Mitos e outras narrativas kamayurá

Pedro Agostinho · Capítulo 5 de 51

Páginas do PDF

Mitos e outras narrativas kamayurá

Parte IIMitos e outras narrativas Kamayurá

Parte II - Mitos e outras narrativas

Kamayurá

1- Origem de Kwat e Yaì

Mavutsini 1 ( n ) pegou flecha, para a gente, para os Kuikúro, para os Kalapálo arco de pindaíba, para os Waurá pegou rede, ele entregou rede para os Waurá. Para a gente entregou flecha, Ìwìrapìtang. Para

os Kuikúro arco de pindaíba, para os Kalapálo também 2.

De manhã Mavutsin(n) levantou-se e disse: “Minha filha, vou apanhar corda de arco”. “Tenha cuidado, senão seu sobrinho [filho da irmã] vai matar você.” Aí ele disse: “Não, não pode matar.” Aí ele foi, foi apanhar corda de arco, foi lá perto da casa de Yawat [onça], apanhar embira de tucum e disse: “Quem está tirando corda de arco? Não, não pode. Vamos cercar Mavutsini(n), vamos matar”. E

as onças saíram de casa. 3 Yawat era sobrinho de Mavutsini ( n ).

Quando o Yawat, esticou o arco, Mavutsini(n) falou: “Não faça isso com seu tio não, eu tenho moças para você casar.” Aí o outro companheiro da onça perguntou: “Quero ver onde foi, quero matar bem no pé do ouvido dele.” “Não, não pode” [disseram-lhe]. Um dizia que estava querendo matar, mas o outro dizia não estava querendo matar.

Aí Mavutsini(n) voltou para a casa dele, levando Yawat com ele, o que tinha avisado que o outro queria matar Mavutsini(n). Chegaram em casa, ele mostrou o rapaz e disse que vinha para casar.

Aí as moças disseram que não queriam casar, porque a mãe dele, Yawat, as ia comer. Mavutsini(n) foi perguntando e nenhuma das moças quis.

Chegou, ai começou a fazer gente, aí começou gente mesmo, começou Caraíba, começou Kalapálo. Ele cortou Kwarìp, primeiro [de] Kamiuwa, depois de outro pau que se chama Kwarìp mesmo, dois Kwarìp e um Kamiuwa. Começou a trabalhar de manhã, fez barbante, fez cabelo, braço, o pé não porque não tinha jeito mesmo. Fez olhos com umas baguinhas vermelhas (que têm um pontinho preto). Então quis fazer dentes, com concha de raspar mandioca, ´ita(n), quebrada. Mas, quando experimentou risada, não foi boa, era preta. Aí chamou Kakatsi, que ajudou; chegou na casa dele, pediu para vir ver e ajudar, porque não tinha dado conta de acabar tudo. “O que é que não está certo?” “É o dente”. Chegaram lá,

pegaram caroço de mangaba e colocaram no 4 Kwarìp; estavam fazendo gente. Aí Kakatsi disse: “Agora está pronto.”

[Mavutsini(n) mandou as mulheres feitas assim, para casarem com a onça; mas uma delas atrasou-se].

A mulher que ficou [perdida] virou bicho, com cabelo grande igual ao de mulher. Tem quem já viu, grita igual mulher, ainda hoje tem gente que vê.

As outras mulheres foram adiante, chegaram na aldeia da onça eram quase três horas [da tarde – o inf. Aponta a altura do sol], chegaram no porto da onça: “Vamos trepar no pau, vamos ficar esperando gente.” Aí ficaram esperando, e apareceu Nyau(n)nyakunya(n), anu preto, era mulher. Veio, tomou banho e disse: “Não sou preta assim não, sou branca.” Aí olhou para cima e viu as mulheres: “Que é que vocês estão fazendo aì?” “Estamos esperando o pessoal.”

Aí a turma de 5 Yawat estava jogando bola, e a anu foi lá e avisou que as mulheres estavam lá. Aí ele foi [Yawat], jogou flecha de assobio, depois outra, perto do porto, que caiu perto das mulheres, mas nenhuma quis pegar a flecha. Então o que tinha jogado achou que elas não eram parentes dele. Apanhou a flecha e foi embora. “Devem ir para casa de outro, porque não apanharam minha flecha. Se tivessem apanhado, então era comigo.” E foi embora. Voltou lá para diante.

Aí Awaratsi(n)ng,irmão da onça, jogou flecha, e elas apanharam, as três mulheres. Aí Awaratsi(n)ng levou-as para a casa dele; estava cheia de minata, que servia para mingau, cheio de caroços, e as mulheres não beberam, por isso. Quem tinha feito era a mulher de Awaratsi(n)ng. Passaram dois dias, aí a mãe de Yawat estava socando mandioca, e a mãe de Awaratsi(n)ng mandou as moças pedirem massa para comer.

Estampa 1 – Kwarìp

A Mãe da Onça perguntou para elas que é que estavam querendo, e disse que ia dar. E disse que Awaratsi(n)ng só comia minata, mandioca não. Aí convidaram as mulheres a trabalhar, a fazer beiju para a mãe de Yawat. As onças comiam só caça, resolveram e caçar veado para comer. E pediram às mulheres para fazer mingau, beiju: “Vocês querem ajudar hoje, porque eles vão caçar e têm de levar beiju para comer?”

Aí chegaram da caça, Awaratsi(n)ng também tinha ido com Yawat. Trouxeram muito veado e assaram muito para comer, e trouxeram pedaços para as mulheres. Aí essas moças estavam trabalhando para a onça, na casa dele. Então a mãe de Awaratsi(n)ng chamou-as para comer, e elas disseram que iam acabar de fazer o que estavam fazendo, depois voltavam. Deram pedaços de beiju para Awaratsi(n)ng comer carne assada. Depois, Awaratsi(n)ng convidou-as para voltar a sua casa; mas elas não quiseram, lá só havia minata. Aí fizeram mingau de caroço de piqui e deram para a mãe de Awaratsi(n)ng, e o espinho [ do piqui] espinhou a garganta dela, toda, não podia mais falar: “Agora, você vai lá para a estrada e você tira.” Ela foi, roncando. “Você pode ir assim toda a vida. Pode ir mais longe.” Assim a mãe de Awaratsi(n)ng ficou como é hoje. Aí Awaratsi(n)ng veio, voltou a convidar para comer. Elas deram beiju para ele. Disseram que iam daí a pouco. Fizeram mais mingau de piqui e Awaratsi(n)ng ficou igual à mãe; foi para a estrada, foi longe fazendo força, mas não conseguiu tirar o espinho de piqui, foi embora e ficou assim roncando, até hoje, lá no mato.

Aí essas mulheres ficaram morando na casa de Yawat, porque o Awaratsi(n)ng já tinha ido embora. Aí convidaram para ir para a roça. Chegaram no meio da estrada e Yawat falou: “Se minha mãe convidar vocês para catar piolho quando eu não estou, não vão não que ela come vocês. Ela vai dizer assim: “Estou cheia de piolho; não vou fazer nada, pode vir catar…” Aí as mulheres ficaram sabendo:

“Mas não catem não, senão ela come vocês.” 6

Então a mãe da onça coçou a cabeça, pedindo para catar piolho. Uma moça foi, começou a catar e a comer o piolho. Mas o cabelo enrolou no piolho e no dente da moça; ela cuspiu e a mãe da onça disse: “Você está com nojo de mim”, e pulou nela, sangrou ela no pescoço. A moça estava meio prenhe e morreu, morta pela mãe da Onça.

Quando chegaram da roça, viram que a mais nova estava morta. A mais velha disse que devia ser a mãe da Onça que tinha matado. Disse isso para Yawat, que era marido dela, e disse: “Agora você vai convidar meu avô, Tanaba(n) [formiga], para tirar a criança da barriga dela.” Tanaba(n) veio, chegou lá perto da mulher que estava morta, examinou. E disse: “É homem, não é mulher não [que ela tinha no ventre].” E tirou o menino; depois voltou a dizer a mesma

coisa e tirou outro. Guardaram-nos num quartinho7 e de manhã os meninos já estavam mexendo. O pai botou na porta deles a rodilha de transportar cargas à cabeça, mas eles não aceitaram, rodilha é só de mulher. Aí fez dois arcos com três flechas cada um, e eles pegaram e saíram fora. Gostaram só das coisas de homem, de

mulher não8.

Aí foram matando passarinho, calango, por aí. Saíram, e ficaram

embaixo da porta9, deram volta na casa e encontraram a mãe de criação, que falou que não brigassem com ninguém.

Mataram um calango. O menino disse ao pai que matara o calango, que era avô deles; Yawat disse que não podiam, porque era seu avô. Contaram os cinco dedos do avô e é verdade que ele tem cinco, como a gente. [O intérprete acrescenta: “Eu também contei, no outro dia, e é igual à mão da gente.”]. Depois enterraram o calango, porque era avô deles; por isso até hoje não se come

calango, porque é nosso avô10. Até caraíba não come. Aí não

jogaram fora o calango 11.

Então encontraram o calango azul, ele falou: “Que estão fazendo aqui, meus netos?” “Caçando.” “Vou contar história para vocês: lá no meio do abacaxi do mato, está a avó de vocês, que matou sua [vossa] mãe. Então vou levar vocês lá.” Aí eles diminuíram, ficaram pequenos assim, desse tamanho [indica com a mão uns 40cm], e foram lá ver a avó deles. E o calango foi embora. A avó viu-os e começou a brincar com eles; debaixo do pé dos meninos, tinha pedra para matar a avó. Ela brincou com um no colo, e depois de brincar, botou no chão e pegou o outro. Quando o outro, ele meteu o pé com força para pular, em cima do coração da velha; ela morreu. Nesse tempo, ainda não tinham nome, os meninos. Quando voltaram para casa, falaram com o pai, Yawat achou bom, porque ela tinha matado a mãe deles.

Kuyatìtì [perdiz] era também avó deles. A mãe de criação falou para não mexerem no amendoim dessa avó. E eles disseram que não sabiam que estava na roça da velha. Escondidos, foram roubar amendoim, a perdiz veio e viu, achou que eram dois meninos que não tinham mãe. Disse: “Vocês chamam para ela [a mãe de criação] mãe, mas ela não é mãe mesmo. Mãe mesmo de vocês está enterrada no meio da aldeia.” Eles responderam: “Vovó, conta a história para a gente agora.” Ela contou que a mãe estava enterrada bem no meio da aldeia, que a avó deles tinha matado. Os meninos foram para casa, e ficaram chorando embaixo da porta. A mãe viu e soube logo porque estavam chorando, e quem é que tinha contado. Aí saiu e perguntou para eles que é que tinham. Eles disseram que sabiam, ela disse que era certo e que ela era irmã da mãe deles. Então perguntaram onde estava enterrada, a mãe e ela disse.

Foram lá, perto do buraco, choraram primeiro em choro de Kamayurá, depois de Kalapálo, Kuikúro, Mehinaku, Yawalapití, Awetì, Waurá, Trumaí, o resto do Matipú, Kayabí, Yurúna,

Txukahamãi, depois Suiá, depois Txikão, depois acabou12.

“Vamos agora experimentar tirar a mãe do buraco, para ver se está boa.” Chamaram, ela respondeu um pouco, eles tentaram, ela respondeu, muito fraco. Eles experimentaram, chamando “mamãe, mamãe, mamãe”, ela respondeu sempre, fraco. Cavaram e tiraram a mãe do buraco, puseram fora e chamaram. Ela respondeu, fraco, e eles viram que não dava de falar mais, os bichos da terra tinham comido a garganta dela. “Se você tivesse chamado antes, tínhamos tirado você de lá, antes.”

Aí convidaram Tumutumuri para enterrar a mãe deles. É um marimbondo, amarelo, com cabeça vermelha, que faz buracos no chão. Aí chamaram, convidaram para enterrar a mãe deles. Quando acabou de enterrar, fizeram banho nele primeiro. Depois urucu na

cabeça dele, 13 aka ( n ) wa ( n ) ng , por isso a cabeça dele é vermelha.

No outro dia, o pai dos meninos, Yawat, queria que eles andassem como onça, e tentou fazer pernas e braços, tudo igual onça. Mas quando ele puxou a cara deles para ficar igual onça, eles não agüentaram, começaram gritando, “Me salva, me salva!” –

chamando 14 Kawabib. Aí os Kawabib vieram e Yawat ficou com medo. Então os meninos atiraram o pai e a mãe de criação lá para o céu, e o nome deles agora é Ìwakakape ayrupi (“os que estão na Via

Láctea”)15. O resto do pessoal da onça foi mandado para o mato,

são as onças todas de agora. Estão por aí16.

Passou um pouco, 17 Mavutsini ( n ) chegou [do] Murena, lá na aldeia do Yawat, e achou só os netos. Perguntou onde estava o pai, eles disseram que estava no Ìwakakape. Então chamou-os para morarem no Murena, lá iam fazer muita coisa.

Eles aceitaram ir para lá. Chegaram na aldeia de Mavutsini(n) e o pessoal perguntou o nome deles. Ai disseram: “Tsaukuma”. Ai disseram-lhes: “Não, esse não pode ser seu nome, de vocês dois. Vocês querem levar meu nome? Meu nome é bom.” Aí Kwarayumia, bicho parecido com cigarra, pretinho, grilo, falou isso: “Meu nome é Kwat (sol) Yaì (lua), Kwat o mais velho, e Yaì o mais novo.” O mais novo chamou-se Lua, o mais velho, Sol. Aí os meninos quiseram.

Quando mudaram de nome, moravam lá no 18 Murena .

Do Murena, Savuru trouxe muito colar, para fazer visita lá no

Kawira 19 ( n ) ng, na boca do [rio] Tuaturi, e lá encontrou ariranha pescando com rede. Ela desceu, veio perguntar o que estavam fazendo. “Nós estamos querendo pescar.” Aí ela emprestou a rede, mas ele achou que era muito perigosa, que podia cair nela quando tomasse banho.

Aí saíram de casa, levantaram cedo, depois do galo cantar [sic]. Tomando banho, indo mais no fundo, o rapaz caiu na rede e morreu. A mulher dele achou que estava demorando, foi ver, as duas mulheres dele foram ver, estava morto na rede que ariranha emprestou. Savuru morreu, quando estava obedecendo ao conselho de ariranha, de ir olhar a rede quando o galo cantar. Foi aí que ele morreu; Savuru era gente. Veio do Murena, com duas mulheres. E as duas mulheres acharam-no morto: “Porque é que vocês fazem coisas dessas para os homens?” E choraram. Aí a mulher mandou a ariranha avisar Kwat e Yaì que Savuru estava morto. Então chegaram Kwat e Yaì lá no Kawira(n)ng, e choraram muito. Aí levaram as mulheres, voltaram para Murena,[mas antes] demoraram muito tempo lá [no Kawira(n)ng], e depois ficaram com muita fome: “Lugar ruim esse onde não se come nada.” Então disseram-lhes: “Sei de um lugar aqui onde há muito peixe, aqui. É o lugar de Ayanarì” (também é gente). Aí saíram, chegaram lá, foram bem recebidos. Ayanarì pediu para não falarem bobagem, senão podia acontecer alguma coisa. Kwat era perigoso. Ayanarì perguntou o que queriam, disseram que queriam água, que foram atrás de água. Ele disse que tinha, mas era suja. Mostrou e eles foram tomar banho com Ayanarì, que tinha água guardada numa casa que se chama Tapwi (n) que é o nome da casa de Yakui. Aí Ayanarì foi matar peixe para Kwat, lá na casinha. Matou só peixe elétrico, Wìrake, peixe ruim, e cozinhou. Só peixe com muita espinha, para que os dois Kwat morressem. Peixe bom mandava soltar. Aí cozinhou e deu a panela cheia para eles comerem.