ouro, depois Baltasar que segura
a corda com que se fecharão as velas, depois Blimunda, prouvera que adivinhassem os seus
olhos o futuro, Encomendemo-nos ao Deus que houver, disse-o num murmúrio, e outra
vez num sussurro estrangulado, Puxa, Baltasar, não o fez logo Baltasar, tremeu-lhe a mão,
que isto será como dizer Fiat, diz-se e aparece feito, o quê, puxa-se e mudamos de lugar,
para onde. Blimunda aproximou-se, pôs as duas mãos sobre a mão de Baltasar, e, num só
movimento, como se só desta maneira devesse ser, ambos puxaram a corda. A vela correu
toda para um lado, o sol bateu em cheio nas bolas de âmbar, e agora, que vai ser de nós. A
máquina estremeceu, oscilou como se procurasse um equilíbrio subitamente perdido,
ouviu-se um rangido geral, eram as lamelas de ferro, os vimes entrançados, e de repente,
como se a aspirasse um vórtice luminoso, girou duas vezes sobre si própria enquanto subia,
mal ultrapassara ainda a altura das paredes, até que, firme, novamente equilibrada, erguendo
a sua cabeça de gaivota, lançou-se em flecha, céu acima. Sacudidos pelos bruscos volteios,
Baltasar e Blimunda tinham caído no chão de tábuas da máquina, mas o padre Bartolomeu
Lourenço agarrara-se a um dos prumos que sustentavam as velas, e assim pôde ver afastar-
se a terra a uma velocidade incrível, já mal se distinguia a quinta, logo perdida entre colinas,
e aquilo além, que é, Lisboa, claro está, e o rio, oh, o mar, aquele mar por onde eu,
Bartolomeu Lourenço de Gusmão, vim por duas vezes do Brasil, o mar por onde viajei à
Holanda, a que mais continentes da terra e do ar me levarás tu, máquina, o vento ruge-me
aos ouvidos, nunca ave alguma subiu tão alto se me visse el-rei, se me visse aquele Tomás
Pinto Brandão que se riu de mim em verso, se o Santo Ofício me visse, saberiam todos que
sou filho predilecto de Deus, eu sim, eu que estou subindo ao céu por obra do meu génio,
por obra também dos olhos de Blimunda, se haverá no céu olhos como eles, por obra da
mão direita de Baltasar, aqui te levo, Deus um que também não tem a mão esquerda,
Blimunda, Baltasar, venham ver, levantem-se daí, não tenham medo.
Não tinham medo, estavam apenas assustados com a sua própria coragem. O padre
ria, dava gritos, deixara já a segurança do prumo e percorria o convés da máquina de um
lado a outro para poder olhar a terra em todos os seus pontos cardeais, tão grande agora
que estavam longe dela, enfim levantaram-se Baltasar e Blimunda, agarrando-se
nervosamente aos prumos, depois à amurada, deslumbrados de luz e de vento, logo sem
nenhum susto, Ah e Baltasar gritou, Conseguimos, abraçou-se a Blimunda e desatou a
chorar, parecia uma criança perdida, um soldado que andou na guerra, que nos Pegões
matou um homem com o seu espigão, e agora soluça de felicidade abraçado a Blimunda,
que lhe beija a cara suja, então, então. O padre veio para eles e abraçou-se também, subitamente perturbado por uma analogia, assim dissera o italiano, Deus ele próprio,
Baltasar seu filho, Blimunda o Espírito Santo, e estavam os três no céu, Só há um Deus,
gritou, mas o vento levou-lhe as palavras da boca. Então Blimunda disse, Se não abrirmos a
vela, continuaremos a subir, aonde iremos parar, talvez ao sol.
Nunca perguntamos se haverá juízo na loucura, mas vamos dizendo que de louco
todos temos um pouco. São maneiras de nos segurarmos do lado de cá, imagine-se, darem
os doidos como pretexto para exigir igualdades no mundo dos sensatos, só loucos um
pouco, o mínimo juízo que conservem, por exemplo, salvaguardarem a própria vida, como
está fazendo o padre Bartolomeu Lourenço, Se abrirmos de repente a vela, cairemos na
terra como uma pedra, e é ele quem vai manobrar a corda, dar-lhe a folga precisa para que
se estenda a vela sem esforço, tudo depende agora do jeito, e a vela abre-se devagar, faz
descer a sombra sobre as bolas de âmbar e a máquina diminui de velocidade, quem diria
que tão facilmente se poderia ser piloto nos ares, já podemos ir à procura das novas Índias.
A máquina deixou de subir, está parada no céu, de asas abertas, o bico virado para o Norte,
se se está movendo, não parece. O padre abre mais a vela, três quartas partes das bolas de
âmbar estão já à sombra, e a máquina desce suavemente, é como estar dentro de um bote
num lago tranquilo, um jeito no leme, um harpejo de remo, as coisas que um homem é
capaz de inventar. Devagar, a terra aproxima-se, Lisboa distingue-se melhor, o rectângulo
torto do Terreiro do Paço, o labirinto das ruas e travessas, o friso das varandas onde o
padre morava, e onde agora estão entrando os familiares do Santo Ofício para o
prenderem, tarde piaram, gente tão escrupulosa dos interesses do céu e não se lembram de
olhar para cima, é certo que, a tal altura, a máquina é um pontinho no azul, como
levantariam os olhos se estão aterrados diante de uma Bíblia rasgada na altura do
Pentateuco, de um Alcorão feito em pedaços indecifráveis, e já saem, vão na direcção do
Rossio, do palácio dos Estaus, a informar que fugiu o padre a quem iam buscar para o
cárcere, e não adivinham que o protege a grande abóbada celeste aonde eles nunca irão, é
bem verdade que Deus escolhe os seus favoritos, doidos, defeituosos, excessivos, mas não
familiares do Santo Ofício. Desce a passarola um pouco mais, com algum esforço se
observa a quinta do duque de Aveiro, é certo que estes aviadores são principiantes, falta-
lhes a experiência que permitiria identificar de relance os acidentes principais, os cursos de
água, as lagoas, as povoações como estrelas derramadas no chão, as escuras florestas, mas
lá estão as quatro paredes da abegoaria, o aeroporto donde levantaram voo, lembra-se o
padre Bartolomeu Lourenço de que tem um óculo na arca, em dois tempos o vai buscar e
aponta, oh que maravilha é viver e inventar, vê-se claramente, a enxerga ao canto, a forja;
só o cravo desapareceu, que foi que aconteceu ao cravo, nós o sabemos e vamos dizer, que indo Domenico Scarlatti à quinta, viu, já chegando perto, levantar-se de repente a máquina,
num grande sopro de asas, que faria se elas batessem, e tendo entrado deu com os
destroços da largada, as telhas partidas, espalhadas pelo chão, as ripas e os barrotes
cortados ou arrancados, não há nada mais triste que uma ausência, corre o avião pista fora,
levanta-se ao ar, só fica uma pungente melancolia, esta que faz sentar-se Domenico
Scarlatti ao cravo e tocar. um pouco, quase nada, apenas passando os dedos pelas teclas
como se estivessem aflorando um rosto quando já as palavras foram ditas ou são de menos,
e depois, porque muito bem sabe ser perigoso deixar ali o cravo, arrasta-o para fora, sobre
o chão irregular, aos solavancos, gemem desencontradas as cordas, agora sim se
desacertarão os saltarelos e vai ser para nunca mais, levou Scarlatti o cravo até ao bocal do
poço, felizmente que é baixo, e levantando-o em peso, muito lhe custa, o precipita a fundo,
bate a caixa duas vezes na parede interior, todas as cordas gritam, e enfim cai na água,
ninguém sabe o destino para que está guardado, cravo que tão bem tocava, agora descendo,
gorgolejando como um afogado, até assentar no lodo. Do alto já não se vê o músico, vai
por aí, por essas azinhagas, porventura desviando o caminho, porventura olhando para
cima, torna a ver a passarola, acena com o chapéu, uma vez só, melhor é disfarçar, fingir
que não sabe nada, por isso não o viram da nave, quem sabe se tornarão a encontrar-se.
O vento está do Sul, uma brisa que mal faz agitar os cabelos de Blimunda, com esta
aragem não poderão ir a lado algum, seria o mesmo que querer atravessar o oceano a nado,
por isso Baltasar pergunta, Dou ao fole, todas as moedas têm duas faces, primeiro
proclamou o padre, Só há um Deus, agora quer Baltasar saber, Dou ao fole, primeiro o
sublime, depois o trivial, quando Deus não sopra, tem o homem de fazer força. Mas o
padre Bartolomeu Lourenço parece ter sido tocado por um ramo de estupor, não fala, não
se mexe, apenas olha o grande círculo da terra, uma parte de rio e mar, uma parte de monte
e planície, se aquilo não é espuma, além, será a vela branca duma nau, se não for farrapo de
névoa é fumo de chaminé, e contudo dir-se-ia que o mundo acabou, os homens nele, o
silêncio aflige, e o vento caiu, nem um cabelo de Blimunda se move, Dá ao fole, Baltasar,
disse o padre.
É como a pedaleira de um órgão, tem umas sapatas para encaixe dos pés, e, à altura
do peito, fixada ao cavername da máquina, há uma barra para apoio dos braços, não é
nenhuma invenção complementar do padre Bartolomeu Lourenço, foi ir à sé patriarcal e
imitar do órgão que lá está, a diferença é que neste não há música para ouvir, apenas o
resfolgo do sopro atirado para as asas e para a cauda da passarola, que finalmente começa a
mover-se, devagar, tão devagar que só de a ver assim cansada, e ainda não chegou a voar
um tiro de besta já é Baltasar que está cansado, também desta maneira não vamos a parte alguma. De cara fechada, o padre avalia os esforços de Sete-Sóis, compreende que a sua
grande invenção tem um ponto fraco, no espaço celeste não se pode fazer como na água,
meter os remos ao ar quando falta o vento, Pára, não dês mais aos foles, e Baltasar,
esgotado, senta-se no fundo da máquina o susto, o júbilo, cada qual de sua vez, já
passaram, agora vem o desânimo, subir e descer sabem eles, estão como homem que fosse
capaz de levantar-se e deitar-se mas não de andar. O sol vai baixando para o lado da barra,
já se estendem as sombras na terra.
O padre Bartolomeu Lourenço sente uma inquietação cuja causa não consegue
discernir, mas dela o distrai a súbita observação de que se orientam para o norte as nuvens
de fumo de uma queimada distante, quer isto dizer que, próximo da terra, o vento não
deixou de soprar. Manobra a vela, estende-a um pouco mais, de modo a cobrir de sombra
outra fileira de bolas de âmbar, e a máquina desce bruscamente, porém não o bastante para
apanhar o vento. Mais uma fileira deixa de receber a luz do sol, a queda é tão violenta que o
estômago parece querer saltar-lhes pela boca, e agora sim, o vento colhe a máquina com
uma mão poderosa e invisível e lança-a para a frente, com tal velocidade que de repente
fica Lisboa para trás, já no horizonte, diluída numa bruma seca, é como se finalmente
tivessem abandonado o porto e as suas amarras para ir descobrir os caminhos ocultos, por
isso se lhes aperta o coração tanto, quem sabe que perigos os esperam que adamastores,
que fogos de santelmo acaso se levantam do mar, que ao longe se vê, trombas de água que
vão sugar os ares e o tornam a dar salgado. Então Blimunda perguntou, Aonde vamos, e o
padre respondeu, Lá aonde não possa chegar o braço do Santo Ofício, se existe esse lugar.
Este povo, que tanto espera do céu, olha pouco para o alto onde se diz que o céu é.
Anda gente a trabalhar nos campos, as pessoas, nas aldeias, entram e saem das casas, vão ao
quintal, à fonte, agacham-se atrás dum pinheiro, só uma mulher. que está deitada num
restolho com um homem em cima de si, cuida ver qualquer coisa a passar no céu, mas julga
serem visões próprias de quem está a gostar tanto. Só as aves, curiosas, voam, e perguntam,
girando em redor da máquina ansiosamente, que é, que é, talvez seja este o messias dos
pássaros, em comparação, a águia não passa de um S. João Baptista qualquer, Após mim
vem aquele que é mais forte do que eu, a história da aviação não acaba aqui. Durante algum
tempo voaram acompanhados por um milhafre que assustara e fizera fugir todos os
pássaros, iam só os dois, o milhafre adejando e pairando, percebe-se que voe, a passarola
sem mover as asas, não soubéssemos nós que isto é feito de sol, âmbar, nuvens fechadas,
ímanes e lamelas de ferro, e não acreditaríamos no que os nossos olhos vêem, além de que
não teríamos a desculpa da mulher que estava deitada no restolho e já não está, acabou-se-
lhe o gosto, daqui nem o sítio se vê.
O vento mudou para Sudeste, sopra com muita força, a terra passa em baixo como a
superfície móvel de um rio que transportasse na corrente campos, bosques, aldeias, cores
de verde e amarelo, ocres e castanhos, paredes brancas, velas de moinhos, e também fios de
água sobre a água, que forças seriam capazes de fazer a separação dessas águas, o grande rio
que passa e tudo leva consigo, os pequenos regatos que nele procuram caminho, água
dentro da água, e não o sabem.
Estão os três voadores à proa da máquina, vão na direcção do poente, e o padre
Bartolomeu Lourenço sente que a inquietação regressou e cresce é pânico já, enfim vai ter
voz, e essa voz é um gemido, quando o sol se puser, descerá irremediavelmente a máquina,
talvez caia, talvez se despedace e todos morrerão, É Mafra, além, grita Baltasar, parece o
gajeiro a bradar do cesto da gávea, Terra, nunca comparação alguma foi tão exacta, porque
esta é a terra de Baltasar, reconhece-a, mesmo nunca a tendo visto do ar, quem sabe se por
termos no coração uma orografia particular que, para cada um de nós, acertará com o
particular lugar onde nascemos, o côncavo meu no teu convexo, no meu convexo o teu
côncavo, é o mesmo que homem e mulher, mulher e homem, terra somos na terra, por isso
é que Baltasar grita, É a minha terra, reconhece-a como um corpo. Passam velozmente
sobre as obras do convento, mas desta vez há quem os veja, gente que foge espavorida,
gente que se ajoelha ao acaso e levanta as mãos implorativas de misericórdia, gente que
atira pedras, o alvoroço toma conta de milhares de homens, quem não chegou a ver duvida,
quem viu, jura e pede o testemunho do vizinho, mas provas já ninguém as pode apresentar
porque a máquina afastou-se na direcção do sol, tornou-se invisível contra o disco
refulgente, talvez não tivesse sido mais que uma alucinação, já os cépticos triunfam sobre a
perplexidade dos que acreditaram.
Em poucos minutos, a máquina atinge a costa do mar, parece que a está puxando o
sol para a levar ao outro lado do mundo. O padre Bartolomeu Lourenço compreende que
vão cair na água, puxa violentamente a corda, a vela corre toda para um lado, fecha-se de
golpe, e a subida é tão rápida que a terra se alarga de novo e o sol surge muito acima do
horizonte. É demasiado tarde, porém. Para o lado do oriente já se avistam sombras, a noite
está-se aproximando, não é possível fugir-lhe. Pouco a pouco, a máquina começa a derivar
para nordeste, em linha recta, obliquando na direcção da terra, sujeita à dupla atracção da
luz, que rapidamente enfraquece, mas ainda tem forças para a sustentar no espaço, e da
escuridão nocturna, que já oculta os vales distantes. Agora não se sente o vento natural,
vencido pela violenta corrente de ar provocada pela descida, pelo silvo agudo que a
deslocação faz vibrar na cobertura de vime. O sol está pousado no horizonte do mar, como
uma laranja na palma da mão, é um disco metálico retirado da forja para arrefecer, já o seu brilho não fere os olhos, foi branco, cereja, rubro, vermelho, ainda fulge, mas
sombriamente, está a despedir-se, adeus, até amanhã, se houver amanhã para os três nautas
aéreos que tombam como uma ave ferida de morte, mal equilibrada nas asas curtas, com o
seu diadema de âmbar, em círculos concêntricos, queda que parece infinita e vai acabar. Na
frente deles ergue-se um vulto escuro, será o adamastor desta viagem, montes que se
erguem redondos da terra, ainda riscados de luz vermelha na cumeada. O padre
Bartolomeu Lourenço olha indiferente, está fora do mundo, para além da própria
resignação, espera o fim que não vai tardar. Mas de súbito Blimunda solta-se de Baltasar, a
quem convulsa se agarrara quando a máquina precipitou a descida, e rodeia com os braços
uma das esferas que contêm as nuvens fechadas, as vontades, duas mil são mas não
chegam, cobre-as com o corpo, como se as quisesse meter dentro de si ou juntar-se a elas.
A máquina dá um salto brusco, levanta a cabeça, cavalo a que puxaram o bridão, suspende-
se por um segundo, hesita, depois recomeça a cair, mas menos depressa, e Blimunda grita,
Baltasar, Baltasar, não precisou chamar três vezes; já ele se abraçara com a outra esfera,
fazia corpo com ela, Sete-Luas e Sete-Sóis sustentando com as suas nuvens fechadas a
máquina que baixava, agora devagar, tão devagar que mal rangeram os vimes quando tocou
o chão, só bandeou para um lado, não havia ali espeques para a receber, é que não se pode
ter tudo. Frouxos de membros, extenuados, os três viajantes escorregaram para fora,
tentaram ainda segurar-se à amurada, não o conseguiram, e, rolando, acharam-se estendidos
no chão, nem sequer feridos de raspão, é bem verdade que não se acabaram os milagres, e
este foi dos bons, nem foi preciso invocar S. Cristóvão, ele lá estava, vigiando o trânsito,
viu aquele avião desgovernado, deitou-lhe a grande mão e evitou a catástrofe, para seu
primeiro milagre aéreo não esteve nada mal.
Despede-se o último ar de dia, não tarda que se feche a noite completamente, luzem
no céu as primeiras estrelas, nem por terem estes chegado tão perto puderam alcançá-las,
afinal das contas, que foi isto, o salto duma pulga, subimos ao ar em Lisboa, sobrevoámos a
vila de Mafra e a obra do convento, estivemos prestes a cair ao mar, e agora, Onde
estamos, perguntou Blimunda, e gemeu porque o estômago lhe doía muito, os braços
tinha-os quebrados de forças, inertes, do mesmo se estava queixando Baltasar enquanto se
punha de pé e tentava endireitar-se, cambaleando como os bois antes de caírem redondos
com o crânio perfurado pela choupa, muita sorte a sua, que, ao contrário deles, passava da
quase morte para a vida, não lhe faz mal nenhum cambalear, para que saiba quanto vale
poder assentar os pés no chão, Não conheço onde estamos, nunca estive neste sítio, a mim
parece-me uma serra, talvez o padre Bartolomeu Lourenço tenha informações. O padre
estava a levantar-se, não lhe doíam os membros nem o estômago, apenas a cabeça, mas essa era como se um estilete lhe perfurasse de lado a lado as fontes, Estamos em tão grande
perigo como se não tivéssemos chegado a sair da quinta, se ontem não nos encontraram,
encontram-nos amanhã, Mas este lugar onde estamos, como se chama, Todo o lugar da
terra é antecâmara do inferno, umas vezes vai-se morto a ele, outras vai-se vivo e a morte é
depois que vem, Por enquanto ainda estamos vivos, Amanhã estaremos mortos.
Blimunda aproximou-se do padre, disse, Passámos por um grande perigo quando
descemos, se fomos capazes de nos livrar desse, doutros também nos livraremos, diga para
onde devemos ir, Não sei onde estamos, Quando nascer o dia, veremos melhor, subiremos
a um destes montes, e de lá, orientando-nos pelo sol, acharemos caminho, e Baltasar
acrescentou, Faremos subir a máquina, já conhecemos as manobras, se O vento nos não
faltar, um dia inteiro dará para chegarmos longe, onde o Santo Ofício o não alcance. O
padre Bartolomeu Lourenço não respondeu. Apertava a cabeça entre as mãos, depois fazia
gestos como se conversasse com um ser invisível, e o seu vulto tornava-se cada vez mais
impreciso na escuridão. A máquina pousara num espaço coberto de mato rasteiro, mas, a
trinta passos para um lado e para outro, havia moitas altas que se recortavam contra o céu.
Tanto quanto dali se podia julgar, não havia sinais de gente nas proximidades. A noite
arrefecera muito, nem admirava, Setembro estava no fim e o dia não fora quente. Na
revessa da máquina, abrigado do vento, Baltasar acendeu um pequeno lume, mais por se
sentirem acompanhados do que para se aquecerem, não convindo, aliás, fazer grande
fogueira que poderia ser vista de longe. Sentaram-se, ele e Blimunda, a comer do que
traziam no alforge, primeiro chamaram o padre, mas ele não respondeu nem se aproximou,
via-se o seu vulto, de pé, agora quieto, talvez estivesse olhando as estrelas, talvez o vale
profundo, as terras baixas onde não brilhava uma só luz, parecia que o mundo tinha sido
abandonado pelos seus habitantes, afinal não faltavam por aí máquinas voadoras capazes
de viajar com qualquer tempo, até de noite, foi-se toda a gente embora, ficaram estes três
com um passaroco que não sabe para onde há-de ir se lhe tiram o sol.