Mitos e outras narrativas kamayurá

Pedro Agostinho · Capítulo 26 de 51

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Mitos e outras narrativas kamayurá

25 - Origem do piqui

Ainda hoje, homem ou mulher, que o fizer, de ligas postas, fica sem poder andar direito.) Ficou com medo do pai e da mãe. A mãe dela chegou e achou ruim, ficou brava com Pakue(n), muito mesmo; mandou ele embora. Ele foi embora, foi chamar o pessoal dele para arrancar toda a mandioca.

Ele contou o que aconteceu, todos arrancaram a mandioca, toda. Pakue(n) voltou para esconder três ramas para a mulher dele, que já estava “buchada”. Ele disse que ia embora, e disse que a rama estava escondida: para quando o filho nascer, o pai da mulher plantar; ela encontrou a rama de mandioca. O pai dela plantou. A mandioca nasceu, devagarzinho, fez roça, depois outra e assim foi

aumentando. Nasceu muita mandioca95.

 

25 - Origem do piqui

Antigos não tinham piqui. Katipo era mulher casada, e namorava um jacaré. Ela foi para a roça. O marido dela tinha duas mulheres. O marido ficou. Ela fez beiju para o jacaré e levou; ele era muito bonito.

A mulher encontrou-o e gostou dele; por ser bonito, namorou. O homem não soube e todo dia a mulher levava-lhe beiju quando ia para a roça.

A mulher foi para a roça de novo, fez beiju; o marido perguntou para

que era o beiju: “Para comer com gafanhoto 96 e não passar fome na roça.” Ela perguntou: “Você não vai?”. O homem disse: “Só depois.” Ela foi e o jacaré esperava na estrada. O marido foi atrás e viu-a namorando o jacaré. O homem passou; a mulher ficou namorando e não viu o homem. O homem chegou na roça, a mulher não estava. Ficou capinando, quando a mulher chegou.

O homem perguntou: “Você não estava trabalhando aqui na roça? Onde foi?” A mulher respondeu: “No mato para apanhar gafanhoto para comer.”

Aí saíram de lá e foram para casa. Quando chegaram o homem disse: “Vou trabalhar flecha. amanhã vou caçar” (a mulher não sabia). A mulher disse: “Amanhã vou fazer beiju para levar.” O homem se calou.

De manhã ela fez beiju. O homem saiu bem cedo: “Vou caçar.” Foi esperar o jacaré. Ela foi, atrás, levando beiju e kawi(n) para o jacaré.

Quando a mulher chegou o jacaré não estava na casa dele. Ela chamou, gritando. Aí jacaré saiu. A mulher disse: “Vem comer o seu beiju; eu trouxe beiju bom para você.” O homem olhava o jacaré. O jacaré veio.

Jacaré veio, ficou conversando. Abraçando primeiro uma, depois a outra (eram as duas mulheres do homem que namoravam o jacaré). O jacaré era um rapaz bonito. O homem esperava ele começar a “trabalhar.”

Jacaré comeu beiju. A mulher convidou-o a “trabalhar”: primeiro uma, depois a outra. Quando jacaré trabalhou a segunda, o homem flechou, matando-o. Depois, bateu nas mulheres muito com um pau,

no corpo todo. As mulheres choravam 97. Aí o homem deixou-as lá: “Ficam aqui, não podem ficar lá na casa.”

A segunda mulher disse para a outra: “Que é que vamos fazer com o jacaré? Enterrar ou queimar?” “Queimar; não pode enterrar.” Foi buscar fogo na roça, juntaram capim sobre ele e queimaram o jacaré, deixando-o queimado.

Foram para casa, apanharam de novo e ficaram três dias sem comer, por causa do que fizeram. “Vocês não podem fazer beiju. Eu não como se fizerem.” Ele não pescava, comia na casa dos outros.

Ele largou as mulheres, elas ficaram sozinhas. Cinco dias depois, elas foram olhar o jacaré queimado. “Vamos ver se ele nasce?” Chegaram lá.

O piqui nasceu da cinza do jacaré. Ficaram alegres por ele ter nascido. Discutiram sobre o nome. “Vamos botar nome agora, Piqui.”

As mulheres saíram de onde era a casa do marido, fizeram casa junto do piqui, esperando a fruta nascer. Quando nasceu e ficou maduro, piqui caiu da árvore. Pegaram e cortaram o piqui com um caramujo. Cheiraram: “Não tem cheiro. Como vamos fazer agora?” Não fizeram nada. Caiu muito piqui; elas trabalhavam-no muito, cortando, [etc.].

Um homem, Murenayat, que morava em Murena [ele pusera o nome a si próprio – “dono de Murena”], tinha um papagaio que falava a língua de Murenayat, que era Kamayurá. As mulheres moravam

longe de 98 Murena , como daqui no aeroporto. Elas estavam trabalhando o piqui, que nasceu de quatro cores diferentes, conforme a direção dos ramos [norte, azul; sul, verde; leste, branco;

oeste, vermelho] 99. O papagaio comia só fruta. Murenayat e o papagaio não conheciam piqui.

Papagaio saiu cedo, foi comer fruta, uma qualquer; no dia seguinte, de novo; no terceiro dia, achou piqui e comeu piqui: quando ele encheu o papo, tirou o fruto e foi mostrar a Murenayat. Ele estava lá, sentado. O papagaio ficou trepado na casa, descascando piqui; deixou cair um pedaço e Murenayat ficou olhando, sem saber o que era. “Onde você arranjou essa fruta?” Cheirou, não tinha cheiro.

Murenayat arrumou linha. Foi trocar com um homem, Nyanuba(n) [aranha]. Murenayat caiu na linha de Nyanuba(n), que era a casa dele (ele fazia rede de pescar). Nyanuba(n) chegou, olhou Murenayat e disse: “Você caiu na minha casa, vou comer você.”

“Não, você não come eu; eu não sei entrar em sua casa, vim comprar linha.” Nyanuba(n) deu-lhe linha.

Murenayat atou a linha à perna do papagaio. O papagaio de manhã voou, foi onde estava o piqui e Murenayat seguiu a linha, vendo-a no alto das árvores. Achou piqui. Murenayat viu as mulheres e elas viram e souberam que eles vinham. Ele perguntou-Ihes o que faziam.