Mitos e outras narrativas kamayurá

Pedro Agostinho · Capítulo 30 de 51

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Mitos e outras narrativas kamayurá

29 - Os mama’e(n) que roubaram urucu

Aí [o rapaz] saiu de lá. Aí ele chegou lá [na sua aldeia], não diz nada. Aí ele ficou lá.

Depois, outro vai lá. Aí ele viu. Aí volta. Aí depois outro Kamayurá vai lá, aí Kuikúro contou para ele: “Esse moça, veio de lá de Kamayurá. Disse que Kamayurá enterrou ele [ela], saiu do buraco. Essa é ela.” Aí Kamayurá veio contar lá no Kamayurá. Aí Kamayurá foi matar ela. Aí acabou.

 

29 - Os mama’e(n) que roubaram urucu

Os Kamayurá foram pescar, e levaram yakui, urucu e outras coisas, para se pintarem. Levaram também cabaço, [que se chama] kunya(n)bapi(n)n: é de yakui, mulher não pode ser. Serve para tocar,

posto na ponta de um bambu116.

Então, esqueceram o urucu e kunya(n)bapi(n)n. Mama’e(n) não tinha urucu. Então os Kamayurá procuravam o urucu e descobriram que tinha esquecido. Procuraram, não acharam mais: mama’e(n) carregou.

Pescaram. Passaram dois dias (pescando); iam passar três, mas não passaram: então voltaram, porque o urucu não dava para pintar todos.

Procuravam urucu e kunya(n)bapi(n)n: “Foi mama’e(n) quem roubou.”

Chegaram na aldeia, ficaram tristes, porque não tinham kunya(n)bapi(n)n. Dançaram pouco, yakui, porque estavam tristes.

Dez dias depois, dois Kamayurá foram pescar. Acharam um lago, grande. Foram pescar nele. [Quando chegaram] na margem, ouviram mama’e(n) tocar yakui, ficaram sem saber o que estavam ouvindo. Mama’e(n) tocava igual aos Kamayurá, ficaram pensando que era Kamayurá debaixo d’água, ou mama’e(n). Ouviam também kunya(n)bapi(n)n.

A água começou a subir: “É mama’e(n)!” [disseram]. Esconderam-se.

Dentro d’água, ouviam a dança de yakui. Aí o torvelinho de vento caiu sobre a água e o lago secou: viram yakui, e mama’e(n) dançando. O mama’e(n) que dançava chamava-se Ipiranyau(n)n [piranha preta], era igual a gente e muito bravo. Os peixes, igual a gente, saíram para uma festa, noutro lugar. Aí Pirabuku, igual gente, dançava yakui. (Era bicuda, mas saiu como gente.) Eram muito altos. Todos os peixes foram para a festa. Pirabuku saiu com o yakui na mão dele.

Um Kamayurá queria falar, mas o outro não deixou: “A piranha come você. Quando o yakui sair, vamos lá na outra festa.” Chegaram à festa antes do Pirabuku, ele ficou com vergonha.

Os Kamayurá disseram: “Não tem vergonha não, nós somos bons, viemos pescar, não sabíamos da festa.” Pirabuku perguntou: “Aonde vocês vão?” “À festa.”

[Pirabuku falou:] “Nós vimos vocês pescando, roubamos o urucu e kunya(n)bapi(n)n, porque achamos bom [gostamos]. Vimos tudo, vocês é que não nos viram. Não levo vocês na festa por causa da piranha. Kunya(n)bapi(n)n e urucu, agora ficam para nós. Roubamos, porque não temos.”

O Pirabuku levava muito piqui e peixe para comer na festa, igual a nós: pimenta, tudo. Pirabuku deu pimenta, beiju, peixe assado para os Kamayurá. Eles comeram. Aí Pirabuku disse: “Passamos quatro dias dançando. Daqui a quatro dias espero vocês aqui, para trocar brinco, colar, tudo.” Esse mama’e(n) era igual a Kamayurá.

Quando a água tapou [voltou a fechar-se], caindo vento, Pirabuku disse para não pescarem, porque os peixes tinham saído todos: “Vão pescar no outro lago. Os peixes foram para a festa.” O vento

mama’e 117 ( n ) foi atrás deles, para a festa, também.

Os Kamayurá pescaram lá, e começaram a ficar tontos por causa do cheiro que sentiram, dos mama’e(n). Ao meio-dia saíram [de lá], às quatro horas chegaram [a casa]. Deitaram, morreram. Mas não morreram não; só ficaram mortos. Não quiseram comida, disseram que já tinham comido. Mas não tinham, só tinham comido comida de mama’e(n). Aí dormiram. Então, a(n)ng [alma] deles saiu, junto com o mama’e(n) Pirabuku, e foi para a festa.

No outro dia levantaram-se, mais ou menos às nove horas. Perguntaram o que tinha acontecido. Aí contaram tudo, o roubo também. Contaram que tinham ido à festa: “Comida de mama’e(n) é igualzinho à nossa. E daqui a quatro dias vamos lá, esperar.” Outros

queriam ir, não deixaram: “Não comeram comida de 118 mama’e ( n )”.

Os dois Kamayurá foram, quatro dias depois, para o lugar onde tinham estado. Às dez horas chegou o vento, abriu a água, piranha saiu do lago seco. No fundo do lago, só ficaram uns buraquinhos, que são a casa dos mama’e(n). Nesses buracos, iguais aos que tem

no céu, não entra água 119.

Pirabuku veio atrás do pessoal dele, com comida, e encontrou os Kamayurá, dando-Ihes enfeites, de todas as qualidades, e flechas. Aí contou que tinha ganhado na luta [buka-buka], da outra tribo de mama’e(n), e [contou] tudo da festa.

Os Kamayurá voltaram para casa, mas não ficaram mortos. Mostraram as flechas de mama’e(n), são diferentes das dos Kamayurá. Os enfeites são iguais aos dos mama’e(n). A fruta do buriti é o piqui do mama’e(n).