Mulan
Vinte
O Palácio Imperial estava quieto. Do alto do céu, o sol projetava longas sombras na sala do trono. Sentado em seu trono, o Imperador estava em silêncio, perdido em seus pensamentos. Ele ouvira relatos perturbadores sobre os danos que Böri Khan e seus Guerreiros das Sombras haviam causado na Rota da Seda. Era apenas uma questão de tempo até o pânico e o medo se espalharem pelo reino. E com pânico e medo, viriam instabilidade e perigo. Isso não poderia acontecer. Ele precisava proteger seu povo e manter seu reino seguro.
O Imperador dirigiu o seu olhar para as portas da sala do trono se abrindo. O Chanceler vinha em sua direção, com urgência em seus passos. Quando chegou ao trono, fez uma reverência. Depois, endireitando-se, falou:
– Vossa Majestade. Uma palavra em particular?
O Imperador assentiu, tentando manter o rosto neutro enquanto os outros oficiais e atendentes da sala se afastavam. Ele conhecia o Chanceler havia muito tempo. Se ele parecia tão preocupado, algo de muito errado devia estar acontecendo. Infelizmente, ele estava certo.
– Batedores me informaram que Böri Khan se infiltrou na cidade – disse o Chanceler, com urgência em sua voz. – Ele está se reunindo no Palácio Novo com um pequeno grupo de assassinos altamente qualificados.
O Imperador inclinou a cabeça para refletir por um momento, sua mente estava acelerada com as notícias. Böri Khan teve a ousadia de ocupar o Palácio Novo. A construção, como dizia o nome, era nova e ainda não estava terminada. Erguida em homenagem ao seu pai, tinha um significado especial para o Imperador. Também estava menos protegida, o que a tornava um alvo fácil. Se Böri Khan tinha sido capaz de tomar o Palácio Novo, então sua força era maior do que haviam previsto.
Quando o Imperador olhou para o seu Chanceler, a sua costumeira expressão amável já não estava mais ali. Em seu lugar, havia a expressão de um guerreiro feroz e mortal.
– Prepare os meus soldados – disse ele. – Vamos ao local imediatamente.
– Vossa Majestade – protestou o Chanceler. – É muito perigoso.
– A sua lealdade e preocupação com a minha segurança são muito valorizadas – disse o Imperador.
Mas ficou claro que ele não tinha a intenção de ouvir o seu conselheiro dessa vez. Apontando para os generais e outros oficiais que haviam se recolhido nas sombras e agora davam um passo à frente, ele se preparou para dar ordens.
O chanceler o interrompeu antes que ele pudesse começar.
– Se me permite o atrevimento, Vossa Alteza Imperial... – ele começou sob um olhar severo do Imperador. Mas, apesar do olhar, o líder assentiu para que ele continuasse. – Coloque-me no comando do seu Exército Imperial. Eles seguirão as ordens e cercarão o Palácio Novo.
O Imperador ficou em silêncio enquanto pesava as palavras do Chanceler. Tomando o silêncio como uma oportunidade, o Chanceler continuou:
– Por favor, leve em consideração os seus cidadãos. Sua segurança deve ser garantida.
As palavras arrebataram o Imperador. Embora não fosse o que ele escolheria fazer, o Chanceler estava certo. Ele era o Imperador. Atirar-se nos braços abertos do inimigo sem apoio era uma manobra tola que poderia deixar o Império sem governo. Não, o Chanceler estava certo. Ele deu, então, as suas ordens.
– Estou colocando o Chanceler no comando da Guarda Imperial. O comando dele é o meu comando.
Enquanto os generais e oficiais se curvavam em concordância, o Imperador continuou, em voz alta:
– Esse monstro que ataca as nossas rotas comerciais! Esse assassino que ameaça o nosso modo de vida! Vou matar Böri Khan como matei o pai dele. Com as minhas próprias mãos.
Sem dizer mais nada, o Imperador saiu da sala do trono. Atrás dele, o Chanceler apenas assistiu à cena. Por vários minutos, ele ficou lá, com os olhos semicerrados e as mãos entrelaçadas enquanto oficiais e generais circulavam por todos os lados da sala. Depois de alguns momentos, ele se dirigiu a uma das janelas. Um lampejo de aprovação brilhou em seus olhos quando viu o Imperador se afastando do palácio, ladeado por sua guarda.
O Chanceler dirigiu-se para um dos oficiais mais velhos.
– Reúna todos os guardas imperiais imediatamente. Isso inclui todos os guardas de todas as torres e de todos os portões.
O anúncio foi recebido com murmúrios chocados.
– Mas quem protegerá a cidade? – perguntou o oficial.
– Você questiona o julgamento de Sua Majestade, o Imperador? – retrucou o Chanceler duramente.
O oficial sênior logo balançou a cabeça.
– Claro que não, Chanceler – disse ele, recuando. – Vou tomar providências imediatamente.
Quando finalmente a sala do trono ficou vazia, o Chanceler caminhou em direção ao trono. Erguendo o braço, puxou um alfinete da nuca. Quando o corpo do homem caiu no chão, inconsciente, uma centena de pequenos pássaros se ergueram em seu lugar. Havia sido Xianniang o tempo todo. Os pássaros se levantaram e dispararam em direção à porta aberta. Subindo aos céus, organizaram-se de forma bem definida. Eles eram um sinal.
Enquanto isso, no canteiro de obras do Palácio Novo, Böri Khan avistou o bando de pássaros. Um sorriso se espalhou por seu rosto. Xianniang conseguira. Ela convencera o Imperador a deixar o seu palácio aberto e desprotegido e correr direto para a armadilha. O homem era um tolo. E agora ele pagaria por isso. Böri Khan fez um sinal para os seus Guerreiros das Sombras e observou enquanto eles se reuniram sobre um andaime na torre de vigilância a oeste e desapareceram.
Cavalgando Vento Negro, Mulan entrou pelos portões da Cidade Imperial. Haviam partido em alta velocidade do Mercado da Estepe Montanhosa, e tanto os cavalos quanto os cavaleiros estavam cansados. Mas, vendo os portões abertos e sem vigilância, ela e os outros soldados imperiais instantaneamente entraram em alerta. O corpo de Mulan ficou tenso e ela sentiu sua pele formigar. Algo estava errado. Impulsionando Vento Negro, ela e seus companheiros adentraram a Cidade.
Os cidadãos abriram caminho com medo e surpresa. Os soldados não diminuíram a velocidade até chegarem à praça principal do Palácio Imperial. Quando a adentraram, Mulan puxou as rédeas de Vento Negro, diminuiu a velocidade do cavalo e olhou por cima do ombro, para o Comandante Tung, com preocupação no olhar. A praça não deveria estar aberta. Os portões não deveriam estar desprotegidos. Onde estavam os homens que guardavam o Imperador e o Palácio?
Houve o som de madeira rangendo. Girando a cabeça, Mulan viu os portões da praça se fecharem. Um momento depois, foram trancadas. Eles estavam presos!
– É uma emboscada! – Mulan gritou para os outros soldados, enquanto os cavalos nervosos se remexiam e relinxavam.
Desembainhando sua espada, o Comandante Tung gritou aos soldados para se organizarem em formação tática. Assim que ele terminou, figuras escuras apareceram nas varandas que circundavam a praça. Em seguida, as figuras revelaram ser os Guerreiros das Sombras de Böri Khan. Eles saltaram das varandas, aterrissando no chão com a graça de uma dançarina, mas já com as espadas erguidas para a batalha.
O Comandante virou-se para Mulan:
– Proteja o Imperador! – ordenou.
Mulan não hesitou. Pulando nas costas de Vento Negro, saiu cavalgando pela praça. Seus braços chicotearam a espada no ar em movimentos precisos e fluidos enquanto ela afastava os atacantes que entravam em seu caminho. Atrás dela, o Comandante Tung convocou outros soldados para ajudá-la. Na mesma hora, Honghui, Cricket, Po e o resto dos soldados correram à frente para afastar os guerreiros do caminho de Mulan.
Livre de seus atacantes, Mulan entrou no Palácio em busca do Imperador. Logo chegou à sala do trono. Enquanto corria, agradeceu silenciosamente ao Comandante Tung por sua liderança e preparação. Durante toda a viagem até a capital, ele descrevera a planta do Palácio para ela, caso tivessem de se separar durante a missão. Ela virou à esquerda e à direita e depois subiu um lance de escada, alcançando as portas da sala do trono.
Então, empurrou as portas e entrou. Os barulhos externos da batalha desapareceram quando as portas se fecharam atrás dela. Avistando uma figura no trono, ela correu pela sala comprida e se curvou.
– Vossa Majestade – disse com o coração acelerado ao ver o líder em segurança. – Sou Hua Mulan, do Quinto Batalhão. Vim para protegê-lo.
– Impossível.
A cabeça de Mulan levantou-se com a surpresa, ao ouvir uma conhecida voz feminina responder. Olhando para cima, os seus olhos se ajustaram à escuridão da sala, e ela viu que não era o Imperador sentado no trono. Era Xianniang. A bruxa olhou para ela. Depois, levantou-se e falou novamente, com a voz cheia de descrença.
– Uma mulher liderando o exército de um homem.
Os olhos de Mulan se estreitaram. A bruxa podia pensar o que bem quisesse. A verdade era que o Comandante Tung, Honghui e todos os outros soldados a haviam aceitado. E estavam contando com ela agora.
– Onde está o Imperador? – ela perguntou, desembainhando a espada e avançando em direção ao trono.
Mas os seus passos diminuíram quando ela se aproximou de Xianniang. A dor e o luto estavam gravados no rosto da bruxa, deixando as suas feições estranhamente mais bonitas. Ela parecia vulnerável – e assustada. Mulan sentiu vontade de perguntar o que tinha acontecido. Mas ela não precisava. Ela sabia. A vitória de Böri Khan podia estar se aproximando, mas Xianniang estava sozinha. De muitas maneiras.
– Você estava certa – disse Mulan, abaixando a arma. – Nós somos iguais.
Xianniang dirigiu-lhe um sorrisinho triste.
– Com uma diferença: eles aceitam você e nunca me aceitaram.
As palavras da bruxa estavam cheias de emoção, Mulan viu uma lágrima escorrendo pelo seu rosto. O coração de Mulan ficou apertado. Pouco tempo antes, ela também se sentira como se não pertencesse àquele mundo. No entanto, ironicamente, Xianniang havia lhe dado forças para abraçar a sua verdadeira identidade. Agora, talvez, ela pudesse fazer Xianniang ver que havia outra saída.
– O tempo todo, você disse que a minha jornada era impossível – disse Mulan, suavizando a voz enquanto se aproximava do trono. – No entanto, aqui estou. A prova de que existe um lugar para pessoas como nós.
– Não – respondeu Xianniang, balançando a cabeça e encolhendo-se com um sentimento de derrota. – É tarde demais para mim.
Mulan embainhou sua espada. Parou em frente ao trono, desarmada e vulnerável. Por um longo momento, guerreira e bruxa se entreolharam. Mulan não se mexeu e sua respiração permaneceu firme enquanto observava Xianniang lutando para escolher um lado.
– Por favor – disse Mulan, quebrando o silêncio. – Preciso da sua ajuda.
A voz dela, forte e orgulhosa, ricocheteou nas paredes da sala do trono. Mulan não conseguia ler a expressão da bruxa. Então, Xianniang deu um passo adiante. Mulan respirou, hesitante. O que ela iria fazer?
Em resposta, Xianniang soltou um grito agudo. Mulan levou a mão aos ouvidos enquanto observava a bruxa soltar a adaga e descer as escadas do trono – diretamente em sua direção. Logo antes de trombar com Mulan, Xianniang soltou outro grito e se transformou em um falcão. Voando sobre a cabeça de Mulan, a bruxa desapareceu pelas portas da sala. Mulan correu atrás dela pelo corredor e seguiu o falcão enquanto ele voava pelos degraus do palácio e acima da Praça Imperial.
Com a cabeça arqueada para trás, Mulan foi seguindo o pássaro, que continuou a sobrevoar a Cidade e depois seguiu em direção ao Palácio Novo. Mulan o acompanhou com os olhos. Enquanto isso, lá embaixo, o Comandante Tung e seus homens lutavam, tentando derrotar os Guerreiros das Sombras. Mulan subiu em um telhado acima da praça. Seus olhos se fixaram no falcão enquanto ela corria sobre as telhas. Quando chegou à beirada do telhado, foi saltando sobre as coberturas das casas próximas. Seus passos eram confiantes, apesar das superfícies irregulares e da grande altura arquitetônica. Em pouco tempo, chegou ao canteiro de obras do Palácio Novo. Só então diminuiu a velocidade.
Saltando até o chão, Mulan ficou em pé, recuperando o fôlego enquanto o falcão mergulhava na torre de vigilância a oeste. Um sorrisinho abriu-se em seu rosto. Ela sentiu que Xianniang atendera ao seu pedido de ajuda. Em algum lugar no meio da construção, devia estar o Imperador – e Böri Khan. Agora Mulan só precisava encontrá-los.
– Por que você está aqui?
A voz de Böri Khan explodiu de raiva quando Xianniang voou pela janela da torre. Andaimes cobriam o interior do edifício inacabado. O líder rouran estava em uma das plataformas elevadas de madeira, e o Imperador se encontrava amarrado a um poste atrás dele. Voltando à sua forma humana, ela se aproximou do guerreiro rouran, ignorando o seu olhar mortal. Ele não tinha mais poder sobre ela.
– O ataque encontrou uma resistência feroz – disse Xianniang.
Os olhos de Böri Khan se arregalaram em descrença.
– De quem? – ele retrucou.
Xianniang quase sorriu, mas manteve a expressão estoica ao responder:
– Uma jovem aldeã.
Böri Khan riu.
– Uma garota?
Caminhando em direção à borda da torre, Xianniang olhou ao redor. No chão, lá embaixo, avistou Mulan correndo em direção à torre. Ela estava calma e composta, com uma expressão focada.
Voltando-se para Böri Khan, Xianniang balançou a cabeça.
– Não – e completou com a voz forte e orgulhosa: – Uma mulher. Uma guerreira. Ela lidera um exército de soldados corajosos e leais. E esse exército também está a caminho.
Ela sorriu ao ver o efeito das suas palavras no rosto de Böri Khan, que se contorceu de raiva. Ele olhou pela janela inacabada da torre como que procurando o exército. Em vez disso, viu Mulan vindo na direção deles – a guerreira que ameaçava arruinar seus planos.
– Uma mulher está liderando um exército – Xianniang continuou, pronunciando as palavras lenta e deliberadamente. – E ela não é uma vira-lata desprezada.
– Você a trouxe até aqui – acusou Böri Khan, voltando-se para Xianniang. Ele parecia surpreso.
– Você não deveria ter confiado em mim – disse ela.
O momento foi um eco da conversa anterior. Só que agora era ela que estava com o poder. Porque não precisava mais dele. E ele sabia disso. O rosto de Böri Khan ficou vermelho, e suas mãos tremiam de raiva. Ele agarrou o arco e apontou uma flecha diretamente para a bruxa. Xianniang não se mexeu, exceto para levantar uma sobrancelha perfeitamente arqueada.
– O que faz você pensar que pode me matar? – ela perguntou.
– Não posso – respondeu Böri Khan. Rápido como um raio, ele se virou e apontou a flecha na direção de Mulan, que havia passado pelos portões do Palácio Novo e estava parada lá embaixo. – Mas eu posso matar a garota – disse ele, atirando a flecha.
Xianniang observou a flecha se mover no ar como se estivesse em câmera lenta. Olhando para Mulan, sabia que não podia deixar a garota morrer nas mãos de Böri Khan. O guerreiro rouran foi o último de uma longa fila de pessoas que fizeram Xianniang se sentir aprisionada, com medo de abraçar o poder que tinha dentro de si.
Xianniang estava certa. Elas eram semelhantes. Mulan havia escondido quem era, talvez não na forma de um pássaro, mas sob a armadura de um homem. No entanto, ela finalmente abraçou quem era e permitiu que outros vissem o seu verdadeiro eu. Mulan havia feito o que Xianniang nunca conseguira fazer: ela se tornara livre. Se Mulan morresse agora, tudo que ela representava, tudo pelo que lutava, seria por nada.
Xianniang sabia o que tinha que fazer. Pulando pela janela, ela se transformou em um falcão. Com um bater de asas, ela se posicionou na trajetória da flecha.
A flecha perfurou o seu corpo, atirando-a andaime abaixo. O vento assobiou em seus ouvidos enquanto caía. Pouco antes de atingir o solo, os braços de Mulan se abriram e a pegaram. Quando Mulan a abaixou no chão, Xianniang se transformou de volta em sua forma humana. Ela olhou para Mulan e deu um sorriso enfraquecido, a vida já deixando o seu corpo. Sua cabeça ficou pesada, e Xianniang deixou-se tombar. Ao fazê-lo, encontrou os olhos de Mulan, cheios de surpresa e compaixão.
– Faça valer o seu lugar, Hua Mulan – ela sussurrou.
E, então, com um último suspiro, o seu peito ficou imóvel.