Mulan

Elizabeth Rudnick · Capítulo 11 de 22

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Mulan

Onze

 

–Roubo: pena de morte!

A voz do Sargento Qiang ressoou no centro do acampamento. A manhã tinha chegado rápido demais para o gosto de Mulan, que acordou com a voz alta do Sargento invadindo a tenda, ordenando que todos saíssem para os anúncios da manhã. Felizmente, na pressa que se seguiu, Mulan conseguiu se esconder nas sombras da tenda e se vestir. Agora ela estava lado a lado com centenas de outros recrutas e soldados experientes, enquanto o Sargento listava as regras uma por uma e os respectivos castigos de quem ousasse quebrá-las. O Comandante Tung estava em pé ao lado dele, os olhos se movendo sobre os homens reunidos à sua frente.

– Deserção – continuou o Sargento Qiang. – Pena de morte!

Os homens ouviam de cara fechada. Até Yao sabia que não era hora de brincar.

– Trazer mulheres para o campo ou associar-se a elas de qualquer forma – continuou o sargento. – Pena de morte!

Mulan lutou para manter o pânico e o medo longe de seu rosto. Ela sentiu como se todo mundo estivesse olhando para ela, embora soubesse que não era o caso. Ainda assim, ouvir as palavras do Sargento Qiang fez os seus medos parecerem muito mais reais. Ela sabia que havia uma penalidade para as mulheres no exército, mas morte? Isso pareceu um pouco... radical. Como se estivesse lendo seus pensamentos, o Sargento Qiang terminou seu discurso.

– Desonestidade? Penalidade... – ele fez uma pausa, deixando a palavra pairar no ar por um momento antes de terminar. – Expulsão! Desonra.

Os recrutas ofegaram.

O sargento Qiang assentiu.

– Desonra para vocês, desonra para as suas famílias, desonra para a sua aldeia... Desonra para o seu país.

Pelo olhar no rosto dos homens ao seu redor, e pela maneira como todos se remexeram desconfortavelmente, Mulan sabia que eles estavam pensando a mesma coisa que ela. A desonra era um castigo muito pior que a morte. Mulan poderia jurar que o Sargento Qiang parecia mais feliz agora que tinha deixado todos os soldados nervosos. Marchando na frente deles, ele parou, batendo com o dedo no peito do recruta mais próximo.

– Vamos transformar cada um de vocês em homens!

Ao ouvirem isso, os soldados exclamaram gritos animados, mas Mulan levantou sem entusiasmo sua mão e voz. Por dentro, ela se encolheu. Como eles poderiam fazer dela um homem quando ela não era um homem? E, pior ainda, como seria o futuro dela se alguém descobrisse a verdade?

 

Mulan estava exausta. Depois da manhã de explicações e apresentações, eles foram enviados para o meio do acampamento para darem início ao treinamento. Por horas, ela e os outros praticaram manobras básicas de artes marciais repetidas vezes. Usando apenas braços, pernas e peso corporal, eles deviam se defender com o mínimo esforço. Os braços de Mulan doíam de tanto balançarem no ar, e ela tinha certeza de ter ouvido o seu quadril estalar durante um chute. Mas ela não deixou a dor detê-la. Enquanto outros soldados caíam de cansaço, Mulan continuava. Ela sentiu os olhos do Comandante Tung nela, e isso a fazia prosseguir. A certa altura, seu corpo já estava dormente, e seus membros se moviam como se fossem puxados por cordas. Ela se lembrou de estar na aldeia, tecendo no tear – os gestos haviam se tornado tão rotineiros que a sua mente podia vagar à vontade.

Só que agora ela não podia permitir que os seus pensamentos a afastassem da tarefa. Distraída, ela ouviu o Sargento Qiang gritar com ela e rapidamente refez o movimento, corrigindo o erro. O Sargento ficou satisfeito e passou a torturar o próximo recruta da fila, Honghui.

Mulan deu uma espiada nele. Apesar do trabalho duro, os seus movimentos ainda estavam fortes e seu rosto, ainda focado. Cricket e Longwei não estavam se saindo bem. Ambos estavam ofegantes, com o rosto vermelho e o suor escorrendo pelas sobrancelhas. Um impulso competitivo tomou conta de Mulan, e ela sentiu uma nova energia infundir seu corpo dolorido. Ela não deixaria Honghui vencê-la. Nem mental, nem fisicamente.

Conforme o dia avançava, os recrutas foram transferidos de uma parte do campo para outra. Eles treinaram com o arco, atirando flechas em uma linha de alvos de vime distribuídos sobre uma colina. Por ordem do Sargento, os soldados apontavam as suas flechas e erguiam os arcos. Então, atiravam. Mulan se concentrou, seus olhos fixos no alvo. Mas isso não ajudava. Cada vez que lançava a flecha, ela caía pelo caminho. Felizmente, os outros pareciam estar enfrentando o mesmo problema. As flechas de Honghui se abriram enquanto Po continuava arrebentando a corda do arco. Apenas Cricket, ironicamente, teve alguma sorte. Puxando a flecha para trás, ele a segurou sem jeito na frente dele. Mulan podia ver sua mão tremendo pelo esforço de manter o arco firme. Então, ele fechou os olhos e soltou a flecha, que atravessou o campo e, com um TUMP! alto, acertou o alvo bem no centro. Quando ela e Honghui trocaram olhares impressionados, Mulan sentiu uma breve esperançazinha. Talvez ela não fosse uma forasteira para sempre.

O treinamento se estendeu durante aquela noite e pelos dias que se seguiram. Ainda evitando tomar banho com os outros soldados, Mulan continuou se voluntariando no turno da noite, o que a deixava exausta. Mas não houve indulto. Assim que aprenderam a série de manobras de artes marciais, receberam suas espadas e foram obrigados a aprender os movimentos novamente. Continuaram a trabalhar no campo de arco e flecha, com o sol batendo em suas costas, enquanto as flechas voavam para a esquerda, direita e, ocasionalmente, em linha reta. Mas isso não era o pior.

O pior era o santuário. Dia após dia, quando o sol estava alto no céu e quente em seus ombros, os recrutas recebiam dois baldes de água pesados. Levantando-os desajeitadamente até a altura dos ombros, com os braços estendidos nivelados com os ombros, eles eram instruídos a subir até o topo do santuário. Era uma enorme estrutura situada no topo de um penhasco rochoso, acessível apenas por centenas de estreitos degraus de pedra.

Respirando fundo, Mulan começou a jornada. Os primeiros passos foram administráveis. Mas, conforme subia, seus braços começaram a tremer. Ao seu redor, homens mais fortes começaram a tropeçar, fracassando no desafio. A água escorria pela borda dos baldes, e ela sentiu as pernas cada vez mais fracas até que, finalmente, afundou no chão, derrotada. À sua frente, Honghui, que havia chegado mais longe do que os outros, desistiu também. Mulan ficou parada, tentando recuperar o fôlego, furiosa consigo mesma e com sua fraqueza.

Ouvindo um grito do Sargento Qiang, ela viu que os outros haviam virado os seus baldes e estavam descendo os poucos degraus que haviam subido. Quando chegaram à base da escada, os soldados correram em direção a uma grande calha de água. Eles se apressaram, sedentos e impacientes. Mulan se aproximou lentamente, esperou que os outros terminassem e se adiantou. Pegando a concha, ela bebeu um pouco da água.

Quando o líquido atingiu seus lábios, Mulan reprimiu um gemido de alívio. Com os olhos fechados, ela não notou o Comandante Tung a observando. No meio do caos, ela permanecia firme. Os olhos dele se estreitaram com interesse. Hua Jun era uma surpresa. A cada tarefa proposta, ele encontrava uma maneira tranquila e graciosa de realizá-la. Ele não reclamara nenhuma vez e, mesmo quando estava sobrecarregado e fraco, seguia em frente. E, agora, ele havia esperado enquanto os outros homens agiam como bestas, permitindo-lhes a chance de satisfazer sua sede primeiro. Somente os líderes mais fortes tinham força de caráter para esperar dessa maneira. O Comandante assentiu para si mesmo. Hua Jun era alguém em quem devia ficar de olho.

 

– Ela, sim, é uma garota por quem vale a pena lutar.

A voz do Cricket destacava-se no refeitório barulhento. Entrando na tenda caótica, Mulan examinou os soldados e os assentos, procurando um lugar seguro para se sentar. Pelo canto do olho, viu Longwei saindo da tenda de cabeça baixa, com as poucas coisas dele agarradas ao peito. Ela engoliu em seco. Mulan ouvira o nome dele sendo chamado no santuário. O Sargento Qiang o vira despejando a água de seus baldes para facilitar a escalada e imediatamente o expulsou. Havia sido a menor das infrações, mas a penalidade foi rápida e severa. Mulan estremeceu ao pensar no que aconteceria se o segredo dela fosse descoberto.

Balançando a cabeça para afastar a ideia, ela voltou a procurar um assento. Vendo que a única opção era perto de Cricket e de outro jovem recruta chamado Ling, Mulan se aproximou e se sentou, tentando não chamar atenção para si. Quando começou a comer, Ling levantou um pedaço de papel. Nele havia um desenho de uma jovem mulher.

– Fomos prometidos um para o outro há vinte e sete dias – disse ele a Cricket. – O nome dela é Li Li. Sua pele é branca como leite. Seus dedos são como as tenras raízes brancas de uma cebolinha...

Mulan conteve uma risada. Uma cebolinha? Ela se perguntou o que Li Li pensaria se ouvisse essa comparação.

– Ling é um romântico! – disse Cricket, aparentemente mais impressionado que Mulan na escolha de palavras de Ling.

Ling sorriu como quem sonha acordado.

– Li Li me inspira – continuou ele. – Os olhos dela são como gotas de orvalho matinais. O cabelo, como montanhas distantes, escurecidas por nuvens negras...

Quando Mulan pensou que já tinha sorrido o suficiente, Yao bateu a mão na mesa, interrompendo Ling.

– Gosto das mulheres cheinhas! – ele disse, soltando uma risada alta e estrondosa. Ao seu redor, outros soldados expressaram a sua concordância. – Com quadris fortes e largos! – acrescentou.

Mulan encolheu-se. É assim que os homens falam sobre mulheres? O pensamento fez o seu estômago, que já estava reclamando do gosto horrível da comida, revirar. Nunca lhe ocorrera que homens tivessem tão pouco respeito por suas futuras esposas. Ela sempre fora ensinada a falar com orgulho e respeito do homem com quem se casaria algum dia. De todos os homens, aliás. No entanto, aqui, apenas os “românticos” pareciam ter a cortesia de falar gentilmente do sexo oposto. Até Cricket, que Mulan pensara ser um homem decente, agora estava participando.

– Gosto de beijar mulheres com lábios vermelhos cor de cereja – disse ele, sorrindo para os homens ao seu redor na esperança de obter a mesma reação que Yao havia recebido.

– Então sua mãe deve ter lábios vermelhos cor de cereja – brincou Yao –, porque ela é a única mulher que você já beijou!

Os outros soldados riram, e Yao abriu um sorriso ainda maior.

– Eu não me importo com a aparência... – Po começou a dizer.

Pensando que o outro soldado estava defendendo as mulheres e fosse dizer algo bondoso, Mulan decidiu opinar.

– Eu concordo! – ela disse.

Mas as palavras seguintes de Po a fizeram se arrepender:

– Eu só me importo com o seu talento na cozinha!

Mulan desanimou. Voltando a atenção para a refeição pouco apetitosa, ela ficou surpresa ao ouvir seu nome.

– Diga-nos, Hua Jun – disse Honghui, chamando-a do outro lado da mesa. Ele a estava observando, tentando ler a reação dela aos comentários. Decidindo pressioná-la, ele continuou. – Diga-nos. Como é a sua mulher ideal?

Mais uma vez, a tenda ficou cheia de barulho enquanto os outros soldados expressavam o seu encorajamento.

– Sim! – gritaram. – Conte-nos!

Mulan estava morrendo de vergonha. Encontrou o olhar inquisidor de Honghui e semicerrou os seus olhos. Ela sabia o que ele estava tentando fazer. Ele a estava provocando para que ela se descontrolasse. Mas ela não deixaria isso acontecer. Fez uma pausa, organizando os seus pensamentos antes de responder:

– Eu acho – disse ela, certificando-se de manter a voz grave e firme – que minha mulher ideal é corajosa.

A sala ficou em silêncio. Os homens se entreolharam, confusos. Todos ficaram meio chocados e decepcionados. Exceto Honghui. Ele parecia interessado na resposta.

Teimosamente, Mulan continuou, sabendo que acabaria chamando a atenção. Mas ela não se importava. Queria mostrar a eles que as mulheres eram mais do que objetos.

– E ela tem senso de humor – alguns dos homens riram. – Ela também é inteligente!

Agora todos estavam rindo. Todos, exceto Honghui.

– Mas como ela é? – Cricket perguntou.

Mulan balançou a cabeça.

– Não é isso que importa.

– Corajosa, engraçada, inteligente – Yao repetiu. – Hua Jun não está descrevendo uma mulher, ele está descrevendo um homem! Ele está me descrevendo!

Quando a sala explodiu em gargalhadas, Mulan afundou na cadeira. De que adiantava? Era como tentar conversar com um monte de animais. Mas, quando ela levantou a cabeça, ficou surpresa ao ver Honghui sorrindo para ela. Ele piscou. Então, voltando-se para Yao, ele gritou:

– Corajoso, engraçado, inteligente? Não, esse não é você, Yao. Definitivamente, não é você.

Dessa vez, Yao foi o alvo da brincadeira, e Mulan pôde voltar ao anonimato. Aproveitando a oportunidade, ela se afastou. Mas não antes de dar a Honghui um pequeno sorriso agradecido.