Mulan
Sete
Böri Khan estava satisfeito. Seus planos estavam se desenrolando de forma brilhante. O Imperador estava assustado e iria reunir um exército fraco, composto por civis, meninos e homens velhos. Enquanto isso, o sucesso de Böri Khan tinha lhe rendido a atenção de todas as outras tribos rourans. Elas tinham enviado os seus próprios dirigentes, conhecidos como Tegins, para se encontrar com ele, como era o antigo costume. Agora, os Tegins estavam dentro da tenda grande, enquanto lá fora as suas bandeiras – do urso negro, do leopardo da neve, da serpente, do fogo vermelho e do garanhão selvagem – flamejavam ao vento. Foi a primeira vez em anos que todas as cinco maiores tribos estavam reunidas em um só lugar.
Graças a Böri Khan.
Olhando para o forte grupo reunido em sua tenda, Böri Khan encarou cada um dos líderes. Eles estavam em meio a uma impressionante variedade de tesouros roubados por Böri Khan e seus homens. Pilhas de seda, lenços e joias espalhavam-se ao acaso, como se Khan já tivesse juntado tantos tesouros que não se importava se caíssem no chão ou fossem pisoteados. Ele fez questão de servir um banquete do qual alguns dos homens agora participavam. No entanto, apesar da aparente celebração, a sala parecia tensa. As tribos vieram apoiar Böri Khan, mas isso não significava que elas se apoiavam entre si. O ódio que sentiam umas pelas outras era profundo e verdadeiro.
– Como posso lutar ao lado de Kilifu Tegin?
Böri Khan percebeu o olhar letal de Tulugui Tegin dirigido a um homem menor do outro lado da tenda. Tulugui era talvez o mais cruel – ou, pelo menos, o mais abertamente cruel – do grupo. Enquanto a sala se enchia de murmúrios, Khan levantou a mão para silenciá-los. Então, acenou para que Tulugui continuasse.
– Ele e o seu povo têm invadido os nossos campos desde a época do avô do meu avô – concluiu Tulugui.
Na mesma hora, Kilifu entrou na defensiva.
– Os ataques começaram com o seu povo – disse, indignado.
– Kilifu está certo! – opinou Bati Tegin, líder de uma das tribos menores, gritando, pulando e cortando Tulugui antes que ele pudesse responder. – Tulugui também invade o meu acampamento. Eu já vi com meus próprios olhos!
O yurt explodiu em rugidos. De repente, velhas feridas foram reabertas. Böri Khan assistiu a tudo, deixando os outros homens gritarem e se insultarem. Então, mais uma vez levantou a mão e, com um único grito, os silenciou.
– Vocês parecem uma cesta de víboras mordendo a cauda uma da outra – enquanto falava, olhou para cada um dos líderes. Ele queria que todos o ouvissem. – Lutando, tribo contra tribo. Não estão vendo toda essa riqueza diante de vocês?
O som de asas farfalhantes ressoou quando Xianniang, em sua forma de falcão, voou para dentro da tenda, fazendo os homens se encolherem. Eles se abaixaram quando o grande pássaro voou sobre suas cabeças e pousou sobre um grande poleiro. Ao se instalar, olhou para os homens, que se remexeram de nervoso.
Böri Khan sorriu e acenou com a cabeça em direção a Xianniang. Então, continuou:
– Somos mais fortes juntos – disse ele. – O povo rouran. Durante décadas, espalhados como folhas ao vento. Agora, nos uniremos. – E apontou para as pilhas de tesouros reluzentes. – Isso, meus amigos, é apenas uma pequena amostra do que está por vir. Dos próximos mercados, as riquezas fluirão como um grande rio.
Ele parou, deixando-os assimilarem as suas palavras e a imagem do tesouro. Ele caminhou até o poleiro de Xianniang e esfregou os dedos ao longo das penas suaves do falcão. O tempo todo manteve os olhos fixos nos Tegins, lendo a expressão em seus rostos.
Finalmente, Bati Tegin falou. Ele não tinha nem olhado para o tesouro. Seus olhos permaneceram presos no falcão.
– Possivelmente. Mas estamos contando com uma bruxa.
A atenção do falcão passou de Böri Khan para Bati Tegin. Os olhos afiados da ave piscaram, e o homem se encolheu para trás. Böri Khan notou o medo do homem e sorriu. Ele manteve os dedos no falcão enquanto dizia:
– Não se engane: a bruxa serve a mim. E, portanto, a todos nós! Ela sabe quem é seu mestre!
Com um bater de asas, Xianniang se transformou. Suas penas desapareceram, e ela surgiu na frente de todos em sua verdadeira forma. Seus olhos frios observaram os líderes, deixando-os desconfortáveis. Uma expressão de triunfo cruzou o seu rosto, e ela se virou para Böri Khan. Erguendo uma sobrancelha, pronunciou-se:
– Por favor, continue, meu Khan. Estou curiosa para saber o que mais você tem a dizer.
Böri Khan não gostou do tom dela, mas manteve o rosto neutro. Ele lidaria com a insubordinação dela mais tarde.
– Xianniang é uma de nós – continuou ele. – Quando tomarmos a Cidade Imperial, ela será recompensada com justiça. Como todos vocês.
Então, uma nova voz foi ouvida.
– Eu não me importo se há ou não há uma bruxa envolvida – disse Duba Tegin. O líder do clã das serpentes ficara em silêncio até agora. Os outros se viraram, curiosos para ouvir o que ele diria. – Meu problema é outro. É em Böri Khan que eu não confio. Ele precisa da nossa ajuda para ganhar o trono. Mas somos mesmo parceiros? Ou ele está nos usando para conseguir o que quer? – Ele apontou para os itens saqueados exibidos por todos os lados. – Conquistaremos riquezas. Ouro, joias. Mas quanto ouro um nômade pode carregar? A verdadeira recompensa é poder. Quando chegar a hora, Böri Khan não compartilhará o seu poder.
Houve murmúrios entre os outros líderes. Era uma boa pergunta. Arrumar as malas e transportar seus yurts quando a estação mudava, levar os rebanhos para novas pastagens... Esse era o seu modo de vida. Como eles não tinham lares permanentes, não tinham lugar permanente para guardar tais riquezas. Mas poder? Isso, sim, era algo útil.
Sentindo o clima que tomou conta do ambiente, Böri Khan estufou o peito.
– Todo mundo tem o direito de expressar as suas preocupações – rebateu. – Quem mais não confia em mim? – Ele fez uma pausa, deixando as suas palavras ecoarem pelo yurt. Os Tegins não falaram, mas ele podia ver a dúvida que permanecia em seus olhos. Ele não podia se deixar interrogar por eles. – Duba Tegin está certo. Riquezas não são poder. Quando o reino cair, dividiremos o poder entre nós.
Com essa declaração, os Tegins relaxaram e assentiram. Enquanto os outros homens desfrutavam da comida e da bebida, Böri Khan se virou e saiu do yurt. Ele foi andando calmamente até uma colina rochosa, da qual olhou para os yurts maiores e menores de seus homens. Por um longo tempo, ele ficou lá, ouvindo os sons de celebração vindos de sua tenda. À medida que a noite passava, o som foi diminuindo, até que todos ficassem em silêncio. Um a um, os líderes das tribos saíram do yurt. Subindo em seus cavalos, seguiram em direções diferentes, voltando para os seus acampamentos para relatar os eventos daquela noite.
Os olhos de Böri Khan seguiram Duba Tegin quando o homem mais velho deixou o yurt. Ouvindo passos atrás dele, viu, então, Xianniang aparecer. Os olhos dela estavam frios.
– Agora eu sei – disse ela, abaixando os braços ao lado do corpo. – Eu sirvo você.
– Eu disse isso para deixá-los à vontade – respondeu Böri Khan para atenuar a preocupação da bruxa. – Eles temem o que não entendem.
Xianniang ergueu uma sobrancelha. O homem estava quieto. Se não fosse pelo movimento dos seus olhos, ele poderia ser confundido com uma estátua. Não pela primeira vez, Xianniang sentiu medo. Havia algo de sombrio e terrível em Böri Khan. Mas ela deu de ombros, como sempre. Ela tinha consciência de seu próprio poder.
Böri Khan passou a mão por cima do ombro e sacou uma flecha. Posicionando-a no arco, ele levantou a arma.
– Nenhum outro dos Tegins pedirá para compartilhar o poder – disse ele.
E, apontando para Duba Tegin, Böri Khan soltou a flecha. Xianniang viu a flecha cortar o ar e se alojar nas costas dele. O homem caiu sobre a sela de seu cavalo e, depois, despencou no chão. Seu cavalo disparou, galopando na noite.
– Ele estava certo em não confiar em você – disse ela.
Abaixando a arma, Böri Khan virou-se para Xianniang. Parecia satisfeito. Sem dizer uma única palavra, ele desceu a colina em direção ao seu yurt.
Xianniang observou-o partir, com o rosto sombrio. Ela entendeu a mensagem. E não o desafiaria mais.
Mulan estava cansada. Cansada e com fome. De cima de Vento Negro, ela girou a cabeça, afrouxando a tensão em seu pescoço. Os cabelos compridos, presos sob o elmo do pai, caíam em cascata pelas costas. Tinha sido uma viagem longa e difícil até agora, e seu corpo já estava doendo. Ela não estava acostumada com o peso da armadura nem com a sensação de carregar uma espada, e menos ainda com a visão limitada que tinha por baixo do elmo. Mas sabia que tudo isso era necessário para convencer de que era um homem a caminho da guerra.
Parecia que estava andando há dias. E, quando não estava cavalgando, caminhava para Vento Negro descansar um pouco. Vira todos os tipos de paisagem que a China tinha a oferecer. Vagara pelas florestas enevoadas e passara por rios pantanosos. Vento Negro havia galopado por longos trechos de vegetação baixa, e ela o puxara por penhascos rochosos.
Agora, estavam atravessando um bambuzal. As hastes verdes erguiam-se no ar com as suas cascas lisas. A luz do sol era filtrada pelo dossel verde, banhando o chão com pouca luz. Havia paz ali e, pela primeira vez desde que saíra de casa, Mulan sentiu tranquilidade. Ela soltou um suspiro profundo e sentiu as costas relaxarem. Abaixo dela, Vento Negro também relaxou, feliz quando as pernas tensas de Mulan liberaram um pouco a pressão sobre as suas laterais.
Squack!
O som terrível assustou Mulan e ela puxou bruscamente as rédeas de Vento Negro. Girando na direção do barulho, Mulan viu um pequeno pássaro entrando e saindo por entre os bambus. Ao se aproximar, os lábios de Mulan se abriram. Chamar aquilo de pássaro talvez fosse uma descrição generosa demais. A criatura parecia um peru grande, meio depenado, com as asas penduradas nas costas de maneira desigual. Suas penas eram opacas e desbotadas e seus olhos pareciam não conseguir se focar. A criatura era, simplesmente, muito feia.
Apertando as pernas contra as laterais de Vento Negro, Mulan o incentivou a avançar. O pássaro, ou o que quer que fosse, parecia estar doente. Ela não queria ficar perto dele.
Quando Mulan parou Vento Negro para que descansassem, já tinha se esquecido da ave. Fazendo uma pequena fogueira na base de uma enorme estátua de Buda adormecido, ela aqueceu uma das últimas porções de arroz que tinha e comeu os pedacinhos. Logo a refeição terminou e, com a barriga ainda roncando de fome, ela se arrastou para a grande palma aberta do Buda e deitou-se, tremendo sob o cobertor fino. Acima, viu as estrelas brilhando no céu. Mulan suspirou. Passara tantas noites olhando para aquelas mesmas estrelas, deitada em sua cama, desejando viver uma aventura, uma chance de sair de sua aldeia.
Mas, agora que estava em uma aventura, desejava mais do que tudo voltar para casa. Puxando mais o cobertor, sussurrou um boa-noite para Vento Negro e fechou os olhos. A exaustão assumiu o controle e ela rapidamente adormeceu... Não estava mais acordada para ver o pássaro de aparência estranha desabar no chão ao seu lado.
Mulan viu o pássaro no dia seguinte, enquanto ela e Vento Negro seguiram para a montanha nevada. Com os dentes batendo de frio, ela se curvou o mais perto possível do pescoço de Vento Negro, mas até o grande cavalo parecia ter pouco calor para compartilhar. Quando fizeram uma curva no desfiladeiro, os olhos de Mulan se estreitaram.
O pássaro estava de volta.
Ele tremia tão violentamente que as poucas penas que tinha haviam caído, e com o bico batendo, a ave estava parada sobre o caminho coberto de neve. Parecia estar tentando bloquear o caminho de Mulan.
– Você... – Mulan disse, puxando as rédeas de Vento Negro. – O que você quer?
O pássaro soltou um grito triste.
Desmontando, Mulan se aproximou dele. De perto, a criatura parecia ainda mais feia. Mulan sentiu-se triste. O pobre pássaro estava doente, mas havia algo de familiar nele. E uma teimosia nos seus olhos fazia com que parecesse mais forte do que o seu corpo magro e decadente.
– Por favor – Mulan disse, desta vez com a voz suave –, afaste-se.
O pássaro não se mexeu.
Suspirando, Mulan levantou o pé e tentou cutucá-lo. Para a sua surpresa, o seu pé foi recebido com resistência. Para uma coisa tão frágil, o pássaro era surpreendentemente forte. Mulan empurrou com mais força. O pássaro ainda não se mexeu. Soltando um grito, ela empurrou mais uma vez. Desta vez, conseguiu afastar o pássaro do caminho.
Mulan agarrou as rédeas de Vento Negro e passou pelo pássaro, deixando-o para trás. Ela olhou por cima do ombro e viu que ele ainda estava ali, observando-os partir. A mesma estranha sensação de tristeza tomou conta de Mulan e, por um momento, ela pensou em voltar para pegá-lo. Mas, então, balançou a cabeça. Ela não precisava de mais bagagem e, definitivamente, não precisava de um pássaro doente atrasando a sua jornada.
Mulan achou que não teria forças para continuar. A última porção de arroz acabara um dia antes, e ela e Vento Negro estavam enfraquecidos pela fome. Deixando as montanhas para trás, ela seguia sentada sobre a sela como podia, as rédeas soltas, deixando Vento Negro seguir seu próprio caminho.
O sol estava começando a se pôr no horizonte quando Mulan avistou uma cidade à distância. Ela se sentou um pouco mais ereta, seu estômago roncando em antecipação. O alívio cintilou em seu coração. Vento Negro também viu a cidade, e seus passos se aceleraram. Ao se aproximarem dos arredores da cidade, ele estava galopando e Mulan estava sorrindo.
Mas o seu sorriso desapareceu quando Mulan desceu de Vento Negro e o puxou pelas ruas da cidade. Rostos estranhos os rodeavam. Os olhos que a seguiam eram sombrios e desconfiados. Ela nunca estivera em nenhuma outra vila além da sua. E nunca conhecera estranhos. Agora, estava cercada deles.
Amarrando Vento Negro a um poste do lado de fora da única taverna da cidade, Mulan deu-lhe um tapinha.
– Deseje-me sorte – ela sussurrou.
O grande cavalo relinchou e depois bateu com a cabeça na direção das portas da taverna. Respirando fundo, Mulan entrou.
A sala estava escura e esfumaçada, tomada pelo cheiro de carne assada, cerveja e homens sujos. Mulan manteve a cabeça baixa, o coração batendo forte no peito. Examinando a sala por baixo das pálpebras semicerradas, viu uma pequena mesa em um canto. Aproximou-se e despencou na cadeira. Se pudesse se tornar invisível, ela o faria. Mas, então, não conseguiria comida.
De repente, o gerente corpulento apareceu ao lado da mesa, olhos frios e braços cruzados sobre o peito. Embora ganhasse a vida servindo estranhos, ele certamente não parecia gostar deles.
– Temos macarrão com carne de porco ou carne de porco com macarrão – disse ele com um grunhido.
Mulan assentiu, não confiando em si mesma para falar.
– Isso é um sim? – perguntou o gerente do lugar.
– Sim – disse Mulan, tentando manter a voz grave como a de um homem.
O gerente não se mexeu. Ficou parado ali, olhando para Mulan, que se encolheu ainda mais em sua armadura. Ela havia dito o que queria. Por que ele ainda estava ali? Ela ousou encarar o grandalhão.
– Pague antes de comer – disse ele, estendendo a mão.
Certo. Dinheiro. Era uma taverna cheia de viajantes. Claro que o homem exigiria pagamento adiantado. Havia apenas um pequeno probleminha. Ela não tinha exatamente dinheiro, no sentido tradicional da palavra. Mantendo a cabeça baixa, ela enfiou a mão na mochila, tirou uma pequena bolsa de pano e entregou ao homem.
– O que é isso? – ele perguntou, olhando para a bolsa, que parecia ainda menor em suas mãos enormes.
– Chá – disse Mulan.
O gerente da taverna ergueu uma de suas sobrancelhas espessas.
– Bem, este deve ser o meu dia de sorte – disse ele. Então, voltando-se para o resto da sala, gritou: – O soldado quer pagar com chá!
A sala explodiu em gargalhadas cruéis.
– É tudo o que tenho – protestou Mulan, sabendo que a desculpa parecia fraca.
O gerente balançou a cabeça.
– Não – ele disse. – Você tem mais do que isso. Sua espada, por exemplo – E acenou com a cabeça para a arma ao lado dela. – Sua armadura. Ouvi dizer que você tem um cavalo bonito lá fora. Troque os três e poderá comer como um imperador por um ano.
Mulan teve um calafrio, e seu coração batia forte contra o peito. Ela pensou que havia sido discreta, mas claramente o homem e os outros clientes a tinham observado desde o momento em que chegou. E notaram suas armas e Vento Negro. Ela sentiu muito, muito medo. E se tentassem roubá-la?
As gargalhadas – às suas custas – encheram a sala. Mulan olhou para os rostos dos estranhos e não viu compaixão ou simpatia em nenhum deles. O sentimento de medo ficou ainda mais forte. Ela, então, se levantou, pegando as suas coisas – inclusive o chá –, e saiu correndo da taverna.
Pulando nas costas de Vento Negro, ela o fez correr. Ela teria que esperar até chegarem à próxima cidade para comer. Seu estômago roncou alto. Ela esperava que não fosse muito longe dali.