Mitos e outras narrativas kamayurá
21 - História do remédio do urubu
Aí chegou lá. Aí o rapaz chegou lá: “Vocês acha ruim que eu matei seu marido?” “Não, nós não acha ruim não. Nós acha bom. Nós gosta [de você], mais do que [d]ele”, aí mulher dele falou. Aí esse rapaz casou com os dois, mulher.
Aí acabou.
Estampa 2 - Ìrìvutsing mokõy akãng: o Urubu-Rei de Duas Cabeças
representado no banquinho cerimonial.
21 - História do remédio do urubu
Bom. Tinha 88 Kanarawarì , tem irmão dele, chama Kanaratì. Kanarawarì fez coisa de gavião, lá em cima do pau. Bom. Ele fez escada primeiro. Pronto. Depois ele ficou [falando ao] irmão dele: “Bom, Kanaratì, tem gavião, eu vi gavião, lá em cima. Mas eu quero que você vai tirar para mim.” Falou isso. Bom. Depois ele foi entrar na casa dele, aí o avô dele perguntou: “O que Kanarawarì falou para você?” “Não… disse que o gavião, diz que eu vou tirar para ele.” Aí o avô dele falou isso: “Mas você não vai voltar hoje, você vai morrer pra lá, você vai cair, você tem de pegar o rato. Tem de pegar muito rato.” Aí o Kanaratì falou: “Tá bom.”
Diz que ele pegou rato, tudo, cinco, seis, levou. “Vam’bora? “Vam’bora.” E foi. Chegou lá perto dele: “Olha lá ele”, ele mostrou. “Ih, pau grande…” Diz que é grande. “Bom, você vai subir.” Fez a escada, Kanaratì diz que subiu. Subiu, chegou lá onde tem aquele coisa de gavião. Bom. Aí ele gritou, Kanarawarì gritou: Ô Kanaratì, você não vai cair agora, você vai morrer, você não vai cair [descer] mais.” Ele pegou aquela escada, caiu tudo. Ficou lá em cima.
“Bom”, Kanaratì falou, “ah, você enganou, não sei o quê, vai morrer…” Falou isso. Pronto. Ficou dez dias, o rato vai fedendo. Vai feder. Então aquele Urubu escutou o cheiro e desceu, desceu aí o Kanaratì chamou ele: “Ô avô, vem comer isso aqui, aqui tem seu comida: aqui para você.” Desceu, diz que desceu: “Ih neto, você tá aí?” “Tou aqui.” “Agora é que eu estou vendo você… Ih, e agora?”
“Não sei, eu vou morrer aqui, ih… (não sei o que).” “Bom, eu vou levar você lá em minha casa.” “Tá”. “Então eu vou buscar meu mulher.”
Diz que o Urubu foi ainda buscar a mulher dele, chegou lá, ele comeu aquele rato, tudo, pronto. Bom, então Kanaratì foi com ele, com aquele mulher do Urubu. Chegou lá, bom, diz que Kanaratì, ficou magrinho, quase morreu, ficou feio. Ficou mais quase dois meses [em cima do pau]. Bom, ele sentou nas costas do Urubu, saiu e levou na casa dele. Chegou lá: “Bom, você vai tomar meu remédio.” Chama ìrìvu awa(n)gì. Bom, ele foi buscar para ele, chegou lá, ele tomou, pronto. Mas ele ficou bonito, grande, homem grande. Ficou até não sei quanto, pode ser dez mês, ficou lá. Lá, no céu.
Depois, Nyapakani(n), o gavião entrou lá, quis namorar com ele, ele arrancou tudo o rabo para ele levar, outro gavião também entrou lá para namorar com ele, arrancou tudo pena. Chegou, aí o gavião viu, aquele pena de gavião não tinha nada mais. Aí ele pensou: “Quem que está tirando o rabo de nosso mulher?” Falou. “Não sei, acho que aqui, na casa do Urubu já tem gente.” Bom, aí ele [quer] comer ele: “Nós vamos matar ele.” Aí o Urubu escutou isso. Chegou lá para o Kanaratì: “Bom, eu vou levar você, esse pessoal está querendo comer você.” “Então está bom.”
Bom, um dia, bem cedo, aí ele desceu com ele. Pronto, mulher dele, e o marido, Urubu. Aí vem, vem, vem, diz que ele desceu lá na aldeia dele, chegou lá. Aí o avô dele estava chorando, o avô de Kanaratì. Chegou. Pronto. Aí chegou no avô dele, o avô dele disse: “lh!… você já vem, não morreu não…” Aí pronto.
Dormiu. O irmão dele, ele não viu, ainda. Bom, ele foi tomar banho, bem cedo. Foi, vai assobiando assim, assobiando, aí a mulher de Kanarawarì escutou: “Ah, Kanaratì chegou, vou tomar banho com ele.” Aí Kanarawarì falou: “Uai, vai com ele, já morreu, Kanaratì já morreu, caiu, morreu, não vem mais…” Foi embora. Chegou, a mulher dele contou para ele: “Kanaratì chegou, está gordo…” “Que nada, Kanaratì já morreu. Como é que ele desceu?” “Não sei não.”
“Ah, aquele Kanaratì já morreu, não vem mais, deixa pra lá.” Pronto.
Amanheceu. De manhã cedo, ele chamou: “Kanarawarì, vem cá. Eu vou conversar com você.” Chegou. “Ah! Você chegou, rapaz?” “Eu cheguei.” “Puxa, como é que você chegou?” “Mas eu desceu. Quando você saiu, desceu.” “É?” Disse: “É. Vamos fazer flecha?”
“Vam’bora.” Aí diz que ele fez muito flecha. “Amanhã vamos caçar, matar bicho…” “Tá okey” [sic]. Pronto.
Amanhã, Kanaratì foi fazer ubuku (aquele chefe, digo, como é que se chama eu não sei, ubuku. E o viado grande, aquele que tem o chifre. [Cervo?] É, cervo. [Como é que você chama?] Ubuku.) Kanaratì fez, fez bem. Fez embira, fez bem direito, igual ele. Pronto. Aí ele, Kanaratì: “Tá conversando com você. Se Kanarawarì vem para cá, você corre, pode furar ele.” Ele falou, falou bem direito: “Kanarawarì quer matar eu, então eu vou matar ele, tá bem?” “Tá.”