Mulan

Elizabeth Rudnick · Capítulo 21 de 22

Páginas do PDF

Mulan

Vinte e um

 

 

Mulan olhou para a mulher à sua frente. Na morte, o rosto da bruxa parecia tranquilo. Isso trouxe algum conforto a Mulan. Xianniang tinha sido muitas coisas, mas, em seu coração, ela fora mesmo uma forte guerreira. Ela não precisava ter morrido. Não precisava ter sofrido nas mãos de Böri Khan por tanto tempo só para se sentir aceita. Mas, agora, pelo menos ela estava livre.

Ficando em pé, Mulan tentou se afastar da dor que, surpreendentemente, estava sentindo. A melhor coisa que poderia fazer por Xianniang agora era derrotar Böri Khan e salvar o Imperador. Pegando a sua espada, ela correu através do labirinto. Feixes de luz cortavam as sombras e o vento soprava através das vigas e escombros, provocando um som sibilante.

Mulan avistou Böri Khan. O guerreiro estava de costas para ela, em frente a uma grande fornalha. No interior, metal fundido fluía em uma enorme banheira, enchendo-a com um líquido escaldante. Focado na fornalha, ele não ouviu Mulan se aproximar. Aproveitando a sua distração, Mulan examinou a área, procurando por algum sinal do Imperador. Ela vasculhou ao redor com os olhos e parou ao avistá-lo. Ele estava amarrado a um poste e sangrando por vários ferimentos, mas estava vivo.

Respirando fundo, Mulan foi na ponta dos pés até uma viga e a escalou. Usando as barras cruzadas que ziguezagueavam sobre a sala, Mulan foi se aproximando cada vez mais do Imperador. Ela estava quase lá quando uma grande sombra pairou sobre ela.

Böri Khan estava à sua frente, bloqueando o caminho até o Imperador. Na meia-luz, ele parecia gigantesco, como o personagem de um pesadelo. Ele a mediu de cima a baixo com um ar de zombaria.

– A garota que veio salvar a dinastia – ele disse, com a voz cheia de desdém.

Mulan sabia que, para Böri Khan, ela não passava de uma garotinha. Mas ele estava errado. Ela era muito mais do que isso. Assumindo sua posição de guerreira, ela ergueu a espada.

– Se você se render – ela começou. – Vou garantir que a sua morte seja rápida e indolor.

Em resposta, Böri Khan riu. E, então, atacou. Com um movimento rápido e potente, ele girou a sua espada sobre Mulan. O movimento foi tão rápido que ela mal teve tempo de levantar a espada para bloqueá-lo. Mas o movimento a desequilibrou, e ela caiu. Com um baque, ela despencou sobre uma viga abaixo dela, e o impacto lhe roubou o ar.

Enquanto tentava ficar em pé, Böri Khan a seguiu. Ela rolou para trás e saltou, desviando da espada oscilante. Rastejando pela viga, ela olhou tanto para Böri Khan quanto para o Imperador.

Böri Khan continuou vindo em sua direção, seu riso cruel fazendo as vigas vibrarem. Sua espada chicoteava pelo ar, e Mulan saltou para outra viga para se proteger. O metal fez um som estridente ao destruir a viga da qual ela acabara de sair. Aproveitando esse erro, Mulan correu para cima, aproximando-se novamente do Imperador. Ela ouviu o rugido de raiva de Böri Khan vindo atrás dela.

Saltando de viga em viga, Mulan estava apenas a alguns passos à frente do grande guerreiro. Mas, mantendo-se à frente, ela logo alcançou o Imperador preso. Virando-se a tempo, Mulan conseguiu se defender da espada de Böri Khan mais uma vez. O som de metal com metal encheu o ar enquanto ela lutava para manter-se forte contra a investida de Khan. Mas, então, ele usou toda a sua força em um movimento tão poderoso que a espada saiu voando da mão de Mulan.

Horrorizada, ela viu a lâmina caindo, caindo, até mergulhar com tudo na banheira de metal líquido da fornalha. Ela soltou um grito de desespero ao ver a espada de seu pai derreter e desaparecer.

Por um longo momento, ela olhou para a fornalha. Ela havia perdido a espada de seu pai. Ela havia perdido tudo. Que chance teria agora contra o grande e poderoso Böri Khan?

De repente, lá de cima, ela ouviu uma voz.

– Você é uma guerreira poderosa.

Erguendo os olhos, ela viu o rosto do Imperador. Mesmo preso, ele tinha um olhar firme e calmo.

– Erga-se como a Fênix – o Imperador falou. – Lute pelo reino e pelo povo.

Erga-se como a Fênix. As palavras do Imperador penetraram em Mulan. Era por isso que a Fênix a ajudara? Tudo a havia conduzido a este momento? Ela se lembrou da desolação que sentira no penhasco da montanha, exilada e sozinha. E, então, pensou sobre a força que ela encontrara ao enfrentar Xianniang e sobre o poder que sentira quando o Comandante Tung a aceitou de volta. Ela havia superado os obstáculos que surgiram em seu caminho. Ela era uma fênix. Tinha renascido para se tornar uma guerreira.

Ouvindo asas batendo atrás dela, lentamente Mulan ficou em pé e virou-se. Ela perdeu o fôlego ao avistar a Fênix com as grandes asas abertas. A ave já não era a criatura triste de quando Mulan a conhecera. Ela era linda. Forte. Magnífica. As cores vivas de suas asas ofuscavam a vista de Mulan.

Tomada por um sentido de propósito renovado, pelo poder das palavras do Imperador e pela Fênix, Mulan encarou Böri Khan. O guerreiro rouran hesitou apenas por um instante, surpreso ao ver a sua resiliência, e, em seguida, correu na direção dela.

Mulan também correu em sua direção. Por um momento, parecia que eles trombariam. Mas, no último segundo, Mulan saltou. Pairando sobre Böri Khan, ela pousou sobre um fino pilar de bambu atrás dele. Equilibrando-se perfeitamente apesar da estreiteza da superfície, ela desafiou Böri Khan com um sorriso.

O guerreiro rugiu e balançou a sua espada, partindo o bambu de uma só vez. Mas não derrubou Mulan. Saltando sobre outro, e depois outro, ela foi de bambu em bambu enquanto Böri Khan continuava a movimentar a sua espada de maneira selvagem. Chegando ao final dos pilares, ela levantou o braço e agarrou um pedaço de bambu que oscilava no ar após ter sido cortado. Pousou no solo e estendeu o bambu à sua frente, como se fosse um bastão.

Sua respiração estava ofegante. Ela estava exausta. Cada músculo doía e até mesmo os seus ossos pareciam arder. Ela tinha lutado durante tanto tempo. Primeiro para encontrar o seu lugar no exército e, depois, na batalha contra centenas de guerreiros ferozes. E, agora, contra o guerreiro rouran mais forte de todos. Ela não sabia por quanto tempo aguentaria. Mas, se parasse, o Imperador morreria, e o que seria do reino? Uma imagem do tulou veio à sua mente. A pacata aldeia habitada pelas mesmas famílias geração após geração. O que seria de seu lar? Da sua família? Ela tinha de continuar lutando. Respirando fundo, ela levantou o bambu.

Mais uma vez, Böri Khan veio em sua direção. Com movimentos fluidos, Mulan usou o bambu para bloquear a espada dele. Mal era possível ver o bastão se movendo pelo ar, tal era a destreza que ela usava para movimentá-lo. Böri Khan tentou acompanhar o movimento atordoante, mas acabou tropeçando. Aproveitando a oportunidade, Mulan parou de girar e acertou-lhe o rosto. Ele soltou um grito ao levar sua mão até a bochecha.

Mulan continuou se movendo. Ao correr de volta na direção do Imperador, ela ouviu Böri Khan vindo atrás dela. Então, virou-se e levantou o bambu assim que a espada de Böri Khan quase atravessou sua cabeça. Mulan gritou quando a sua lança improvisada de bambu rachou no meio, partindo-se em duas. O guerreiro rouran continuou a movimentar a espada, quebrando a madeira abaixo e cortando uma corda presa nas proximidades. Sem a corda para segurá-la, uma das vigas gigantes soltou-se, assim como o andaime preso a ela. Ele balançou para a frente e para trás, entre onde Mulan e o Imperador estavam.

Observando o longo pedaço de madeira, Mulan teve uma ideia. Ela saltou sobre o andaime na tentativa de usá-lo para chegar ao Imperador. Mas ele estava muito alto. Desesperadamente, ela agarrou-se na viga horizontal e ficou pendurada ali, abraçada ao pedaço de madeira. Com o seu peso e a força do salto, a viga começou a balançar de um lado para o outro.

Böri Khan, com o rosto cheio de raiva, saltou e agarrou a extremidade oposta do pedaço de madeira. A madeira rangeu com o peso dos dois, cada qual pendurado em uma extremidade. Böri Khan e Mulan pegaram impulso para subirem na viga. Eles tentavam se equilibrar sobre o pedaço de madeira balançando para trás e para a frente.

Olhando para o chão lá embaixo, que agora parecia muito distante, Mulan respirou, nervosa. Böri Khan não pararia até derrotá-la. Ela o viu começando uma manobra em sua direção, mas seu peso fez com que o seu lado da viga se erguesse, forçando-a a se mover para o centro, aproximando-se do rouran. Bastaria a Böri Khan acertá-la com a espada e ela cairia dali. Ela tinha todos os motivos para recuar.

Mas, então, como se houvesse algo no fundo de seus pensamentos que a lembrava do motivo para continuar, ela ouviu a voz do Comandante Tung em sua cabeça e a leitura em voz alta dos Pilares da Virtude. Ela ouviu o Imperador incentivando-a a se erguer como a Fênix. Ela viu, em sua mente, o magnífico pássaro. E ela soube, naquele momento, que não iria desistir. Lentamente, Mulan dobrou os joelhos e levantou os braços, ficando na postura do guerreiro que o Comandante tinha lhe ensinado. Com o seu centro de gravidade rebaixado, o equilíbrio ficou mais forte. O ambiente ao seu redor desapareceu, e ela estava de volta às margens do lago, praticando os movimentos que o Comandante Tung ensinava aos soldados. Conforme Böri Khan vinha em sua direção, Mulan movia-se para frente e para trás, atacando e se defendendo e, ao mesmo tempo, permanecendo estável e focada.

Böri Khan, por outro lado, foi ficando cada vez menos concentrado. Conforme Mulan escapava de todos os seus ataques, a sua irritação foi crescendo. Os movimentos de sua espada tornaram-se menos controlados. Soltando um grito furioso, ele foi com tudo para cima dela.

Mulan mal teve de se mover. Usando a energia dele contra ele mesmo, ela deixou que ele a perseguisse sobre a viga estreita, tirando a espada de sua mão quando ele passou por ela. Ao chegar à ponta da viga, ele se virou e deu de cara com a lâmina de sua própria arma apontada para a sua garganta.

Böri Khan olhou para ela com surpresa, e Mulan saltou para cima, segurando uma corda que pendia do teto. Em seguida, usando a espada do rouran, ela cortou a corda que ainda segurava a viga. Pouco a pouco, a corda começou a ceder. Então, com um rangido alto, acabou rasgando, e Böri Khan despencou lá embaixo, no chão.

Sem esperar para ver se Böri Khan já havia se recuperado da queda, Mulan pulou sobre a plataforma em que o Imperador estava amarrado. Ela correu e cortou as cordas que o prendiam. O coração de Mulan acelerou enquanto ela tentava desesperadamente soltar o Imperador. Ouvindo o homem prender a respiração, ela se virou e viu que Böri Khan estava em pé no chão, seu arco na mão direita e uma flecha apontada para eles.

Böri Khan puxou a flecha para trás.

Mulan cortou as cordas mais rapidamente.

Ao mesmo tempo que o rouran atirou a flecha, Mulan terminou a tarefa. Com as mãos livres, o Imperador posicionou-se e, pouco antes de a flecha perfurar o seu peito, ele ergueu o braço e a agarrou. Com um olhar de desafio, o Imperador atirou a flecha no ar.

Ambos, Böri Khan e Mulan, ficaram boquiabertos. Mas Mulan foi a mais rápida a se recuperar. Vendo a flecha subindo e depois descendo para o chão, ela decidiu aproveitar a chance. Saltando no ar, ela girou em torno de seu corpo, estendeu o pé e, com um tack!, chutou com tudo a ponta da flecha. O movimento lançou a flecha pelo ar, em direção a Böri Khan.

Levantando a mão, o grande guerreiro tentou pegá-la. Mas ele não foi rápido o suficiente. Alimentada pela força e pelo poder de Mulan, a flecha perfurou o peito de Böri Khan, derrubando-o no chão, onde ficou deitado, imóvel.

O silêncio pairou quando Mulan assimilou a realidade do que tinha feito. Seu corpo tremia com a adrenalina, e os seus joelhos estavam bambos. Ela se virou. O Imperador ficou olhando para ela com uma expressão que ela não conseguia interpretar. Ela imediatamente ajoelhou-se ao chão, fazendo uma reverência.

– Levante-se, soldado – disse o Imperador. Mulan levantou-se. – Diga-me o seu nome.

Mulan respirou fundo, parando por um breve momento. Ela tinha acabado de derrotar Böri Khan, o guerreiro mais temido da China. Tinha vencido com a própria força e habilidade e, assim, salvado o Imperador e todo o reino. Um calor se espalhou dentro dela quando se deu conta da magnitude do que tinha feito. Alguns momentos passaram em sua mente: Xianniang sacrificando a própria vida. O Comandante Tung acreditando nela. Honghui a defendendo. Ela tinha passado tanto tempo fingindo ser alguém que não era com a esperança de, assim, conseguir ajudar. A ironia era que, o tempo todo, ela só precisava ter sido ela mesma. Erguendo a cabeça, Mulan encontrou o olhar do Imperador.

– Eu sou Hua Mulan – ela respondeu e, quando o nome ecoou pela torre, ela sorriu.