Mulan

Elizabeth Rudnick · Capítulo 19 de 22

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Mulan

Dezenove

 

 

Mulan se sentia vazia. Ela caminhava sem direção nem propósito. A palavra “expulsão” martelava em sua cabeça, e ela via o olhar de aversão e decepção no rosto do Comandante Tung, além do olhar de traição no rosto de Honghui.

Ela nunca tivera a intenção de magoá-los. Só queria fazer a sua parte. No entanto, de alguma forma, ela sempre soube que esse dia chegaria. De uma forma ou de outra. Mas, por um breve e feliz momento, ao fazer com que a avalanche acabasse com o inimigo, ela se sentira forte, orgulhosa. Como se pudesse fazer qualquer coisa.

Mas, para quê? Agora ela estava expulsa. Não podia voltar para casa. Nem para o exército. Então, apenas seguiu em frente... Deixou para trás o vale e foi subindo as montanhas com Vento Negro ao seu lado. A cada passo, o ar esfriava um pouco, mas ela mal se dava conta disso.

Ao chegar à beira de um penhasco, Mulan parou. O mundo inteiro parecia se estender diante dela. O sol poente refletia na neve em tons de vermelho e rosa. À sua frente sentou-se a Fênix, com as penas brilhantes combinando com toda a cena. Mulan olhou para a bela vista, e seu coração se partiu ainda mais.

Afundando no chão, ela se permitiu chorar. Os soluços chacoalhavam o seu corpo enquanto ela envolvia a si mesma em um abraço, buscando um conforto que não conseguia encontrar. Enquanto o choro se intensificava, ela lutava para recuperar o fôlego. Seu peito estava apertado. Ela se sentia quebrada por dentro, como se uma parte sua tivesse sido destruída e nunca mais fosse ser consertada.

– O que foi que eu fiz? – ela disse, olhando para a Fênix. – Eu nunca poderei enfrentar a minha família... Nunca poderei voltar para casa...

Ao dizer as palavras em voz alta, Mulan sentiu-se ainda mais desolada e abaixou a cabeça. Ela não era mais a forte guerreira que havia se tornado; era agora uma garotinha frágil e assustada.

Ali, sentada, sentiu a Fênix aproximando-se dela. A ave a abraçou com uma de suas asas. Aquilo era demais para Mulan suportar. Ela não merecia o amor incondicional da Fênix, mas se permitiu aceitá-lo, abraçando-a de volta.

Por um longo momento, a ave e a menina ficaram imóveis. O choro de Mulan se suavizou. Quando conseguiu recuperar o fôlego, sentiu uma sombra caindo sobre elas. Mulan olhou para cima e avistou um grupo de pássaros pretos voando em formação. Seu voo mais parecia uma linda – e sinistra – dança.

Havia algo de familiar nos pássaros. Enquanto seguia os seus movimentos, Mulan percebeu o porquê. Eram os mesmos pássaros pretos que tinham atacado o exército.

Como se fosse uma coreografia, os pássaros voaram diretamente até ela e, ao se aproximarem, se transformaram. A bruxa estava agora diante delas. Incentivada pela Fênix, Mulan ficou em pé. Erguendo a espada e juntando a pouca força que lhe restava, ela encontrou o olhar penetrante da bruxa.

– Se você está aqui para me matar – disse ela –, prometo que não será fácil.

– Matá-la? – Xianniang respondeu enquanto as suas sobrancelhas erguiam-se de surpresa. Ela balançou a cabeça. – Não. Sua desonra é pior que a morte.

As palavras foram como um tapa na cara de Mulan. Ela apertou com mais força a espada, forçando-se a manter a respiração calma e a expressão inabalável. Ela não queria dar à bruxa a satisfação de ver a sua dor. Mas não conseguiu.

Ao reconhecer a agonia de Mulan, a expressão dela se suavizou.

– Eu entendo você – disse a bruxa, depois fez uma pausa. Seus olhos ficaram pensativos, como se ela estivesse buscando algo na memória. – Eu era uma garota como você quando o meu povo se voltou contra mim.

A espada estava tremendo na mão de Mulan. Havia desgosto nas palavras da bruxa. E, pela primeira vez desde que conhecera Xianniang, Mulan não a viu como uma bruxa, mas como uma mulher. Ela rapidamente julgara Xianniang como uma pessoa terrível, porque sabia que ela era aliada dos Guerreiros das Sombras. Mas Mulan não parara para se perguntar por quê. Por que alguém com tanto poder se submeteria ao comando de Böri Khan? Mas agora estava compreendendo: o próprio povo de Xianniang a tinha expulsado. Olhando para a bruxa, Mulan percebeu que elas tinham mais em comum do que ela poderia imaginar.

Como se estivesse lendo os pensamentos de Mulan, a bruxa prosseguiu. A dor em sua voz estava refletida em seu rosto enquanto ela falava.

– Eu vivi uma vida de exílio. Sem país. Sem aldeia. Sem família – fazendo uma pausa, Xianniang se certificou de que Mulan estava olhando para ela e acrescentou: – Nós somos iguais.

– Não, não somos – disse Mulan, ainda que o mesmo pensamento tivesse passado por sua mente. – Não podemos ser.

Xianniang balançou a cabeça.

– Nós somos, sim. Quanto mais poder eu mostrava, mais eu era esmagada. Assim como você. Você os salvou hoje. E, ainda assim, eles se voltaram contra você.

Mulan sentiu como se o chão sob seus pés estivesse tremendo. Xianniang estava dizendo a verdade. O Comandante Tung e os outros haviam se voltado contra ela, apesar de tudo o que havia feito por eles.

– Junte-se a mim – disse a bruxa, observando Mulan lutar com os seus pensamentos. – Seremos mais fortes juntas.

Por um longo momento, Mulan não disse nada. Ela não podia negar que, juntas, formariam uma dupla poderosa. Mas o que ela estaria sacrificando ao dar as costas ao mundo que conhecia? Lentamente, ela começou a se sentir mais segura.

– Você segue um covarde. Um líder que foge da batalha – disse Mulan.

Xianniang riu:

– Böri Khan não fugiu da batalha! – ela disse. – Esse “covarde” vai tomar a Cidade Imperial. E o seu Imperador cairá.

As palavras da bruxa finalmente tiraram Mulan de seu nevoeiro mental. Cair?, ela pensou. O que a bruxa queria dizer?

– Isso não pode acontecer! – Mulan gritou, mais uma vez a força a inundando. Ela deu um passo à frente.

– Mas é isso que deve estar acontecendo agora – disse Xianniang.

Embora ela estivesse provocando Mulan, havia fúria em sua voz, como se ela mesma não quisesse que fosse verdade. Ela se aproximou.

– Junte-se a mim. Conquistaremos juntas um lugar para nós.

Mulan olhou para a bruxa. Sua mente estava agora acelerada. Böri Khan havia desaparecido. Ele fugiu, e seu exército foi derrotado... Não foi?

De repente, Mulan entendeu o que a bruxa estava querendo dizer. Böri Khan não foi derrotado. Aquela derrota fazia parte de seu plano maior. Seu desaparecimento não fora uma batida em retirada. Ele estava indo atrás do próprio Imperador!

Balançando a cabeça, Mulan olhou para a bruxa. Ela ergueu o queixo, transformando-se novamente na mesma guerreira confiante que derrotara os rourans no campo de batalha.

– Eu já tenho o meu lugar! – declarou. – É meu dever lutar pelo reino e proteger o Imperador!

Virou-se, assobiou para Vento Negro e montou em suas costas. A tristeza e o desespero que ela vinha sentindo foram substituídos por uma onda furiosa de determinação. Ficava furiosa ao pensar que Böri Khan poderia se sair vitorioso. Mas, subitamente, ficou intrigada ao se lembrar do tom de fúria que ouvira nas palavras da bruxa.

Puxando as rédeas de Vento Negro, Mulan olhou para ela mais uma vez. Xianniang retribuiu o olhar, com decepção em seus olhos. E com algo a mais. Algo como admiração.

Sem dizer mais nada, Mulan começou a descer a montanha. A Fênix soltou um grito alto e saiu voando, seguindo-a.

– Eles não a ouvirão! – Xianniang gritou. – Será sempre um exército de homens!

Mas Mulan não olhou para trás. Deixou que Xianniang acreditasse que ela nunca encontraria um lugar no Exército Imperial. Mulan não se importava. Salvar o Imperador era só o que importava agora. E, para fazer isso, seria preciso avisar o Comandante Tung.

 

– O que está acontecendo aqui? – a voz do sargento Qiang ecoou pelo campo quando viu Mulan galopando em meio aos soldados.

Ignorando a pergunta do sargento e os olhares curiosos dos homens, ela saltou de Vento Negro e apressou-se até o Comandante Tung. Mas, vendo a sua expressão severa, Mulan diminuiu os passos. Quando chegou até ele, ela se curvou. Depois, olhando para cima, forçou-se a encará-lo.

– Comandante Tung – ela começou. – Temos que proteger o Imperador! A vida dele está em perigo!

Murmúrios duvidosos irromperam pelo campo. Os soldados não acreditaram nela. Parecia que nem o Comandante Tung.

– O exército de Böri Khan acaba de ser dizimado. A vida do Imperador nunca esteve tão segura.

Mulan sacudiu a cabeça.

– É nisso que Böri Khan quer que vocês acreditem. Por favor... – ela parou e olhou em volta, em busca de apoio. Não vendo nada além de olhares frios, continuou: – Vocês têm de me ouvir...

Dessa vez, foi o Comandante Tung que balançou a cabeça.

– Apenas um homem tolo ouviria alguém cuja própria existência é uma mentira.

Suas palavras doeram mais do que a adaga da bruxa. Uma parte dela queria se virar e ir embora. Mas, se ela partisse agora, todos estariam em perigo. O futuro do reino era mais importante do que o seu orgulho. Respirando fundo, ela persistiu:

– Na batalha, Böri Khan partiu com alguns de seus homens. Primeiro, pensei que ele fosse um covarde batendo em retirada, mas agora sei que ele estava indo para o leste, em direção à Cidade Imperial – ela fez uma pausa para recuperar o fôlego. – Esse era o plano dele o tempo todo. Enquanto o Exército Imperial estivesse focado em seus ataques à Rota da Seda, Böri Khan escaparia para a capital para matar o Imperador!

Ela parou. Suas palavras pairaram no ar. Ela viu os soldados se levantarem enquanto processavam a notícia. Alguns acenaram com a cabeça, percebendo que o que Mulan sugeria fazia sentido do ponto de vista estratégico. Se pensasse que estava seguro, o Imperador seria um alvo fácil. Mulan voltou-se para o Comandante Tung. Ela viu a dúvida em seu rosto enquanto ele tentava equilibrar os seus sentimentos de traição e a sua experiência como comandante. Mulan sabia que ele via a verdade das palavras dela. Só tinha de fazê-lo ver algo nela além de sua mentira.

– Não existe exército no mundo capaz de derrubar a Cidade Imperial – continuou Mulan com palavras respeitosas, mas diretas. – Mas talvez um grupo pequeno e bem treinado consiga. Quando empregados corretamente, cem gramas podem movimentar quinhentos quilos.

O Comandante Tung fez uma pausa. Ele olhou para Mulan, e ela podia vê-lo amolecer um pouco. Ela não era apenas uma soldada. Ela havia provado a sua bravura mais de uma vez. Era uma aluna perspicaz, uma recruta disposta e uma guerreira corajosa. Ele tinha que ver isso. Tinha que passar por cima do seu único erro – mesmo que tivesse sido um grande erro.

– O senhor acreditaria em Hua Jun! – exclamou uma voz. – Por que não acreditaria em Hua Mulan?

Mulan virou a cabeça. Os seus olhos percorreram a multidão de soldados que a observava. Para a sua surpresa, ela viu que a voz pertencia a Honghui. Olhando diretamente para ela, ele fez um aceno com a cabeça, e ela podia jurar que viu um brilho nos olhos dele. Embora parecesse um pequeno gesto, era enorme para Mulan.

– Ela arriscou tudo revelando a sua verdadeira identidade – Honghui continuou, sua voz ficando mais forte. – Ela é mais corajosa do que qualquer homem aqui.

Ele parou e se virou para os outros soldados, desafiando-os a desafiá-lo. Desafiando-os a discordar. Mulan sentiu um nó formando-se em sua garganta. Apesar de sua traição, Honghui a estava defendendo. Era mais do que ela poderia esperar, e uma onda de gratidão a preencheu. E cresceu ainda mais quando outros soldados, seguindo a liderança de Honghui, começaram, um a um, a sair em sua defesa.

– Acredito em Hua Mulan! – disse um deles.

– Sim! – acrescentou outro.

O coração de Mulan disparou quando Cricket, Po e até Yao juntaram-se ao coro de apoio. Eles estavam em pé ao lado dela; mesmo sem seu disfarce, eles acreditavam nela.

Mas e o Comandante Tung? Mulan voltou-se para o líder. Seu rosto estava imóvel e sua expressão, impossível de ler. Por um longo momento, enquanto as vozes ao redor foram se dissipando, eles ficaram frente a frente, sem falar, sem piscar.

– Tragam-me a minha espada – disse o Comandante Tung.

Enquanto o Sargento Qiang ia se aproximando, os soldados reunidos trocaram olhares nervosos. O que o comandante ia fazer? Diante dele, Mulan preparou-se para o pior.

– Hua Mulan – começou o Comandante Tung, chamando-a por seu verdadeiro nome pela primeira vez. – Suas ações trouxeram desgraça e desonra a este regimento, a este reino e à sua própria família – ele parou. Quando falou novamente, a sua voz estava cheia de respeito. – Mas a sua lealdade e a sua coragem são inquestionáveis. Você vai nos liderar enquanto cavalgamos para a Cidade Imperial – e, virando-se, ele se dirigiu aos outros soldados: – Preparem os cavalos!

Enquanto os homens entraram em ação, enchendo o vale com o som de espadas, Mulan ficou entre os seus companheiros soldados. Ela sentira orgulho ao chegar ao topo do santuário. E se sentira poderosa quando enganara o exército invasor e desencadeara a avalanche encosta abaixo. Mas nada disso se comparava ao que ela estava sentindo agora. Ela estava indo salvar o Imperador. E não apenas como soldada, mas como líder – e sendo ela mesma.