Mulan
Seis
Uma sensação de desgraça iminente pairava sobre o lar da família Hua. Eles tinham conseguido ignorar os acontecimentos daquela tarde ao longo do dia, mas agora, reunidos em torno da mesa de jantar, a tensão era palpável.
Mulan brincava com a sua comida. Estava sem apetite. Como poderia comer quando, só de imaginar o seu pai lutando contra os invasores do norte, ela sentia como se houvesse uma pedra bem no meio do seu estômago? Ao seu lado, Xiu mal tinha dado uma mordidinha na comida. Ela também estava sem apetite.
Do outro lado da mesa, a mãe de Mulan não tinha sequer se dado ao trabalho de pegar um prato. Ela estava com os olhos pregados em Zhou. Sem perceber isso, ou optando por ignorar os olhares de sua esposa e filhas, Zhou comia com gosto.
– Você é um herói de guerra – Li usou palavras suaves ao quebrar o silêncio. – Você já fez grandes sacrifícios...
Zhou não a deixou terminar. Ele sabia o que ela iria dizer.
– Você está sugerindo que a nossa família não obedeça ao decreto imperial?
As palavras saíram da boca de Mulan antes que ela pudesse impedi-las.
– Mas como o senhor poderia lutar quando mal consegue...
Zhou bateu na mesa, cortando a frase de Mulan. Sua expressão era furiosa. Sua esposa e suas filhas olharam para ele assustadas. Ele sempre fora um homem orgulhoso de sua moderação e calma. Aquela explosão era atípica – e assustadora.
– Eu sou o pai! – ele disse, e sua voz ecoou na pequena sala. – É minha obrigação trazer honra para a nossa família no campo de batalha. Você é a filha – ele fez uma pausa e olhou para Mulan com imponência. – Aprenda qual é o seu lugar!
Ficando em pé com dificuldade, Zhou saiu mancando da sala.
À mesa, ainda sentada, Mulan estava de cabeça baixa. Sentia-se ferida pelas palavras do pai. Não apenas por causa de seu tom, mas devido ao significado por trás dele. Seu pai sempre fora o seu maior defensor. Ele sempre a incentivara a ser quem era; mesmo quando tentava esconder a sua natureza impetuosa, ela ainda sentia o seu amor e incentivo. Ela sempre acreditara que seu pai sabia que ela queria mais, que poderia ser mais.
Mas estava errada.
E, pior ainda, o orgulho obstinado do pai o colocaria em perigo mortal.
Como se pudesse ler os seus pensamentos, Li se levantou e andou até o outro lado da mesa. Ela pegou a mão de Mulan, depois a de Xiu.
– Nós devemos ser fortes – aconselhou ela e, então, fez uma pausa. Os seus olhos ficaram marejados e as suas mãos começaram a tremer. Ela mesma não conseguia seguir as próprias ordens.
– Desta vez ele não voltará – disse ela, deixando as lágrimas escorrerem. Os seus ombros caíram e ela se afundou no chão, vencida pela emoção. – Como sobreviveremos sem ele?
Mulan olhou desesperada para a mãe e, em seguida, para a irmã. Ambas estavam chorando abertamente. Sua mãe estava certa. Se o seu pai fosse para a luta, ele morreria. E, se o pai morresse, elas ficariam sozinhas e sem nada. Como Mulan tinha acabado de destruir a sua única chance de casamento, não havia esperança de que um futuro marido ajudasse a sua família caso Zhou morresse.
A verdade era clara. Se Zhou fosse para a guerra, nenhum deles sobreviveria.
A casa estava silenciosa. Os sons dos soluços de sua mãe haviam enfraquecido, e a sua irmã, com as lágrimas secando sobre as bochechas, havia caído em um sono agitado. Mulan passou pela sala na ponta dos pés, em direção ao grande armário que ficava no canto. A peça ornamentada era um dos únicos itens de valor na casa. Quando era menina, Mulan tinha sido proibida de se aproximar dele e, mesmo agora, como uma jovem mulher, mantinha distância.
Até aquela noite.
Mulan respirou profundamente. A ideia que tivera deitada em sua cama começara com um simples lampejo de pensamento, enquanto ouvia as palavras do pai retumbando em sua cabeça. Aprenda qual é o seu lugar, ele dissera. Seu lugar, ela sabia, era claro – para o seu pai, pelo menos. Seu lugar era em casa, cuidando de um marido que ela provavelmente nunca teria. Mas e se o seu lugar fosse outro? E se ela tivesse nascido um menino? O seu lugar, então, seria ir combater os invasores. E foi aí que a ideia floresceu. Por que ela não poderia lutar? Quem a estava impedindo? Tudo que ela precisava era de uma armadura, uma arma e um cavalo. Bem, ela tinha o cavalo, de modo que faltavam a arma e a armadura.
Era por isso que ela estava ali agora, em pé, em frente ao armário da família.
Lentamente, ela abriu as portas. Elas rangeram um pouco e Mulan congelou. Quando viu que nenhuma vela fora acesa e que nenhum ruído viera dos quartos, Mulan soltou a respiração. E abriu mais as portas.
No interior do armário, estavam a armadura e a espada. A armadura e a espada usadas por seu pai na batalha de anos atrás. Pareciam novinhas. Com amor, seu pai as mantinha sempre limpas, lustrando-as ao menos uma vez por semana. Os olhos de Mulan focaram-se na espada. À luz da lanterna aos seus pés, o metal reluzia como se estivesse queimando por dentro.
Mulan puxou a espada. Suas mãos caíram ao sentir o peso surpreendente do objeto e ela teve de mover os pés para manter o equilíbrio. Ela ficou imóvel por um momento, acostumando-se com o peso e a sensação do metal em suas mãos. Nas raras ocasiões em que a perna não o incomodava, seu pai levava a espada para o quintal a fim de treinar. Ele fazia os movimentos parecerem tão fluidos que Mulan sempre tinha imaginado que a espada era leve como uma pluma. Mas, em sua mão, era pesada e desajeitada. Ao tentar levantá-la à frente, seus olhos cintilaram sobre três palavras gravadas na lâmina. Apertando os olhos, ela leu: . . .
Uma nuvem moveu-se da frente da lua lá fora, enchendo a sala de luz branca. Naquele momento, Mulan viu o seu reflexo no aço da lâmina. Conforme virava a espada de um lado para o outro, as suas feições ficavam alteradas. As maçãs do seu rosto tornaram-se mais angulosas; seus olhos, arregalados; seus lábios, mais finos. Ela parecia uma versão diferente de si mesma.
Uma ideia começou a crescer em sua mente. Por que ela não poderia ser ela mesma e também outra pessoa ao mesmo tempo? Por que não poderia tomar o lugar do pai? Ela tinha tudo que precisava bem ali na sua frente. Poderia ser um soldado. Ela abaixou os braços e estendeu a espada à sua frente, com os olhos tão frios e fortes quanto a própria arma.
Mulan não permitiria mais que os outros decidissem o seu futuro. Ela tinha tentado manter a sua promessa de trazer honra à sua família indo à casa da casamenteira. Ela tinha, por anos, praticado a tecelagem. Tinha aprendido a ser silenciosa e a refrear os seus impulsos mais selvagens. Tinha praticado como servir o chá e tinha preparado inúmeros jantares. Mas não importava o quanto se esforçasse, ela sempre parecia falhar. Então, agora, ela traria honra à sua família de uma outra maneira.
Ela se tornaria uma guerreira.
Segurando o cabo da espada em uma mão e desajeitadamente carregando a armadura no outro braço, Mulan cruzou de novo a sala. Passando pelo quarto dos pais, que estava com a porta entreaberta, ela olhou o rosto de seu pai, teimoso até mesmo quando estava dormindo. Ao lado dele, Li dormia profundamente, mas com linhas de preocupação marcando a testa. Mulan desejou despertá-los e dizer-lhes adeus. Desejou poder dizer-lhes o quanto os amava e o quanto queria deixá-los orgulhosos e mantê-los seguros. Mas, em vez disso, ela subiu ao andar de cima.
Após guardar algumas coisas em uma pequena mochila, ela hesitou ao pé da porta. Em seu sono, Xiu deixou escapar um pequeno gemido. Uma forte onda de amor tomou conta de Mulan. Ela sabia que, no momento em que saísse de casa, corria o risco de nunca mais voltar. Mesmo se sobrevivesse ao exército, o que poderia muito bem não acontecer, a sua reputação dificilmente sobreviveria ao que ela estava prestes a tentar: fingir ser um homem para lutar em uma guerra. Ela sabia que havia muitos obstáculos, mas também sabia que não podia deixar seu pai ir em seu lugar.
Ele estava certo. Ela tinha que aprender qual era o seu lugar. Mas definitivamente esse lugar não era ali.
O som de um trovão acordou Zhou. Agitado sob o cobertor, ele virou a cabeça e olhou pela janela, para o céu cinzento e ameaçador. Sentiu algo em sua barriga, e sua perna, que já doía em bons dias, estava latejando com a iminência do clima ruim. Algo estava errado. Ele sabia.
Empurrando o cobertor e colocando os pés no chão, foi andando lentamente até a sala. O barulho do trovão ecoou pela casa, e Zhou congelou quando Li se revirou na cama. Como ela ainda parecia adormecida, ele voltou a andar na ponta dos pés.
Assim que entrou na sala, a sensação em seu estômago piorou. Do outro lado do cômodo, ele viu o armário com as portas entreabertas. Com um medo crescente, ele caminhou até o armário e abriu as portas.
Estava vazio. Zhou engasgou.
– Minha espada e minha armadura! – disse ele. – Desapareceram! – As palavras foram barulhentas e a emoção por trás delas, profunda.
Ouvindo passos atrás de si, ele nem mesmo se virou para ver Li vindo correndo do quarto.
– Quem faria uma coisa dessas? – Li perguntou quando viu o armário vazio e, em seguida, a cara pálida e as mãos agitadas de seu marido.
Despertada pela comoção, Xiu apareceu na porta. Ela esfregou os olhos, ainda meio sonolenta. Ela quase não notou o armário vazio. Em vez disso, notou que algo – ou alguém – estava faltando.
– Onde está Mulan? – ela perguntou.
Mulan. Zhou tentou respirar. O que Xiu queria dizer? Mulan estava em sua cama, onde ela deveria estar. Mas, ao olhar para a filha, ele percebeu que estava errado. Um pensamento, que ele preferia evitar, começou a tomar forma. Suas próprias palavras de frustração e raiva ecoaram de volta para ele. Aprenda qual é o seu lugar, ele dissera. Tinha visto a dor no rosto de Mulan, mas, naquele momento, ele estava absorvido demais em sua própria dor para se importar com a dela. Mas, agora...
Dando as costas para o armário, ele olhou para todos os cantos da pequena sala de estar. Observando-o, Li levantou uma sobrancelha.
– Meu formulário de alistamento – disse ele, respondendo à sua pergunta silenciosa.
Ele tinha de encontrá-lo. Se não conseguisse, só poderia significar uma coisa. Eles vasculharam potes e tigelas vazios, procurando o papel que Zhou havia deixado ali mais cedo. Mas tinha desaparecido. Em seu lugar, estava o enfeite de flor de lótus de Mulan.
Zhou levantou os olhos, encontrando os de Li. O terror que ele sentia estava espelhado no rosto de sua esposa. Eles entenderam o que significava a ausência da armadura e do formulário.
– Você tem de impedi-la – Li disse, colocando uma mão trêmula sobre o coração. – Os invasores do norte irão matá-la!
Zhou inclinou a cabeça. Mulan nunca tinha treinado com uma espada e, quando brincava de luta, era com uma vareta, não com uma arma de verdade. Ela cairia na primeira luta. Mas, se ele fosse atrás dela e expusesse a sua mentira, o seu destino seria o mesmo. Seu próprio povo, os outros soldados e os líderes do exército nunca iriam deixá-la viver se descobrissem a traição. Ele não tinha como impedi-la.
Deixando a esposa e a filha chorando, Zhou saiu de casa e foi ao santuário da Fênix. Ele nem ouvia mais os trovões, nem via os relâmpagos. Estava repleto de mágoa. Era o culpado por tudo isso. Ele tinha empurrado Mulan para longe e a enviado em direção à morte.
Ao entrar no pequeno santuário, ele se ajoelhou diante de duas grandes tabuletas espirituais. Acreditava-se que esses objetos guardavam a sabedoria e os espíritos de todos os ancestrais e que eles ouviam e atendiam às orações... Zhou tinha esperança de que eles ouvissem a sua prece.
– Ancestrais – ele sussurrou. – Eu... peço a vossa ajuda. Minha filha cometeu um erro terrível. Por favor, protejam-na.
Quando terminou a oração, deixou as lágrimas caírem. Atrás dele, a tempestade chegou. E, em algum lugar lá fora, sua filha estava sozinha. Mulan, ele pensou, sinto muito. Por favor, volte.
Com a cabeça baixa, Zhou não viu uma ave pequena, feia e deformada saindo de trás da estátua da Fênix. Uma de suas asas estava caída, e a cabeça, estranhamente inclinada para o lado. O pássaro olhou para Zhou por um momento e, em seguida, pulou de trás da estátua e saiu do santuário. Estremeceu quando a chuva tocou suas penas, e, depois, com um suspiro resignado, saiu batendo as asas – a que era forte e a outra, fraquinha. E, assim, voou para longe do tulou.