Mulan

Elizabeth Rudnick · Capítulo 12 de 22

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Mulan

Doze

 

 

O quartel estava excepcionalmente quieto. Mulan estava sentada na beira da cama, calçando as botas. O menor esforço fazia os seus músculos doerem, e ela desejou muito poder tomar um banho quente para aliviá-los. Mas ela havia se oferecido novamente para o turno da noite. Não havia escolha.

Ainda estava amarrando a bota quando ouviu a aba frontal da tenda se abrir. Viu, então, que era Honghui entrando. Ao vê-la, ele abriu um sorriso. Mulan esqueceu seus músculos doloridos quando seu coração começou a bater um pouco mais rápido. Havia algo de encantador em Honghui, o que a deixava desconfortável. Ela não sabia por que ele estava ali agora. Deveria agradecê-lo por tê-la ajudado mais cedo? Ela não sabia o que um “homem” faria em tal situação.

Felizmente, ela não teve de tomar a decisão, pois Honghui se aproximou e se sentou na cama ao lado dela.

– Não deixe que eles o incomodem – disse ele, colocando os braços atrás da cabeça. – Especialmente aquele bobo do Yao.

Mulan se permitiu dar um pequeno sorriso. De alguma forma, e ela não tinha certeza de como, ela e Honghui passaram de inimigos a... aliados. Bem, quase. Ela se lembrou dos comentários ridículos de Yao no refeitório. Ainda não conseguia acreditar que ele via as mulheres como objetos, valorizadas apenas por sua aparência física e não por sua força de caráter. Um pensamento cruzou a sua cabeça. Honghui não chegara a falar de sua ideia do que seria uma mulher “perfeita”. Ela se perguntou por que ele tinha ficado tão quieto.

– Já acharam uma noiva para você? – Honghui perguntou, invadindo os seus pensamentos. – Posso perguntar?

A pergunta assustou Mulan.

– Não – ela disse por reflexo.

Mas, então, percebeu que ter uma futura noiva a faria parecer mais “viril” para Honghui. Então, ela se corrigiu:

– Quero dizer... Sim. Acharam. Quase. Não deu certo.

– Sorte sua – disse Honghui, com a voz baixa.

Eles ficaram ali por um momento, a resposta dele pairando no ar. Mulan não tinha certeza do que dizer. Honghui quis dizer que ela teve sorte por terem lhe arrumado uma noiva, ou por ter dado errado?

– Eu tenho uma noiva prometida – disse Honghui, respondendo à pergunta não feita. – Espero que ela seja corajosa. E engraçada e inteligente – ele fez uma pausa e seus olhos ficaram distantes. Mulan se perguntou, quando olhou para ele, o que ele devia estar imaginando. Depois, acrescentou: – Porque ela se parece com um homem.

A admissão de Honghui surpreendeu Mulan. Por que ele admitiria isso para ela? O que ele esperava que ela dissesse? E ela não pôde deixar de se perguntar o que ele pensaria dela, se pudesse realmente vê-la. Felizmente, Honghui estava muito envolvido em seus próprios pensamentos para perceber sua expressão.

– Quero dizer – continuou ele –, como começar a conversar com uma mulher, quanto mais se casar com uma?

Pela primeira vez desde que se conheceram, Honghui parecia inseguro. O coração de Mulan, que já havia começado a se derreter pelo belo recruta, ficou ainda mais derretido. Arriscando, Mulan respondeu:

– Basta falar com ela como está falando comigo agora.

– Eu gostaria que fosse assim tão fácil – disse Honghui.

Ele fez uma pausa e sua expressão ficou mais incerta.

– E... E se ela não gostar de mim?

Mais uma vez, sua resposta surpreendeu Mulan. Ela se virou e, pela primeira vez, o observou por um tempo. Seus olhos estavam focados no teto da tenda, seu peito subindo e descendo lentamente, respirando. Mas Mulan podia ver que ele estava genuinamente preocupado. Ao ser honesto, ele estava se permitindo ser vulnerável.

– Ela vai – disse Mulan, as palavras mais suaves do que ela pretendia.

Lentamente, Honghui olhou. Seus olhos se encontraram e, por um momento silencioso, não disseram nada, e o ar ficou pesado com uma emoção não dita. Sacudindo, Mulan pigarreou. Ela não tinha ideia do que acabara de acontecer, mas sabia que precisava aliviar o clima.

– Quero dizer, acho que ela vai – disse ela, dessa vez certificando-se de manter a voz sem qualquer emoção. – Nunca se sabe quando se trata de mulheres... – ela adicionou com um encolher de ombros e um olhar conspirador.

Honghui não disse nada, embora tenha se sentado. Balançando as pernas sobre o lado da cama, ele se aproximou. Mulan recuou instintivamente. O que ele estava fazendo? Por que ele estava se aproximando? Será que ele...? Ele chegou mais perto ainda. Respirou fundo e, por um momento, Mulan estava convencida de que ele iria beijá-la. E, então, ele recuou.

– Você realmente deve considerar pular a guarda dessa noite e ir tomar um banho – disse ele. – Você está fedendo, cara.

Então, levantando-se, ele deu um tapa no ombro dela e saiu. Mulan lamentou-se. Que vergonha. Erguendo o braço, ela respirou fundo. E lamentou ainda mais. Honghui estava certo. Ela estava fedendo. Exatamente como um homem.

 

Algo havia mudado. Começou no refeitório e continuou a crescer depois, durante a conversa na tenda. Uma amizade começou a se formar entre Mulan e Honghui. Uma amizade ligada a outra coisa que Mulan não tinha certeza se poderia nomear, mas que era inegável. Ela não temia mais Honghui, e o tempo passado nas tendas era mais fácil, sabendo que ela tinha um aliado.

No campo de treinamento, o relacionamento assumiu uma forma diferente. Estava ficando claro para os sargentos e soldados que, de todos os recrutas, Honghui e Mulan mostravam o maior potencial. Ninguém ficou surpreso com Honghui. Ele fora construído para ser um guerreiro. Forte, intenso e inteligente. Mas Mulan era uma surpresa. Ela nunca era a primeira ou a mais rápida, mas sempre cumpria as tarefas e o fazia com uma dignidade silenciosa que fazia os outros pararem e prestarem atenção. Com o passar dos dias, ela foi ficando mais forte também.

Em pé no meio do treino matutino, Mulan segurou uma lança na frente do corpo. Os recrutas já haviam terminado a primeira parte do treinamento e agora usariam lanças de verdade na simulação de um combate um a um. Instintivamente, Mulan e Honghui foram um em direção ao outro. Quando o Sargento Qiang deu o sinal, eles levantaram as lanças.

E, então, começaram a lutar.

Ataque. Bloqueio. Ataque. Bloqueio. Cada movimento que Honghui fazia, Mulan antecipava, erguendo a lança no ritmo constante e suave que Honghui conhecia. O ritmo foi aumentando conforme eles se moviam cada vez mais rapidamente. Mulan saltava quando Honghui chutava. Honghui bloqueava quando Mulan o atacava, devolvendo-lhe o seu próprio ataque. De um lado para o outro, seus movimentos eram estranhamente bonitos. Eles se enfrentavam com a mesma intensidade, olhos nos olhos.

Sem saber que outros haviam parado suas próprias lutas para assistir, Mulan e Honghui continuaram se enfrentando. Eles lutavam de maneira mais rápida e ferozmente, cada qual determinado a fazer o outro vacilar. Soldados aplaudiram o par. Ouvindo a comoção, o Comandante Tung emergiu de sua tenda e ficou ao lado do Sargento Qiang. Eles trocaram olhares antes que o Comandante focasse a sua atenção em Mulan. O suor escorria pela testa dela, e ele podia ver os seus ombros tremendo, mas a concentração em seu rosto era inabalável.

Mulan girou e pegou Honghui desprevenido. Ele tropeçou para trás e, por um momento, pareceu que Mulan tinha a vantagem. Mas, com um movimento suave, ele se virou e atirou a lança dela no chão. Jogando as mãos no ar e soltando um grito de vitória, Honghui não viu Mulan estender a mão e pegar a lança novamente. Ele também não viu a determinação em seu rosto. Mas o Comandante Tung viu. Ele viu o olhar e a aplaudiu silenciosamente.

Com um grito, Mulan foi atrás de Honghui. A ferocidade dela era incomparável, e Honghui não teve escolha a não ser ficar na defensiva, levantando a arma para bloquear o ataque, enquanto Mulan girava a lança no ar. Soltando um grito, ela correu na direção dele e pulou...

Por um momento, ela pareceu pairar no ar, como se tivesse asas. E, então, em um movimento tão rápido que foi quase invisível, ela derrubou a lança dele. Houve um estalo alto quando uma lança bateu na outra, e então um suspiro quando a arma de Honghui saiu voando de sua mão. Enquanto os homens aplaudiam, Mulan saltou novamente, só que dessa vez ela também girou no ar, com o pé saindo e encontrando a lança ainda no ar. Batendo o pé rápida e furiosamente, ela chutou a ponta da lança, atirando-a pelo ar com velocidade e força. A lança bateu na lateral de um poste e ficou lá, fincada na madeira.

Mulan aterrissou e jogou a própria lança no chão. Os aplausos dos homens pararam. Eles ficaram boquiabertos enquanto olhavam de Mulan para Honghui e vice-versa.

Ao recuperar o fôlego, Mulan sentiu a adrenalina sair de seu corpo. Lentamente, ela percebeu os olhos dos soldados nela e se encolheu de vergonha. Tinha se permitido dominar pela necessidade de vencer e por seus sentimentos confusos por Honghui. Ela se empolgou e atraiu uma atenção indesejada para si mesma. Essa era a última coisa de que precisava – especialmente agora, quando estava começando a sentir que poderia se enturmar.

Murmurando um pedido de desculpas para Honghui, Mulan abaixou a cabeça e se afastou apressadamente. Atrás dela, o resto dos homens assistiu, chocado, em silêncio. O que, todos se perguntaram, haviam acabado de testemunhar?