Mitos e outras narrativas kamayurá
Métodos de campo e critérios da edição
Mostrou-se eficaz o processo seguido nas entrevistas com Tawapì, que foi adotado sempre que um tradutor se impunha. Mas, apesar de ser o melhor que encontramos, por não interromper a narrativa a cada instante, levantou alguns problemas.
Primeiro deles, a tendência generalizada, e forçosa de aceitar, que têm os informantes no sentido de dar não uma versão ao pé da letra, mas uma em que o texto se simplifica, saltando trechos muito repetidos, sintetizando os diálogos numa exposição sucinta de seu conteúdo. Pode-se avaliar isto bem, comparando uma variante cujo original foi Kamayurá, com outra cuja gravação se fez em português: salta logo à vista o estilo vivo, expressivo e dialogado desta, contrastando com a prosa corrida daquela. Como exemplo, bastará tomar as três variantes do mito de Kamaratì e Kamarawarì (n.ºs 19, 20, 21). Se a traduzida é rica em acontecimentos e episódios, as duas outras levam-lhe a palma no vigor estilístico. E, diga-se de passagem, neste aspecto estão muito mais próximas de como as contariam na língua indígena, não obstante serem bastante abreviadas quanto ao enredo propriamente dito. Tal coisa é de atribuir à idade dos informantes. Tivessem eles a experiência e memória dos mais velhos, ou fossem estes capazes de se comunicar em nosso idioma, mais próximo se estaria do original, na forma e no conteúdo.
No citado processo de gravação, houve a impossibilidade de utilizar dois aparelhos; assim, o intérprete ouvia o gravador por um tempo, parava, e ditava a seguir sua tradução, passada então ao caderno de campo; depois, repetia a operação enquanto necessário. Como nos interessava a história em si, e não reproduzir, palavra a palavra, a fala do tradutor, surgiu o segundo problema, e surgiu como de ordem lingüística. O padrão do português do indígena é condicionado pela estrutura de sua língua nativa e pela da dos homens civilizados como os quais mantém habitualmente contato, e isto o afasta consideravelmente do nosso. Suas características mais notáveis – dificuldade com as flexões verbais e nominais – foram assinaladas quando falamos de Yanu(n)makakuma(n). O léxico é repetidamente atingido, coisa para a qual deve o leitor estar atento, evitando ser induzido em erro; um dos casos mais comuns é o do sistemático emprego do verbo procurar em vez de perguntar. Mas há outros, nem sempre fáceis de identificar, o que caberá às notas de que adiante nos ocuparemos.
Preocupados, como dissemos, com o mito e não com os aspectos formais do português do índio, houve, ao escrever as traduções, uma inevitável e mesmo inconsciente “re-padronização” dele em termos de nosso próprio padrão, que se faz sentir sobretudo no uso dos pronomes complemento. Poder-se-ia, mesmo, falar de um fenômeno de interferência lingüística. Seria de objetar que, conscientes dele, deveríamos expurgar o texto de suas conseqüências; mais isto implicaria em maiores modificações, sempre passíveis de inexatidão. Por isso preferimos ficar nesta advertência.
O mesmo se deu, em tão grande ou talvez maior escala, nos casos em que, sendo o mito narrado em português, faltou um gravador
magnético: então, o registro fez-se logo por escrito. No quadro 3, que apresenta os dados essenciais sobre as condições de recolha de cada variante, estes dois métodos aparecem, respectivamente, sob as rubricas “gravação + transcrição”. Recorremos ainda a um outro processo, quando a situação impediu gravar ou transcrever de imediato. Na primeira oportunidade, a redação foi feita de memória, e só se atendo ao conteúdo da história; razão pela qual não se esboçou, sequer, o problema atrás abordado. Designamo-lo, no
Quadro 3, como “redação livre”, e seu uso restringiu-se a apenas duas variantes, e a estas mesmo por ter sido inevitável. Deve ficar claro ser impreciso e só justificado por condições externas particulares.
Tornaram-se necessárias as observações anteriores, por ter dominado em nosso trabalho um outro método, mais fiel para com o português do informante. Gravando nesta língua, e sendo ela a única em jogo, as entrevistas não tiveram o prejuízo, parcial embora, da intervenção de terceiro. As narrativas só mais tarde, em gabinete, foram postas por escrito. Ao todo, isto deu-se com 18 dos textos, um devido a Ayupu, os outros a Yanu(n)makakuma(n), os
quais deram entrada no Quadro 3 sob o título “gravação”.
Face ao material bruto assim alcançado, elaboramos critérios editoriais que lhe dessem unidade e que salvaguardassem o valor individual das variantes enquanto documentos de ordem etnográfica e lingüística; lingüística também, porque, do ponto de vista léxico, sintático e estilístico, os textos obtidos pelo quarto dos métodos descritos documentam o jogo das forças aculturativas em ação. Nem sempre, entretanto, aquele valor corre paralelo com a facilidade de compreensão da narrativa, pelo que se tornaram necessárias algumas intervenções.
Atribuímos a cada processo de recolha, de acordo com o grau estimado de “re-padronização” que implicou, um índice (de 1 a 4 inclusive), indicando da fidelidade a esperar, dele, em relação à língua portuguesa do informante ou do tradutor. O índice 1 corresponde à “gravação” e a uma fidelidade absoluta, pois as intervenções propositais vão devidamente identificadas. Seguem-se os índices 2 (“gravação+transcrição”) e 3 (“transcrição”), numa escala crescente de distanciamento do padrão original. Por fim, e já totalmente desligado deste quanto à forma, vem o índice 4, correspondente à “redação livre”.
Quaisquer que fossem os índices correspondentes a cada variante
(v. Quadro 3), os critérios de fixação do texto definitivo mantiveram-se os mesmos. Nunca conseguimos o que com justiça se possa chamar titulo de um mito: o que ocorre é uma indicação sucinta e variável de seu conteúdo, ou então o nome do personagem ou personagens centrais, ou a alternância de ambas as coisas. É, por exemplo, o que acontece com o mito de “Kamaratì e Kanarawarì” (variantes n.º 21). Diante disso, e da particularidade destacada pelo índio para designar o mito, é que o intitulamos de modo que, se não é arbitrário, tampouco corresponde a uma realidade concreta. No corpo das variantes, a imprecisão ocasional das expressões, a omissão de palavras ou mesmo sua troca ou colocação deslocada, obrigaram freqüentemente a introduzir esclarecimentos, correções, palavras ou parte delas, com o objetivo de tornar coerente e compreensível o relato. Isso, sempre que feito, indicou-se por colchetes e reduziu-se ao mínimo indispensável; se uma forma errada não deturpava o sentido da frase e o obstáculo era fácil de superar, deixamos a forma intocada. As observações paralelas à narrativa, oriundas do informante ou do interprete, figuram entre parênteses, e, quando vieram deste ultimo, isso foi apontado entre colchetes. A pontuação cingiu-se às pausas do original, tanto quanto viável, e a divisão em parágrafos obedeceu ao que parecia exigir o desdobrar-se do assunto.
Impossível de indicar nos textos, mas para o qual se deve aqui chamar a atenção, é um fato ligado aos meios de enfatização e exemplificação verificados nos mitos. Quando se quer sublinhar um acontecimento, ou apresentar sobre ele maior soma de pormenor, é repetido uma, duas, três ou mais vezes, mostrando a cada vez uma nova faceta. Precisa-se cuidado constante, para não confundir esse recurso estilístico, com a repetição sucessiva de eventos míticos semelhantes entre si numa mesma variante, o que também não é raro. Isso é fácil ao envolver apenas frases curtas, mas não o é tanto quando se trata de períodos maiores.
Para as palavras indígenas, houve dois critérios. Na grafia dos nomes de tribos, atuais ou extintas, seguimos o estabelecido pela 1.ª Reunião Brasileira de Antropologia, com pequena alteração: damos Awetì, Kuikúro e Yawalapití, e não Awetí, Kuikutl e Yawarapití, por serem aquelas as pronúncias ouvidas aos Kamayurá
e abonadas por outros autores 9. Já na grafia da língua destes últimos (em itálico), recorremos a um compromisso entre os sistemas de transcrição fonética e fonêmica, adaptado aos recursos tipográficos disponíveis e atendendo ao objetivo de facilitar a leitura
ao não-especialista10. Os valores fonéticos dos sinais usados descrevem-se na lista abaixo.
CONSOANTES
P oclusiva bilabial surda ny nasal palatalizada
– – sonora
t oclusiva alveolar surda ng nasal velar sonora
– –
k oclusiva velar surda / r “flap” alveolar sonoro
– –
oclusiva glotal l – lateral alveolar sonora
ts africada alveolar surda v fricativa lábio-dental
– – sonora, branda
n nasal labial sonora h fricativa glotal surda
– –
SEMICONSOANTES
Y alta anterior fechada, w alta posterior fechada,
– não arredondada – arredondada
VOGAIS
i alta anterior fechada, e média anterior fechada,
– não arredondada – não arredondada
ì alta central fechada, o média anterior fechada,
– não arredondada – arredondada
u alta posterior fechada, a baixa central aberta,
– arredondada – não arredondada
SINAIS DIACRÍTICOS
(n) – nasalização
ACENTUAÇÃO
O acento tônico, não fonêmico, recai sempre na
última sílaba.
Para tornar suficientemente claras certas passagens, em especial as alusivas a particularidades técnicas ou da vida diária da aldeia, muitas vezes os critérios seguidos e as intervenções realizadas deixam, ainda, a desejar. Foi assim incluído um corpo de nota, que aborda as dificuldades à medida que surgem. Obedecendo ao caráter documental prevalecente no trabalho, essas notas prendem-se, antes, aos aspectos culturais mais imediatos do mito que à procura de uma interpretação mais ou menos especulativa, mais ou menos analítica. Quando, para melhor compreender a ação mítica, foi forçoso interpretar, isso fez-se, e só, nos estreitos limites do necessário. Na verdade, só cremos num real valor da interpretação quando se possa considerar o mito não isolado, mas referido a seu contexto, natural, social e cultural, e, deste, especificamente ao ritual que o complementa. Aqui, isso só seria praticável com os mitos associados ao ciclo do Kwarìp, coisa a que nos dedicamos noutro lugar; quanto aos demais, julgamos ainda pouco abundantes os dados de campo, para que nos abalancemos à tarefa.
Foi também essa uma das razões para não optarmos por uma classificação tipológica na ordenação da seqüência de mitos, classificação que se basearia em suas características internas. Nem tal ordenação se apoiou, por outro lado, numa cronologia das ações narradas, que, se pode estabelecer nuns casos, não se pode em outros. Pouca, ou melhor, nenhuma evidência interna ou externa descobrimos que pudesse relacionar cronologicamente todos os acontecimentos míticos. Um caminho existe que permitirá avançar, até certo ponte, nesse sentido, e será o de tentar correlacionar os mitos com a posição ocupada, nos ciclos vital e anual, pelos rituais a que possam estar ligados.
Preferimos, portanto, seriá-los de modo a que se expliquem mutuamente, através de personagens ou acontecimentos tornados em traço de união, em fio condutor a ser acompanhado durante a leitura. Daí resultou, inevitavelmente, certa classificação, ou ao menos certo agrupamento em torno de temas centrais ou de personagens. Um esquema classificatório rigoroso, indispensável como projeto futuro, virá quando novos textos se juntarem a estes, e, com eles e outros elementos, for mais ampla e estruturada nossa visão do mundo religioso Kamayurá.
Encerra o volume um índice de personagens e lugares míticos, situados por variante, e não por página, pensado e organizado para permitir avaliar, sem perda de tempo, seu papel, caráter e significado na mitologia apresentada.
Brasília, 1970.
P.A.
1 Para os Kamayurá, v. Oberg 1953:30, Junqueira 1966:1; Bakiri, Steinen 1940:483-485, 1942:334-337; Trumaí, Murphy & Quain 1955:74-75; Awetì, notas pessoais de campo; Kalapálo, Carvalho 1951:16-25, Cunha 1960:117-118. Temos motivos para crer que a versão pelo último autor apresentada como Kalapálo, seja na verdade kamayurá: dá como herói cultural Mavutsini(n) (denom. kamayurá), enquanto os Kalapálo lhe chamam Kuantun (Carvalho, IBID.) ou kwatingi (obs. Pess.). V., ainda, a excelente coletânea dos irmãos Villas Boas (1970).
2 Aruak: Waurá. Schultz 1965-66. 1966:134-140; Ferreira e Ballot 1955. Yawalapití, Santos 1956:115. Mehináku (?) Ferreira e Ballot 1955.
Karib: Bakairì, Abreu 1938:254-55, 273-74; Steinen 1940:382,477-89, 491,1942:334-37; Oberg 1953:77. Kalapálo, Carvalho 1951:16-25; Cunha 1960: 117-119.
Tupi: Kamayurá, Galvão 1950:335; Oberg 1953:19, 24,30,33,50; Cunha 1960: 120-21; Junqueira 1966:1; Larala 1967:17-19. Villas Boas 1970.
Isolado: Trumaí, Murphy & Quain 1955:72-76.
3 Consideramos mito a história em si própria, e variantes todas as formas de que se reveste ao ser contada, incluindo as mutiladas ou de qualquer outra maneira abreviadas.
4 Referimo-nos principalmente a notas de campo arquivadas em instituições estrangeiras (p. ex., as de Quain, na Un. de Columbia). Tampouco foi possível consultar os textos publicados por v. den Steinen em Die Bakairi Sprache, Leipzig, 1892.
5 Aludimos às variantes publicadas por outros autores. Utilizamos também, anteriormente, os textos 1,2,3,5,13,16,17,19,24,25 desta edição, como apêndice documental a um trabalho sobre o Kwarìp (Agostinho 1966).
6 Os dados pertinentes aos informantes, intérpretes, grau de fidelidade lingüística (v. adiante), local, data e método de recolha e tradução, relacionados a cada variante de per si (devidamente numerada), vão sintetizados no Quadro 3. Os locais são designados P. N. X. (Posto Leonardo Villas Boas do Parque Nacional do Xingu); Ipavu (aldeia Kamayurá); Brasília (Dep. de Antropologia da Universidade).
7 Yanu(n) makakuma(n) aparece na literatura etnográfica como Sapai(n), tal cognome afetuoso parece ter- lhe sido aplicado na infância, por civilizados. Sapai(n) (conforme nos informou) são pigmeus míticos, de uns 4 palmos de altura, negros, antropófagos e de cabelo encarapinhado; vivem em buracos no chão e atacam as pessoas com pequenas bordunas de arremesso. Suas proporções são perfeitas, salvo pela estatura. Consta terem atacado os Trumaí, inclusive na aldeia.
8 Manifesta no uso de pinturas corporais não tradicionais: barba e bigode pintados a carvão; pintura de cabeça formada por uma calota branca de tabatinga com um traço horizontal envolvendo-a por trás e pelos lados e interrompida na frente, imitando capacete militar, em vez da pasta vermelha de urucu normalmente empregada; o traço envolvente era preto. Aprendeu, também e com facilidade, a manejar um gravador e a tirar fotografias. Tuvule faleceu devido a seqüelas de malária crônica, antes do primeiro semestre de 1973.
9 Kuikurus (Carneiro e Dole 1956-7). Kuikúro, Yawalapití, Awettí (Galvão e Simões 1964:141). Estes últimos grafam Nahuquá-Matipúhy, para a aldeia oriunda da fusão desses dois grupos; as resoluções da 1.ª Reunião Brasileira de Antropologia dão Nahukuá e omitem Matipúhy; adotamos Nahukwá-Matipú.
10 Usamos o mesmo sistema anteriormente, tomando como base das decisões o vocabulário padrão do Kamayurá de Carl Howard Harrison (s/d).