Mitos e outras narrativas kamayurá
37 - História de Trumaí
Aí depois o Kalapalo veio no Kamayurá, ele quer trocar panela com arco branco. Aí Kamayurá não gostou [do arco branco]. Aí Kamayurá disse: “Este arco não presta. Não presta nada.” Então: “Arco bom para nós, esse se chama ìwìrapapìta(n)ng”. Aí o Kalapalo não sabe fazer ìwìrapapìta(n)ng. Bom. Então Kalapalo chegou lá, trocava panela só colar, com Kamayurá. Então o Kalapalo vem trocar, arco [branco] com o [arco] preto; ele quer trocar com o arco branco. Aí Kamayurá não gostou: “Esse arco não presta. Não atura não. Esse [preto] arco bom.”
Kamayurá ensinou ele a trabalhar arco preto. Tudo dia Kalapalo chega lá, pedia, arco preto, aí Kamayurá achou ruim, então ensinou eles a fazer arco preto.
Depois, Kamayurá não faz panela. Agora só faz panela só Waurá. Quem começou fazer panela, Kamayurá. Waurá não. Waurá que aprendeu. Aí os Kalapalo fizeram arco preto, aí não fizeram mais esse arco branco. Arco não presta. Depois, Waurá fez panela muito, aí os Kamayurá trocaram com ele[s] também, panela. Depois Kamayurá não faz panela mais. O Kamayurá já fez, muito, agora não faz mais. Agora faz só Waurá. Agora, Waurá já sabe bem fazer panela, agora.
37 - História de Trumaí
Os Trumaí antigos não tinham flecha. Só usavam cipó para amarrar viado, tartaruga…
Quiseram pescar: um tirou muito cipó, foi à aldeia e deu [distribuiu] o cipó. Ai pegaram a canoa e foram para o rio, onde havia tracajá. Pararam Ia. Fizeram fogão, bem grande.
Um Trumaí caiu n’água, procurando tartaruga, sem respirar, debaixo d’água. Não encontrou tartaruga, só kari, um peixe cascudo e com espinho. Aí, o Trumaí subiu, e pegaram muito kari. Um pegava kari no fundo, os outros esperavam. Aí encontrou um bem grande, o kari prendeu a mão dele e o Trumaí ficou lá, preso. Outro foi olhar, unha uma pedra grande, e [o primeiro] estava debaixo da pedra. Deixaram-no lá, não teve jeito de tirar.
O Trumaí não morreu: estava esperando o kari abrir os braços. Demorou muito; bem tarde, seis horas da tarde, o kari soltou-o e o Trumaí subiu, logo.
No outro dia, foram pegar tracajá, levando muito cipó. Procuraram e acharam tracajá. Primeiro fizeram fogo, depois caíram n’água.
Depois, os Kamayurá foram pescar e pensaram que eram lontras, capivara, ariranha, e viram o fogo. Mas não viram os Trumaí. Viram também o cipó. Esperaram os Trumaí saírem: caíram n’água bem cedo, às seis horas, e saíram eram dez horas, lá do fundo. Os Kamayurá esperaram.
Tinha [lá] muito beiju de Trumaí, de milho. Aí os Trumaí saíram, com muito tracajá. Aí os Kamayurá perguntaram como é que pescavam. “Pegamos. Não temos flecha, não sabemos flechar. Nossa flecha é este cipó.”
Os Kamayurá mostraram flecha aos Trumaí, disseram que era com aquilo que pescavam. Os Trumaí disseram que não sabiam fazer flecha nem arco. Os Trumaí foram ver pescar com flecha. Antes
comeram milho136.
Trocaram beijus. Os Trumaí deram muito tracajá, para os Kamayurá levarem. Os Trumaí foram olhar, ver flechar peixe. E depois deixaram os Trumaí no porto. Os Trumaí disseram: “Nós queremos aprender a fazer flecha.”
Os Trumaí ensinaram os Kamayurá a pegar tracajá, mergulhando, mas Kamayurá não tiveram coragem de ir até ao fundo.
Os Kamayurá foram dizer ao [seu] chefe que os Trumaí queriam aprender a fazer arco. Aí o chefe falou: “Bom, primeiro vamos brigar com os Trumaí.” Ficaram escondidos [emboscados] no pesqueiro de tracajá. Os Trumaí vieram, de canoa, sem flechas. Fizeram fogões, caíram n’água, e os Kamayurá foram esperá-los, perto do fogo. Aí os Trumaí saíram; os Kamayurá disseram: “Queremos tracajá.”