Memorial do Convento

José Saramago · Capítulo 15 de 30

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Memorial do Convento

Não veio el-rei, não veio o padre,…

Não veio el-rei, não veio o padre, o céu apareceu limpo outra vez, o sol brilhou, e

Blimunda e Baltasar tornaram à mesma ansiosa espera. Então o padre chegou. Ouviram

fora do portão os cascos da mula batendo com força, insólito caso, que isto não é animal

de arrebatamentos, temos novidade, talvez finalmente venha assistir el-rei ao grande

levantamento da passarola, mas assim, sem aviso, sem virem primeiro criados da sua casa

averiguar da limpeza do lugar, assegurar as comodidades, levantar os pavilhões, há-de ser

outra coisa. Era outra coisa. O padre Bartolomeu Lourenço entrou violentamente na

abegoaria, vinha pálido, lívido, cor de cinza, como um ressuscitado que já fosse

apodrecendo, Temos de fugir, o Santo Ofício anda à minha procura, querem prender-me,

onde estão os frascos. Blimunda abriu a arca, retirou umas roupas, Estão aqui, e Baltasar

perguntou, Que vamos fazer. O padre tremia todo, mal podia sustentar-se de pé, Blimunda

amparou-o, Que faremos, repetiu, e ele gritou, Vamos fugir na máquina, depois, como

subitamente assustado, murmurou quase inaudivelmente, apontando a passarola, Vamos

fugir nela, Para onde, Não sei, o que é preciso é fugir daqui. Baltasar e Blimunda olharam-

se demoradamente, Estava escrito, disse ele, Vamos, disse ela.

São duas horas da tarde e há tanto trabalho a fazer, não se pode perder um minuto,

retirar as telhas, cortar as ripas e os barrotes que não puderem ser arrancados, mas antes

disso colocar as bolas de âmbar nos cruzamentos dos arames, abrir as velas superiores para

que a luz do sol não caia cedo de mais sobre a máquina, transferir para as esferas as duas

mil vontades, mil deste lado, mil daquele, não vão puxar umas mais que outras, com perigo

de dar a máquina uma cambalhota no ar, se tiver de dá-la, que seja por razões que não

podíamos prever. Tanto trabalho ainda, e tão pouco o tempo. Baltasar já está no telhado,

retirando as telhas e lança-as para baixo, vai um estrilho de cacos em redor da abegoaria, e

o padre Bartolomeu Lourenço conseguiu vencer a prostração em que estava, e usa as suas

fracas forças para arrancar, de dentro, as ripas mais delgadas, que os barrotes requerem um

vigor que lhe falta, esses vão ter de esperar, enquanto Blimunda, calma como se em toda a

sua vida não tivesse feito mais que voar, verifica o estado das velas, se o breu está

espalhado por igual, e reforça algumas bainhas.

E agora que farás tu, Anjo Custódio, nunca tão necessário foste desde que te

nomearam para esse lugar, aqui tens estes três que não tarda se erguerão aos ares, lá aonde

nunca foram homens, e precisam de quem os proteja, eles por eles já fizeram quanto

podiam, reuniram os materiais e as vontades, conjugaram o sólido e o evanescente, juntaram tudo à sua própria ousadia, estão prontos, é só acabar de tirar este telhado, fechar

as velas, deixar entrar o sol, e adeus, cá vamos, se tu, Anjo Custódio, não ajudares ao

menos um poucochinho, não és anjo nem coisa nenhuma, claro está que não faltam santos

invocáveis, mas nenhum é, como tu, aritmético, tu sim, que sabes as treze palavras, e de

uma a treze, sem falha, as enumeras, e sendo esta uma obra que requer todas as geometrias

e matemáticas que se puderem reunir, podes começar já pela primeira palavra, que é a Casa

de Jerusalém onde Jesus Cristo morreu por todos nós, é o que dizem, e agora as duas

palavras, que são as duas Tábuas de Moisés onde Jesus Cristo pôs os pés, é o que dizem, e

agora as três palavras, que são as três pessoas da Santíssima Trindade, é o que dizem, e

agora as quatro palavras, que são os quatro evangelistas, João, Lucas, Marcos e Mateus, é o

que dizem, e agora as cinco palavras, que são as cinco chagas de Jesus Cristo, é o que

dizem, e agora as seis palavras, que são os seis círios bentos que Jesus Cristo teve no seu

nascimento, é o que dizem, e agora as sete palavras, que são os sete sacramentos, é o que

dizem, e agora as oito palavras, que são as oito bem-aventuranças, é o que dizem, e agora as

nove palavras, que são os nove meses que Nossa Senhora trouxe o seu bendito filho no seu

puríssimo ventre, é o que dizem, e agora as dez palavras, que são os dez mandamentos da

lei de Deus, é o que dizem, e agora as onze palavras, que são as onze mil virgens, é o que

dizem, e agora as doze palavras, que são os doze apóstolos, é o que dizem, e agora as treze

palavras, que são os treze raios que tem a lua, e isto sim, não é preciso que o digam, porque

pelo menos está Sete-Luas aqui, é aquela mulher que tem na mão um frasco de vidro, cuida

dela, Anjo Custódio, se se parte o vidro, lá se vai a viagem e não poderá fugir aquele padre

que pelos modos parece louco, cuida também do homem que está no telhado, falta-lhe a

mão esquerda, foi culpa tua, estavas desatento lá na batalha, talvez ainda não soubesses

bem a tua tabuada.

São quatro horas da tarde, a abegoaria é só paredes, parece imensa, a máquina de

voar ao meio, a forja minúscula cortada por uma faixa de sombra, no outro extremo o

canto da enxerga onde durante seis anos dormiram Baltasar e Blimunda, a arca já não está,

transportaram-na para dentro da passarola, que mais nos falta, os alforges, alguma comida,

e o cravo, que se há-de fazer do cravo, pois que fique, são egoísmos que devemos

compreender e desculpar, tanta é a aflição, nenhum destes três se lembra de que, ficando o

cravo, as justiças eclesiásticas e seculares hão-de sentir despertar a curiosidade, porquê e

para quê está aqui um instrumento tão pouco adequado ao sítio, e se foi um tufão que

arrancou as telhas e o travejamento, como é possível que não tenha destruído o cravo, tão

delicado que até mesmo a ombro de carregadores se lhe desacertaram os saltarelos, Não

tocará o senhor Escarlate no céu, disse Blimunda.

Agora, sim, podem partir. O padre Bartolomeu Lourenço olha o espaço celeste

descoberto, sem nuvens, o sol que parece uma custódia de ouro, depois Baltasar que segura

a corda com que se fecharão as velas, depois Blimunda, prouvera que adivinhassem os seus

olhos o futuro, Encomendemo-nos ao Deus que houver, disse-o num murmúrio, e outra

vez num sussurro estrangulado, Puxa, Baltasar, não o fez logo Baltasar, tremeu-lhe a mão,

que isto será como dizer Fiat, diz-se e aparece feito, o quê, puxa-se e mudamos de lugar,

para onde. Blimunda aproximou-se, pôs as duas mãos sobre a mão de Baltasar, e, num só

movimento, como se só desta maneira devesse ser, ambos puxaram a corda. A vela correu

toda para um lado, o sol bateu em cheio nas bolas de âmbar, e agora, que vai ser de nós. A

máquina estremeceu, oscilou como se procurasse um equilíbrio subitamente perdido,

ouviu-se um rangido geral, eram as lamelas de ferro, os vimes entrançados, e de repente,

como se a aspirasse um vórtice luminoso, girou duas vezes sobre si própria enquanto subia,

mal ultrapassara ainda a altura das paredes, até que, firme, novamente equilibrada, erguendo

a sua cabeça de gaivota, lançou-se em flecha, céu acima. Sacudidos pelos bruscos volteios,

Baltasar e Blimunda tinham caído no chão de tábuas da máquina, mas o padre Bartolomeu

Lourenço agarrara-se a um dos prumos que sustentavam as velas, e assim pôde ver afastar-

se a terra a uma velocidade incrível, já mal se distinguia a quinta, logo perdida entre colinas,

e aquilo além, que é, Lisboa, claro está, e o rio, oh, o mar, aquele mar por onde eu,

Bartolomeu Lourenço de Gusmão, vim por duas vezes do Brasil, o mar por onde viajei à

Holanda, a que mais continentes da terra e do ar me levarás tu, máquina, o vento ruge-me

aos ouvidos, nunca ave alguma subiu tão alto se me visse el-rei, se me visse aquele Tomás

Pinto Brandão que se riu de mim em verso, se o Santo Ofício me visse, saberiam todos que

sou filho predilecto de Deus, eu sim, eu que estou subindo ao céu por obra do meu génio,

por obra também dos olhos de Blimunda, se haverá no céu olhos como eles, por obra da

mão direita de Baltasar, aqui te levo, Deus um que também não tem a mão esquerda,

Blimunda, Baltasar, venham ver, levantem-se daí, não tenham medo.

Não tinham medo, estavam apenas assustados com a sua própria coragem. O padre

ria, dava gritos, deixara já a segurança do prumo e percorria o convés da máquina de um

lado a outro para poder olhar a terra em todos os seus pontos cardeais, tão grande agora

que estavam longe dela, enfim levantaram-se Baltasar e Blimunda, agarrando-se

nervosamente aos prumos, depois à amurada, deslumbrados de luz e de vento, logo sem

nenhum susto, Ah —e Baltasar gritou, Conseguimos, abraçou-se a Blimunda e desatou a

chorar, parecia uma criança perdida, um soldado que andou na guerra, que nos Pegões

matou um homem com o seu espigão, e agora soluça de felicidade abraçado a Blimunda,

que lhe beija a cara suja, então, então. O padre veio para eles e abraçou-se também, subitamente perturbado por uma analogia, assim dissera o italiano, Deus ele próprio,

Baltasar seu filho, Blimunda o Espírito Santo, e estavam os três no céu, Só há um Deus,

gritou, mas o vento levou-lhe as palavras da boca. Então Blimunda disse, Se não abrirmos a

vela, continuaremos a subir, aonde iremos parar, talvez ao sol.

Nunca perguntamos se haverá juízo na loucura, mas vamos dizendo que de louco

todos temos um pouco. São maneiras de nos segurarmos do lado de cá, imagine-se, darem

os doidos como pretexto para exigir igualdades no mundo dos sensatos, só loucos um

pouco, o mínimo juízo que conservem, por exemplo, salvaguardarem a própria vida, como

está fazendo o padre Bartolomeu Lourenço, Se abrirmos de repente a vela, cairemos na

terra como uma pedra, e é ele quem vai manobrar a corda, dar-lhe a folga precisa para que

se estenda a vela sem esforço, tudo depende agora do jeito, e a vela abre-se devagar, faz

descer a sombra sobre as bolas de âmbar e a máquina diminui de velocidade, quem diria

que tão facilmente se poderia ser piloto nos ares, já podemos ir à procura das novas Índias.

A máquina deixou de subir, está parada no céu, de asas abertas, o bico virado para o Norte,

se se está movendo, não parece. O padre abre mais a vela, três quartas partes das bolas de

âmbar estão já à sombra, e a máquina desce suavemente, é como estar dentro de um bote

num lago tranquilo, um jeito no leme, um harpejo de remo, as coisas que um homem é

capaz de inventar. Devagar, a terra aproxima-se, Lisboa distingue-se melhor, o rectângulo

torto do Terreiro do Paço, o labirinto das ruas e travessas, o friso das varandas onde o

padre morava, e onde agora estão entrando os familiares do Santo Ofício para o

prenderem, tarde piaram, gente tão escrupulosa dos interesses do céu e não se lembram de

olhar para cima, é certo que, a tal altura, a máquina é um pontinho no azul, como

levantariam os olhos se estão aterrados diante de uma Bíblia rasgada na altura do

Pentateuco, de um Alcorão feito em pedaços indecifráveis, e já saem, vão na direcção do

Rossio, do palácio dos Estaus, a informar que fugiu o padre a quem iam buscar para o

cárcere, e não adivinham que o protege a grande abóbada celeste aonde eles nunca irão, é

bem verdade que Deus escolhe os seus favoritos, doidos, defeituosos, excessivos, mas não

familiares do Santo Ofício. Desce a passarola um pouco mais, com algum esforço se

observa a quinta do duque de Aveiro, é certo que estes aviadores são principiantes, falta-

lhes a experiência que permitiria identificar de relance os acidentes principais, os cursos de

água, as lagoas, as povoações como estrelas derramadas no chão, as escuras florestas, mas

lá estão as quatro paredes da abegoaria, o aeroporto donde levantaram voo, lembra-se o

padre Bartolomeu Lourenço de que tem um óculo na arca, em dois tempos o vai buscar e

aponta, oh que maravilha é viver e inventar, vê-se claramente, a enxerga ao canto, a forja;

só o cravo desapareceu, que foi que aconteceu ao cravo, nós o sabemos e vamos dizer, que indo Domenico Scarlatti à quinta, viu, já chegando perto, levantar-se de repente a máquina,

num grande sopro de asas, que faria se elas batessem, e tendo entrado deu com os

destroços da largada, as telhas partidas, espalhadas pelo chão, as ripas e os barrotes

cortados ou arrancados, não há nada mais triste que uma ausência, corre o avião pista fora,

levanta-se ao ar, só fica uma pungente melancolia, esta que faz sentar-se Domenico

Scarlatti ao cravo e tocar. um pouco, quase nada, apenas passando os dedos pelas teclas

como se estivessem aflorando um rosto quando já as palavras foram ditas ou são de menos,

e depois, porque muito bem sabe ser perigoso deixar ali o cravo, arrasta-o para fora, sobre

o chão irregular, aos solavancos, gemem desencontradas as cordas, agora sim se

desacertarão os saltarelos e vai ser para nunca mais, levou Scarlatti o cravo até ao bocal do

poço, felizmente que é baixo, e levantando-o em peso, muito lhe custa, o precipita a fundo,

bate a caixa duas vezes na parede interior, todas as cordas gritam, e enfim cai na água,

ninguém sabe o destino para que está guardado, cravo que tão bem tocava, agora descendo,

gorgolejando como um afogado, até assentar no lodo. Do alto já não se vê o músico, vai

por aí, por essas azinhagas, porventura desviando o caminho, porventura olhando para

cima, torna a ver a passarola, acena com o chapéu, uma vez só, melhor é disfarçar, fingir

que não sabe nada, por isso não o viram da nave, quem sabe se tornarão a encontrar-se.

O vento está do Sul, uma brisa que mal faz agitar os cabelos de Blimunda, com esta

aragem não poderão ir a lado algum, seria o mesmo que querer atravessar o oceano a nado,

por isso Baltasar pergunta, Dou ao fole, todas as moedas têm duas faces, primeiro

proclamou o padre, Só há um Deus, agora quer Baltasar saber, Dou ao fole, primeiro o

sublime, depois o trivial, quando Deus não sopra, tem o homem de fazer força. Mas o

padre Bartolomeu Lourenço parece ter sido tocado por um ramo de estupor, não fala, não

se mexe, apenas olha o grande círculo da terra, uma parte de rio e mar, uma parte de monte

e planície, se aquilo não é espuma, além, será a vela branca duma nau, se não for farrapo de

névoa é fumo de chaminé, e contudo dir-se-ia que o mundo acabou, os homens nele, o

silêncio aflige, e o vento caiu, nem um cabelo de Blimunda se move, Dá ao fole, Baltasar,

disse o padre.

É como a pedaleira de um órgão, tem umas sapatas para encaixe dos pés, e, à altura

do peito, fixada ao cavername da máquina, há uma barra para apoio dos braços, não é

nenhuma invenção complementar do padre Bartolomeu Lourenço, foi ir à sé patriarcal e

imitar do órgão que lá está, a diferença é que neste não há música para ouvir, apenas o

resfolgo do sopro atirado para as asas e para a cauda da passarola, que finalmente começa a

mover-se, devagar, tão devagar que só de a ver assim cansada, e ainda não chegou a voar

um tiro de besta já é Baltasar que está cansado, também desta maneira não vamos a parte alguma. De cara fechada, o padre avalia os esforços de Sete-Sóis, compreende que a sua

grande invenção tem um ponto fraco, no espaço celeste não se pode fazer como na água,

meter os remos ao ar quando falta o vento, Pára, não dês mais aos foles, e Baltasar,

esgotado, senta-se no fundo da máquina o susto, o júbilo, cada qual de sua vez, já

passaram, agora vem o desânimo, subir e descer sabem eles, estão como homem que fosse

capaz de levantar-se e deitar-se mas não de andar. O sol vai baixando para o lado da barra,

já se estendem as sombras na terra.

O padre Bartolomeu Lourenço sente uma inquietação cuja causa não consegue

discernir, mas dela o distrai a súbita observação de que se orientam para o norte as nuvens

de fumo de uma queimada distante, quer isto dizer que, próximo da terra, o vento não

deixou de soprar. Manobra a vela, estende-a um pouco mais, de modo a cobrir de sombra

outra fileira de bolas de âmbar, e a máquina desce bruscamente, porém não o bastante para

apanhar o vento. Mais uma fileira deixa de receber a luz do sol, a queda é tão violenta que o

estômago parece querer saltar-lhes pela boca, e agora sim, o vento colhe a máquina com

uma mão poderosa e invisível e lança-a para a frente, com tal velocidade que de repente

fica Lisboa para trás, já no horizonte, diluída numa bruma seca, é como se finalmente

tivessem abandonado o porto e as suas amarras para ir descobrir os caminhos ocultos, por

isso se lhes aperta o coração tanto, quem sabe que perigos os esperam que adamastores,

que fogos de santelmo acaso se levantam do mar, que ao longe se vê, trombas de água que

vão sugar os ares e o tornam a dar salgado. Então Blimunda perguntou, Aonde vamos, e o

padre respondeu, Lá aonde não possa chegar o braço do Santo Ofício, se existe esse lugar.

Este povo, que tanto espera do céu, olha pouco para o alto onde se diz que o céu é.

Anda gente a trabalhar nos campos, as pessoas, nas aldeias, entram e saem das casas, vão ao

quintal, à fonte, agacham-se atrás dum pinheiro, só uma mulher. que está deitada num

restolho com um homem em cima de si, cuida ver qualquer coisa a passar no céu, mas julga

serem visões próprias de quem está a gostar tanto. Só as aves, curiosas, voam, e perguntam,

girando em redor da máquina ansiosamente, que é, que é, talvez seja este o messias dos

pássaros, em comparação, a águia não passa de um S. João Baptista qualquer, Após mim

vem aquele que é mais forte do que eu, a história da aviação não acaba aqui. Durante algum

tempo voaram acompanhados por um milhafre que assustara e fizera fugir todos os

pássaros, iam só os dois, o milhafre adejando e pairando, percebe-se que voe, a passarola

sem mover as asas, não soubéssemos nós que isto é feito de sol, âmbar, nuvens fechadas,

ímanes e lamelas de ferro, e não acreditaríamos no que os nossos olhos vêem, além de que

não teríamos a desculpa da mulher que estava deitada no restolho e já não está, acabou-se-

lhe o gosto, daqui nem o sítio se vê.

O vento mudou para Sudeste, sopra com muita força, a terra passa em baixo como a

superfície móvel de um rio que transportasse na corrente campos, bosques, aldeias, cores

de verde e amarelo, ocres e castanhos, paredes brancas, velas de moinhos, e também fios de

água sobre a água, que forças seriam capazes de fazer a separação dessas águas, o grande rio

que passa e tudo leva consigo, os pequenos regatos que nele procuram caminho, água

dentro da água, e não o sabem.

Estão os três voadores à proa da máquina, vão na direcção do poente, e o padre

Bartolomeu Lourenço sente que a inquietação regressou e cresce é pânico já, enfim vai ter

voz, e essa voz é um gemido, quando o sol se puser, descerá irremediavelmente a máquina,

talvez caia, talvez se despedace e todos morrerão, É Mafra, além, grita Baltasar, parece o

gajeiro a bradar do cesto da gávea, Terra, nunca comparação alguma foi tão exacta, porque

esta é a terra de Baltasar, reconhece-a, mesmo nunca a tendo visto do ar, quem sabe se por

termos no coração uma orografia particular que, para cada um de nós, acertará com o

particular lugar onde nascemos, o côncavo meu no teu convexo, no meu convexo o teu

côncavo, é o mesmo que homem e mulher, mulher e homem, terra somos na terra, por isso

é que Baltasar grita, É a minha terra, reconhece-a como um corpo. Passam velozmente

sobre as obras do convento, mas desta vez há quem os veja, gente que foge espavorida,

gente que se ajoelha ao acaso e levanta as mãos implorativas de misericórdia, gente que

atira pedras, o alvoroço toma conta de milhares de homens, quem não chegou a ver duvida,

quem viu, jura e pede o testemunho do vizinho, mas provas já ninguém as pode apresentar

porque a máquina afastou-se na direcção do sol, tornou-se invisível contra o disco

refulgente, talvez não tivesse sido mais que uma alucinação, já os cépticos triunfam sobre a

perplexidade dos que acreditaram.

Em poucos minutos, a máquina atinge a costa do mar, parece que a está puxando o

sol para a levar ao outro lado do mundo. O padre Bartolomeu Lourenço compreende que

vão cair na água, puxa violentamente a corda, a vela corre toda para um lado, fecha-se de

golpe, e a subida é tão rápida que a terra se alarga de novo e o sol surge muito acima do

horizonte. É demasiado tarde, porém. Para o lado do oriente já se avistam sombras, a noite

está-se aproximando, não é possível fugir-lhe. Pouco a pouco, a máquina começa a derivar

para nordeste, em linha recta, obliquando na direcção da terra, sujeita à dupla atracção da

luz, que rapidamente enfraquece, mas ainda tem forças para a sustentar no espaço, e da

escuridão nocturna, que já oculta os vales distantes. Agora não se sente o vento natural,

vencido pela violenta corrente de ar provocada pela descida, pelo silvo agudo que a

deslocação faz vibrar na cobertura de vime. O sol está pousado no horizonte do mar, como

uma laranja na palma da mão, é um disco metálico retirado da forja para arrefecer, já o seu brilho não fere os olhos, foi branco, cereja, rubro, vermelho, ainda fulge, mas

sombriamente, está a despedir-se, adeus, até amanhã, se houver amanhã para os três nautas

aéreos que tombam como uma ave ferida de morte, mal equilibrada nas asas curtas, com o

seu diadema de âmbar, em círculos concêntricos, queda que parece infinita e vai acabar. Na

frente deles ergue-se um vulto escuro, será o adamastor desta viagem, montes que se

erguem redondos da terra, ainda riscados de luz vermelha na cumeada. O padre

Bartolomeu Lourenço olha indiferente, está fora do mundo, para além da própria

resignação, espera o fim que não vai tardar. Mas de súbito Blimunda solta-se de Baltasar, a

quem convulsa se agarrara quando a máquina precipitou a descida, e rodeia com os braços

uma das esferas que contêm as nuvens fechadas, as vontades, duas mil são mas não

chegam, cobre-as com o corpo, como se as quisesse meter dentro de si ou juntar-se a elas.

A máquina dá um salto brusco, levanta a cabeça, cavalo a que puxaram o bridão, suspende-

se por um segundo, hesita, depois recomeça a cair, mas menos depressa, e Blimunda grita,

Baltasar, Baltasar, não precisou chamar três vezes; já ele se abraçara com a outra esfera,

fazia corpo com ela, Sete-Luas e Sete-Sóis sustentando com as suas nuvens fechadas a

máquina que baixava, agora devagar, tão devagar que mal rangeram os vimes quando tocou

o chão, só bandeou para um lado, não havia ali espeques para a receber, é que não se pode

ter tudo. Frouxos de membros, extenuados, os três viajantes escorregaram para fora,

tentaram ainda segurar-se à amurada, não o conseguiram, e, rolando, acharam-se estendidos

no chão, nem sequer feridos de raspão, é bem verdade que não se acabaram os milagres, e

este foi dos bons, nem foi preciso invocar S. Cristóvão, ele lá estava, vigiando o trânsito,

viu aquele avião desgovernado, deitou-lhe a grande mão e evitou a catástrofe, para seu

primeiro milagre aéreo não esteve nada mal.

Despede-se o último ar de dia, não tarda que se feche a noite completamente, luzem

no céu as primeiras estrelas, nem por terem estes chegado tão perto puderam alcançá-las,

afinal das contas, que foi isto, o salto duma pulga, subimos ao ar em Lisboa, sobrevoámos a

vila de Mafra e a obra do convento, estivemos prestes a cair ao mar, e agora, Onde

estamos, perguntou Blimunda, e gemeu porque o estômago lhe doía muito, os braços

tinha-os quebrados de forças, inertes, do mesmo se estava queixando Baltasar enquanto se

punha de pé e tentava endireitar-se, cambaleando como os bois antes de caírem redondos

com o crânio perfurado pela choupa, muita sorte a sua, que, ao contrário deles, passava da

quase morte para a vida, não lhe faz mal nenhum cambalear, para que saiba quanto vale

poder assentar os pés no chão, Não conheço onde estamos, nunca estive neste sítio, a mim

parece-me uma serra, talvez o padre Bartolomeu Lourenço tenha informações. O padre

estava a levantar-se, não lhe doíam os membros nem o estômago, apenas a cabeça, mas essa era como se um estilete lhe perfurasse de lado a lado as fontes, Estamos em tão grande

perigo como se não tivéssemos chegado a sair da quinta, se ontem não nos encontraram,

encontram-nos amanhã, Mas este lugar onde estamos, como se chama, Todo o lugar da

terra é antecâmara do inferno, umas vezes vai-se morto a ele, outras vai-se vivo e a morte é

depois que vem, Por enquanto ainda estamos vivos, Amanhã estaremos mortos.

Blimunda aproximou-se do padre, disse, Passámos por um grande perigo quando

descemos, se fomos capazes de nos livrar desse, doutros também nos livraremos, diga para

onde devemos ir, Não sei onde estamos, Quando nascer o dia, veremos melhor, subiremos

a um destes montes, e de lá, orientando-nos pelo sol, acharemos caminho, e Baltasar

acrescentou, Faremos subir a máquina, já conhecemos as manobras, se O vento nos não

faltar, um dia inteiro dará para chegarmos longe, onde o Santo Ofício o não alcance. O

padre Bartolomeu Lourenço não respondeu. Apertava a cabeça entre as mãos, depois fazia

gestos como se conversasse com um ser invisível, e o seu vulto tornava-se cada vez mais

impreciso na escuridão. A máquina pousara num espaço coberto de mato rasteiro, mas, a

trinta passos para um lado e para outro, havia moitas altas que se recortavam contra o céu.

Tanto quanto dali se podia julgar, não havia sinais de gente nas proximidades. A noite

arrefecera muito, nem admirava, Setembro estava no fim e o dia não fora quente. Na

revessa da máquina, abrigado do vento, Baltasar acendeu um pequeno lume, mais por se

sentirem acompanhados do que para se aquecerem, não convindo, aliás, fazer grande

fogueira que poderia ser vista de longe. Sentaram-se, ele e Blimunda, a comer do que

traziam no alforge, primeiro chamaram o padre, mas ele não respondeu nem se aproximou,

via-se o seu vulto, de pé, agora quieto, talvez estivesse olhando as estrelas, talvez o vale

profundo, as terras baixas onde não brilhava uma só luz, parecia que o mundo tinha sido

abandonado pelos seus habitantes, afinal não faltavam por aí máquinas voadoras capazes

de viajar com qualquer tempo, até de noite, foi-se toda a gente embora, ficaram estes três

com um passaroco que não sabe para onde há-de ir se lhe tiram o sol.