Mulan
Dez
Quando Mulan encontrou um par de botas que cabiam e roupas de treinamento que eram apenas dois tamanhos maiores, já estava ficando escuro. Ao sair da barraca de roupas, ela procurou por sua tenda. Todas pareciam iguais e, por um tempo, ela vagou pelo acampamento, feliz pela escuridão e pela solidão. Depois de semanas sozinha, ela percebeu que havia se acostumado com os sons solitários dos pensamentos em sua cabeça e com os cascos de Vento Negro batendo no chão.
Enquanto andava entre as tendas, torceu o nariz por causa dos aromas estranhos que enchiam o ar. Havia uma mistura de suor, roupas sujas e carne malcozida. Embora estivesse com fome, o cheiro a deixou enjoada. Havia fogueiras acesas em frente às tendas maiores, e soldados estavam ao redor delas, aquecendo as mãos e tagarelando em meio à quietude da noite.
Mulan suspirou. Ela queria desesperadamente, naquele momento, estar de volta à casa de sua família, sentada com sua irmã. Ela nem protestaria se sua mãe tentasse pentear os seus cabelos rebeldes, torcendo-os e enrolando-os enquanto murmurava para si mesma. Seu cabelo é como você, Mulan, impossível de controlar, ela dizia. Mas sua voz era suave, e Mulan sentia os dedos gentis de sua mãe tocando os seus ombros, acrescentando silenciosamente: Eu amo você.
Chacoalhando a cabeça, Mulan afastou as lembranças de casa. Elas não lhe fariam bem. Os monges disseram que ela tinha de agir como um homem. E os homens não ficam chorosos e sentimentais. Ao avistar a tenda que lhe fora designada, Mulan entrou.
Imediatamente, desejou não ter entrado.
Na sua frente, havia homens em vários estágios de nudez brincando e rindo uns com os outros. O rosto de Mulan ficou vermelho, e ela sentiu a garganta secar. Dois dos recrutas estavam trocando socos divertidos enquanto discutiam sobre quem deveria ter a melhor cama. Outro recruta procurava por suas roupas, jogando coisas por cima do ombro sem se importar. Havia, ainda, um recruta afiando a sua espada e outro limpando os dentes com a ponta de uma adaga.
Mantendo os olhos baixos, Mulan atravessou a tenda. Apesar dos soldados, a tenda em si estava praticamente vazia. Os únicos móveis eram as oito tábuas que serviam de camas e ocupavam praticamente todo o comprimento da barraca. Ao lado da maioria delas, havia pilhas de roupas e equipamentos derrubados por qualquer soldado que tivesse reivindicado a cama. Avistando uma das últimas camas vazias, Mulan foi em direção a ela. Mas, quando estava prestes a alcançá-la, um recruta se moveu na frente dela, esbarrando a sua pele nua nas pontas dos dedos de Mulan.
Ela, de repente, estancou.
Um momento depois, alguém esbarrou nela.
Virando-se, Mulan reprimiu um “ai!”. Era Cricket. E, com ele, Longwei. Eles retornaram o olhar dela, com as sobrancelhas erguidas. Mas, antes que qualquer um deles pudesse falar, o recruta maior que os havia intimidado antes apareceu. Ele, como todo mundo, estava quase nu. Quando viu os recrutas mais jovens, um enorme sorriso se espalhou pelo rosto. Por um momento, quase pareceu que ele estava genuinamente feliz em ver Cricket e Longwei, como se fossem antigos amigos. Mas, então, ele agarrou os dois pelo pescoço e os puxou para o tumulto crescente causado pelos recrutas.
Desesperada para ficar o mais longe possível do caos, Mulan mais uma vez tentou chegar à cama vazia. Mas parecia que o destino não estava a seu favor, pois, assim que ela a alcançou, os seus olhos encontraram os de Honghui. O belo recruta estava ao lado de seu amigo, que Mulan lembrou ter ouvido que se chamava Po.
– Olha quem está aqui – disse Po, cutucando Honghui.
Por um momento, Mulan teve uma pontinha de esperança de que talvez Honghui tivesse se esquecido da briga. Mas, então, o recruta olhou para ela. Sua expressão ficou sombria.
Não esqueceu, Mulan pensou. Ela sabia que se Skatch e Ramtish estivessem lá, eles teriam dito que um homem de verdade não se desculpava. Mas a última coisa de que Mulan precisava era de um inimigo. Quanto menos atenção atraísse para si, melhor. Com isso em mente, ela abriu a boca para se desculpar, mas, antes que pudesse fazê-lo, uma voz alta ecoou pela tenda. Na mesma hora, os recrutas pararam a desordem e voltaram-se, todos, para a entrada da tenda. O Sargento Qiang, seu oficial comandante, estava lá em pé, com o rosto sob a sombra.
– Eu disse para vocês fazerem fila para tomar banho! – ele esbravejou.
– Banho? – Mulan repetiu, e o pânico a inundou.
O Sargento Qiang assentiu.
– Sim, banho! Vocês estão fedendo demais!
Enquanto os outros recrutas saíam, prontos para seguir as ordens e ansiosos para se livrarem do fedor, Mulan se levantou e mexeu em sua armadura. Ela não podia tomar banho. O segredo dela seria revelado e ela se meteria em sérios problemas. Mas também teria problemas se desobedecesse a uma ordem. Ela passou a mão nervosamente sobre a sua camisa nova, pegando uma barra solta. Ela não tinha escolha. Teria de fugir. Pegar as coisas dela, voltar para casa e sofrer as consequências. Não havia mais nada que ela pudesse fazer...
– E eu preciso de um voluntário para o serviço de guarda noturna!
Mulan nem hesitou. A mão dela disparou no ar.
– Eu! – ela disse. Sua voz alta parecia ansiosa demais para aquela tarefa banal. Abaixando a mão, ela acrescentou, dessa vez com mais calma:
– Quero dizer, eu me voluntario, senhor – enquanto se dirigia ao Sargento, viu Honghui e Po se olharem.
– É melhor ficar de olho – alertou Honghui, em tom despreocupado.
Po assentiu, acrescentando:
– Esses invasores do norte comem girinos.
Ao passar por ela, Po abriu a boca e mordeu o ar. Mulan manteve a expressão neutra. Ela não daria a eles a satisfação de vê-la abalada. Mas, assim que eles se foram, ela estremeceu. Brincadeiras à parte, ela acabara de se oferecer para um trabalho que a colocava na primeira linha de defesa contra os invasores. Se o Sargento não estivesse ali esperando, Mulan teria batido na própria cabeça. Ela estava se afundando cada vez mais em encrencas – e cada vez mais perigosas. Um sorriso triste se formou em seus lábios ao pensar na ironia: ela estava se afundando, mas não na água que tanto desejava para se lavar. Apenas em mais e mais problemas.
Mulan permaneceu em pé, gelada até os ossos, enquanto olhava para a escuridão além dos limites do quartel. Como a única recruta na torre, ela fora instruída, ou melhor, ordenada a manter os olhos e os ouvidos abertos. Os invasores, como o Sargento ressaltara, poderiam vê-la antes que ela pudesse vê-los. E, se passassem pelos portões sob a vigilância dela, não seria com eles que ela mais deveria se preocupar.
Nas primeiras horas, Mulan realmente desfrutou da patrulha. A torre de guarda estava quieta e, pela primeira vez desde que chegara ao acampamento, ela conseguiu relaxar. Sua respiração ficou calma, seu batimento cardíaco se normalizou e, algumas vezes, ela até cantarolou consigo mesma. Mas, cerca de três horas depois, começou a esfriar e, uma hora mais tarde, surgiram nuvens. No meio do turno, a chuva estava caindo a cântaros à sua frente.
Mas não sobre ela.
Ao se dar conta disso, ela se assustou e olhou para cima. E gemeu ao ver a Fênix. O pássaro estava empoleirado na borda do telhado da torre de guarda com a asa estendida, formando um guarda-chuva. Mulan semicerrou os olhos, irritada. Ela dissera ao pássaro para deixá-la em paz. A última coisa que precisava era que alguém a visse sendo cuidada por um pássaro grande e feio.
Ela deu um grande passo para a direita. Instantaneamente, ficou encharcada.
No telhado, o pássaro arrastou-se para a direita. A chuva parou.
Irritada, Mulan deu um passo na direção oposta. Enquanto a chuva cobria o seu rosto e ensopava as suas roupas, ela olhou para a Fênix.
– Eu disse – ela sussurrou – que não preciso de você.
A Fênix parecia dar de ombros, como se dissesse: “Tudo bem”. E, em seguida, deliberadamente fechou as asas. Então, Mulan ficou lá parada, tomando chuva.
Os olhos de Mulan estavam quase se fechando, e seu corpo tremia de uma combinação de frio e exaustão quando o recruta seguinte chegou para substituí-la. Sem confiar em sua própria voz, Mulan acenou para ele e depois voltou às pressas para a sua tenda. Tudo que ela queria era deitar e dormir.
Mas, quando ela empurrou a aba da tenda, seus sonhos de ter uma boa noite de descanso evaporaram. Todas as camas estavam ocupadas. Algumas das tábuas de dormir tinham até mais de um recruta deitado sobre elas. Roncos altos e um grunhido ocasional soavam através da tenda, tornando o barulho local quase tão alto quanto se todos estivessem acordados e conversando. Respirando fundo, Mulan caminhou na ponta dos pés por entre as camas. Seus olhos examinaram da esquerda para a direita e de volta, procurando desesperadamente por um espaço vazio. Ela passou por Honghui e Po, deitados de costas. Ela pensou brevemente em torcer a camisa molhada sobre a cabeça deles para vingar-se por ter sido chamada de girino, mas pensou melhor quando Honghui grunhiu alto. Mesmo dormindo, ele era intimidador.
Quando estava prestes a desistir e ir procurar um lugar para dormir lá fora, ela viu um espaço pequenino e estreito no fundo da barraca. Ela foi até lá. Olhando em volta para se certificar de que ninguém havia acordado, ela tirou a camada mais úmida e suja de roupa. Estremeceu ao passar a roupa pela cabeça. Seus ombros estavam rígidos devido às horas em que ficara parada, e ela teve medo de imaginar como estariam no dia seguinte. Mas, quando afrouxou as tiras de couro apertadas que cobriam o seu peito, ela conseguiu respirar melhor e se sentiu grata por isso. As tiras eram necessárias para proteger a sua identidade, mas não eram confortáveis.
Vestida com uma camisa branca longa e simples que, ela esperava, esconderia a maior parte de suas curvas, Mulan deitou-se cuidadosamente. Por um momento glorioso, ela simplesmente relaxou lá com os olhos fechados, deixando os seus músculos descansarem.
E, então, o soldado ao seu lado bufou alto e se virou. Ao fazer isso, ele jogou o braço sobre Mulan, prendendo-a no chão. Para o seu horror, ela percebeu que não era apenas um recruta – era Yao! Aquele valentão que intimidara Cricket. Erguendo a mão, ela tentou afastar cuidadosamente o braço dele, mas então ele soltou outro suspiro e jogou a outra mão sobre ela. Agora não apenas o seu corpo estava preso, mas também os seus braços. Ela estava presa.
A mente de Mulan começou a fervilhar enquanto o seu corpo permanecia congelado. Ela tinha que tirar Yao de cima dela. Mas, como? Ela não conseguia mexer os braços e, definitivamente, não podia se dar ao luxo de acordá-lo, pois ele a veria sem a armadura. A camisa branca era suficientemente camuflada para um espectador distante, mas Yao estava perto demais para que se sentisse confortável – em vários sentidos.
De canto do olho, ela viu uma pena aparecer. Era magricela e desbotada e, enquanto Mulan observava, começou a fazer cócegas no nariz de Yao. Com muito cuidado, ela levantou a cabeça. A Fênix estava em pé na beira da tábua, usando as penas da cauda para fazer cócegas em Yao. Ele murmurou enquanto tentava afastar a pena, mas a Fênix continuava fazendo cócegas. Yao espirrou. Quase acordando no processo, ele se virou, dando as costas para Mulan e passando um braço ao redor do soldado do outro lado.
Mulan respirou aliviada. Olhando para o pássaro, que agora estava pulando para fora da tenda, ela teve de admitir, apesar de sua relutância: talvez ela precisasse da ave... um pouquinho.