Mitos e outras narrativas kamayurá
27 - Como Ayanama fez Yakui
Aí de noite, Ayanama tocou. Aí amanhã ele [o amigo] veio de novo. Aí ele procurava: “Ayanama, cadê aquele que você tocou essa noite?” “Aquele não presta, aquele é novo, que eu fez hoje. Quer ver?” Aí ele mostrou: “Esse aqui foi [o que] eu toquei essa noite.”
“Não é esse, esse aqui você não tocou essa noite. Esse aqui, você fez esse [de] madeira só para enganar eu.” Aí foi embora.
Aí Ayanama voltava tocando: de noite o avô do amigo dele saiu, de noite. Veio assim andando devagarzinho, aí ele viu. Aí ele voltou, foi embora. Aí ele chegou lá: “Eu já viu, o jacuí de Ayanama. Aquele não é madeira.”
Aí amanhã cedo, o amigo dele vem. Aí chegou lá: “Ayanama, aquele jacuí, aquele jacuí que você pegou, eu quero ver.” “Eu não tem”, ele falou, “eu não tem não; eu fez aqui jacuí só madeira.” Aí eles começou brigar. Ficou bravo, assim para ele. Bom: “Pode deixar para você. Eu não quero não.” Foi embora.
Aí o amigo dele tem muito pessoal dele. Aí ele chegou lá, ele falou para o pessoal dele: “Vamos brigar Ayanama?” “Vam’bora”, aí todo mundo falar, “vamos brigar.” Dois dias fazendo flecha, para matar Ayanama. Quando termina flecha, aí vem. Ayanama está lá tocando. Aí amigo dele vem: “Ô Ayanama, agora você vai me dar esse jacuí para mim.” “Eu não dou. Esse jacuí que eu peguei para mim mesmo, não é para ninguém. Esse é meu jacuí.” “Não, você tem que me dar.” Aí chamou pessoal, para vir matar Ayanama. Aí matou Ayanama. Aí levaram esse jacuí dele, mas não matou mulher dele não, amigo dele carregou. Levou.
É assim.
27 - Como Ayanama fez Yakui O Ayanama fez [de] madeira, primeiro [de] madeira, o yakui. Para vocês chama palmeira. Palmeira. Mas para nós chama ‘ìmìra. ‘Ìmìra. Ayanama foi tirar ‘ìmìra. Bom, ele fez esse madeira [yakui dessa madeira], Ayanama fez. Aí ele [yakui] não prestou. Então ele botou a [madeira] mais bonita que essa madeira, e [que] para nós se chama yakuitap. Então Ayanama fez só [d]esse madeira. Ayanama fez, [d]esse yakuitap, então ficou bom para ele. Ficou bom.
Ayanama tirou mais madeira. Ele fez yakui, cinco. Aí Ayanama chama outra tribo, e a outra tribo chama ‘Ì(n)mawat; chama ao outro ‘Ì(n)mawat. Esse o nome de outra tribo: ‘Ì(n)mawat. Então ele chamou ‘Ì(n)mawat para ele tocar. Então o ‘Ì(n)mawat chegou lá, na aldeia de Ayanama, aí ‘Ì(n)mawat estava tocando outro yakui. Bom.
Então ‘Ì(n)mawat achou bom esse yakui [o de Ayanama]. Bom. Aí ‘‘Ì(n)mawat foi falar Ayanama, foi pedir. Foi pedir yakui. Bom, então Ayanama deu para ele. Ele deu yakui três, para ele. Bom. ‘Ì(n)mawat passou dia lá, três dias. Depois Ayanama disse para ele: “Quando vocês quiser fazer yakui, vocês tira madeira, não é madeira [como a que vocês usam], assim não é bom não. Vamos tirar madeira bom mesmo; quem serve, madeira, só ‘ìmìra. ‘ìmìra não é muito bom, não: então você tira yakuitap. É bom o yakuitap; é bom o yakuitap. Bom. Quando você faz yakui, quando tudo pronto,
aí tudo pronto, você tem de pescar primeiro 103. Então você chama a outra tribo, qualquer outra tribo. Chama Waurá, Yawalapití e Kalapálo.” “Sim.” Então ele deu yakui, Ayanama deu yakui.
Depois, ‘Ì(n)mawat fez yakui, fez yakui; cinco. Aí Ayanama disse para ele: “Você chama a outra tribo, você chama só homem. Mulher não pode. Só homem mesmo vem fazer yakui.” “Sim.”
Então ‘Ì(n)mawat chegou lá na aldeia dele, então ‘Ì(n)mawat falou para o pessoal dele, aí o pessoal dele foi pescar, passou dois dias lá [pescando], depois volta lá [para a aldeia], passa um dia lá [na aldeia], então ‘Ì(n)mawat manda chamar outra tribo. Chamar outra tribo, que se chama Mariwabera tapya(n)n. Chama essa outra tribo.
Então ele 104 chega lá na outra aldeia, aí Mariwabera tapya(n)n procurava ele: “Vocês está fazendo festa de Kwarìp, ou é outra festa?” “Não, nós estamos fazendo festa de yakui.” “Como é esse negócio de yakui? leva mulher? leva muito criança?” “Não. Homem só vai. Não leva mulher não. Só dança lá, só homem mesmo. Mulher não pode ver, nem criança.” “Sim”. Então ele falou lá: “Você passa aqui um dia; amanhã vocês vai.”
Aí passa um dia lá, então esse Mariwabera tapya(n)n vem, fazer festa. Então ele chega lá de tarde. Bom. Mesma hora que ele chegou, estavam dançando esse jacuí. A noite toda. Amanhã também, de dia também dança. Todo o dia. Bom. Quando acabar de dançar o jacuí, então o chefe de ‘Ì(n)mawat preparou esse peixe para ele [para os Mariwabera tapya(n)n]. Beiju, peixe, kawi(n), tudo, para ele[s] beber. Depois [de] acabar de comer, ‘Ì(n)mawat falou para o pessoal, ele dá flecha, esse enfeite de braço, brinco, tudo, arco, tudo. (Presente, não é?) Presente. Porque ele dançou bem lá o jacuí. Se ele não dança bem direito, aí ele não ganha flecha. Nem arco, nem beiju, nem tudo. Passa fome lá. Aí acabou [a festa].
Aí vem embora de lá. Então esse Mariwabera tapya(n)n procurava ‘Ì(n)mawat: “Como é que você faz o jacuí?” Bom, então o ‘Ì(n)mawat disse para ele: “Vocês faz madeira, vocês faz [de] madeira, esse que chama yakuitap. ‘Ìmìra não é bom para você. Só yakuitap bom para jacuí.” “Sim.” Aí então ele ensinou: “Você faz jacuí assim: tira madeira, você racha ele, faz buraco quatro buraco, põe cera na
poma, faz buraquinha, aí você toca 105. Só não pode mulher ver, né?”, aí ‘Ì(n)mawat disse para ele. “Sim.” “Quando você terminar esse jacuí, você pode chamar também nós. Aí nós vai para lá.”
“Sim”.
Aí Mariwabera tapya(n)n saiu de lá. Aí mesmo dia ele chegou lá, ele tirou madeira. Aí Mariwabera tapya(n)n fez jacuí lá, aí ele não prestou.
Aí Mariwabera tapya(n)n vem lá falar ‘Ì(n)mawat como é que ele faz esse jacuí, aí ele ensinou para ele: “Você faz assim, assim, assim.”
“Sim.” Aí foi embora. Aí ele chegou lá, fez jacuí, aí ele fez direitinho. Tudo pronto. Então Mariwabera tapya(n)n pesca primeiro, tudo isso.
Aí o chefe de lá, ele manda chamar ‘Ì(n)mawat. Aí ‘Ì(n)mawat vai lá fazer jacuí. Aí ele chegou lá, mesmo dia dançando, de manhã cedinho. Tem outro que não dança bem, aí esse Mariwabera tapya(n)n não dança bem. Então esse ‘Ì(n)mawat dança lá esse jacuí bem. Bom.
Depois, ‘Ì(n)mawat viu esse homem de lá [dos Mariwabera tapya(n)n], não dançava assim bem, então esse ‘Ì(n)mawat matou ele. Porque ele não dançava bem. Matou o Mariwabera tapya(n)n. Aí deixaram o morto lá. Aí ‘Ì(n)mawat não ficaram lá não; deixou o morto.
Então esse Mariwabera tapya(n)n não leva beiju para ele, nem kawi(n), nem tudo. Então esse ‘Ì(n)mawat ficou [com] fome lá, passa fome. Então ‘Ì(n)mawat veio embora de lá, porque ele não comeu nada lá, ele não comeu nada. Então ele deixou morto lá no meio da
aldeia. Pronto106.
Aí veio embora de lá. Bom.
Outro dia ‘Ì(n)mawat fez, [quis] fazer festa de jacuí, de novo. Então ele vai chamar outra tribo, chama Trumaí. Bom. Aí Trumaí chegou lá. Mesmo dia ele dançou. Então esse Trumaí queria brigar esse ‘Ì(n)mawat, porque ele não levou beiju, peixe, tudo. Então esse chefe de ‘Ì(n)mawat preparou esse kawi(n), peixe, tudo. Levou para ele. Bom. Depois de manhã cedinha, Trumaí dançando, dançando lá, então esse Trumaí queria brigar esse ‘Ì(n)mawat. Mas o Trumaí [o inf. declara ignorar o nome próprio do indivíduo provocador], ele queria brigar lá dentro da casa. Queria matar chefe de ‘Ì(n)mawat. Mas o pessoal dele [do chefe ‘Ì(n)mawat] não deixou.
Aí Trumaí veio embora de lá. Depois, Trumaí vem brigar. Escondido. O pessoal de ‘Ì(n)mawat foi pescar, até encontrar Trumaí. Aí Trumaí matou ‘Ì(n)mawat. Aí começou briga. Aí ele foi assim [que] começou briga. Depois o chefe de ‘Ì(n)mawat mandou procurar esse rapaz, [que estava na] pescaria. Aí ele encontrou [-o] morto. Aí ele viu flecha de Trumaí, aí ele já sabia. Então ele veio falar esse chefe: “Bom, Trumaí matou, o pescaria.” “Bom, então vamos brigar.” Aí o chefe do pessoal falou para o pessoal: “Pode preparar flecha sua.”