Mulan

Elizabeth Rudnick · Capítulo 22 de 22

Páginas do PDF

Mulan

Vinte e Dois

 

O Palácio Imperial estava reluzente. Centenas de lampiões coloridos flutuavam no céu, enquanto pessoas enchiam as ruas, riam e celebravam. Um desfile, liderado por um grande dragão vermelho, cruzou a rua principal, enquanto a música e o aroma de comida espalhavam-se pelo ar.

Mulan estava em pé na sala do trono, com a mente toda embaralhada.

As últimas horas haviam sido surreais. Assim que o Imperador pronunciou o seu nome, Mulan encheu-se de medo. Ela o tinha protegido, e tinha feito isso como a mulher que era. E a sua presença no exército ainda era ilegal. Ela o seguira do Palácio Novo ao Palácio Imperial com um nó na garganta, convencida de que ele iria puni-la. Mas, para sua surpresa, ele a trouxe para o Palácio para condecorá-la.

Agora ela estava diante do trono. Era uma pequena figura rodeada por dezenas de velas que iluminavam a sala, tornando-a quente e luminosa. Atrás dela, as pessoas mais importantes da cidade a observavam atentamente. Entre elas, estavam o Comandante Tung, Honghui e o restante do seu batalhão. Até Ramtish e Skatch estavam lá, mesmo depois de terem sido forçados a lutar. Na verdade, eles pareciam quase bonitos, agora que tinham tomado um bom banho e que estavam ali em pé, exalando orgulho.

Levantando-se de seu trono, o Imperador aproximou-se de Mulan. Ela fez uma reverência e sorriu, mas ele a incentivou a endireitar-se.

– Hua Mulan – o Imperador começou, e sua voz ecoou pela multidão. – O povo tem com você uma dívida de gratidão. Eu lhe devo a minha vida. Em gratidão por seu serviço e por sua dedicação, convido-a a tomar o seu lugar entre os nossos maiores guerreiros condecorados, tornando-se uma oficial da minha Guarda Imperial.

Atrás dela, foram ouvidos os murmúrios de surpresa. O que o Imperador lhe oferecera era uma incrível honra. Na verdade, era a maior honra que qualquer soldado poderia desejar. Mulan prendeu a respiração e teve de desviar o olhar do Imperador para que ele não visse a emoção tomando conta de seu rosto. Mas, ao desviar, ela deu de cara com Yao, com lágrimas escorrendo sobre o seu rosto enquanto observava Mulan com orgulho. Ver o grande soldado chorando fez Mulan sorrir, e ela se virou de novo para o Imperador. Ela sabia o que tinha a dizer.

– Vossa Majestade – ela começou. – Sinto-me profundamente honrada por esse convite incomensurável. Mas, com humildes desculpas, não posso aceitá-lo.

Mais uma vez, um murmúrio de surpresa percorreu a sala cheia. As pessoas tentavam compreender a sua resposta. Apenas o Comandante Tung parecia compreendê-la, e ele lhe dirigiu um sorriso tranquilizador enquanto ela prosseguia:

– Parti de casa na escuridão, traindo a confiança da minha família. Fiz escolhas que podiam levá-la à desonra. Depois jurei ser leal, corajosa e verdadeira. A fim de cumprir esse juramento, devo voltar para casa e fazer as pazes com a minha família.

Houve uma pausa enquanto o Imperador refletia sobre as palavras de Mulan. Depois, ele assentiu. Levantando a voz, ele se dirigiu formalmente à sua corte.

– Devoção à família é uma virtude essencial!

Enquanto os seus escribas tomavam nota dessa nova declaração oficial, o Imperador olhou mais uma vez para Mulan. Ele não disse nada por um momento, e seus olhos acolhedores pareceram atravessar a alma dela. Então, como se estivesse satisfeito com o que vira, ele assentiu novamente. Dessa vez, em um tom de voz que só ela conseguia ouvir, ele disse:

– Muito bem, Hua Mulan.

Então, ele se virou e retornou ao seu trono. Mulan foi até os soldados – agora, seus amigos. A noite era uma criança, e a festa estava apenas começando. Pelas próximas horas, Mulan decidiu, ela não pensaria na viagem de volta para casa e apenas aproveitaria o momento. Ela teria tempo para pensar sobre o que dizer quando visse a sua família – e o seu pai – mais tarde.

A luz da alvorada já brilhava sobre a Cidade Imperial quando Mulan, puxando seu Vento Negro, atravessou a ponte em direção ao portão principal. No céu ainda havia alguns lampiões à deriva, enquanto um barco vazio flutuava sobre a água. A cidade estava silenciosa após a grande festa, assim como Mulan.

– Você não pode ir embora.

Ouvindo a voz de Honghui, Mulan virou-se, surpresa com a emoção que sentiu ao ver o belo rapaz. Durante a noite toda, ela tinha tentado encontrá-lo, mas em vão. Havia tanta coisa que ela queria dizer. Ela queria pedir perdão e dizer que sempre quisera lhe contar a verdade. Ela queria dizer olá – e adeus. Mas, agora que ele estava ali, na sua frente, ela ficou sem palavras.

Honghui chegou mais perto, e o sol nascente fez o seu cabelo brilhar e os seus olhos cintilarem. Ele sorriu enquanto se aproximava, e Mulan não pôde deixar de sorrir de volta.

– O Imperador me deu permissão para ir embora – disse ela. – Mas você não?

– Nós não dissemos adeus – respondeu Honghui.

– Adeus, Honghui – ela respondeu.

– Adeus, Mulan.

Houve uma estranha faísca quando os seus olhos se encontraram. Os dois queriam – precisavam – dizer mais, mas nenhum queria ser o primeiro a fazê-lo. Mulan parecia um pouco inquieta. Diante dela, Honghui passou uma mão pelo cabelo. Mulan se perguntou como seria poder pegar naquela mão.

Como se estivesse lendo os seus pensamentos, Honghui fez exatamente isso. Estendendo a sua mão, ele tentou pegar a mão dela. Nervosa, Mulan agarrou ainda mais as rédeas de Vento Negro. Honghui sacudiu a cabeça.

– Você ainda não quer pegar na minha mão? – ele perguntou. A sua voz soou suave e profunda com a emoção.

Por que ela estava hesitando? Honghui estava lá, na frente dela, pedindo-lhe a mão e, no entanto, naquele momento, ela estava mais assustada do que nunca – mais ainda do que quando enfrentara Böri Khan. Aquilo parecia mais real, mais perigoso, mais importante. O ar estava carregado com uma eletricidade que ela ainda não sabia definir. Segurando a respiração, Mulan deixou os seus dedos se entrelaçarem nos dele. Ao fazer isso, uma emoção atravessou todo o seu corpo. Ela olhou para os seus dedos, agora entrelaçados, e viu um futuro. Levantando os olhos, ela encontrou o olhar de Honghui. Pela primeira vez, ela realmente olhou para ele e deixou que ele olhasse para ela... Como Mulan. Ela moveu a cabeça para mais perto da dele. Chegando cada vez mais perto, ela fez uma pausa quando os seus lábios estavam a apenas centímetros dos de Honghui.

– Eu nunca beijei um homem – disse ela.

Honghui sorriu.

– Nem eu.

E, então, ele levou os seus lábios até os dela. Eles se beijaram, e seus dedos se entrelaçaram com ainda mais força. Mulan entregou-se ao beijo de Honghui. Ao ouvir uma pomba da manhã arrulhando nas proximidades, Mulan deu-se conta de que aquilo era tudo com que tinha sonhado, mas com que nunca se permitira sonhar. Foi perfeito.

Mulan afastou-se relutantemente, interrompendo o beijo. O seu rosto corou, e ela tirou uma mecha de cabelo dos olhos, sorrindo sem jeito para Honghui. Se pudesse, ela teria ficado lá, sobre aquela ponte, beijando Honghui pelo resto de sua vida. Mas ela dissera ao Imperador que tinha pazes a fazer, e não podia se distrair, mesmo que fosse pela coisa mais gostosa do mundo.

Pegou as rédeas novamente e jogou-as por cima de Vento Negro. Depois, saltou sobre o cavalo. Com um último olhar e o medo de que sua voz falhasse graças a tanta emoção caso ela falasse, Mulan virou-se e partiu cavalgando. Mas, antes de chegar aos portões, ela ouviu Honghui gritar:

– Eu a verei de novo, Hua Mulan!

Ela se virou e o viu parado ali onde o deixara, com a sua mão no ar, acenando um adeus. Ela sorriu de volta para ele. Sim, ela pensou, eu espero. Então, impulsionou Vento Negro, desaparecendo pela porta e deixando o Palácio e Honghui para trás.

 

Depois de muito viajar, Mulan finalmente entrou em sua aldeia com o coração batendo forte no peito. Ela passara toda a viagem desde o Palácio até ali pensando no que diria quando se reunisse com a sua família, mas agora que o momento chegara, ela estava apavorada. E se eles não a quisessem de volta? E se eles já a tivessem desonrado? E se lhe dissessem para partir e nunca mais voltar?

Conforme Vento Negro foi diminuindo o ritmo, Mulan percebeu os moradores vindo ao pátio, curiosos para ver quem havia chegado. Vendo Mulan, os seus rostos ficaram cheios de interesse. A casamenteira saiu de sua casa – e ficou furiosa ao ver Mulan.

Parando no pátio, Mulan viu a porta de sua casa aberta. Um momento depois, a sua irmã saiu de lá. Ao ver Xiu, todo o seu medo desapareceu. Desmontando de Vento Negro, Mulan correu para abraçar a irmã. Ela estava em casa.

Mulan afastou-se um pouco. Olhando para Xiu, ela sorriu calorosamente. A irmã mais nova olhou para ela de forma... diferente. Mas, então, com a voz acolhedora e feliz, ela disse:

– Tenho tantas perguntas a fazer! – ela disse, agarrando a mão de Mulan e a apertando com firmeza.

Mulan riu.

– Fale primeiro de você!

– Eu tenho um pretendente – Xiu disse, soltando uma risada ao ver a expressão surpresa de Mulan. – Você vai gostar dele.

– Estou feliz por... – Mulan não teve a chance de terminar porque a sua mãe as interrompeu, jogando os braços ao redor de Mulan e a abraçando com força. Os braços da mãe pareciam tremer enquanto envolviam Mulan. Nenhuma palavra precisava ser dita. Ela sabia que tinha sido perdoada.

Mas, então, por cima do ombro de sua mãe, ela avistou o pai. Em silêncio, Zhou estava em pé apoiado sobre a bengala. A expressão dele era indecifrável e os seus olhos, impossíveis de ler. Interrompendo o abraço da mãe, ela se aproximou dele. Mais uma vez, o coração começou a pular em seu peito. Ela tinha praticado seu discurso para ele uma centena de vezes, mas ainda assim lutava para encontrar as palavras.

– Peço perdão, pai. Roubei o seu cavalo, roubei a sua armadura... E roubei a sua espada. – Ela engasgou com a palavra. Parando, ela reuniu toda a coragem que encontrara no campo de batalha. – E eu a perdi... A espada se foi. Eu entendo agora o quanto a espada significa para o senhor.

O silêncio pairou sobre eles enquanto Mulan olhava para o pai, desesperada para ouvir a sua resposta. E, quando ele falou, sua voz tremia de emoção.

– É a minha filha que significa tudo para mim. – Com lágrimas escorrendo pelo seu rosto, Zhou continuou: – E eu é que lhe devo um pedido de desculpas. Foi o meu orgulho insensato que a mandou embora daqui.

Mulan começou a balançar a cabeça para dizer que não, mas parou quando Zhou segurou a sua mão. Ele a examinou, observando as vestes de guerreira que ela estava usando e a sua postura firme, mesmo emocionada como estava. Ele assentiu lentamente, dando-se conta de quem ela era, do que havia se tornado.

– Um guerreiro reconhece outro – ele disse, sua voz agora cheia de orgulho. – Você sempre esteve aqui, mas eu a estou vendo pela primeira vez. – Aproximando-se, ele a puxou para um abraço. Mulan o abraçou de volta, sentindo-se finalmente em paz.

Vendo-os assim, a mãe de Mulan soltou um grito de felicidade e correu para agradecer aos antepassados. Olhando em direção ao santuário, Mulan sorriu quando viu a estátua da Fênix, com a cabeça inclinada e a asa torta.

O momento foi interrompido por uma voz alta, anasalada e simplesmente desagradável. Virando-se, Mulan viu a casamenteira se aproximando.

– Não há um só homem em todo o reino que vá querer se casar com Mulan agora – ela zombou.

Mulan estava prestes a protestar quando o pai se adiantou. Ele sacudiu a cabeça.

– Não há um só homem em todo o reino bom o suficiente para Mulan – ele disse. Então, virou as costas para a casamenteira, e ele e Mulan foram se juntar ao restante da família no santuário. Esticando o braço, Mulan ajeitou a cabeça da Fênix.

– Obrigada – ela sussurrou. – Obrigada por cuidar de mim. Obrigada por tudo.

De repente, um som de batidas encheu o ar. Em seguida, a bandeira do Imperador foi avistada, e a Guarda Imperial galopou até o pátio. Os aldeões ficaram em choque ao perceberem quem eram os homens. A aldeia nunca tinha sido honrada com a presença da Guarda Imperial.

Imaginando que a sua presença ali tinha relação com alguma situação de perigo, Zhou virou freneticamente para a filha.

– Soldados vieram para puni-la – disse ele. – Você precisa se esconder!

Mulan sacudiu a cabeça.

– Não me esconderei mais – ela disse, esperando para ver o que os soldados fariam. O líder removeu o elmo. Ela sorriu ao ver quem era. O Comandante Tung olhou para ela e fez um aceno de cabeça. Depois, virou-se para o pai de Mulan.

– Olá, velho amigo – disse ele.

Ainda sem entender o que estava acontecendo, Zhou entrou na frente de Mulan.

– Tung Yong – disse ele, cumprimentando o Comandante. – Sinto-me honrado por receber você e a Guarda Imperial. Mas, se estiverem aqui para disciplinar Mulan, terão de passar por cima de mim. – Apertando a bengala com a mão, ele endireitou a postura o máximo que pôde. Apenas Mulan percebeu que a sua perna ferida estava tremendo.

O Comandante Tung balançou a cabeça.

– Não acredito que seja necessário. – Olhando por cima do ombro, ele sinalizou para um dos guardas. Descendo de seu cavalo, o guarda pegou uma linda caixa comprida de trás de sua sela e levou-a até o Comandante Tung, que falou em voz alta, para que toda a aldeia pudesse ouvir: – Sob a ordem de Sua Majestade Imperial, o Imperador, entrego este presente a Hua Mulan. Ela trouxe honra a seus antepassados, à sua família, à sua aldeia e ao seu país.

Enquanto o Comandante falava, Zhou olhava da filha para o velho amigo e vice-versa, lutando para processar o que estava acontecendo. Ao redor deles, os aldeões observavam com os olhos arregalados, e a casamenteira, que ouvira mais atentamente do que todos, desmaiou, despencando no chão com tudo. Ignorando o som da queda da mulher, o soldado entregou a caixa a Mulan.

Mulan olhou para o presente e, em seguida, para o Comandante Tung. Ela não tinha certeza do que fazer. Mas, com o assentimento do comandante, lentamente abriu a tampa. Ela prendeu a respiração. Dentro, havia uma espada. Hipnotizada, Mulan tirou-a da caixa. Então, ergueu a espada e a girou no ar sob a luz do sol, fazendo-a brilhar. Era magnífica e, em sua mão, ficava graciosa também.

– Como convém a uma grande guerreira – disse o Comandante Tung –, a espada é marcada com os Pilares da Virtude.

Os olhos de Zhou não desviaram da espada de sua filha quando ele sussurrou as palavras que sabia que ela encontraria lá:

– Lealdade. Coragem. Verdade.

Mas, com o movimento da espada, Zhou se calou. Havia outro símbolo gravado na parte de trás do cabo.

– Qual é o quarto pilar que estou vendo? – ele perguntou, confuso.

O Comandante Tung sorriu.

– Leia-o em voz alta, Mulan – disse ele.

Lentamente, Mulan correu um dedo sobre a inscrição. Ela leu a palavra silenciosamente primeiro e, em seguida, em voz alta.

– Devoção à família – ela disse.

O decreto do Imperador era agora um lembrete permanente de tudo que ela tinha dado em nome da honra de sua família. Tirando os olhos da espada, Mulan encontrou o olhar de seu pai. Ele olhou para ela cheio de orgulho. Ele se endireitou, ficando mais alto e imponente do que quando estava no exército. Ao lado dele, sua mãe e sua irmã também a olhavam com orgulho.

– Você trouxe honra para todos nós – disse ele.

A respiração de Mulan acelerou em seu peito. Era tudo que ela sempre quisera ouvir. Era a razão, ela sabia agora, pela qual lutara tão arduamente, que a fizera encontrar o seu chi e que a tinha conduzido adiante em vez de virar as costas e abandonar tudo.

A voz do Comandante Tung interrompeu os seus pensamentos, e ela se virou para olhar mais uma vez para o homem que a tinha ajudado a se tornar uma guerreira. Ele olhou para ela com orgulho.

– O Imperador pede-lhe para reconsiderar o convite para se juntar aos nossos maiores guerreiros condecorados, como uma oficial da Guarda Imperial.

Mais uma vez, os aldeões começaram a murmurar, chocados ao ouvirem que um posto tão glorioso havia sido oferecido à sua Mulan.

– Ele aguarda ansiosamente pela sua decisão.

Todos os olhos se voltaram para Mulan, todos curiosos para ouvir o que ela diria. De cima, ouviu-se um gorjeio potente de pássaro, que ecoou sobre o tulou, fazendo com que todos erguessem a cabeça para ver de onde vinha um som tão magnífico. Mulan sorriu. Ela não precisava olhar para saber o que estava lá. Mas, ainda assim, ela levantou a cabeça. Lá no alto, no céu, estava a Fênix. Suas asas estendidas, planando no vento, brilhavam como um arco-íris. Quando viu a Fênix, Mulan sorriu ainda mais. Sua amiga, sua guardiã, tinha vindo ver se ela estava bem mais uma vez. Satisfeita com o que viu, a Fênix soltou outro grito e, agitando as suas asas poderosas, voou para longe.

Observando a Fênix partir, Mulan sussurrou um adeus. Ela não tinha certeza para onde a sua jornada a levaria. Mas sabia agora que tinha forças para fazer qualquer coisa. Ela era Hua Mulan, e ela era uma guerreira.

FIM

 

Você terminou Mulan

Elizabeth Rudnick

Livros como este

Depois do livro

Páginas que vieram com esta edição, guardadas aqui para consulta.