Mitos e outras narrativas kamayurá

Pedro Agostinho · Capítulo 9 de 51

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Mitos e outras narrativas kamayurá

5 - Peixes e onças no Kwarìp

da casa29. Depois Mavutsini(n) saiu de lá, fechou a porta, depois, amanhã, de manhã cedinho, já está começando a virar, assim, gente. Aí ele [as madeiras] virou gente.

Aí Mavutsini(n) fez urua (urua para vocês se chama flauta), depois Mavutsini(n) deu urua para esse que [ele] fez, esse [de] madeira. Mavutsini(n) deu urua para o gente, dançar. Aí Mavutsini(n) acha

boa essa dança, 30 urua.

Depois, Mavutsini(n) mandou avisar a outra tribo para ele fazer

festa31. Três outra tribo vem, fazer festa.

Aí Mavutsini(n) estava pintando Kwarìp. Estava assim, Mavutsini(n) estava fazendo bem enfeitado, esse madeira, igual gente. Depois essa outra tribo estava dançando, dançando muito mesmo. Acabar[am] de dançar, depois Mavutsini(n) pegaram o peixe, para a

outra tribo. Muito peixe, muito beiju, muito 32 kawi ( n ). Depois, acabar de comer, depois dança. Muita dança mesmo. Bom.

Bom. Depois Mavutsini(n) tirou esse madeira, Mavutsini(n) levou esse madeira lá dentro d’água. Assim que ele começou festa, Mavutsini(n). Quem que começou festa foi Mavutsini(n). Esse

chama 33 Kwarìp.

Ele começou tudo qualquer coisa, esse Mavutsini(n).

 

5- Peixes e onças no Kwarìp

Katsini(n) foi pescar, foi subir em cima de pau, esperando peixe, de manhã. Então o peixe de rabo vermelho e rosto branco, que agente chama ararapira [peira arara], quando viu Katsini(n), disse-lhe que não flechasse, que eles também eram gente. O peixe então convidou a ir com eles, peixes, a ir ao Kwarìp da mãe de Kwat e Yaì. Aí Katsini(n) teve medo, mas os peixes chamaram-no e atiraram-lhe água e foram embora mesmo. Ararapira disse que a água era o

mesmo que o seco 34. Então disse a Katsini(n): “Seus filhos foram também, na frente” e eram dois, filhos da arraia e de Katsini(n) [ele os gerara enfiando os dedos no ânus da arraia, ao pescar].

Aí Katsini(n) foi. Kwat ia fazer Kwarìp da mãe dele. Aí foram. Katsini(n) disse: “Vamos embora. Você precisa ver meu filho”.

Aí não deixaram ele dormir perto dos peixes que foram à festa [o inf. indica que ficou a mais ou menos 500m], porque as piranhas estavam com raiva dele, queriam comê-lo porque ele matava peixe.

No outro dia saíram e foram dormir longe daquele lugar onde tinham

dormido. Aí dançaram, ainda no mato, 35 bo’at . E o filho de Katsini(n) disse: “Por que você não fez uma para nós?” Ele respondeu: “Aí na frente eu corto taquara para fazer flauta.” Aí todos dançaram, mas Katsini(n) e Ararapira ficaram de longe, só olhando. Foram lá e Katsini(n) entregou urua para o filho dele. “É, a gente precisa urua mesmo, porque sem urua o Kwarìp não fica bonito mesmo.” Aí Katsini(n) não ficou alegre, porque o filho não ficou para trás como tinha pensado. Aí voltaram a fazer a dança de bo’ at, de noite. Faziam uma dança em cada pouso que faziam no caminho.

Aí Ararapira disse para Katsini(n): “Você está vendo aquele canto de sapo? Ele é igual a você, aquele sapo bem grande que a gente chama Maritawata; tem pé, tem perna. É isso que o sapo está cantando.”

Aí foram viajar, chegaram, viajaram e no meio da viagem, Kwat e Yaì tinham feito cachoeira para o peixe não passar, e para todo o

peixe que ia para a festa, ficar lá preso36. Aí um Kara que era grande campeão e se chamava Karatuaruwiyap [“cará grande”], recebeu ordem de seu chefe para abrir a barragem para eles. Aí ele

bateu o pé 37, correu, bateu e abriu a cachoeira um pouco; aí outro irmão dele foi atrás, bateu também, aí abriu um pouco e saíram. Primeiro saiu o Muruta [bagre]. Esse começou a pular e não conseguiu passar no buraco que tinham feito, ficou embaixo da pedra: “Por isso você agora vai ter de morar aí, embaixo daquela pedra”, disseram-lhe. Por isso Karikari, Muruta moram embaixo da pedra, ainda hoje.

Aí Ararapira disse: “Vamos dormir mais um dia. Amanhã vamos chegar lá. Aí o Wìrake [poraquê] disse: “Eu vou lutar com a onça vermelha. “Vou arrancar todos os araviri dele e jogar fora.” A bicuda disse: “Eu vou lutar com o veado.” Aí aquele peixe parecido com cobra, que mora no fundo d’água, Moikapit, disse: “Vou lutar com

Kwat” 38 – mas não podia porque ele ( Kwat ) era yayat. “Mas vou lutar mesmo bem com força, acho que ele vai querer.”

Aí chegaram lá, chamaram o pareat para trazer fogo. Foram, e o

pareat 39 não entendeu e todos ficaram com raiva.

Aí levantaram de manhã, pintaram-se, e o resto de urucu que ficou nas mãos passaram nos paus, e no lugar onde passaram, os paus ficaram vermelhos. Primeiro, a turma da aldeia fez aquela dança chamada bo’at, saíram da casa anta, veado (etc.). Aí foram todos, os peixes, dançando bo’at, passaram atrás dos morerekwat dos

peixes, e antes por trás dos 40 kwarìp . Aí yayat chamou. Escolheu os lutadores – anta, onça vermelha (tinha de todas as cores),

veados41. Aí lutaram. Karatuaruwiyap ganhou; depois lutou outro, outro e foi indo assim. Aí a onça vermelha lutou com Wìrake e

arrancou-lhe todo o 42 araviri, ficou só um. E enquanto não arrancasse o Wìrake dava choques, matava. Foi bom por isso que a onça arrancasse os araviri do poraquê; só ficou um. Aí Kwat pôs o

vento 43 e ele levou todo o araviri do Wìrake.

(Sempre os nossos avós contavam essa hist6ria: isso não começou não foi ontem, não).

Aí Kwat chamou Moikapit para lutar: “Vamos agora lutar nós dois.” Lutou com ele e Kwat ficou morto pouquinho, dois minutos, morrendo. Aí Moikapit foi correndo e enterrou-se atrás do

apìkawayat 44 dos peixes e sumiu muito. Aí Kwat quando ficou bom, levantou-se e foi procurar Moikapit para lutar mais ainda. Aí os peixes que estavam ali perto disseram que Moikapit já tinha ido embora. Mas Kwat foi lá e viu o carvão que Moikapit passava no

corpo 45, tinha ficado um pouquinho no buraco em que se enterrara. Aí pegou a redinha de matar peixe, procurou perto d’água e apanhou Moikapit pequeno. “Quem quer ser campeão tem de estudar para ser campeão”, disse Kwat com o Moikapit enrolado no braço. “Quem não quiser ser campeão não passa remédio, quem

quiser ser passa e fica campeão mesmo. Passa sempre”46.

Aí rodos os peixes dançaram urua, como dançamos agora. Karikari começou a tocar e a dançar também. Aí todo o mundo disse: “Não se pode dançar com Karikari porque ele não é bom não.” Porque ele abria os braços e apertava e levava a mulher para o rio e as

mulheres ficavam presas lá47.

Demoraram um pouco e a Ariranba chegou lá onde estava a festa, porque por aqui não tinha peixe, estavam todos lá. Aí todos os peixes sumiram, esconderam-se na casa de yakui; Katsini(n) pegou um assador de beiju bem grande e prendeu o peixe todo lá. Aí ficou só Katsini(n) no meio do terreiro. Aí a ariranha perguntou pelo peixe. E ele respondeu: “Não sei onde está o peixe, o peixe não está aqui não.”

Aí Katsini(n) soltou um peido. As ariranhas ficaram assim, porque naquele tempo não tinham bunda para cagar. “Rapaz, daonde você peidou?” Ariranha toda ficou doida: “Daonde você deitou esse cheiro bom? Que nós nunca sentimos?” (As ariranhas só vomitavam, não cagavam ). Aí Katsini(n) deu vontade de cagar e pediu licença às ariranhas. Elas pediram para ir junto, olhar. Aí perguntaram: “Como você faz cu?” Katsini(n) falou: “A gente faz ponta de pau, bem ponta, aí a gente faz cu.” Aí Katsini(n) cagou e as ariranhas ficaram doidas, dizendo: “Já vem, já vem!” Aí saiu o cocô dele, vai saindo, vai saindo, todo o mundo ficou olhando.

Aí voltaram, as ariranhas, disseram: “Katsini(n)., como vocês fazem cu?” [Katsini(n)]: “Vocês agüentam fazer? Tem de ficar tudo de quatro pés. Aí agente começa lá da ponta e vai até acabar. Assim a gente faz cu.” Aí pegou o arco, fez ponta bem feita e mandou ficar de quatro pés, de olho fechado. Aí ficaram todas de quatro pés. Ele fez ponta bem feita. Aí correu de lá, furando, vai furando. Quando ficou uma só, todos os peixes disseram: “Katsini(n), mata todas essas ariranhas” – porque tinham medo delas. Aí a ariranha levantou, olhou assim e viu todas as outras mortas, com a bunda furada. Quando ela viu, correu e caiu no rio, e Katsini(n) foi atrás, caindo também. Só a conseguiu ferir um pouco, e fez assim cu. Por isso a ariranha ainda vomita em vez de cagar. O cu dela é como o buraco desta conta de colar.