Memorial do Convento

José Saramago · Capítulo 22 de 30

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Memorial do Convento

Neste dia, desde o nascer do sol…

Neste dia, desde o nascer do sol até ao fim da tarde, fizeram uns mil e quinhentos

passos, menos de meia légua das nossas, ou, se quisermos julgar por comparação, o

equivalente a duzentas vezes o comprimento da laje. Tantas horas de esforço para tão

pouco andar, tanto suor, tanto medo, e aquele monstro de pedra a resvalar quando devia

estar parado, imóvel quando deveria mexer-se, amaldiçoado sejas tu, mais quem da terra te

mandou tirar e a nós arrastar por estes ermos. Os homens deitam-se no chão, sem forças,

ficam arquejando de barriga para cima, olhando o céu que devagar vai escurecendo,

primeiramente de um modo que parece estar o dia a nascer e não a chegar ao fim, depois

tornando-se transparente à medida que a luz vai a diminuir, e de repente onde havia um

cristal surge uma espessura profunda e aveludada, é a noite. A lua, hoje, virá muito mais

tarde, já minguante, todo o acampamento estará a dormir. Come-se à luz das fogueiras, e a

terra está fazendo concorrência ao céu, onde lá há estrelas, aqui estão lumes, porventura ao

redor delas, no princípio do tempo, se teriam também sentado os homens que arrastaram

as pedras com que se fez a abóbada celeste, quem sabe se teriam estes mesmos rostos

fatigados, estas barbas crescidas, estas grossas e calosas mãos, sujas, as unhas negras de

luto, como é costume dizermos, este intenso suor. Então Baltasar pediu, Conta lá, Manuel

Milho, que foi que a rainha perguntou quando o ermitão apareceu à boca da cova, e José

Pequeno deitou-se a adivinhar, Se calhar mandou embora as aias e os pajens, este José

Pequeno é malicioso, enfim, deixemo-lo entregue à penitência que o confessor lhe mandará

fazer, se for o confitente homem para boa e recta confissão, do que convém duvidar, e

demos atenção a Manuel Milho que está dizendo, Quando o ermitão apareceu à boca da

cova, a rainha avançou três passos e perguntou, se uma mulher é rainha, se um homem é

rei, que hão-de fazer para se sentirem mulher e homem, e não só rainha e rei, isto foi o que

ela perguntou, e o ermitão respondeu com outra pergunta, se um homem é ermitão, que

haverá de fazer para sentir-se homem e não só ermitão, e a rainha pensou um bocado e

disse, deixará a rainha de ser rainha, o rei não será rei, o ermitão sairá do ermitério, isso é o

que terão de fazer, mas agora farei eu outra pergunta, que mulher e homem serão esses que

não são rainha nem ermitão, e só mulher e homem, que é ser homem e mulher não sendo

estes ermitão e rainha, que é ser não sendo o que se é, e o ermitão respondeu, ninguém

pode ser não sendo, homem e mulher não existem, só existe o que forem e a rebelião

contra o que são, e a rainha declarou, eu rebelo-me contra o que sou, diz-me agora tu se te

rebelas contra o que és, e ele respondeu, ser ermitão é o contrário de ser, pensam os que vivem no mundo, mas ainda é ser alguma coisa, e ela, então onde está o remédio, e ele, se é

mulher que queres ser, deixa de ser rainha, o resto só saberás depois, e ela, se queres ser

homem, por que continuas ermitão, e ele, porque o que mais se teme é ser homem, e ela,

sabes tu que é ser homem e mulher, e ele, ninguém sabe, com esta resposta se retirou a

rainha, levando atrás de si o séquito que murmurava, amanhã direi o resto. Bem fez Manuel

Milho em calar-se, porque dois dos ouvintes, José Pequeno e Francisco Marques, já

ressonavam, enrolados nas mantas. As fogueiras iam-se apagando. Baltasar pôs-se a olhar

para Manuel Milho insistentemente, Essa história não tem pés nem cabeça, não se parece

nada com as histórias que se ouvem contar, a da princesa que guardava patos, a da menina

que tinha uma estrela na testa, a do lenhador que achou uma donzela no bosque, a do touro

azul, a do diabo do Alfusqueiro, a da bicha-de-sete-cabeças, e Manuel Milho disse, Se no

mundo houvesse um gigante tão grande que chegasse ao céu, dirias que os pés eram

montanhas e a cabeça a estrela-da-manhã, para homem que declarou ter voado e ser igual a

Deus, és muito desconfiado. Com esta censura ficou Baltasar emudecido, depois deu as

boas-noites, virou-se de costas para o lume e em pouco tempo adormeceu. Manuel Milho

ainda ficou acordado, a pensar no modo melhor de sair da história em que se tinha metido,

se o ermitão se faria rei, se a rainha se faria ermitoa, porque será que os contos têm de

acabar sempre assim.