Memorial do Convento

José Saramago · Capítulo 16 de 30

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Memorial do Convento

Depois de terem comido, deitaram-se sob o…

Depois de terem comido, deitaram-se sob o casco da máquina, cobertos com o

capote de Baltasar e um pano de vela que tiraram da arca, e Blimunda murmurou, Está

doente o padre Bartolomeu Lourenço, não parece o mesmo homem Há muito tempo que

não é o mesmo homem, que se lhe há-de fazer, E nós, que faremos, Não sei, porventura

tomará ele amanhã uma resolução. Ouviram o padre mexer-se, arrastar os pés no mato,

ouviram-no murmurar, com isso se tranquilizaram, o pior de tudo era o silêncio, e, apesar

do frio e do desconforto, adormeceram, mas não profundamente. Ambos sonhavam que

viajavam pelo ar, Blimunda num coche puxado por cavalos com asas, Baltasar cavalgando

um touro que levava uma manta de fogo, de repente os cavalos perdiam as asas e ateava-se

o rastilho, começavam a rebentar os foguetes, e na aflição do pesadelo ambos acordaram,

não tinham dormido muito, havia um clarão como se o mundo estivesse a arder, era o

padre com um ramo inflamado que pegava fogo à máquina, já a cobertura de vime estalava,

e de um salto Baltasar pôs-se de pé, foi para ele, e deitando-lhe os braços à cintura puxou-o

para trás, mas o padre resistia, de modo que Baltasar o apertou com violência, atirou-o ao

chão, calcou a pés o archote, enquanto Blimunda batia com o pano de vela as chamas que

tinham alastrado ao mato e agora, aos poucos, se deixavam apagar. Vencido e resignado, o

padre levantou-se. Baltasar cobria com terra a fogueira. Mal conseguiam ver-se no escuro.

Blimunda perguntou em voz baixa, num tom neutro, como se conhecesse de antemão a

resposta, Porque foi que deitou fogo à máquina, e Bartolomeu Lourenço respondeu, no

mesmo tom, como se estivesse à espera da pergunta, Se tenho de arder numa fogueira,

fosse ao menos nesta. Afastou-se para as moitas que ficavam da banda do declive, viram-no

baixar-se rapidamente, e, olhando outra vez, já lá não estava, alguma necessidade urgente

do corpo, se ainda as tem um homem que quis deitar fogo a um sonho. O tempo passava,

o padre não reaparecia. Baltasar foi buscá-lo. Não estava. Chamou por ele, não teve

resposta. A lua começava a nascer, cobria tudo de alucinações e de sombras, e Baltasar

sentiu que se lhe arrepiavam os cabelos da cabeça e do corpo. Pensou em lobisomens, em

avantesmas de feitio e porte vário, se andariam por ali almas penadas, acreditou firmemente

que o padre tinha sido levado pelo demónio em pessoa, e antes que o mesmo demónio dali

o levasse também a espernear, rezou um padre-nosso a Santo Egídio, santo auxiliar e

intercessor em casos e situações de pânico, epilepsia, loucura e temores nocturnos. Terá o

santinho ouvido a invocação, pelo menos não veio o diabo buscar a Baltasar, porém os

temores é que não se dissiparam, de repente toda a terra começou a murmurar, era o que parecia, talvez efeito da lua, melhor santa me será Sete-Luas, por isso a ela voltou, ainda a

tremer do susto, Sumiu-se, e Blimunda, declarou, Foi-se embora, não o tornaremos a ver.

Mal dormiram nessa noite. O padre Bartolomeu Lourenço não voltou. Ao

amanhecer, nasceria o sol daí a pouco, Blimunda disse, Se não estenderes a vela, se não

tapares bem tapadas as bolas de âmbar, a máquina vai-se sozinha, nem precisa de quem a

governe, talvez fosse melhor deixá-la ir, porventura se encontraria em algum lugar da terra

ou do céu com o padre Bartolomeu Lourenço, e Baltasar respondeu, num rompante

violento, Ou no inferno, a máquina, onde está, fica, e foi estender a vela embreada, cobrir

de sombra o âmbar, mas não ficou satisfeito, podia a vela rasgar-se, ser afastada pelo vento.

Com a faca cortou ramos das moitas altas, cobriu com eles a máquina, e, passada uma hora,

dia claro, quem de longe olhasse naquela direcção não veria mais que um amontoado

vegetal no meio de um espaço de mato rasteiro, não é tão raro assim, o pior vai ser quando

tudo isto secar. Do que sobejara da véspera almoçou Baltasar um pouco, Blimunda antes, é

sempre a primeira a comer, fechados os olhos, como estamos lembrados, hoje até

escondera a cabeça debaixo do capote de Baltasar. Não têm mais que fazer aqui, E agora,

perguntou um deles, e o outro respondeu, Não temos mais nada que fazer aqui, Então

vamos, Descemos pelo sítio onde estava o padre Bartolomeu Lourenço quando

desapareceu, talvez lhe encontremos a rasto. Durante toda a manhã procuraram daquele

lado da serra, enquanto baixavam do alto, grandes montes redondos e silenciosos, que

nome teriam, e nem um sinal descobriram, uma pegada que fosse, um farrapo preto que

espinhos tivessem agarrado, parecia que o padre se sumira nos ares, onde irá a estas horas,

E agora, esta foi a pergunta de Blimunda, Agora vamos em frente, o sol está além, para a

direita fica o mar, em alcançando lugar de gente, saberemos onde estamos, que serra é esta,

quando quisermos cá voltar, Isto aqui é a serra do Barregudo, lhes disse um pastor, légua

andada, e aquele monte além, muito grande, é Monte Junto.

Levaram dois dias a chegar a Mafra, depois de um largo rodeio, por fingimento de

que vinham de Lisboa. Andava procissão na rua, todos dando graças pelo prodígio que fora

Deus servido fazer, mandando voar por cima das obras da basílica o seu Espírito Santo.