Mulan
Um
O sol da manhã brilhava sobre o lar de Mulan. Em pé no meio do conjunto circular de edifícios interligados do tulou chinês, composto por sua casa e pelas casas dos vizinhos, ela ouvia a movimentação dos aldeões ao seu redor. De uma varanda no segundo andar, uma mãe pediu para a filha levar a roupa recém-lavada. Em uma cozinha no térreo, uma colher batia dentro da tigela – outra mãe estava preparando o jantar. Da abertura entre os edifícios que levava até a estrada, Mulan conseguia ouvir os “mus” baixinhos das vacas regalando-se em pasto novo e os cacarejos ocasionais das galinhas soltas, que desviavam das pesadas patas dos animais maiores. Vindo de sua própria casa, misturado a todos os outros sons, Mulan ouvia um clique contínuo – click, click, clack, clack – da lançadeira de tear operada por sua mãe e sua irmã mais nova.
Mas esses sons não distraíam Mulan. Ela tinha crescido com eles. Ela passara todos os dias de seus sete anos convivendo com os mesmos aldeões. Hoje, os tocs e tacs compunham apenas o barulho de fundo para a sua missão do momento: levar as galinhas ao galinheiro.
Infelizmente, as galinhas não estavam muito dispostas a obedecer. Já havia uma hora que Mulan e seu pai, Hua Zhou, estavam tentando conduzir o pequeno grupo de aves de um lado do pátio para o outro. Mas, a cada vez que conseguiam levar a maior parte das galinhas no mesmo sentido, uma sempre acabava escapando do grupo. De tanto correr de um lado para o outro na frente do pai, tentando agarrar os animaizinhos, a testa de Mulan estava molhada de suor. E seu braço estava começando a doer de tanto bater a vara de madeira no chão para chamar a atenção das aves. Ainda assim, ela não perdia o ritmo e, enquanto seu pai parecia querer desistir da tarefa, Mulan estava prontíssima para continuar. Ela amava um desafio. E agrupar as galinhas certamente era um desafio.
– Calma, Mulan...
A voz de seu pai era séria, mas amável. Olhando para cima, ela viu o calor dos olhos castanhos de Zhou dirigido a ela. Ele sorriu. Mulan sabia que muitas pessoas na aldeia se sentiam intimidadas por seu pai. Ele sempre andava de cabeça erguida e peito estufado. Havia sido um guerreiro feroz, embora o seu corpo estivesse se tornando mais frágil com a idade. Seus ombros já estavam levemente curvados, e seu cabelo não era mais tão volumoso. Mesmo assim, ele ainda exalava um ar de confiança, ainda que, por ter ficado manco, fosse forçado a caminhar com uma bengala. Para Mulan, ele não era nem feroz nem assustador. Ele era seu pai. E ela o adorava.
Aos sete anos de idade, Mulan sabia que deveria passar seu tempo ajudando sua mãe a cuidar da casa, mas ela não tinha interesse em tecelagem, culinária e limpeza. O simples ato de pensar nessas tarefas chatas já a fazia bocejar. Sua irmãzinha, Xiu, gostava de fazer tudo isso – e fazia com excelência. Então, seria muito mais útil, como Mulan tinha argumentado mais de uma vez, se Xiu trabalhasse com a mãe enquanto ela ajudava o pai, que não tinha filhos homens para lidar com desafios – como conduzir as galinhas traquinas.
Um cacarejo bem agudo trouxe os pensamentos de Mulan de volta para a sua tarefa. Como se finalmente tivessem se dado conta de que ganhariam comida e descanso caso se empoleirassem, as galinhas começaram a se mover em grupo. Mulan deu um gritinho de felicidade, assustando uma senhora que estava dentro do santuário que ficava bem no centro do pátio. Ela estava acendendo um incenso na base da grande estátua da Fênix que dominava o espaço interno. Assim como o restante do conjunto de casas, o santuário já não era como antes. Telhas haviam caído da cobertura e mais de uma placa de madeira estava solta. A estátua, no entanto, mantinha-se em bom estado. Para aqueles que viviam na aldeia, ela era a parte mais sagrada e importante de seu pequeno mundo. Era uma representação de seus ancestrais, uma conexão com os que vieram antes. Cada homem, mulher e criança passava ao menos uma parte de seu dia no santuário, desfrutando da quietude e da paz do lugar. A menos, claro, que alguém gritasse lá fora.
Por um momento, pareceu a Mulan que a tarefa estava concluída. Seu pai estava levando a última galinha ao galinheiro. Mas, de canto de olho, ela avistou uma galinha solitária afastando-se do grupo. Fez uma careta e olhou para o pai. Zhou estava distraído, certificando-se de que todas as galinhas haviam sido recolhidas. Ele não tinha notado a fujona. Um olhar de determinação tomou conta da expressão de Mulan. Silenciosamente, ela deslizou para longe, abaixando-se e driblando alguns vizinhos pelo caminho enquanto perseguia a avezinha em direção a uma construção de madeira rústica.
Mulan manteve o seu ritmo constante e seus passos lentos. Em sua cabeça, ouvia a voz de seu pai contando, mais de uma vez, a história da tartaruga e da lebre. Ninguém acreditava que o ritmo lento da tartaruga poderia ganhar uma corrida contra a rápida lebre. Mas, enquanto a lebre corria de forma irregular, a tartaruga, lenta e progressivamente, cumpriu o caminho até a linha de chegada. Uma parte dela sabia que deveria agir como a tartaruga: esperar e deixar a galinha perceber sozinha que estava com fome e cansada. Mas a sua parte que era semelhante à lebre – a parte que era péssima na hora de fazer as coisas de forma lenta e constante – não queria esperar nada.
Enquanto a ave movia-se para longe de seu alcance, o coração de Mulan batia forte, e os seus dedos começaram a se contrair. Seu ritmo acelerou. Primeiro, uma caminhada mais rápida e, em seguida, uma corridinha, até que ela acabou disparando em direção à galinha. Ouvindo os passos de Mulan, a galinha soltou um cocó! bem alto e correu mais rápido, batendo as asas descontroladamente e espalhando penas para todo lado.
Foi dada a largada!
Mulan perseguiu a galinha por todo o pátio. Mas toda vez que os seus dedos quase a agarravam, a espertinha corria para o outro lado, ganhando mais alguns minutos de liberdade.
Notando o que a filha estava fazendo, Zhou gritou:
– Mulan! Esqueça essa galinha!
Mas o ritmo de Mulan não diminuiu.
Ela quase não registrou o fato de que a galinha estava indo voluntariamente para o galinheiro, passando agora pelo santuário. Empolgada, Mulan continuou a seguir a ave, que desajeitadamente voou por cima da estátua da Fênix. Mulan saltou e passou raspando pela antiga relíquia. Os seus pés não a tocaram... Mas a vara que ela ainda estava carregando...
Com um CRAC! alto, a vara atingiu com tudo o grande pássaro de pedra, derrubando a sua asa esquerda. Fora do santuário, os outros moradores de repente interromperam as suas tarefas para ver o que havia acontecido. Todos soltaram um suspiro coletivo ao assistirem à asa caindo no chão com um baque. Eles nunca haviam dado atenção às brincadeiras de Mulan – até agora.
Ainda assim, Mulan não percebeu nada. Ela já estava fora do santuário, ainda correndo atrás da galinha por uma escadaria que levava a uma varanda no segundo andar do prédio. Ao ver a menina correndo em sua direção, uma jovem mãe que segurava um bebê em seus braços desviou para não ser atropelada. Correndo, Mulan abaixou-se para passar sob um cesto de arroz carregado por dois homens e acabou trombando com uma mulher que estendia a roupa no varal. A mulher gritou quando a roupa voou pelos ares, assim como mais penas de galinha.
– Mulan! Controle-se!
Ao som da voz de sua mãe, os passos de Mulan abrandaram. À frente, ela viu a mãe, Li, em pé ao lado da porta de sua casa, com os braços cruzados e uma cara feia, embora o seu rosto fosse na verdade lindo. Ao lado dela, estava Xiu. Ao contrário de sua mãe, a expressão no rosto de Xiu era alegre – ela achou divertido ver Mulan e a galinha correndo em direção a elas ao longo da varanda estreita.
A ave chegou ao fim da varanda e, mais uma vez, saiu voando. A criatura de asas curtas e corpo pesado não conseguiu ir longe, mas foi capaz de chegar ao telhado. Mulan recuperou seu ritmo original e não desacelerou, mesmo com o fim da varanda se aproximando cada vez mais. No último momento, Mulan estendeu a mão e agarrou um varal. Rapidamente, ela jogou o corpo para cima e conseguiu subir no telhado inclinado.
Mas, então, parou bruscamente, com os pés se equilibrando na beirada. Diante dela, a exuberante paisagem verde se espalhava pelo horizonte. A vegetação sobre as colinas oscilava ao vento suave, como as ondas na superfície da água. A respiração ofegante de Mulan de repente parou. O mundo era tão grande, tão vibrante. Ela desejou, não pela primeira vez, explorar o que havia além do horizonte. Mas não havia possibilidade de ela partir. Sua vida, seu destino, estavam amarrados ao tulou em que se encontrava. E, como sua mãe gostava de dizer, não tinha como escapar do destino.
CÓ!
O cacarejo da galinha interrompeu os pensamentos de Mulan, trazendo-a de volta ao presente. Estreitando os olhos, ela começou a se mover ao longo do telhado. Abaixo de si, o grupo de moradores, que tinha sido atraído para o pátio graças ao barulho da asa da estátua quebrando, olhava para Mulan. Horror e desaprovação forravam os seus rostos. Algumas das mulheres mais velhas sussurravam entre si, sem se esforçarem para disfarçar o seu tom de decepção.
Como se tivesse decidido dar fim ao jogo, a galinha parou, caminhou até a borda do telhado e, com uma batida rápida de asas, pousou no chão. Soltando ainda um último cocó!, dirigiu-se ao galinheiro.
Vendo isso, Mulan fez um aceno de satisfação. Lá embaixo, seu pai apressou-se e fechou o portão para que a galinha travessa não escapasse mais. Ela sentiu uma onda de orgulho. Pelo menos uma crise tinha sido evitada.
Mas, quando seu pai ergueu o olhar e encontrou o dela, Mulan percebeu que havia ainda mais um problema a ser resolvido. Ela tinha conseguido chegar ao telhado, mas como desceria agora? Encarou a distância entre si e o local de pouso da galinha. Cheia de determinação, cerrou os punhos.
– Mulan – disse seu pai, reconhecendo aquele olhar –, preste atenção. Você vai respirar fundo e depois, lentamente, bem lentamente, vai descer até aqui. – Os olhos de Mulan não desviaram do galinheiro e da galinha criminosa, que agora estava sã e salva lá dentro. – Desça – ele repetiu. – Está me entendendo?
Mulan não respondeu de pronto. Ela sentia como se o tempo tivesse parado. O vento deixou de soprar em suas bochechas. Ela só conseguia ouvir o ar entrando e saindo de seus pulmões e seu coração batendo contra o peito. Seus dedos se contraíam, querendo se mover. Um passo, e ela poderia saltar. Um passo e, como a galinha, poderia voar. Mas ela logo voltou a si. A brisa soprou novamente contra o seu rosto. Balançando a cabeça, Mulan desviou o foco do galinheiro. Viu a multidão reunida e, ali no meio, seu pai.
– Sim – ela disse.
Zhou começou a sorrir, mas o sorriso virou um suspiro quando Mulan deu um passo não muito cuidadoso à frente. Na pressa, ela tropeçou no telhado de ardósia escorregadio. Abriu os braços, tentando desesperadamente manter o equilíbrio, mas era tarde demais. Estava na beirada. No momento que o grupo abaixo soltou um suspiro coletivo, Mulan caiu.
Por um terrível momento, Mulan acreditou que estava caindo para a morte.
Mas, então, a sua mente clareou. A mesma sensação de que o tempo passava devagar voltou e foi realçada por um raio de sol, um feixe solitário projetado para fora de uma das varandas, que captou seu olhar. Contorcendo o corpo de uma forma que parecia desafiar a gravidade, Mulan parou de agitar os braços e estendeu a mão para agarrar o feixe. Usando o raio de luz, Mulan desacelerou a sua descida. Seu corpo parou de cair e, em vez disso, começou a balançar como um pêndulo em torno do feixe. Quando ganhou controle suficiente, ela o largou e deu uma cambalhota no ar, pousando no chão sobre os seus pés.
Ilesa, Mulan olhou em volta, para a multidão. Seus olhos estavam brilhantes e suas bochechas rosadas graças à emoção e ao orgulho que sentiu ao pousar perfeitamente.
E, então, ela olhou para o pai. Zhou não disse nada. Não precisava. Os seus sentimentos estavam estampados em seu rosto. O que Mulan tinha acabado de fazer, os danos que tinha causado e o perigo em que havia se colocado, era tudo muito além do aceitável. Mulan havia decepcionado o pai.
O sorriso em seu rosto desapareceu.