Mulan

Elizabeth Rudnick · Capítulo 9 de 22

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Mulan

Nove

 

Estou morta, pensou Mulan. É por isso que estou me sentindo tão mal. Morri e estou sendo punida eternamente porque desobedeci à minha família.

Mulan abriu os olhos e imediatamente fechou-os de novo. Ela não estava morta, mas quase queria estar, porque, se estivesse, talvez não se sentisse tão péssima. Sua cabeça estava latejando, e seu rosto parecia estar pegando fogo. Ela tentou mover um braço para cobrir o rosto do sol implacável, mas os seus braços estavam pesados demais para serem erguidos.

Ela parou de se mexer e simplesmente ficou quieta por um momento, gritando, por dentro, com ela mesma e com os monges por terem-na feito se sentir assim. Ela nunca devia ter escutado os “conselhos” de Skatch. Um guerreiro inteligente não bebe vinho. Especialmente se era assim que se sentiria depois.

Algo bicou o seu nariz.

– Ai!

Mulan gritou, abrindo os olhos. Para a sua surpresa – e irritação – o pássaro feio estava lá, olhando para ela. Mulan franziu a testa quando percebeu que ele estava lhe dando uma bronca silenciosa, julgando o estado em que ela se encontrava.

Mulan sentou-se rapidamente, mas logo se arrependeu disso. O movimento fez a sua cabeça latejar ainda mais. Ela deixou escapar um gemido. Depois, quando conseguiu, olhou ao redor, ansiosa para dizer a Skatch e Ramtish exatamente o que ela pensava sobre os seus conselhos.

Mas, de repente, sentiu um frio na barriga.

A fogueira tinha se apagado. Os monges tinham desaparecido – assim como Vento Negro!

Mulan levantou-se em um pulo. Não havia nenhum barulho na clareira. Ela assobiou alto e esperou. Não houve relincho de resposta, nem o som de cascos batendo no chão. Ela assobiou novamente. Nada, de novo. O seu coração ficou apertado ao perceber que o seu maior medo se tornara realidade. Ela havia perdido Vento Negro.

No lugar dele, os monges haviam deixado seu burrinho cansado.

Mulan tentou não gritar. Ela não tinha nem cavalo, nem comida. Batendo o pé de frustração, ela gritou ao perceber que estava sem sapatos também! E ela nem tinha chegado ao exército ainda.

Respirando fundo, Mulan tentou acalmar as batidas do seu coração. Ela tinha chegado tão longe. Não daria para trás agora. Ela devia isso à sua família e a si mesma. Juntando os seus poucos pertences, ela passou os dedos sobre a inscrição na espada de seu pai. . . . As palavras tinham acompanhado o seu pai na batalha e eram agora parte de sua história, para o bem ou para o mal.

Prendendo a espada nas costas, ela agarrou as rédeas do burro e levou-o para fora da clareira. Os passos dele eram arrastados e, a cada poucos metros, o teimoso tentava parar para comer um matinho. Mulan puxava as rédeas com impaciência. O que mais poderia dar errado?, ela se perguntou.

Como que para respondê-la, ela ouviu um piado alto. Olhando para cima, ela viu o pássaro feio novamente em seu caminho. As asas da criatura estavam abertas e a cabeça, inclinada para o lado. Chega! Mulan perdeu de vez a paciência. Primeiro os monges, agora aquele pássaro de novo. Isso já é o suficiente.

– Você aí! – ela gritou. – Deixe-me em paz!

O pássaro não saiu do lugar – de imediato. Depois, enquanto Mulan o encarava, ele ergueu um dos pés. Erguendo as asas para trás, ele esticou o pescoço como se estivesse em pleno voo. Mulan engasgou quando começou a reconhecer o pescoço alongado, as asas abertas e aquela posição de imponência. Poderia ser?

– A estátua da Fênix? – Mulan arriscou, vendo a criatura como ela era: o pássaro do santuário de sua família ao vivo e em cores.

A Fênix abaixou as asas e acenou com a cabeça, como que para dizer “Finalmente!”.

– O quê? – Mulan disse, tentando entender a situação. Seu pai havia lhe dito que o pássaro cuidaria dela. Mas ela tinha entendido metaforicamente. – Você está aqui para me proteger? – Ela olhou para o pássaro, que fez um movimento quase imperceptível com a cabeça. Mulan queria rir. E chorar. Só podia ser uma piada. Uma piada cruel. Como um pássaro que mal tinha penas suficientes para proteger o próprio corpo poderia ajudá-la? – Será que, em vez de você, eu não poderia ter o meu cavalo de volta? – ela perguntou.

Em resposta, a Fênix soltou um silvo quase humano. Ela pulou em direção a Mulan e subiu nas costas do burro. Então, acomodou-se, ignorando o olhar mortal que Mulan lhe dirigiu.

– Você pode ficar tão confortável quanto quiser – disse Mulan. – Mas eu não vou voltar para casa.

A Fênix não se moveu. Mas o julgamento em seus olhos diminuiu.

– Eu vou lutar pelo meu país – disse Mulan, sem saber por que ela sentia a necessidade de se justificar para a Fênix. A expressão do pássaro não mudou. – Eu não preciso de você – Mulan acrescentou.

Dessa vez, a Fênix deu de ombros, mas os seus pensamentos eram tão claros como se ela os tivesse comunicado em voz alta. O tempo dirá, seu olhar disse. O tempo dirá. Então, com um último grito, a Fênix virou de costas sobre o burrinho. Ela parecia pronta para aproveitar a viagem.

Mulan suspirou. Parecia que a Fênix estava decidida a ir junto, precisasse Mulan dela ou não. Pegando as rédeas, Mulan puxou o burro em frente. Ela causaria uma ótima primeira impressão chegando ao exército com um burro e uma fênix que mais parecia um frango depenado.

Mas esse era um problema com o qual ela teria de lidar depois. Primeiro, ela precisaria chegar ao acampamento.

 

A viagem de Mulan parecia não ter fim, mas, então, terminou.

Quando chegaram à beira de um vasto espaço aberto, seus olhos se arregalaram diante da visão e dos sons do enorme acampamento militar. Bandeiras ondulavam ao vento no topo das grandes tendas cercadas por outras menores. O cheiro de comida espalhava-se no ar, fazendo o estômago de Mulan roncar mais uma vez. O som dos cascos dos cavalos se misturava ao metal estridente das espadas dos soldados treinando. Grandes portões foram montados nos arredores do acampamento. Diante deles, havia uma fila de centenas de homens, todos segurando papéis de serviço militar. A cada poucos minutos, uma dúzia deles ou mais era levada pelos portões e desaparecia dentro do acampamento fervi-lhante. Mulan observou tudo isso, tentando entender a cena movimentada à sua frente. Ela nunca tinha visto nada igual antes. Seus olhos se voltaram para os futuros soldados, cada um esperando a sua vez. Alguns eram jovens, com rostos ansiosos, e outros eram mais velhos, com rostos sábios e abatidos. Mas eram todos homens.

Respirando fundo, Mulan puxou o burro para frente. A Fênix, que havia adormecido sobre ele, acordou assustada. Vendo o acampamento, ela soltou um piado e pulou do burro, escondendo-se atrás dos arbustos. Por um breve momento, Mulan pensou em segui-la. Mas, então, lembrou-se das palavras na espada. . . . Ela tinha de ser corajosa agora.

Jogando os ombros para trás, Mulan avançou, agradecendo silenciosamente – e xingando – os monges pela “lição”. Ela entrou na fila. À sua frente, havia dois jovens aproximadamente da idade dela. Um era gordinho, com bochechas coradas. Parecia constrangido e desconfortável, e Mulan não pôde deixar de sentir uma onda de empatia. Ela imaginou que suas próprias bochechas também deviam estar vermelhas – se não de vergonha, provavelmente em razão das muitas horas que passara viajando sob o sol. Ao lado dele, havia um recruta mais alto. Ele disse algo para o garoto maior e depois riu, revelando uma lacuna considerável entre os dois dentes da frente, que o fazia parecer mais jovem. Mulan ficou quieta atrás deles, tentando não escutar.

Naquele momento, outro rapaz, alguns anos mais velho, cortou na frente dela. Ignorando a reclamação de Mulan, ele parou alguns centímetros atrás dos dois garotos. Um capim comprido pendia do lado de sua boca. Ao tirá-lo, ele fez cócegas na orelha do garoto maior.

– Eu sou Cricket – disse o garoto.

– Longwei – disse o outro recruta, apresentando-se.

Cricket assentiu e continuou:

– Minha mãe disse que eu nasci... – ele parou, levantando a mão para afastar o “inseto” que estava fazendo cócegas em sua orelha.

Atrás dele, o recruta mais velho conteve uma risada. Outro recruta se juntou a ele, apontando para o capim e o incentivando a brincar de novo. Mulan os observou com irritação. Cricket não fizera nada para eles. Qual era o motivo de provocá-lo dessa maneira?

Sem saber da situação, Cricket continuou conversando. Sua voz era amigável e aberta.

– Ela disse que eu nasci sob um auspicioso...

As cócegas haviam se tornado mais agressivas e Cricket bateu mais forte dessa vez. Só que, em vez de bater em um inseto, ele acidentalmente deu um tapa em Longwei, que gritou “ai!”, colocando a mão na bochecha.

Atrás deles, os dois valentões caíram na gargalhada. Então, empurrando Cricket e Longwei, eles ocuparam o seu lugar na fila. Os recrutas mais jovens tropeçaram um no outro, tentando manter o equilíbrio.

Sentindo que estavam prestes a cair, Mulan saiu do caminho. Mas ela não tinha visto o recruta que havia aparecido ao lado dela. Com um grito, ela colidiu com ele, e o impacto a derrubou no chão. Ela ficou imóvel por um momento, tentando recuperar o fôlego. Então, viu uma mão estendida para ela.

– Desculpe, girino – disse o recruta. – Foi mal.

Mulan não queria ficar corada. O jovem à sua frente era alto, magro e muito, muito bonito. Seus olhos eram brilhantes e gentis. Ele ofereceu a mão novamente. Distraída por sua boa aparência e pelo sorriso encantador que ele estava exibindo para ela, Mulan quase, quase pegou sua mão. Mas, então, ela parou por um instante. Ele a chamara de girino. De repente, com um pouco de atraso, ela ficou constrangida. Era exatamente o que Skatch havia dito que aconteceria. Ela não seria levada a sério.

Ignorando a mão estendida, Mulan se levantou e pegou sua espada. Mas as suas mãos estavam úmidas e seus dedos tremiam, então o que ela esperava que fosse um movimento rápido se transformou em uma luta para puxar a espada. Ela finalmente conseguiu sacá-la e, então, a levantou no ar e a apontou para a garganta do recruta, assim como Skatch lhe havia ensinado.

– Me insulte de novo – disse ela, forçando a gravidade na voz – e você sentirá a ponta da minha lâmina!

Na mesma hora, todo o humor deixou o rosto do jovem. Antes mesmo de ouvi-lo sacando a espada, ela sentiu a ponta da lâmina na própria garganta. Mulan engoliu em seco. Talvez ela tivesse sido um pouco apressada em suas ações. Skatch não havia lhe dito o que fazer se a outra pessoa também tivesse uma arma.

– Abaixe sua espada – disse o recruta.

– Ou o quê? – Mulan estava se esforçando, mas, mesmo para ela, sua voz soava frágil.

Mulan sentiu os olhos de Cricket e de Longwei nela, assim como os dos valentões. Ela podia sentir os seus olhares se revezando entre ela e o jovem à sua frente. Ouviu, então, alguém sussurrando “Honghui”, e alguns outros repetindo o nome. O braço dela tremeu, e ela quis soltar a espada, mas não podia. Não até o outro recruta, ou melhor, Honghui, largá-la.

Pelo canto do olho, ela viu outra pessoa se aproximando. Era um homem mais velho, com o rosto marcado pela idade e pela experiência. Houve um rápido movimento. Antes que Mulan pudesse piscar, seu braço estava torcido atrás das costas. Um momento depois, a espada foi removida da mão dela e o braço, solto na lateral do seu corpo. Ao lado dela, Honghui esfregou o próprio braço, com os olhos na arma.

– Sou o seu comandante. Comandante Tung! – gritou o homem. – Brigas não serão toleradas. Estou sendo claro? – ele dirigiu-se ao jovem com os olhos gélidos.

– Sim, Comandante – disse o outro recruta imediatamente.

O Comandante virou-se para Mulan e repetiu a pergunta. A sua voz ficou presa na garganta. Ela assentiu.

– Com a sua voz, soldado – ordenou o Comandante Tung.

– Sim, Comandante – disse Mulan.

À sua frente, Honghui pegou sua espada e olhou para Mulan. Ela tinha estragado tudo. Já estava ganhando inimigos, não aliados.

Entregando a espada a Mulan, o Comandante hesitou, seus olhos captando as palavras gravadas na lâmina. O reconhecimento brilhou em seu rosto, e ele olhou para Mulan com interesse renovado.

– Qual é o seu nome, soldado? – ele perguntou.

– Hua Jun, Comandante – disse Mulan, a mentira deslizando de sua boca.

– Esta é a espada da sua família? – perguntou o Comandante Tung.

Mulan assentiu e depois lembrou que o Comandante queria respostas com palavras.

– Pertence ao meu pai, Hua Zhou – disse ela.

Por um momento, o Comandante olhava de um lado para o outro, entre a espada e Mulan, com o rosto neutro, mas os olhos brilhando de emoção. Então, percebendo seus pés descalços, ele acenou com a cabeça em direção a uma tenda atrás deles.

– Vá arranjar um par de botas – disse ele.

Antes que Mulan pudesse responder, o Comandante Tung partiu, desaparecendo na agitação do acampamento.

Mulan observou-o ir embora. Quando estava fora de vista, ela finalmente conseguiu respirar. O Comandante poderia tê-la punido ou a mandado embora. Em vez disso, ele parecia se interessar por ela – ou, pelo menos, pelo nome de sua família. Embora ela não estivesse animada com a perspectiva de já ter feito inimigos entre outros recrutas, aquele encontro ao menos havia lhe dado a chance de calçar botas, o que, ela pensou olhando para os pés ensanguentados, não poderia ter chegado em melhor hora.

Mulan juntou suas coisas e foi em direção à tenda de roupas. Quanto mais distante ela ficasse de Honghui, melhor. Em outro mundo e outro cenário, Mulan tinha a sensação de que Cricket seria um amigo. Mas ela não ficaria ali para descobrir se seu palpite estava certo. Ela pegaria as botas e depois pensaria na confusão em que tinha se metido. Ela estava tão preocupada em sobreviver ao campo de batalha que nem sequer pensou em como sobreviveria ao campo de treinamento.