Mitos e outras narrativas kamayurá

Pedro Agostinho · Capítulo 33 de 51

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Mitos e outras narrativas kamayurá

32 - A moça prenhe de cobra

Aí ele conversou. Aí esse menino falou, ele falou assim: “Outro dia, eu venho pegar você também”, aí o menino falou com o peixe. “Sim”, [disse o peixe], “outro dia, chegando outro dia, você vai morrer aqui.” “Não, eu não morro não.” Aí o peixe falou com esse menino: “Eu traz, no outro dia eu traz cobra, cobra come você.”

“Sim… Eu quero ver! Pode deixar.” Aí vem de lá.

Aí passa quatro dias, aí ele veio de novo. Chegou lá, cercaram o igarapé de novo, aí botaram o jiqui. Mas cobra já foi. Aí ele viu rasto de peixe muito, aí ele viu rasto de cobra. Aí ele viu assim; bom. “Eu vi rasto de cobra aí; cobra está para lá. Eu quero ver hoje cobra…” Aí, mas o tio dele não foi com ele, só ele foi. Aí foi espantar peixe. Caiu lá dentro d’água, espantava muito peixe, assim, batendo no chão, lá, aí ele viu cobra. Aí esse menino foi lá perto de cobra. Ele pega rabo assim, puxando assim. (Lá cobra nós chama moi(n), nós chama cobra moi(n), cobra dessa grossura, como gente.) Aí esse menino puxava o rabo da cobra, aí cobra comeu, esse menino. Aí menino não voltaram [voltou] mais. Depois a mãe dele estava chorando, por causa desse menino, mas a mãe dele já sabia que

cobra comeu 127. Aí acabou.

 

32 - A moça prenhe de cobra Antigo, tinha moça solteira, mas não tem homem, um rapaz para ela. Só tem irmão, cinco irmão. Mas não tem rapaz para ela. Essa mulher tem vontade de namorar com rapaz, mas não tem um rapaz para ela. Bom. Então essa moça foi para a roça arrancar mandioca. A moça está arrancando mandioca, então ela arranjou ovo lá dentro buraco. Ela pensa [que é] ovo de passarinho, de bacurau, mas não é não. Bom. Acabar de arrancar mandioca, ela ajunta mandioca. Ela ajunta mandioca, vai botando mandioca dentro do cesto. Então ela pega ovo, [e põe] em cima de cesta. Bom. Aí vem de lá. Aí ficou lá na casa, aí ela contava: “Eu arranjei ovo, ovo de passarinho, eu trouxe ovo para mim criar.”

Aí outro procurava ela: “Deixa eu ver ovo.” “Tá aqui, eu vou te mostrar para você.” Aí a moça tirando mandioca, aí o ovo estava quebrado, não tem mais ovo. “Ih!… Ovo está quebrado, não presta mais.” Bom: a mulher estava suando, muito, porque ela carregou muita mandioca. Então o ovo quebrou, água de ovo misturou [com o suor], assim, nela, entrou na coisa [vagina] dela. Bom. Depois, ela foi banhar. Tomando banho lá, lavando sujeira, acabando vem. Chegou lá na casa.

Depois, passa, cinco dias, mais dez dias, aí essa moça prenhou. Essa moça prenhou. Aí o irmão dela achava ruim, porque ela prenhou, sem marido. Aí o irmão dela estava xingando para ela, ficou [com] a raiva: “Ih, porque você prenhou assim, sem marido,

você solteira não pode prenhar”128. Tem outro irmão dela bom para ela. Depois, irmãor[s] dela foi para a roça. Saiu tudo. Só ficou ela na casa, sozinha. Ficando lá, depois vai crescendo, essa, essa coisa [barriga] dela, até crescer, até ficar grande. Irmão dela ficou bravo para ela, também: “lh, por que você assim? Prenhava, assim não tem marido…” Ficou bravo. Aí depois essa mulher estava chorando, ficou assim triste, porque ela prenhou.

Outro dia, irmão[s] dela foi para a roça, foi trabalhar. Depois a mulher saiu na estrada, aí ela viu o fruta, chama macaúba, para nós chama mokayìp. Mokayìp. Aí ele [ela] viu fruta, aí ela começou a falar: “Ih, aqui tem fruta bom, para comer, eu tem vontade de comer aquela fruta”, está dizendo. Daqui a pouco, essa cobra saiu, nela, então essa moça viu essa cabeça de cobra. Aí essa moça ficou olhando assim, aí a moça falou: “Ih, eu estou assim, como é que eu [estou] assim? Eu pensava essa [que isso era] menino.” Aí essa moça ficou pensando: “Será que aquele ovo que eu peguei, ovo de cobra? Ovo de passarinho?” Ficou assim falando, ficou triste lá, depois voltou, lá na casa. Depois irmão dele [dela] chegou. Aí falou para ele: “Eu não está bom, porque eu pensava aquela, ovo de passarinho, mas não é não. Aquele que eu peguei, ovo, ovo de cobra.” Aí o irmão dele ficou assim pensando. Ficou triste. Aí o irmão dele [dela] pensou: “Bom, então amanhã cedo eu vou procurar árvore, tem fruta. Manhã cedo, eu vou levar você lá, vamos ver que esse cobra vai sair tudo.”

Manhã cedo, ele leva. Aí ele encontrou esse árvore. Aí a moça começou a falar: “Eu tenho vontade de comer aquele fruta.” Aí cobra saiu, cabeça. Cobra vai subindo, na árvore, vai subindo, vai subindo, até tirar fruta. Tiraram fruta para ela. Acabar de tirar, aí cobra desce. Cobra desceu, entrou dentro, nela. Aí o irmão dela falou: “Como é que nós vamos fazer [com] essa cobra?” Aí o irmão dela falou: “Não sei como vai fazer.” Bom. Chegaram lá na casa. “Manhã cedo, eu vou procurar árvore, mais grande.”

Aí o irmão dela saiu, bem cedo. Aí ele encontrou árvore, para nós chama ìwìra, árvore grande. Ele encontrou, tem fruta, ele voltou. Ele chegou meio-dia: “Aí, encontrei, árvore. Manhã cedo vamos lá, de novo.”

Aí manhã cedo ele leva para lá. Chegou lá na árvore: “Agora você vai sentar aqui; mais longe.” Aí mulher sentou. Aí a moça começou falar de novo: “Como é que vou tirar aquela fruta?…” Aí cobra saiu de novo, saiu cabeça, cabeça dele saiu. Aí cobra subiu, no árvore. Árvore mais [muito] grande, mas cobra não acaba. Até tirar fruta, mas cobra não acabou. (Não saiu não, ainda ficou.) Aí cobra tirou fruta, tirou para ela, aí cobra desce de novo, entrou dentro nela. Pronto.