Mulan

Elizabeth Rudnick · Capítulo 4 de 22

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Mulan

Quatro

 

Nointerior dasmuralhasda Cidade Imperial, avidacorria como sempre – pacificamente. A grande cidade, de cerca de oitenta quilômetros quadrados de ruas planejadas como em um tabuleiro de xadrez, era um bastião da civilização. Em contraste gritante com a poeira, o barulho e o caos dos mercados, a cidade parecia ser exatamente o que de fato se tornara: um centro cosmopolita. Os cidadãos que habitavam a Cidade Imperial tinham orgulho dos seus mercados, que viviam lotados de negociadores estrangeiros. Os templos podiam ser encontrados em quase toda parte da cidade. A sua presença era um lembrete apaziguador dos antepassados que ainda protegiam os habitantes e depositavam confiança e poder no Imperador. Avenidas eram margeadas por elegantes propriedades, e os planejadores da cidade fizeram questão de desenhar belos parques verdejantes, contribuindo para a sensação de serenidade. Canais repletos de barcos cruzavam a paisagem exuberante.

No canto noroeste, observando a cidade do alto de uma colina, erguia-se o Palácio Imperial. Lar do Imperador, era a maior construção em toda a cidade. Todo branco e dourado, parecia ter sido pintado naquela manhã. Pássaros coloridos voavam sobre os portais, fazendo ninho nos ramos das muitas árvores que cercavam o edifício. À distância ou de perto, o palácio parecia ter sido feito para inspirar paz e confiança.

E inspirava mesmo. Em geral.

Na sala do trono, o Chanceler olhava para o Imperador, sentado em seu trono com uma expressão ilegível estampada no rosto. Ele estava se sentindo, como sempre se sentia naquele vasto espaço, um pouco diminuído e insignificante. Mas ele sabia que não era. Depois de décadas de trabalho ao lado do Imperador, ele se tornara o seu conselheiro mais confiável. Ele sabia, assim, que a notícia que estava prestes a dar perturbaria imensamente o Imperador.

Respirando profundamente e com uma inclinação de cabeça, o Chanceler deu um passo à frente.

– Majestade – ele começou, esperando que a voz não denunciasse o seu nervosismo –, seis de nossos mercados do norte, na Rota da Seda, foram derrubados em um ataque coordenado.

As dúzias de escribas que cercavam o líder mantiveram as suas cabeças baixas, mas o Chanceler percebeu como os seus pés se remexeram de nervoso. O próprio Imperador permaneceu em silêncio, o seu corpo na sombra. O Chanceler continuou:

– Todo o comércio na região norte foi interrompido.

– E os meus cidadãos? – o Imperador perguntou em voz baixa.

– Abatidos – o Chanceler respondeu. – Este soldado é o único sobrevivente. – Ele acenou com a cabeça para um jovem que estava ajoelhado ali perto. Mesmo à distância, o Chanceler podia ver que o rosto do guarda estava pálido e abalado. O que ele presenciara no mercado fora, em suas próprias palavras, um pesadelo. Ele mencionara uma bruxa alada e guerreiros ferozes. Apenas de imaginar, o Chanceler ficava arrepiado.

– Eu temo que haja mais ataques.

Em pé, o Imperador saiu das sombras. Embora não fosse fisicamente grande, o Imperador exalava imponência. Seus olhos eram brilhantes e sábios, e apenas algumas marcas da idade podiam ser vistas em seu rosto, apesar de toda a responsabilidade que ele carregava. Mesmo que a notícia o tivesse atingido dolorosamente, o Imperador mantinha a calma. Era essa qualidade, entre muitas outras, que o transformara em um líder amado pelo povo.

– Quem é o responsável? – ele perguntou.

A resposta ficou presa na garganta do Chanceler enquanto o Imperador olhava para ele. Era quase impossível para ele esconder as suas emoções daquele homem.

– Rourans, Vossa Majestade – disse finalmente, sussurrando.

Mas as palavras foram ouvidas. Uma onda de choque varreu a sala, e os escribas começaram a sussurrar entre si.

O Imperador os ignorou.

– Quem é o líder? – ele perguntou.

– Ele se chama Böri Khan – o Chanceler respondeu.

– Eu matei Böri Khan – o Imperador disse, sua voz começando a soar tensa.

– O filho dele, Vossa Majestade.

O Imperador balançou a cabeça. O Chanceler sabia o que ele estava pensando. Não era possível. Como poderia o filho do homem que ele havia matado com as próprias mãos ressuscitar um exército inteiro? Ele passara anos trabalhando para certificar-se de que as forças rourans nunca mais se fortaleceriam. Quase perdera a vida dezenas de vezes, e agora eles estavam de volta? Ele balançou a cabeça novamente, lutando para controlar a respiração, que estava começando a ficar irregular.

– Eles foram destruídos – disse em voz alta, o som ecoando para fora das paredes da sala do trono. – Pergunto novamente: como é possível?

Antes que o Chanceler pudesse responder, uma vozinha foi ouvida. Olhando com surpresa, o Chanceler viu o único sobrevivente do ataque ao mercado.

– Você pode falar – o Chanceler orientou o guarda.

– Böri Khan luta ao lado de uma bruxa – disse o guarda.

Dessa vez, ninguém tentou controlar os seus suspiros. O som encheu a sala. Aquela era uma terrível notícia.

– Não há lugar para bruxas neste reino! – gritou o Chanceler. – A feitiçaria foi banida há mais de uma centena de anos. – Sua explosão surpreendeu a si mesmo. Em geral, o Chanceler tinha a habilidade de manter as suas emoções escondidas. Mas bruxas? Bruxas faziam o seu sangue ferver.

– Mas é a bruxaria dela – continuou o guarda, encolhendo um pouco os ombros – que está conduzindo o exército rouran à vitória.

– Como você sabe disso? – perguntou o Imperador, avançando e fazendo com que os seus guardas e escribas corressem para ficar atrás dele. Movendo-se mais à frente na sala do trono, o Imperador pareceu ficar ainda maior. E, apesar da ira do Chanceler, ele mantinha a calma.

– Eu só sei o que vi com os meus próprios olhos – respondeu o guarda. – A bruxa é poderosa.

Por um longo momento, o Imperador permaneceu parado, seu rosto sem expressão. Mas, olhando para ele, o Chanceler sabia que a mente do homem estava trabalhando. Não havia como negar. Os rourans estavam de volta, e com um novo líder. Um líder que, como o pai dele, não queria nada mais além de destruir o Império. E, dessa vez, o rouran tinha a ajuda de uma poderosa feiticeira. O Chanceler não precisava de uma sacerdotisa para dizer-lhe o que esses sinais significavam. Significavam o caos. Significavam guerra. Significavam o fim da paz que o Imperador tinha trabalhado tão duro para conquistar.

Como se estivesse ouvindo os pensamentos de seu Chanceler e amigo, o Imperador ergueu os olhos. Olhou para a janela e para o Império que havia lá fora.

– Não temos medo de magia negra – disse ele. – Destruiremos esse exército rouran, e também essa bruxa.

A voz do Imperador ficou ainda mais alta e forte.

– Este é o meu decreto: organizaremos um exército poderoso. Um homem de cada família. Protegeremos o nosso amado povo e esmagaremos esses assassinos.

O decreto estava completo, e os escribas em torno dele escreviam as suas palavras freneticamente. Seria o seu trabalho divulgar o decreto ao povo do Império. E, como ficou decidido, nenhuma família poderia se opor ao decreto. O Imperador teria o seu exército.

 

Observando a Corte entrar em movimento frenético com o decreto do Imperador, o jovem guarda que escapara por pouco dos rourans se moveu em direção à saída. Com um aceno de cabeça para o Chanceler, que estava falando com vários escribas de uma só vez e mal o reconheceu, o guarda atravessou a longa sala do trono e saiu para o corredor.

Enquanto se movia, os seus ombros se endireitaram. A sua cabeça, abaixada na presença do Imperador, levantou-se. Passo a passo, sua marcha começou a mudar. Quando chegou à saída do palácio e seguiu para as ruas movimentadas, ele caminhava rapidamente, sem sinal dos ferimentos infligidos pelos rourans.

Pessoas de todas as nacionalidades passavam por ele, algumas acenavam por conta do uniforme que usava, moças lhe dirigiam sorrisinhos tímidos. Mas ele não lhes deu atenção. Quando desceu um beco, seu ritmo diminuiu. Estendendo a mão, removeu um alfinete que estava escondido atrás da orelha e o deixou cair no chão. Conforme andava, mais alfinetes caíram ao redor de seus pés. Logo o chão estava cheio de alfinetes – junto ao corpo inconsciente do guarda. Não precisando mais da forma física do guarda, a bruxa voltou a ser uma mulher. Xianniang se espreguiçou, feliz por estar de volta à sua própria forma. Então, com um último olhar de desdém para o guarda que involuntariamente acabara de ajudá-la, ela saiu correndo.

Os seus passos ficaram cada vez mais rápidos e, depois, com um grito, ela pulou. Quando o seu corpo se elevou no ar, mais uma vez se transformou. Só que agora, em vez de se transformar em um guarda, ela se tornou um falcão gigante e gracioso. Enquanto voava acima da cidade, Xianniang soltou um grito triunfante. Böri Khan ficaria satisfeito. Ela tinha visto a faísca de medo nos olhos do Imperador quando mencionara o nome do guerreiro. Organizar um exército de civis era exatamente o que Böri Khan esperava do Imperador. Tirar das aldeias os seus homens mais fortes tornaria muito mais fácil a sua ocupação.