Mitos e outras narrativas kamayurá
26 - História de Yakui
Murenayat perguntou: “Como plantam isso?” Elas contaram: “Piqui, é feito de jacaré.” Murenayat perguntou: “Esse piqui tem cheiro?”
“Não.” Murenayat: “Então vou fazer cheiro de piqui.”
Murenayat deitou-se, atravessado na porta. As mulheres passaram sobre as pernas dele. Murenayat pegava o piqui e, quando elas abriam as pernas ao passar sobre ele, passava-lhes o piqui no ta(n)ma [órgãos sexuais femininos], pegando o cheiro. Então, passou esse piqui na árvore para passar o cheiro. Quando piqui vermelho caiu, mandou cheirar. As mulheres cheiraram. Depois caíram piqui branco, azul, verde. Todos cheiravam. Aí ele passou o piqui vermelho nos outros, depois todos os piquis ficaram vermelhos.
Cheiro de ta(n)ma antigo era cheiro de piqui. Kamayurá “trabalhava” muito mulher; quem chegava perto sentia, ficava sabendo. Aí Murenayat passou esse cheiro no piqui e a mulher não tinha mais cheiro. As mulheres sabiam o que fazia o marido [infidelidades] pelo cheiro – por isso Murenayat mudou o cheiro.
Murenayat plantou muito piqui em Murena, e os Kamayurá foram apanhar piqui, muda, e levaram lá para o Kamayurá [aldeia], nascendo muito piqui.
26 - História de Yakui
Bom, história assim, como é que foi [que] nasceu 100 yakui. Ayanama foi pescar. Esse o nome do índio, Ayanama. Ayanama foi pescar; foi tampar peixe. Primeiro Ayanama fez urna rede para pegar peixe (para nós chama a rede, pìa). Ayanama faz primeiro pìa, depois ele vai pegar peixe, mas ele vai pescar só de noite. Então ele chega lá, de tarde, ele faz jirau, para ele ficar lá em cima. Bom. Então Ayanama está deitando pìa por dentro d’água; ele amarra a canoa dele por baixo [do] jirau. Então ele pegava muito peixe, muito, muito, mesmo. Pegava pintado, pegava tucunaré, pegava pirarara, pegava bicuda, pegava surubi, pegava muito.
Aí Ayanama desceu do jirau. Ayanama está botando água por dentro do canoa dele, botaram água. Depois ele pegava jacuí, enrolava com pìa; aí ele botou dentro canoa. Aí Ayanama ele conheceu logo, jacuí. Botou nome mesmo, jacuí. Aí Ayanama ficou assim, pensando, agora, Ayanama falando: “Esse jacuí agora, só não pode ver, mulher. Mulher não pode ver agora. Só homem agora só pode ver.” Bom. Depois Ayanama foi embora. Chegou lá na estrada dele, aí ele pegou o capim, para enrolar jacuí. Bem enrolado, para não ver. Aí ele chegou lá na casa. Aí ele contou, para a mulher: “Eu já peguei, jacuí. Jacuí mesmo. Jacuí bem feito. Só você não pode ver. Agora… homem só pode ver jacuí. Homem pode, mulher não pode ver jacuí.”
Bom. Amanhã Ayanama foi tirar madeira, para fazer jacuí. Outro madeira. Agora, aquele que ele pegou [na água], não é madeira. Não é pau, não é nada qualquer coisa. Ayanama faz madeira, igualzinho jacuí. Ele faz quatro jacuí. Aí Ayanama estava tocando lá.
Tem um amigo, lá em Ay anama; chama Mawani(n)-wani(n). Amigo
dele chama 101 Mawani ( n )-wani ( n ). Então esse amigo dele ouviu ele tocar.
Ayanama morava assim. Agora, amigo dele, morava como na casa lá do lado. Aí Ayanama tocava, aí amigo dele viu tocar. Aí amigo dele falou assim: “O que Ayanama estava tocando lá? Bom. Amanhã eu vou lá onde ele está, eu vou ver o que é que ele toca, lá.” Aí amanhã foi, amigo dele chegou. Aí Ayanama viu: “Ah, você está aí, amigo!” “Estou aqui.” Aí ele procurou: “O que é que você tocou por aí, hem, Ayanama?” “Não… Eu toquei aqui… Eu fez pau para mim dançar, jacuí. Eu fez jacuí aqui para mim tocar.” Aí amigo dele acha bom: “Eu acho bom aquilo você tocou. Aquele que você tocou você vai me dar para mim.” “Sim, eu dou. Quando você vai embora, eu dou para você.” Aí ele deu para ele. Mas aquele que ele pegou, estava escondido, mas não mostrou para ele. Ele enrolou aquele que pegou, escondeu. Aí foi embora [o amigo].
Aí amigo ficava tocando lá. Bom. Aí Ayanama pegou aquele que ele pegou, vai tocar. Ele toca só de noite. Ele toca. Aí amigo dele viu tocar também: “Ih, aquele mais bom! Amanhã eu vou pedir para mim.” Amanhã ele chegou de novo: “Aquele que você tocou, mais bonito [do que] aquilo que você me deu!” “Não, aquele está bom também…”, vai ficando mentindo para ele, “aquele também muito bom. Aquele que eu fiquei tocando, não presta. Quer ver? Eu vou mostrar para você.” (Ele fez muito jacuí primeiro; muito mesmo.) “Aí, este aqui toquei. Este aqui toquei, esta noite. Mesma coisa [que] aquele que você levou.” “Sim; então vou levar este também.” Aí ele deu, de novo. Foi embora [o amigo].
Aí ele [o amigo], chegou lá, tocava. Aí Ayanama de noite tocava [a que] ele pegou. Aí tocou. Aí amigo dele escutou ele tocar: “Ih!… Será que Ayanama está enganando?” Aí amanhã ele chega de novo. “Aquele que você tocou esta noite, mais bonito daquele que você me deu.” “Não é, aquele mesmo está bom!” Aí Ayanama ficou assim, meio bravo com ele. Aí ele deu para ele: “Então você leva tudo!” Deu para ele tudo: “Mas eu não tenho mais comigo, eu já deu
agora [a] você tudo” 102. Aí ele levou. Aí estava tocando lá. Aí à noite Ayanama não tocou. Aí amanhã, amanhã à noite, ele tocou. Aí amigo dele viu ele tocar. Aí amigo dele veio de novo: “Ei, Ayanama, cadê meu jacuí mais bonito?” “Não, aquele que eu toquei hoje à noite, aquele é novo, que eu fiz. Quer ver? Eu vou mostrar. Aqui [está o que] eu toquei.”
Aí, tem o avô do amigo dele, que sabia. Aí… bom.
Ele [Ayanama] deu para ele: “Você leva isso. Mais bonito para você.” Ele aí foi embora. Estava tocando lá, aí Ayanama não tocou. Passa [um] dia, dois dias, aí ele tocou de novo, jacuí. Aí ele [o amigo] viu tocar também: “Esse Ayanama só ficando mentindo para mim. Está enganando.” Aí avô dele dizendo para ele: “Aquele não é madeira, jacuí mesmo. Aquele, Ayanama foi pescar, que ele pegou lá dentro d’água.” Aí avô disse para ele; aí ele sabe.