Mulan
Catorze
–“Ochi permeia o universo e todas as coisas vivas.”
Na manhã seguinte à conversa, o Comandante Tung reuniu os recrutas. Organizando-os em um círculo ao seu redor, ele mostrou uma série de movimentos lentos e intrincados. Enquanto se movia, falava. Os recrutas assistiram, hipnotizados pela maneira como o comandante e sua arma pareciam formar um só corpo. Sua espada se tornou uma extensão do braço; suas pernas eram como as raízes de uma árvore, firmemente plantadas no chão até serem erguidas, leves como penas. Ele fez um sinal para eles, e Mulan e os outros começaram a espelhar os seus movimentos.
– Todos nós nascemos com ele – continuou o comandante Tung. – Mas apenas os mais dedicados se conectarão profundamente ao seu chi e se tornarão grandes guerreiros.
Mulan concentrou-se e seu corpo passou a se movimentar por conta própria. Ela ouviu a voz do comandante passando sobre ela como a água do lago, com o mesmo efeito calmante.
– Tranquilo como um bosque – disse ele. – Mas pegando fogo por dentro.
Girando o braço no ar, Mulan praticou os movimentos simples muitas e muitas vezes. Ela treinou durante toda a tarde e, depois, quando ficou de guarda. Ao terminar o turno, voltou para o lago, onde praticou sob o luar. A cada movimento de sua espada, ela sentia o seu chi se fortalecendo, como as pétalas da magnólia à beira da água. A sensação era esquisita e empoderadora, como algo totalmente novo, mas também estranhamente familiar.
Nos dias seguintes, o treinamento dos recrutas se intensificou. De início, foi uma mudança sutil. Alguns minutos a mais ao fim de cada sessão. Um pouco mais de latidos – e de mordidas – do Sargento Qiang, que gritava as ordens. As tensões aumentaram quando ficou claro que eles não estavam mais praticando para uma batalha possível, mas para uma batalha real.
– O inimigo rouran é forte – o Sargento Qiang advertiu, enquanto Mulan e os outros praticavam uma série de movimentos marciais. – Eles são cruéis e imprevisíveis. No entanto, a força física não precisa ser combatida com a mesma força. O guerreiro cede a força... E a redireciona. – Ele parou em frente à Mulan. Ela manteve o olhar à frente, sem permitir que ele a intimidasse.
Desde que ela e o Comandante Tung haviam conversado, Mulan não conseguia pensar em nada além de seu chi. Ele a consumia. Ele a abastecia. Ele a conduzia. Em cada momento livre, ela se focava nele. As palavras do comandante foram como uma faísca. Elas a fizeram perceber que devia ao seu pai ser o melhor guerreiro que poderia ser. Se não tentasse, tudo o que fizera teria sido em vão. Então, noite após noite, dia após dia, ela praticava. E noite após noite, dia após dia, ela ficava mais e mais forte.
Sob a luz da lua, à beira do lago, ela praticava as manobras que agora lhe pareciam naturais. Em sua cabeça, ela ouvia as palavras do Sargento Qiang. A desvantagem pode ser transformada em vantagem, ele dizia aos soldados empunhando espadas, girando lanças no ar, erguendo os escudos de defesa.
O seu foco e a sua prática constantes não passaram despercebidos. Ela sentia os olhos do Comandante Tung e do Sargento Qiang mais sobre ela do que sobre os outros. Mas isso não a fazia se encolher. Ela se sentia cheia de coragem e com uma força que não sabia que tinha.
Havia ainda um desafio, porém, que a frustrava.
– Cem gramas podem movimentar quinhentos quilos – disse o sargento quando Mulan e os outros se aproximaram dos degraus íngremes que levavam ao santuário.
Todos eles pararam, com os olhos erguidos em uníssono para o desafio diante deles. De cada lado de Mulan havia um balde cheio de água até a borda. À frente dela, outros soldados pegaram os seus baldes e subiram os degraus. Mulan esperou. As palavras do Sargento Qiang ecoaram em sua cabeça. “Cem gramas podem movimentar quinhentos quilos”, sussurrou para si mesma. Fechando os olhos, ela se concentrou. Sentiu a já conhecida onda de energia percorrendo seu corpo – ela estava conectada ao seu chi. Os grunhidos e gemidos dos outros homens desapareceram. Ela sentia apenas a brisa suave em suas bochechas. Ainda de olhos fechados, ela imaginou o topo do santuário. Lembrou-se da paz que sentira sob a magnólia. Canalizando tudo isso, ela abriu os olhos.
Então, abaixou-se, agarrou as alças dos baldes e as ergueu. Pareciam mais leves do que nas primeiras vezes em que ela enfrentara o desafio, graças ao seu treinamento de força. Mas ela sabia que o desafio não estava nos primeiros passos, mas na resistência necessária para alcançar o topo. Passo a passo, ela subiu.
À sua frente, o ritmo dos outros recrutas estava diminuindo. Um por um, eles começaram a cair. Primeiro Cricket, com o rosto molhado de lágrimas, afundou nos degraus. Depois Po, que jogou os baldes para o lado e simplesmente se deitou, derrotado. Yao foi o próximo a falhar. Bravo, ele atirou os seus baldes de madeira, que quebraram contra o penhasco rochoso.
Ainda assim, Mulan continuou. Seus passos eram firmes e os ombros, imóveis. A água nos baldes não estava espirrando. Ela foi ficando mais forte a cada passo. O foco em seu rosto nunca vacilou, mesmo quando ela passava por seus camaradas caídos.
Logo, o único recruta que restou foi Honghui. Alguns passos à frente dela, o suor pingava da testa dele, e seus baldes estavam cada vez mais próximos do chão. Seus passos eram pesados e sua respiração, ofegante. Como o de Mulan, seu rosto estava focado, mas a dúvida estava começando a aparecer.
Mulan não percebeu nada disso. Ela continuou andando. Passo a passo, cada vez mais alto, reunindo forças até que alcançou Honghui – e passou por ele. Ela sentiu o olhar dele em suas costas. E o ignorou. Ela não estava ali. Seu corpo estava na escada, os braços segurando os baldes, mas a sua mente estava em um lugar mais profundo. Era alimentada por pensamentos de seu pai, sua mãe, sua irmã. Pensamentos sobre a Fênix, que estava tão conectada a ela e que a havia feito encontrar uma força própria.
Atrás dela, o corpo de Honghui cedeu. Ele afundou nos degraus. Agora, só restava Mulan. Enquanto Honghui, o Comandante Tung, o Sargento Qiang e todos os outros observavam, Mulan continuou subindo. Passo a passo, cada vez mais alto, até que...
Chegou ao topo.
Por um longo momento, Mulan ficou em pé, com o peito subindo e descendo uniformemente. Ela se virou, com os olhos arregalados, e avistou a paisagem deslumbrante do alto do santuário. Os olhos dela pararam sobre a Fênix pousada em uma estátua próxima. Abrindo as asas, a Fênix gorjeou triunfantemente.
O orgulho a invadiu. Ela conseguiu. Conseguiu o que nenhum homem conseguira. Ela, Mulan, uma garota de uma aldeiazinha, tornara o impossível possível. Ela se virou para olhar os soldados reunidos lá embaixo. Só então, quando viu os olhares de admiração, perplexidade e espanto em seus rostos, ela se permitiu dar um sorriso.
A cabeça do Comandante Tung encheu-se de pensamentos. Hua Jun conseguiu. Conquistou o santuário. Em todos os seus anos treinando soldados, ele vira apenas poucos homens realizarem a mesma tarefa. E nenhum deles o fez com a graça e o foco que Hua Jun demonstrou. Afastando-se do santuário, o comandante caminhou em direção à sua tenda. O Sargento Qiang deu um passo ao lado dele.
– Hua Jun é um verdadeiro líder – observou o sargento.
Ele também ficara impressionado com o sucesso do soldado. O Comandante Tung assentiu.
– Sim. Ele tem o mesmo espírito de seu pai, um guerreiro – e fez uma pausa, com o rosto pensativo. – Mas sinto que algo o impede de se soltar ainda mais.
– Talvez com o tempo ele supere o obstáculo – disse o Sargento Qiang depois de um momento.
O comandante parou e virou-se para o segundo em comando.
– Estamos sem tempo – disse ele. – O inimigo avança. Nos posicionaremos à primeira luz da manhã.
Ele não precisava dizer mais nada. Com um aceno de cabeça, o Sargento Qiang se virou e ordenou que os soldados se reunissem no acampamento. Apesar da exaustão e de suas pernas cansadas, os homens apressaram-se. Mulan chegou por último, depois de descer do santuário. Quando todos estavam reunidos, o Comandante Tung tomou seu lugar diante deles.
– Nosso treinamento não terminou – disse ele. – Mas vivemos em tempos de guerra. Portanto, temos que nos adequar à mudança dos ventos.
Ele fez uma pausa para se certificar de que tinha a atenção de todos. Satisfeito ao ver que os homens o ouviam, continuou:
– Vamos partir para defender o Mercado das Estepes Montanhosas.
A resposta foi rápida. Surpresa, medo e emoção se espalharam pelos homens. Sussurros cresceram entre eles como uma onda. Era o que estavam esperando – e o que mais temiam. Do seu lugar lá atrás, Mulan sentiu o rosto empalidecer. A energia e a força que ela acabara de sentir desapareceram. Uma coisa era realizar uma tarefa de treinamento. Outra totalmente diferente era participar de uma batalha real.
O Comandante Tung levantou uma mão. Os homens ficaram em silêncio.
– Agora vocês farão o Juramento do Guerreiro, prometendo fidelidade aos Três Pilares da Virtude.
O comandante sacou a espada. Os olhos de Mulan se arregalaram quando viram que era idêntica à do pai dela. Percebendo que ela o encarava, o Comandante Tung olhou e acenou a cabeça sutilmente em sua direção.
– Sem cada um desses pilares, seu chi vital fica enfraquecido.
Um por um, os aprendizes desembainharam suas espadas e as seguraram no alto. Ao erguer a sua, Mulan viu a inscrição brilhando sob o sol. Os seus olhos leram as palavras conforme, lá na frente, Tung as dizia em voz alta.
– Coragem! – ele gritou.
Os soldados, incluindo Mulan, ecoaram a palavra de volta.
– Lealdade!
Novamente, depois do grito do comandante, os soldados gritaram de volta. Uma sensação de pavor começou a crescer no estômago de Mulan quando ela viu a próxima palavra.
– Verdade! – o Comandante Tung terminou.
Ao seu redor, todos os outros soldados gritaram a palavra, suas vozes cheias de emoção e orgulho. Mas Mulan ficou quieta. Como ela podia jurar ser verdadeira quando estava vivendo em uma mentira?