Memorial do Convento

José Saramago · Capítulo 9 de 30

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Memorial do Convento

Vieram da missa e estão sentados debaixo…

Vieram da missa e estão sentados debaixo do telheiro do forno. Cai uma chuva

branda por entre o sol, Outono precoce, por isso Inês Antónia diz ao filho, Sai daí, que te

molhas, e a criança faz de contas que não ouve, já nestes tempos é o costume dos rapazes,

enquanto não declaram desobediências mais radicais, e Inês Antónia, tendo dito uma vez,

não insiste, se ainda há três meses lhe morreu o mais novo, para que há-de atormentar

agora este, deixá-lo brincar, ali, tão feliz, a meter os pés descalços nos charcos do quintal,

Nossa Senhora o defenda das bexigas que levaram o irmão. Diz Álvaro Diogo, Já tenho

uma promessa de trabalhar nas obras do convento real, era disto que estavam falando, só a

mãe pensa no filho morto, assim dividem-se os pensamentos, e ainda bem, para não

sobrecarregarem tanto, acabariam por tornar-se insuportáveis, como esta dor que Marta

Maria sente, tenacíssima dor que lhe trespassa o ventre como as espadas trespassam o

coração da Mãe de Deus, porquê o coração, se é no ventre que se geram as crianças, aí é o

forno da vida, e como haveria de alimentar-se a vida senão com o trabalho, razão por que

está Álvaro Diogo tão contente, um convento assim é obra para muitos e muitos anos, fica

com o seu pão garantido quem souber de artes de pedreiro, trezentos réis de jornal,

quinhentos em vindo a sazão, E tu, Baltasar, estás decidido a voltar para Lisboa, olha que

fazes mal, porque aqui não vai faltar trabalho, Não haveriam de querer aleijados, tendo

tanta gente por onde escolher, Com esse teu gancho fazes quase tudo quanto os mais

fazem, Faria, se não é para me confortar que o dizes, mas precisamos voltar para Lisboa,

não é, Blimunda, e Blimunda, que tem estado calada, acenou com a cabeça. Um pouco

retirado, o velho João Francisco entrança uma soga de couro, ouve falar mas dá pouca

atenção ao que estão dizendo, já sabe que o 'filho partirá uma destas semanas e quer-lhe

mal por isso, ir-se outra vez embora, assim, depois de andar aqueles anos na guerra, Bem

feito que tornasse sem a mão direita, é tal o amor que chegam a pensar-se coisas destas.

Blimunda levantou-se, atravessou o quintal e saiu para o campo, debaixo das oliveiras que

subiam pela encosta até aos marcos da obra, ia enterrando as tamancas grossas no alqueive

que a chuva amaciara, se fosse descalça e pisasse pedras agudas, não as sentiria como seria

possível doer-lhe esse pouco, se toda ela está cheia do horror de ter ousado o que esta

manhã ousou, aproximar-se da mesa da comunhão em jejum, fingiu comer o seu pão ainda

deitada, como de costume e necessidade, mas não o comeu, depois andou sempre de olhos

baixos, fingindo compungimento e devoção em casa, e assim entrou na igreja, esteve no

ofício como se a prostrasse a presença de Deus, ouviu o sermão sem levantar a cabeça, esmagada, ao parecer, por todas as ameaças de inferno que caíam do púlpito, e enfim foi

receber a sagrada partícula, e viu. Durante todos estes anos, desde que se revelara o dom

que possuía, sempre comungara em pecado com alimento no estômago, e hoje decidira,

sem nada dizer a Baltasar, que iria em jejum, não para receber a Deus, mas para o ver, se ele

lá estava.

Sentou-se na raiz levantada duma oliveira, via-se dali o mar confundido com o

horizonte, decerto estaria chovendo com força sobre as águas, então encheram-se de

lágrimas os olhos de Blimunda, um grande soluço lhe sacudiu os ombros, e Baltasar tocou-

lhe na cabeça, aproximara-se e ela não o ouvira, Que foi que viste na hóstia, afinal não o

iludira a ele, como seria possível se dormem juntos e todas as noites se procuram e

encontram, quer dizer, não serão todas, é certo que há seis anos que vivem como marido e

mulher, Vi uma nuvem fechada, respondeu ela. Baltasar sentou-se no chão, não chegara ali

a relha do arado, havia ervas secas, agora húmidas da chuva, mas esta gente popular não é

mimosa, senta-se ou deita-se onde calha, melhor se pode um homem pousar a cabeça no

regaço da mulher, estou que foi esse o último gesto quando as águas do dilúvio já afogavam

o mundo. E Blimunda disse, Esperava ver Cristo crucificado, ou ressurrecto em glória, e vi

uma nuvem fechada, Não penses mais no que viste, Penso, como não hei-de pensar, se o

que está dentro da hóstia é o que está dentro do homem, que é a religião, afinal, falta-nos

aqui o padre Bartolomeu Lourenço, talvez ele soubesse explicar-nos este mistério, Talvez

não soubesse, talvez nem tudo possa ser explicado, quem sabe, e, mal foram estas palavras

ditas, pôs-se a chuva a cair com mais força, sinal de sim, sinal de não, o céu agora uma

pegada nuvem, mulher e homem debaixo duma árvore, nenhum filho nos braços, afinal

não é certo que as situações se repitam, e os lugares são outros, e os tempos também,

diferente a própria árvore, mas da chuva diremos que é o mesmo consolo da pele e da

terra, vida que sendo excessiva mata, mas a isso nos habituámos desde o começo do

mundo, sendo o vento maneiro mói o cereal, mas se é ponteiro rasga as velas do moinho,

Entre a vida e a morte, disse Blimunda, há uma nuvem fechada.

Pontualmente escrevera o padre Bartolomeu Lourenço quando se instalou em

Coimbra, notícia só de ter chegado e bem, mas agora viera uma nova carta, que sim,

seguissem para Lisboa tão cedo pudessem, que ele, aliviando o estudo, os iria visitar, tanto

mais que tinha obrigações eclesiásticas na corte, e então se aconselhariam na obra magna

em que estavam ocupados, E agora digam-me cá, como vamos nós de vontades, pergunta

inocente, parecia que se informava das vontades deles, quando das outras é que queria

saber, e dos que as perdiam, mas dizia-o sem contar com a resposta, é como nas guerras,

grita o capitão ou manda dizer o clarim por ele, Em frente, e não vai ficar à espera que os soldados se consultem e respondam, Iremos, não iremos, não vamos, mas que avancem e

sem demora, ou são levados a conselho de guerra, Partimos para a semana, declarou

Baltasar, e afinal ainda se passaram dois meses porque entretanto começou a constar-se em

Mafra, e foi confirmado pelo vigário no sermão, que vinha el-rei a inaugurar a obra da raiz

dos caboucos para cima, colocando com as suas reais mãos a primeira pedra. Primeiro se

anunciou que seria aos tantos de Outubro, mas não houve tempo para cavar os alicerces até

à sua conveniente fundura, apesar de serem seiscentos os homens, apesar dos muitos tiros

de pólvora que a todas as horas do dia vão atroando os ares, será então em Novembro,

meados dele, depois não pode ser, que já seria como de Inverno, andar aí el-rei enterrado

na lama até às ligas das pernas. Venha pois sua majestade para que se comecem os dias

gloriosos da vila de Mafra, para que os seus moradores levantem as mãos ao céu, eles que

com os seus perecíveis olhos vão ver a quanto alcança a grandeza de um rei, monarca

sublime, graças a quem podemos gozar estas antecâmaras do paraíso enquanto às celestiais

moradas não acedermos, tarde seja, que mais apetece estar vivo que morto, Veremos a festa

e depois partimos, decidiu Baltasar.

Já Álvaro Diogo está contratado, talha por enquanto a pedra que é trazida de Pêro

Pinheiro, grandes blocos transportados em carros puxados por dez ou vinte juntas de bois,

enquanto outros operários partem com os malhos a outra pedra grosseira que há-de servir

para alicerces, este de quase seis metros de profundidade, metros é o que dizemos hoje, que

então tudo se media a palmos, afinal continua a ser por eles que se medem os homens, os

grandes e os pequenos, por exemplo, mais alto é Baltasar Sete-Sóis que D. João V, e não

foi rei, e Álvaro Diogo, não sendo fraca figura, é pedreiro de obra grossa, ali está

martelando a pedra, desbastando à face, mas este virá a fazer mais do que isto, tendo

ajudado a pôr umas sobre outras, será no futuro canteiro e lavrante, porém é já real

trabalho levantar uma parede direita, a fio de prumo, não esse ofício de sarrafos e pregos,

como os carpinteiros que andam a carpinteirar aquela igreja de madeira, onde se celebrará o

acto da bênção e da inauguração, quando el-rei vier. Leva a dita igreja uns altos e fortes

mastros, dispostos pela mesma formalidade dos alicerces, quer dizer, segundo o perímetro

que terá a basílica definitiva, e o tecto será armado com velas de navios, forradas de pano

de brim, planta em cruz, como igreja que se preza de ser, de madeira, sim, e provisória, mas

com a dignidade de anunciadora da que de pedra aqui se construirá, e para ver estes

preparos desmazelam os moradores da vila de Mafra os mesteres e os trabalhos da lavoura,

tornados mesquinhos pela grande fábrica que se ergue no alto da Vela, e ainda agora estão

no princípio. Há quem tenha melhores razões, é o caso de Baltasar e Blimunda, que levam

o sobrinho a ver o pai, e sendo hora do jantar vem Inês Antónia com a panela das couves cozidas e o naco do toucinho, está aqui uma família completa, só faltam os velhos, se isto

não fosse o que sabemos, resultado de voto piedoso por ter nascido um filho ao rei,

diríamos que é tudo romaria, pagamento de promessas gerais, cada qual a sua, Mas o meu

filho é que ninguém mo torna a dar, pensou Inês Antónia, e quase quer mal a este que anda

a brincar entre as pedras.

Uns dias antes dera-se em Mafra um milagre, que foi ter vindo do mar uma grande

tempestade de vento e deu com a igreja de madeira em terra, mastros, tábuas, vigas,

barrotes, de confusão com os panos, foi como o sopro gigantesco de Adamastor, se

Adamastor soprou, quando lhe dobravam o cabo dos seus e nossos trabalhos, e a quem se

escandalizar por dar a isto nome de milagre, sendo destruição, que outro nome se lhe

haveria de pôr, sabendo que el-rei, chegado a Mafra e informado do sucesso, se pôs, ele, a

distribuir moedas de ouro, assim, com esta mesma facilidade com que o contamos, porque

os oficiais da obra em dois dias tinham tornado a levantar tudo, multiplicaram-se as

moedas, que foi bem melhor que terem-se multiplicado os pães. É el-rei um monarca

previdente que sempre leva arcas de ouro para onde vá, na previsão destes e outros

temporais.

Enfim chegou o dia da inauguração, dormira D. João V no palácio do visconde,

guardando-lhe as portas ó sargento-mor de Mafra, com uma companhia de soldados

auxiliares, posto o que não quis perder Baltasar o ensejo e foi falar aos tropas, mas não lhe

valeu a pena, ninguém o conhecia, e que queria ele, que ideia foi aquela de vir falar de

guerras em tempo de paz, Homem, não me esteja a empachar a porta, que daqui a pouco

sai el-rei, dito o que subiu Baltasar ao alto da Vela, ia Blimunda com ele, e tiveram sorte,

que puderam entrar na igreja, nem todos vieram a gabar-se disso, e era um pasmo lá dentro,

o tecto todo toldado e forrado de tafetás encarnados e amarelos, repartidos em matizes

vistosos, e as ilhargas cobertas de ricos panos de rás, formando todas as portas e janelas

necessárias, à imitação da verdadeira igreja, tudo em igual correspondência, armadas umas e

outras de cortinas de damasco carmesim, guarnecidas de galões e franjas de ouro. Quando

el-rei chegar, primeiro encarará com as três largas portas da frontaria, tendo por cima um

quadro que representa os santos Pedro e João naquele acto de sararem o mendigo que lhes

pediu esmola à entrada do templo dito de Jerusalém, insinuada esperança doutros milagres

que venham a produzir-se aqui, mas nenhum tão sonante como o das moedas de ouro já

relatado, e, sobre aquele quadro, outro, mostrando Santo António, que a este é a basílica

dedicada, por voto particular de el-rei, se não ficou dito já, sempre são seis anos de casos

acontecidos, alguma coisa havia de esquecer. Lá dentro, como já começou a ser dito, isto

sim, é um luxo, nem parece barraca para deitar abaixo depois de amanhã. Do lado do evangelho, quer-se dizer, do lado esquerdo de quem esteja virado para o altar, que só não é

mor porque é único, e estas explicações não devem parecer mal, quem cuida ele que nós

somos, alguns ignorantes, dão-se estas minúcias porque atrás de crença e ciência dela

sempre vêm tempos incréus e ciências outras, sabe-se lá quem nos virá a ler, do lado do

evangelho, sobre seis degraus, está um sitial decorado de tela branca preciosa e por cima

um dossel, e fronteiramente, do lado da epístola, outro sitial, mas este assenta em só três

degraus, em vez dos seis que solevantam o outro, o que se repete para que fique bem

compreendida a diferença, e não tem sobrecéu, será para menos importante ocupação. É

aqui que estão os paramentos de que D. Tomás de Almeida, o patriarca, se revestirá, e

muita prataria para o serviço divino, tudo demonstrando a suma grandeza deste monarca

que vem entrando.

Não falta nada na igreja, à esquerda do cruzeiro armou-se um coro para os músicos,

forrado de damasco carmesim, com um órgão que tocará nas ocasiões próprias, e ali

estarão também, em bancada reservada, os cónegos da patriarcal, e do lado direito é a

tribuna para onde D. João V se encaminha, dali assistirá à cerimónia, os fidalgos e outras

pessoas de merecimento sentados em baixo, nos bancos. O pavimento foi coberto de

juncos e espadanas, e por cima estenderam-se panos verdes, já vem de muito longe, como

se observa, este gosto português pelo verde e pelo encarnado, que, em vindo uma

república, dará bandeira.

Benzeu-se a cruz no primeiro dia, enorme pau com cinco metros de altura, que daria

para um gigante, Adamastor ou outro, ou para o tamanho natural de Deus, e diante dela se

prosternaram todos os presentes, e maximamente el-rei, derramando muito devotas

lágrimas, e quando a adoração da cruz acabou, quatro sacerdotes levantaram-na em peso,

cada qual seu extremo, e a arvoraram sobre uma pedra, adrede preparada, mas esta não a

cortou Álvaro Diogo, com um buraco onde se lhe encaixou o pé, que, mesmo sendo a cruz

divino emblema, não se aguenta se não ficar entalada, é o contrário dos homens, que

mesmo sem pernas conseguem ficar direitos, a questão é quererem-no. Tocava airoso o

órgão, sopravam os músicos, entoavam as vozes dos cantores, e, cá fora, o povo que não

coubera ou estava sujo de mais para entrar, o povo que viera da vila e dos arredores, não

admitido no sacro interior, contentava-se com os ecos das antífonas e das salmodias, e

assim se acabou o primeiro dia.