Mitos e outras narrativas kamayurá
Estudo preliminar sobre o mito de origens Xinguano. Comentário a uma variante Awetï
Estudo preliminar sobre o mito de
origens Xinguano.
Comentário a uma variante Awetï
Introdução
O texto Awetï que em 1965 obtivemos no Parque Indígena do Xingu e adiante publicamos filia-se a uma tradição mais ampla, partilhada por todos os grupos xinguanos cuja mitologia se acha documentada. Sendo o principal mito do ciclo do Sol e da Lua (gêmeos e do sexo masculino), é também o de que maior número de variantes se conhece, todas coincidentes em suas linhas essenciais. Ficou, entretanto, demonstrado por um exame preliminar que apresentavam lacunas de maior ou menor extensão, saltos abruptos de um ponto para outro do mito, ou até para mito diferente, omissões de pormenor mais ou menos importantes, e ainda pequenas diferenças nos fatos ou no arranjo da sequência narrativa. Deixando de parte estes dois últimos casos – que só uma análise estrutural permitiria compreender cabalmente –, devem-se atribuir os restantes a fatores diversos.
Na maioria das vezes a recolha foi feita com auxílio de um intérprete, que traduziu, direta e intercaladamente ou a partir de prévia gravação, valendo-se de uma língua em cujo uso acha sempre dificuldades; com o mesmo óbice, noutras ocasiões a história foi contada em português. Ao que sabemos, só v.d. Steinen obteve sua documentação na língua original, e o mesmo pode ter ocorrido com Buell Quain, que confessadamente encontrou na barreira linguística uma limitação a seus estudos mitológicos. A experiência mostrou-nos que o intérprete indígena tende a simplificar o que ouve, como o atesta Laraia (1970:116), e o mesmo ocorre quando se trata de um relato direto em português.
Há também a considerar que a situação social em que se dá a interação informante-pesquisador difere muito daquelas em que normalmente se narram os mitos. No primeiro caso estão envolvidos dois indivíduos nos papéis principais (informante e antropólogo), e um terceiro, o intérprete, num papel secundário que pode existir ou não. Isto parece favorecer os cortes e saltos, e o encadeamento contínuo de mitos ou fragmentos de mitos sem nítida separação, indicando o estudo da coletânea waurá de Schultz que esse autor enfrentou a mesma dificuldade que nós. Dessa situação que foge aos padrões da cultura tribal, o básico é que apenas o informante assume papel ativo, que o torna em único responsável pela história, quando normalmente não é isso que sucede. Na “roda dos fumantes” Kamayurá, enquanto um fala e os demais ouvem, há frequentes interrupções e apartes, que explicitam, acrescentam, pedem esclarecimentos ou introduzem parênteses explicativos.
Resulta portanto a literatura xinguana uma literatura que é coletiva no elaborar-se como no exprimir-se, sendo esse caráter coletivo o que se perde nas entrevistas, com a consequente perda em sua riqueza e forma. O ideal seria obter os textos por gravação naquelas situações normais, que não são, entretanto, tão usuais quanto se desejaria. Aliás, se fosse esse o método seguido, e sendo impossível a repetição exata de uma dada situação concreta, ter-se-ia sempre uma gama infinita de pequenas variações. Assim, tornase válido apoiar a análise na documentação disponível, reconhecendo nela todos os defeitos de que padeça, desde que os fatores negativos sejam tidos em conta e se disponha de meios para compensá-los.
Tomando como foco deste comentário a variante Awetï do Mito das Origens, fizemos coincidir com os seus próprios os limites da comparação a exercer, cujo objeto foram os episódios que descreve ou a que faz alusão. Isto estabeleceu que seria estudada a parte do mito que se ocupa do Ancestral, do casamento de suas filhas com a Onça e do nascimento dos Gêmeos, e por fim da criação das tribos, o que significa que se deu especial atenção aos planos social, cultural, étnico e ecológico do universo xinguano.
Delimitado o âmbito da comparação, análise e comentário, extraímos da bibliografia pertinente e de nossos dados de campo todos os textos que correspondessem ou complementassem a variante Awetï, o que levou a alargar os limites finais da comparação
para incluir a história da comemoração do primeiro 1 Kwarïp , essencial à compreensão do mito. Reunimos assim 26 textos ou fragmentos, cuja extensão não é uniforme, depois submetidos a uma classificação e crítica externa e interna, que lhes determinou o exato valor e o grau de confiança merecida.
Esses 26 documentos provem de 7 grupos tribais, sendo 1 dos Awetï, 11 dos Kamayurá, 1 dos Yawalapití, 5 dos Waurá, 2 dos Kalapálo, 3 dos Bakaíri e 3 dos Trumaí, e consideramos válida a amostra por incluir quase todas as famílias e troncos linguísticos representados no Alto Xingu, Tupi, Aruak, Karib e Trumaí. Os Suyá, grupo marginal e de filiação Jê, não figuram no material utilizado. Por coincidencia e sorte, os textos distribuem-se ainda de uma forma que obedece às principais subdivisões locais desses troncos linguísticos. As línguas Awetï e Kamayurá diferem bastante, considerando-se seus falantes mutuamente ininteligíveis. O Aruak admite duas línguas ou talvez dialetos distintos, por um lado Mehináku e Waurá, por outro Yawalapití, e o mesmo ocorre com o Karib, que se divide em Bakaíri (Oriental e Ocidental) e Nahukwá (Kuikúro, Kalapálo e Nahukwá-Matipú). Quanto aos Trumaí, sabemo-lo um grupo sob este aspecto isolado, e em vias de extinção, que só há pouco foi linguisticamente estudado. Isto nos leva à convicção de que dita amostra é o bastante representativa da tradição alto-xinguana para que os resultados e conclusões a que se chegar possam ser, com relativa segurança, generalizados às tribos cujos mitos não se possuem.
Foram os textos classificados por filiação linguística e tribo, e depois ordenados cronologicamente pela data de sua coleta, de modo a tornar o mais gradual possível a transição de um a outro componente da amostra. Cada variante foi identificada por um número de classificação decimal, no qual a primeira casa da esquerda indica a classificação linguística, a seguinte a tribo e a última a posição cronológica do documento na série correspondente à tribo. A essa casa sucede por vezes uma letra minúscula, de cujo
significado diremos adiante. O Quadro 1 reúne as demais referências indispensáveis sobre cada variante, e obedece aos princípios acabados de expor; entretanto, para simplificar as notas remissivas, no corpo do trabalho eliminamos os pontos que separam
as casas decimais, mantendoos, ao mesmo tempo, no Quadro n.º1.
Certos grupos de fragmentos, complementares entre si se considerados na sequência linear do mito, foram reunidos para reconstituir variantes que, sendo até certo ponto artificiais, não são intrinsecamente inferiores, pois aquela reunião usou sempre fragmentos colhidos pelo mesmo investigador, na mesma época e na mesma tribo. Sendo possível, houve também a certeza de que informante e intérprete foram também os mesmos, e, em todos os casos, os fragmentos assinalaram-se com as minúsculas de que falamos. Resta a ressalva de que, enquanto as variantes 121 ab, 126 ab e 411 abc são produto de uma construção, a variante 322 ab resulta da supressão de várias partes do original: cortamos ao mito principal de Keri e Kame publicado por v.d. Steinen, para nos manter nos limites pré-esta-belecidos, os episódios do roubo do sol, do sono, da rede, da troca do céu pela terra, do fôgo e dos rios.