Mulan
Dezessete
Mulan fez Vento Negro diminuir a velocidade. O vapor estava muito denso, e ela queria evitar que o grande cavalo tropeçasse em uma das fontes termais que pontilhavam a paisagem. Por um período que pareceu levar horas, mas que não passou de minutos, cavalo e amazona perambularam, perdidos, pelo vapor.
Quando as nuvens se dissiparam, Mulan prendeu a respiração. A paisagem era composta por uma profusão de cores vibrantes. Lava vermelha jorrava das aberturas vulcânicas, transformando-se em linhas de rocha negra congelada, resfriadas pelo ar. Era como se ela tivesse embarcado em um mundo totalmente diferente.
E Böri Khan não estava em lugar algum.
Um grito agudo encheu o ar. Olhando para cima, Mulan só teve um momento para avistar o falcão mergulhando em sua direção antes de ser derrubada de Vento Negro. Ela caiu no chão com tudo. Seu elmo, solto pelo impacto, saiu rolando. O coque, preso por tanto tempo, se desfez, deixando os seus cabelos caírem sobre os ombros. Levantando-se, Mulan tentou alcançar o elmo. Mas, antes que conseguisse, o falcão pousou à sua frente. Enquanto Mulan observava incrédula, o falcão se transformou em uma linda mulher. A mulher parecia forte – e letal.
– Você é uma bruxa... – murmurou Mulan, com as palavras presas na garganta.
A mulher assentiu. Ela se aproximou, olhando Mulan de cima a baixo, os olhos analisando a armadura e depois se movendo para os cabelos, que agora estavam soltos sobre os ombros de Mulan. Algo brilhou em seus olhos, uma revelação.
– Você manteve o seu segredo. Muito bem. Mas agora você está no meu caminho e deve recuar. Vá embora.
Os olhos de Mulan se arregalaram quando ela percebeu que essa mulher podia ver além de seu disfarce. A raiva cresceu dentro dela por ter sido pega pela bruxa.
– Sou Hua Jun – disse Mulan. – Soldado do Exército Imperial.
Erguendo a espada, ela investiu contra a bruxa. Mas Xianniang a afastou. Com um aceno de mão, ela atirou Mulan no chão. Mulan soltou um grito e voltou a ficar em pé. Ela não deixaria a bruxa detê-la. Mais uma vez, atacou Xianniang e, de novo, a bruxa desviou.
– A mentira enfraquece você – disse Xianniang, envolvendo os seus longos dedos em torno do pescoço de Mulan.
O coração de Mulan bateu forte no peito. Ela era fraca, isso era verdade. Ainda assim, ela não deixaria a outra mulher perceber seu medo. Ela olhou nos olhos da bruxa.
– Você seria uma tola de lutar comigo, mesmo que fosse mais forte.
Erguendo a espada, Mulan tentou atacar a bruxa. Mas, em resposta, Xianniang pegou a lâmina e a abaixou.
– Você está me fazendo perder tempo – disse a bruxa, frustrada.
Em desespero, Mulan puxou a espada. Para a sua surpresa, a lâmina cortou a palma da mão da bruxa. Vendo o sangue, os olhos de Xianniang encheram-se de raiva.
– Por que você não me escuta? – ela gritou.
Mulan recuou. Ela usou toda a sua força para manter a espada firme. Xianniang deu de ombros e, em seguida, puxou uma adaga de seu cinto e atirou. Mulan tentou bloqueá-la, mas a força da adaga era grande e, quando entrou em contato com a espada, arrancou-a de sua mão. A espada girou pelo ar antes de pousar no chão, deslizando até a fina crosta de lava resfriada que cobria um lago próximo.
O pânico tomou conta de Mulan. A espada do pai dela! Ela não podia perdê-la. Sem se importar por virar as costas para a bruxa, Mulan correu até a lava resfriada. Assim como gelo, era mais escorregadia do que parecia, e Mulan caiu instantaneamente. O impacto fez a superfície rachar em torno dela. Ela sabia que acabaria quebrando e que não tinha muito tempo. Mas tinha de recuperar a espada. Engatinhando, ela avançou sobre a lava conforme mais rachaduras se formavam ao seu redor.
Atrás dela, Xianniang pisou na lava, mas seus passos eram tão leves que não deixaram nenhuma pegada na fina camada cinzenta que cobria o lago. Sangue escorria da ferida que Mulan havia provocado em sua mão, pontilhando o chão de vermelho.
Mulan finalmente alcançou a espada. Com um grito triunfante, ela a agarrou e ficou em pé. Ao se virar, notou que a bruxa lhe assistia.
– Eu sou Hua Jun. Soldado do Imperador.
Xianniang tinha ouvido o suficiente.
– Eu avisei você, Hua Jun – Xianniang zombou. – Você morrerá fingindo ser algo que não é.
Em um piscar de olhos, Xianniang atirou outra adaga. Ela voou pelo ar, atingindo Mulan no peito.
Mulan foi erguida no ar e jogada para trás. Quando caiu com tudo, a crosta de lava rompeu-se. Mulan caiu no buraco – e no lago sob ele.
O peito de Mulan ardia conforme ela afundava mais. Sua mão, ainda segurando a espada do pai, estava congelada. Ela se sentiu impotente. Tudo que podia fazer era deixar-se afundar, sobrecarregada pela armadura que usava.
De repente, ela viu um flash colorido, e então algo mergulhou na água acima dela. A princípio, Mulan temeu que fosse a bruxa vindo acabar com ela. Mas a figura sombria tomou forma, revelando-se como a Fênix. Ao alcançá-la, o pássaro se virou e, envolvendo as longas penas de sua cauda ao redor do pulso de Mulan, puxou-a para cima.
Um momento depois, Mulan irrompeu na superfície, abrindo a boca para sugar o ar. Ela ficou deitada no chão duro ao lado do lago por um longo momento, com os olhos fechados, enquanto o seu batimento cardíaco diminuía. Depois, abriu os olhos.
No mesmo instante, ela desejou não ter aberto.
Ali, saindo de seu peito, estava o punhal de bruxa.
A ponta da lâmina desaparecia dentro da armadura de Mulan. Mas, enquanto olhava assustada, esperando o sangue derramar da ferida, os seus olhos se estreitaram. Com as mãos trêmulas, ela puxou a adaga. Então, Mulan viu, para o seu alívio, que ela não havia atravessado a sua pele, mas a atadura de couro que estava enrolada em seu peito.
Com toda a força, a respiração de Mulan saiu de seu peito, e ela deu um grito de gratidão. Aquilo que ela vestia para mentir e que poderia ter sido o motivo de sua desonra acabara de salvar sua vida.
Lentamente, ela se levantou. Virando-se, viu a Fênix sentada a alguns passos de distância. Suas penas estavam molhadas, e ela parecia cansada, mas feliz. Encontrando o seu olhar, Mulan acenou para ela em sinal de agradecimento. O pássaro assentiu. “Eu sempre protejo você”, ela parecia dizer. E, pela primeira vez, Mulan percebeu o quanto ela precisava da Fênix, agora e durante toda a longa jornada.
Erguendo a espada do chão, ela leu a inscrição, focando os olhos em uma palavra. “Verdade...”, ela disse em voz alta. Verdade. Sim. Era a virtude com a qual ela tanto lutava e que, ainda assim, desejava abraçar. E agora ela precisava ser verdadeira consigo mesma. Não daria ouvidos às palavras da bruxa, nem se permitiria duvidar. Ela precisava seguir o seu coração.
Mulan correu e pulou nas costas de Vento Negro. O cavalo relinchou quando ela o incentivou a avançar. Atrás dela, ouviu as asas da Fênix batendo. Juntos, eles correram pelo vale em direção ao campo de batalha. Sua armadura, solta devido à luta, foi caindo no chão, peça por peça. Os seus longos cabelos emolduravam o seu rosto na ventania. Não havia como esconder quem ela era agora. Mas ela não se importava. Estava cansada de fingir. A bruxa a via como ameaça suficiente a ponto de querer matá-la. Ela era forte. E não era mais Hua Jun. Era Mulan. Era uma mulher. E era uma guerreira.
Ao chegar à beira do vale, pôde ouvir os sons da batalha lá embaixo. Mulan seguiu, montada em seu Vento Negro. Abaixo, o Exército Imperial tentava, em vão, manter os rourans à distância. Os soldados estavam de costas, suas espadas brilhavam à luz do sol enquanto lutavam contra os atacantes rourans. Flechas continuavam cruzando o ar, mas estavam sendo disparadas sem um alvo, pois os arqueiros simplesmente tentavam sobreviver.
Lá no alto, Mulan viu a bruxa, mais uma vez em sua forma de falcão. Ela estava circulando acima dos dois exércitos, soltando gritos ameaçadores que encorajavam os rourans e faziam os soldados imperiais tremerem de medo.
Mulan não hesitou. Impulsionando Vento Negro, ela correu morro abaixo e entrou na luta. Conforme seguia seu caminho, ela levantava a sua espada e a girava no ar. Ao seu lado, os inimigos caíam quando o metal os alcançava. Ela nem percebeu os olhares atordoados do Comandante Tung ou de Honghui quando avistaram a poderosa guerreira fazendo o que nenhum deles conseguira fazer – vencer. Concentrada, ela parecia uma miragem através do vapor que subia do fundo do vale. Os cabelos dela cobriam o seu rosto, e o seu braço se movia tão rapidamente que ela parecia não ser real.
Enquanto corria, as narinas de Vento Negro se alargavam e seus cascos batiam fortes contra o chão. Juntos, eles formavam algo mágico. Chegando ao centro da batalha, Mulan reuniu coragem e se levantou para ficar em pé nas costas do cavalo. Então, com um grito, ela saltou e voou pelo ar. Por um momento, ela ficou suspensa, antes de aterrissar no chão com a espada erguida à frente.
No mesmo momento, os rourans correram em direção a ela. Canalizando o seu treinamento e concentrando-se em seu chi, Mulan se perdeu no balanço rítmico de sua espada. Ao seu redor, os homens que ela conhecera como amigos brigavam bravamente. A espada de Honghui derrubou dois rourans ao mesmo tempo, enquanto Yao gritava e gritava, usando a sua espada de maneira selvagem, mas eficaz. Até Skatch e Ramtish estavam dando tudo o que podiam dar, chutando, arranhando e jogando pedras para se protegerem.
Centímetro por centímetro, o Exército Imperial parecia ganhar posição. Se era a aparência da misteriosa guerreira ou apenas a sorte, não importava. Centímetros eram tudo de que precisavam. Com a energia renovada, os soldados continuaram a lutar. Avistando o último grande grupo de invasores, carregando espada e escudo, Mulan correu na direção deles.
Em grupo, eles se viraram para enfrentar o guerreiro que se aproximava. Mas Mulan não diminuiu a velocidade. Ela continuou correndo e, exatamente quando parecia que ia colidir de cabeça com os soldados rouran, mais uma vez saltou no ar. Com os pés leves e a mente concentrada, ela saltou sobre os invasores, usando os elmos e os escudos levantados deles para se impulsionar para a frente. Em um piscar de olhos, ela atravessou todos eles, pousando depois no chão.
Furiosos, os rourans se viraram e começaram a persegui-la.
Mulan se permitiu dar um pequeno sorriso. Era isso que ela queria. Correndo em direção à outra extremidade do vale, ela chegou a uma grande formação rochosa. Do outro lado, havia uma parede de vapor. Uma rajada de vento soprou o vapor por um momento, revelando uma grande fenda no chão. Mulan hesitou apenas um pouco antes de pular. Atrás dela, o vapor voltou ao chão, escondendo a fenda de vista.
Os gritos de raiva dos invasores ficaram mais altos quando viram a sua presa desaparecer. Com sede de sangue nos olhos, eles seguiram, correndo e pulando da rocha. Mas os seus gritos de raiva se transformaram em medo quando caíram, um por um, na fenda profunda logo depois da rocha. Da fenda, formada pela pressão da lava, subia o vapor que engolia os rourans. Em segundos, os guerreiros invasores sumiram da superfície.
Do outro lado, com a espada ainda levantada, estava Mulan, pronta para o próximo ataque. O resto do Exército Imperial chegou à beirada da fenda, com os olhos arregalados ao perceberem o que ela fizera.
Ouvindo os passos de dezenas de homens, Mulan virou-se para ver outro grupo de invasores vindo da direção oposta. Ela levantou a espada. Mas, antes que os rourans a alcançassem, eles pararam com tudo, derrapando no chão. Dezenas de pares de olhos pousaram sobre ela e depois sobre o penhasco, do outro lado. Eles viram o Exército Imperial em pé atrás dela, empunhando suas espadas no alto.
Então, deram as costas e saíram correndo.
No momento que se seguiu, o único som que Mulan pôde ouvir foi o do próprio coração batendo. Eles conseguiram! Ela conseguiu! Derrotaram os invasores do norte.
Mas a sua vitória durou pouco. Os soldados imperiais mal deram um grito de alegria, e o piado de um falcão atravessou o ar. Olhando para cima, Mulan viu a bruxa circulando cada vez mais rapidamente enquanto observava os invasores correrem como covardes. Mulan sabia que a bruxa era o verdadeiro inimigo. Ela agarrou o seu arco e apontou uma flecha. Mirando, soltou-a no ar. A flecha saiu voando. Mulan prendeu a respiração e esperou. Enquanto observava, o falcão virou-se. Por um breve momento, parecia que a flecha de Mulan o atingiria. Mas, pouco antes da acertá-lo, o falcão se transformou, dividindo-se em centenas de pássaros menores.
Eles encheram o ar, bloqueando o sol. Depois, de uma só vez, eles se posicionaram para o ataque. Gritos altos tomaram conta e os pássaros mergulharam em direção ao Exército Imperial. Os homens se abaixaram, tentando se proteger das criaturas, mas elas continuavam atacando.
– Formação de tartaruga! – gritou o Comandante Tung, sua voz cortando o grito dos pássaros e dos homens.
Enquanto os soldados se reuniam, erguendo os escudos acima da cabeça para se parecerem com o casco de uma tartaruga, Mulan examinou o horizonte. Seus olhos se arregalaram quando ela viu o movimento na cordilheira coberta de neve que dominava uma extremidade do vale. No topo, ela notou dezenas de arqueiros rourans preparando-se para atirar. Os seus olhos se arregalaram mais ainda quando avistaram um grande trabuco sendo colocado em posição.
Essa espécie de catapulta de madeira poderia matar dezenas de soldados imperiais com um único tiro. Podia atirar uma pedra enorme ou dezenas de outras menores. Era uma arma poderosa – e mortal.
Os pássaros haviam sido apenas uma distração. O Exército Imperial não vencera. Ainda não. Um segundo ataque estava prestes a acontecer. Presos no vale abaixo, o Comandante Tung e seu exército não teriam chance.
Erguendo a mão levemente, Mulan viu a montanha refletida na lâmina de sua espada. E teve uma ideia.
Tirando proveito da formação de tartaruga, ela escapou por debaixo da cobertura de escudos. Ela assobiou alto e, um momento depois, Vento Negro correu até ela. Pulando sobre o seu lombo, ela o virou em direção à cordilheira. Enquanto galopavam para longe dos outros soldados, Mulan se abaixou e pegou um elmo imperial. Depois outro, e outro, e mais outros. Satisfeita, ela continuou em direção à cordilheira.
Sua última vitória havia sido por sorte. Mas ela precisaria de mais do que sorte para realizar esse novo plano.