Mitos e outras narrativas kamayurá
Variante Aweti
Calcular a profundidade cronológica absoluta de um mito é sempre tarefa difícil, senão inviável, mas um leve indício permite-nos tentá-lo. Ao delimitar os dois blocos ocidental e oriental, a v. 322 (colhida em 1887) arrola no de oeste os Suyá, que desde 1884 foram encontrados no Suyá-Missu, isto é, no extremo norte da bacia xinguana. Antes disso, eles localizavam-se a sudoeste da posição atual e a noroeste aproximadamente dos Bakaíri Ocidentais, o que justifica sua filiação ao grupo de Kame, sabendose que migraram do Rio Verde para nordeste sob pressão dos Bakaíri, aliados aos que, mais provavelmente Xavante, v. d. Steinen chama Kayapó. Esse movimento é situado pelo mesmo autor (1940:501) no primeiro quartel do século XIX, e marcaria a data mínima admissível para a existência, em sua forma presente, do mito que nos ocupa. Sendo de 1969 os textos mais recentes, veríamos um período de 144 anos coberto pela tradição tal como a temos, e sua marcante unidade, quer temporal, quer especial, atesta, ao nível ideológico da cultura xinguana, um ritmo de mudança muito lento. As diferenças resultariam do processo de difusão e aculturação, e dos anos decorridos entre o registro das múltiplas variantes. Dos oitenta e cinco após a primeira viagem alemã (1884), setenta se passaram antes de novo documento ser obtido, se excetuarmos os fragmentos devidos a Buell Quain. Mais recente ainda é a versão Awetï que agora transcrevemos.
Variante Aweti
O pai de 5 Mamutsinĩ era o morcego ( Tatsia ), que teve relações com uma mulher de pau-preto. Disso nasceu Mamutsinĩ em Aluaku, ainda de noite. Ainda pequeno [com mais ou menos o tamanho de uns 8 anos], veio para Murena. Quando cresceu, voltou e foi buscar a mãe para junto de si, para o Murena.
Resolveu Mamutsinĩ fazer arco de pau preto, e no mato encontrou-se com Itsumarï, capitão das onças, e ficou com medo. Foi roubar o arco-íris, e a onça viu.
Com medo, Mamutsinĩ prometeu mulheres ao capitão das onças, suas filhas. “Se você quer vai lá buscar, para ser sua mulher, traz para cá.”
Aí, com pau preto, trabalhou e fez mulheres para a onça.
Itsumarï veio buscar as mulheres e levou-as, as duas [o inf. mostra 2 dedos e diz: três]. Aí Itsumarï copulou. Aí nasceram os dois netos, mas a mãe deles morreu. (Eram Kwat (Sol) e Ta.tï (Lua). Os irmãos foram tirados da barriga da mãe e levados, pequenos, numa mala, para Murena. (Mamutsinĩ é Jesus).
Kwat chorava dentro da mala. O avô soltou-o; ele foi brincar na água. De noite, dormiu. Cresceu, o pai veio olhá-lo: Kwat escutou falar e chamou-o e Itsumarï gostou. Kwat contou a Mamutsinĩ e ele não gostou. Aí Kwat e o irmão choraram, pela morte da mãe, no mato. E a mulher de Mavutsinĩ disse: “Mãe o que?” – deu-lhes beiju de pau. Kwat comeu, e depois bebeu mingau da terra que se usa para fiar [tabatinga].
Kwat cresceu e foi caçar passarinho. Matou um, e o passarinho conversou com ele: “Essa não é tua mãe, é tua avó. Tua mãe a avó (mãe da onça) matou. Mamutsinĩ tirou-te da barriga dela e pôs na mala”.
Kwat veio, chorando. “Mãe, cade beiju, mãe, cade mingau, mãe?”
“Aqui tem”. “Não. Isso é terra e pau. Minha mãe morreu.” Ai Kwat fez o porco pondo-lhe [o seu próprio] cabelo. À noite, Kwat entrou no caitetu e foi comer o arroz de Mamutsinĩ no mato, e a mandioca também. Todos os bichos comeram. De dia, Mamutsinĩ viu tudo comido, gritou, e os bichos correram.
Kwat chorava. Mamutsinĩ veio e deitou-se na rede, bravo, porque o neto lhe comera o arroz. Mamutsinĩ foi pegar beiju, deu-o ao neto, que comeu. Dormiu, e depois foi brincar na água; o pai dele veio, ficou olhando. Aí pôs um soco e um gambá em casa.
Kwat pediu, e a onça fez-lhe flechas, que são as avós de todos os índios que moram no Xingu. Flecha uïp é do Xingu [ubá]. Os Jurúna são netos da flecha tempẽ ’ãndu [taquarinha] e os Cajabi e Suyá
(índios bravos) também 6. O pessoal da onça é que as fez, mas Kwat ficava com elas; muitas. Primeiro pegou flechas xinguanas, depois as dos índios bravos.
Kwat espetou as flechas no chão, na aldeia de Itsumarï), em círculo.
A noite foi falar com as flechas: “Amigo, vocês está brigando esse pai, pessoal desse pai” [i. é., mandou-os atacá-lo].
Fez então, à noite, a carabina que é avó dos caraíbas, mas ela não brigou, ficou na mão de Kwat. Quando as flechas (xinguanas) atacaram, ele apanhou o pai pela mçao e mandou-o para o céu: curvou uma pindaíba, sentou o pai nela, agarrando-o (porque o pai não queria ir) por uma mão, e atirou-o para o céu (ïwapit); sentou também a anta, o veado: aí a onça no céu está comendo anta e veado. Aí as flechas, todas, mataram as onças.
Kwat fumou, e a fumaça disse-lhe onde estava sua mãe, morta. Ele chamou-a, “Mãe, mãe, mãe… Levanta, mãe”. Ela disse: “Como é que é, meu filho? Estou morrendo”. Kwat chorou, chamando a mãe, e ela não veio. Ele mandava-a levantar, e ela não obedeceu. (A
língua de 7 Kwat é Kutanaphu ). Aí a mãe dele morreu; ele chorou, mas não adiantou. Aí as flechas-índio vieram.
Trouxeram mingau, e leite, pinga. As flechas disseram que não queriam pinga, era sujo. Kwat disse: “Como chama [o que] você quer”.
Aí os índios pegaram flecha e arco branco, os avós dos Yawalapití pegaram; e retiraram-se. O avô de Kutanaphu recusou a carabina, ficou só com arco e flecha. Veio Waurá: “Só quero flecha também: e pegou panela. Avô de Kamayurá veio: “Quero flecha também, arco preto e pena de tucano nas flechas, e de rei-congo”; recusaram também a carabina.
“Toma leite”, disse Kwat. Recusaram.
Os avós de Kalapálo quiseram flecha e arco branco e cuia, e colar de cintura. Avô de lanahukwá pegou flecha, colar de pescoço, cuia, óleo de piqui e arco branco. Avô de Matipú apanhou colar de
Matipú, arco branco e flecha e cuia e cipó de matar peixe, e feitiço8; levou tudo para casa. Avô de Kuikúro pegou flecha, colar de cintura, cuia grande, e foi guardar tudo. Avô de Trumaí ficou com arco branco e flecha de ubá, penas de tucano e rei-congo. O avô de Awetï tomou flecha, arco preto e branco, borduna, pena de tucano. Um bicho, parecido com mutuca, mordeu-o; levou esse bicho também, dentro de um saco, e guardou tudo na casa.
O avô de Cajabi pegou flecha de kamayïp (esse é nome Kamayurá; para os Awetï é tempẽ ’ãndu e pena de arara. Eram os primeiros índios bravos. Avô de Juruna pegou a mesma flecha, e borduna, e foi embora. Avô de Suyá pegou a mesma flecha e arco preto, borduna, unha de onça e pena de arara. O avô de Txukakamãe, apanhou dessas flechas. arco, borduna, arara vermelha. Avô de Mundurukú pegou a mesma flecha. E avô de Txikão, flecha de ubá, pena de tucano e arco branco.
Os avós dos índios recusaram o leite oferecido por Kwat, por ser sujo. Também não pegaram a carabina.
Kwat foi-se deitar. Ao meio dia levantou-se e foi fazer pedra, e gritava na pedra. Kwat fez de pedra o avô de Caraíba: de pedra branca [tabatinga], brancos, e de pedra preta, os pretos.
E a pedra gritava muito; era o avô de Caraíba. Mandou o avô de Caraíba pegar a carabina, machado, facão, camisa, máquina, gravador, leite, pinga, tudo. Então o avô de Caraíba foi embora. Beberam leite e pinga, rapadura, cana, açúcar e feijão.
Kwat levou o avô dos Caraíbas para muito longe. Aí o Caraíba veio e viu os índios no Rio. Discutiram se era bicho, ou gente. Aí brigaram. Os índios mataram o avô [os avós] dos Caraíbas. Foram matando, com flecha e borduna. Aí o avô dos Caraíbas veio e matou avô de índio, de todos eles. Aí os avós dos índios fugiram, pelo mato. E aí os avós dos índios vieram para cá e os Caraíbas ficaram