Mitos e outras narrativas kamayurá

Pedro Agostinho · Capítulo 46 de 51

Páginas do PDF

Mitos e outras narrativas kamayurá

Método

Classificados e avaliados os textos, na abordagem que adotamos e visando recompor o quadro em que se situa nossa variante Awetï, valemonos da comparação sistemática de todas as variantes compiladas. Fizemolo reduzindo-as a unidades mínimas comparáveis, que, inspiradas nos mitemas de Lévi-Strauss (1958: 227-255), não lhes são contudo identicas por ficarem, achamos, num nível inferior de abstração: muitas de nossas unidades mínimas poderiam ser refundidas num mitema, que, indispensável se uma análise estrutural fosse o objetivo, seria por demais sintético para o cotejo termo a termo que quisemos efetuar. Com ele se podem superar, ao menos parcialmente, as lacunas encontradas em cada variante, e estabelecer uma diacronia global das ações míticas. Esta, sendo uma reconstrução possível, não será porventura única, mas foi a que aflorou da manipulação rigorosa das unidades mínimas, e de virtualidades inerentes à própria sequência do mito, seja considerado nas suas variantes individualmente, ou nelas

combinadas entre si. Graficamente, o Quadro 2 demonstra como essa combinação se processa, e como as lacunas vão sendo recobertas por outros textos, de forma tal que a cada interrupção a narrativa é retomada sem solução de continuidade. Emerge assim um arque-mito de que participam todas as unidades mínimas de todas as variantes, na reconstrução de um hipotético texto arquetipal, e não apenas as de maior frequência relativa.

Para que o pudéssemos fazer, elegemos como variante de

referência 3 a de n.º 127, por ser a mais contínua e elaborada; mas, não o sendo de modo absoluto, houve recurso a outras variantes sempre que nessa se apresentavam falhas. Usaram-se então de preferência as que lhe eram mais próximas, adotando-se como critério de proximidade a tribo, o informante, o intérprete e o pesquisador envolvidos, e ainda a data da pesquisa de campo: isso naturalmente obrigou a que a referência fundamental fosse a tradição Kamayurá. Não foi ela, entretanto, a única, pois por vezes faltoulhe a minúcia necessária, ou, simplesmente, inexistiu, como no caso das origens do Ancestral, e das festas alua e imeo (v. 322b). No gráfico, um traço une as variantes que alternativamente serviram de referência, e que foram assinaladas com asteriscos a partir do momento em que funcionaram como tal. Na questão da atribuição dos bens culturais às tribos, houve uma referência para cada tradição tribal, porque estas divergem entre si o bastante para exigir organização em separado.

As unidades mínimas foram transcritas em fichas, depois arranjadas de forma a se corresponderem de variante a variante, e os resultados passaram a tabelas em que os textos ficam em colunas verticais, e as unidades mínimas comparáveis e correspondentes em linhas horizontais que vão de coluna a coluna. A estes grupos de unidades mínimas foi dado um “número de entrada”, num total de 723 entradas que compõem o arque-mito e incluem 1.360 unidades efetivamente cotejadas. Se, por hipótese, todas as variantes se igualassem termo a termo, para as 723 entradas teríamos nada menos de 15.183 unidades com que lidar: isto evidencia que o mito encerra uma virtualidade de informação muito superior à expressa em qualquer de suas manifestações ou variantes, e implica que só o seu conjunto é seguro objeto de análise. Sendo praticamente ilimitadas as variações possíveis, por muito prováveis que sejam serão sempre provisórias as conclusões obtidas. Estas, aqui, serão procuradas a partir do conteúdo mais evidente do mito, e portanto de seus níveis superficiais, reservando os de maior profundidade para posterior análise estrutural.

Reduzindo as tabelas componentes do arque-mito a dimensões compatíveis com um artigo, redigimos um “mito” que as acompanha fielmente, subdividindo-o em subtítulos que simplificam a referência