Mitos e outras narrativas kamayurá

Pedro Agostinho · Capítulo 25 de 51

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Mitos e outras narrativas kamayurá

23 - Como o urubu ficou preto

Era assim.

 

23 - Como o urubu ficou preto

Urubu foi brigar. [Com] outro gavião. Outro gavião bravo. (Chama Pipiwa [esse gavião].) Foi brigar. Então Urubu chegou lá perto de aldeia de Pipiwa, então ele passa carvão. Passa carvão tudo. Mas não tem jenipapo para ele. Não tem urucu, não tem nada. Então ele

pegou carvão, passa no corpo tudo93. Tem terra vermelho, então ele passa na cara, para ficar vermelho. Aí ele ficou vermelho, o corpo dele ficou preto.

Aí esse Pipiwa tem outro jenipapo, não é jenipapo não (eu não me lembro o nome). Então esse Pipiwa estava pintando. O pessoal dele estava pintando, mas outro já foi contar para [ele que] Urubu vai brigar com ele. Então esse Pipiwa estava pintando, esperando. Aí Urubu chegou lá, na aldeia do Pipiwa, aí Pipiwa viu assim, aí Pipiwa pensava [que era] o pau; pau queimado. Aí ele ficou assim preto, tudo preto.

Aí depois o Urubu briga lá, aí Urubu ganhou muito, essa briga. Mas esse gavião bravo [era] muito, mas não ganhou não. ([O Urubu] tem o pessoal dele, também; o pessoal dele foi com ele também.) Então esse Pipiwa estava esperando. Pipiwa estava assim, muito, agora o Urubu foi, [com] dez pessoal, ele levou o pessoal dele. Só dez. Mas o Urubu ganhou. Mas esse Pipiwa não sabe essa briga; aí Urubu mataram um bocado. Muito mesmo. O pessoal do Urubu, não morreu nem um. Aí Urubu voltou.

Aí ele chega lá na aldeia dele, aí foi tirar esse carvão, mas não saiu não. Aí ele, o Urubu, ficou assim, ficou preto.

 

24 - Origem da mandioca Tem esse índio que se chama Pakue(n) [gaivota]. Esse Pakue(n) ele mora dentro d’água. Pakue(n) apareceu na aldeia de outro índio. Esse índio não tem o que comer: beiju, mandioca; quem tem é Pakue(n). Pakue(n) na aldeia viu uma moça e casou com ela. Ele, com vontade de comer beiju, estava lá há mais de cinco dias, pediu à mulher o que tinha para comer. Ela não tinha nada Pakue(n) convidou a mulher para a terra dele, para ver como é beiju. Pukue(n) falou: “Já vi que vocês não comem nada, nem beiju, nem peixe; vamos para minha terra.” O outro índio [da aldeia da mulher de Pakue(n)] bebe só a água de uma raiz.

Pakue(n) saiu de lá, ele e a mulher foram buscar beiju. Pakue(n) e a mulher chegaram à beira da água; ele disse para irem para dentro d’água; ela ficou com medo. Aí foram dentro d’água, onde havia uma casa grande. A mãe de Pakue(n) estava muito alegre porque Pakue(n) casou. Ela mostrou beiju, peixe assado e cozido, a mulher comeu lá; no outro dia voltaram com beiju. Vieram para casa da mulher. A mulher mostrou tudo e contou. Pakue(n) resolveu fazer roça.

Pakue 94 ( n ) fez roça, como daqui lá no aeroporto. Fez roça grande. Plantou. O pessoal de Pakue(n) veio, plantou para ele. Depois nasceu muita mandioca, ficou bom para ele comer. Mulher de Pakue(n), o pai dela achou bom Pakue(n) arranjar beiju e mandioca.

A cunhada deles ficava em casa e não saía. Moça nova. A mulher de Pakue(n) disse para ele não “mexer” com a irmã, que a mãe ficava brava. Todo dia iam arrancar mandioca, todo dia. Depois ele ficou doente, só conversa dele, mentira. Ficou em casa só, e tentou “conversar” a moça; quando a mãe chegou, ela estava “boa” ainda. No outro dia Pakue(n) tomou a ficar em casa. Tomou a mexer com a moça. Ela disse que ia tirar a liga (que usam abaixo do joelho para engrossar a perna, para bonito). Pakue(n) “trabalhou” ela. O pai da moça fez cesto para ela ficar dentro. Ela entrou, mas não conseguiu entrar direito. (A moça não podia ficar dentro da cesta, e por isso a mãe descobriu que ela tinha tido relações; ela não coube na cesta pendurada do teto porque tivera as relações sem tirar as ligas.