Mitos e outras narrativas kamayurá
33 - História de antigo
“Bem, manhã cedo, eu vou sair, vou procurar buriti; buriti. Você pode ficar lá amanhã na casa, amanhã vou procurar buriti.” Aí ficou lá na casa.
Amanhã cedo, bem cedo mesmo, irmão dela saiu. Foi procurar buriti, dentro do mato. Aí ele encontrou buriti. Aí ele voltou. Irmão dela veio fazendo estrada para ela, até sair [do mato]. Aí chegou lá: “Eu encontrei buriti. Vamos ver amanhã cobra vai acabar.”
De manhã cedo, primeiro mulher tomou banho. “Vou tomar banho primeiro.” “Sim, você pode tomar banho.” Aí ela toma banho lá, aí vem. “Vam’bora. Eu encontrei buriti.” Até chegar no buriti. Aí mulher, a moça, senta como está aqui assim [de pernas abertas] lá, lá no
carro 129, buriti está assim, como daqui lá no carro. “Vôcê pode sentar aqui, mais longe.” Aí a moça sentou, aí o irmão dela ficou lá com ela. Aí a moça começou a falar de novo: “Eu tenho vontade de comer fruta, fruta de buriti; quem vai tirar para mim?” Aí cobra saiu. Cobra vai andando, no chão, vai andando, vai andando, vai andando, vai procurar buriti. Até [que] ele [ela] viu buriti. Então cobra subia no buriti. A cobra vai subindo. Mas o buriti muito, muito alto. Muito alto, esse buriti. Aí o irmão dela falou: “Ainda não saiu tudo?”
“Não, ainda não.” “Sim; essa cobra não chegou lá, na fruta.” Aí cobra vai subindo. Aí irmão dela procurar: “Ainda não saiu, no rabo?” “Ainda não.” “Então você chega mais para lá.” Aí mulher assim, vai andando, aí o rabo saiu. “Saiu o rabo?” “Saiu.” “Então você pode levantar.” Aí mulher levantou. “Bom. Agora eu vou cortar”, irmão dela falou.
Pega em facão (não é facão não, pedaço de tábua, que faz assim [gume]), aí o irmão dela vai cortando essa cobra, pedaço, cortando, cortando, cortando, até que chega à cabeça. Quando cabeça vem
assim, corta cabeça, pronto. Aí saiu tudo. Assim é a história, viu 130.
33 - História de antigo
Bom, vou contar história de antigo.
Antigo, os Kamayurá antigo, uma moça tem vontade de namorar com rapaz. Mas o rapaz, esse rapaz, não tem vontade [de] namorar. Esse antigo. Bom.
Mulher com vontade de namorar com rapaz, mas rapaz não tem vontade namorar com ela.
Então essa mulher foi na estrada, ele [ela] escolheu um toco, pau, ele [ela] escolheu lá, que acha bonito; então mulher ele [escolheu] para namorar esse toco. Depois mulher voltou lá na casa dela, mulher voltou lá lá na casa dele [dela]. Aí mulher ficou assim, meio assim, fica alegre, assim; depois mulher pintou. Mulher estava pintada, assim, de urucu, jenipapo. Bom.
Mulher saiu, foi namorar com o toco. Mas os outros não sabiam que ele namorava com toco. Depois, tem muito rapaz que não tem vontade de namorar essa moça. Tem muita moça, tem muito rapaz. Bom. Depois mulher foi, namorar esse toco. Namorava todo dia, leva beiju para esse pau, leva kawi(n), peixe…(Mas pau não come beiju! Pau não come peixe!… [o in.. ri-se do absurdo]).
Aí, ele [ela] chega lá, mulher abraça esse toco, para ela ele conversa, esse toco. Assim, diz que essa moça está namorando com os outros rapaz, esse pau está dizendo para ela. Para ela, conversa. Namorava lá, namorava, abraçava, fica alegre, assim, depois voltou, na casa. Ela fica todo o dia assim. Todo dia, todo dia.
Bom, então esse rapaz queria namorar com ela. Ele tem companheiro, esse rapaz. Aí ele falou para o companheiro: “Eu vou namorar aquela mulher, aquela moça, estou gostando ela.” Bom, depois esse rapaz foi esperar na estrada. Foi lá atrás do toco, esperar ela.
Primeiro mulher faz beiju, peixe, aí daí a pouco mulher saiu, foi lá na estrada, foi lá assim, meio alegre assim, foi rindo, para o toco, assim. Vai andando, vai andando, assim… Chegou lá. O rapaz pensa que ela vem conversar ele. O rapaz pensa. Depois esse rapaz olhou assim toco, esse rapaz escondeu, sentou assim escondido. Aì mulher abraçava toco, assim, aí mulher falou para esse toco: “Come peixe, come beiju, você bebe, depois nós conversa.” Ninguém escuta essa conversa de toco. Mas só ele conversa. Mulher também conversa toco, mas ninguém escuta, conversa dele. Ficou assim alegre, assim, estava abraçando…
Aí, daqui a pouco, acabar de conversar, mulher “trabalhou” toco. “Trabalhou” toco. Aí rapaz ficou olhando assim para ela, assim, ficou assim, falando: “Moça já está assim, conversando assim toco, ‘trabalhando’ toco!… Agora eu vi, essa moça.”
Depois, esse rapaz saiu de lá, foi embora, foi contar para o companheiro dele. Aí o rapaz contou, lá: “Eu já viu moça, estava ‘trabalhando’ o toco. Mas aquela moça tem vontade de namorar, ela arranjou toco para namorar.” Aí o colega dele não acreditou. Amanhã cedo, ele vai de novo, esperar: “Vamos lá esperar ele [ela]. Você vê.”
Aí foram esperar. Aí mulher saiu de casa. Tudo pintada, assim, com jenipapo, leva beiju para toco, peixe, kawi(n), tudo. Aí chegou lá. Aí essa toco estava ciumando essa moça; toco estava ciumando essa moça, ele disse que namorando com os outros, assim. Aí assim. Aí ela, assim, não sei o quê: “Eu não estava namorando, [estou] namorando só você” – abraçava assim, daqui a pouco “trabalhou” de novo. “Trabalhava” lá. Aí esse rapaz ficava olhando, para ela: “Ih, assim!…”
Mulher foi embora.
Amanhã cedo, homem vem, com rapaz. Pega machado lá, para cortar toco. (Machado de pedra.) Aí chegou lá, cortaram toco. Aí jogou no mato. Aí fica lá, esperando. Aí mulher vem, essa moça. Moça chegou lá, não tem mais toco. Moça chorava lá, porque o rapaz cortou o toco. [O inf. ri, divertido.] Aí a mulher chorava lá, assim, ficou triste.
Depois, chegou lá na casa, ele [ela] foi tomar banho, lavou tudo
esse corpo de urucu, jenipapo, lavou tudo131. Bom. Depois, esse rapaz contou para a turma: “Nós vimos moça, namorando toco, a moça estava namorando o toco lá, nós vimos, nós cortemos o toco, nós vimos moça chorava lá, por causa do toco.” Bom. Esse é assim.