Mulan
Oito
Mulan sentou-se à beira de uma fogueira, tentando aquecer as mãos. A fogueira era pequena. Ela não tinha força ou energia para buscar mais gravetos nos bosques próximos dali. Mas, enquanto tentava se aquecer, ela desejou ter passado mais tempo recolhendo lenha.
Gemendo, ela tirou as botas do pai. Os trapos que tinha usado para preencher as botas, grandes demais para os seus pés, saíram vermelhos. As bolhas, algumas novas e outras antigas, estouraram e deixaram os seus pés em carne viva. Ela fez uma careta e os estendeu em direção ao fogo. Depois, pegou um saquinho onde guardara alimentos e olhou para dentro. Havia apenas uma maçã solitária. Suspirando, ela ofereceu para Vento Negro, que a devorou.
– Talvez, se eu implorar perdão, minha família me aceite de volta... – ela disse quando Vento Negro terminou de mastigar. O cavalo não respondeu. Olhando para o fogo, os olhos de Mulan se arregalaram.
A ave estava de volta.
Aquela mesma ave feiosa e estranha, que ela já tinha visto três vezes, sentou-se em um tronco próximo, observando-a. O estômago de Mulan roncou.
– Será que essa ave é horrível demais para comer? – ela perguntou ao cavalo.
Em resposta, a ave soltou um grito alto.
O estômago de Mulan roncou de novo. Ela procurou a espada. O fato de a ave ser feia não significava necessariamente que não seria saborosa. Ela estava ficando em pé quando ouviu passos atrás de si. Assustada, virou-se, dando ao pássaro a chance de fugir.
– Saudações!
A voz de um homem foi ouvida atrás das árvores. Segurando o cabo de sua espada, Mulan ergueu a arma à sua frente. Dois monges com longas barbas e batinas maltrapilhas a fitavam do outro lado da fogueira. Pareciam ser muito mais velhos que ela, com rostos desgastados pela idade. Um tinha a pele e o cabelo mais escuros, enquanto o outro era mais claro. Atrás deles havia um burrinho de aparência patética.
– Não tenha medo, meu amigo – o monge com os cabelos escuros disse. – Somos apenas monges que viajam pelo mundo fazendo boas ações para assegurar a felicidade e a paz. – O outro monge assentiu com a cabeça e abriu um sorriso. O rosto de Mulan permaneceu frio. O homem de cabelos escuros apontou para o monge sorrindo.
– Este é o Irmão Ramtish. Eu sou o Irmão Skatch. Trazemos comida e amizade.
Comida? Só a palavra já fazia a boca de Mulan encher de água. E, quando os dois monges trouxeram a comida, todo o seu medo desapareceu. Largando a arma, ela pegou um prato, serviu-se de arroz e sentou-se. Apesar do impulso irresistível de enfiar tudo na boca de uma vez, ela ouviu a voz de sua mãe em sua cabeça, dizendo-lhe para comer lentamente, com graça. Mas a mãe nunca estivera à beira da inanição, pensou Mulan, ainda assim seguindo a etiqueta.
Observando-a, Ramtish riu. Virou-se para Skatch.
– Acho que ele é a pessoa morrendo de fome mais educada que já vi.
Skatch concordou com a cabeça.
– Sim, ele é um cavalheiro com bons modos. – Ele abriu a bolsa.
– Irmão Ramtish, acho que devemos celebrar este banquete com um pouco de vinho.
Mulan abafou um sorriso. Ela tinha a impressão de que os bons irmãos gostavam de celebrar – bastante. Mas eles tinham se referido a ela como um homem, então, desde que a celebração deles lhe permitisse manter-se anônima, tudo bem. Mas, então, Skatch lhe ofereceu um copo da bebida.
– Obrigado – disse Mulan com a voz grave e balançando a cabeça. – Mas eu não bebo.
– Um soldado que não bebe? – Skatch disse. – Irmão Ramtish, há algo de peculiar nesse nosso companheiro de jantar.
Mulan parou de mastigar e seu batimento cardíaco acelerou quando os monges a mediram de cima a baixo.
Skatch continuou:
– Ele se parece com qualquer outro soldado que você já viu?
– Não – Ramtish respondeu.
Mulan engoliu o resto do arroz, que agora parecia pedras em seu estômago. Depois, limpando a garganta, ela tentou esclarecer as suas dúvidas.
– Bem, tecnicamente – ela começou, tentando manter a voz grave –, eu ainda não sou um soldado. Estas são a espada e a armadura do meu pai. – Ela apontou para ambas. – Sou um recruta do Exército Imperial para lutar contra os invasores do norte.
Skatch estreitou os olhos, mas assentiu.
– Sim, os invasores do norte – disse ele, tomando um gole do seu copo. – Liderados por Böri Khan. Ouvimos que eles estão de volta.
– Ele já estava zangado antes de o matarem – Ramtish disse, tomando a sua bebida com uma risada. – Imaginem o quão furioso ele está agora?
Os dois monges caíram na risada e beberam mais, antes de Skatch voltar a sua atenção para Mulan. Ela tinha, enquanto isso, se sentado um pouco mais longe. Mas a clareira era pequena. Não havia muito espaço para se mover.
– Então, qual é o seu nome, futuro soldado? – Skatch perguntou.
– Represento a família Hua – Mulan respondeu.
– Você não tem um primeiro nome? – Skatch sondou.
Mulan franziu a testa. Estava claro que o monge não desistiria de saber. Ela se lembrou dos meninos de sua aldeia antes de escolher um nome.
– Meu nome é... Jun – ela disse.
– Bem, Hua Jun – Skatch disse, pronunciando o nome devagar. – Vou ser honesto com você. Não consigo imaginar você durando um só dia no exército. Você vai ser comido vivo. – De onde estava sentado, Ramtish assentiu em concordância. – Se estiver indo para lá para ser um soldado, você tem de primeiro ser um homem.
A respiração de Mulan ficou presa em sua garganta, e ela esperava que as suas bochechas não estivessem vermelhas.
– O que os faz pensar que eu não sou um homem?
Skatch riu.
– Você age como um garoto – ele respondeu. Ele imitou o jeito delicado dela de comer. – Você tem que parecer um homem, cheirar como um homem, agir como um homem!
A respiração escapou de seus pulmões com um chiado quando ela se deu conta de que o seu segredo ainda estava seguro. Sem saber os seus pensamentos, o monge começou a andar como um homem das cavernas ao redor da fogueira. Mulan tentou controlar um sorriso. Ela não ficaria surpresa se ele batesse no peito e gritasse. Ainda assim, o que ele estava dizendo era intrigante, e algo que ela não considerara antes.
– Como age um homem, então? – ela perguntou.
– Pra começar, ele não come como uma mulher. – Mais uma vez, Skatch fingiu ser ela, pegando delicadamente um grão de arroz. – Homens comem como se fosse sempre a sua última refeição. – Dessa vez, ele imitou alguém enfiando comida na boca e depois passou a língua no ar, como se estivesse lambendo uma tigela. Mulan teve de se controlar de novo para não rir. Ele parecia um porco.
Mas era isso que Skatch queria dizer: homens se comportam como porcos. Eles também deveriam parecer quase sempre confiantes.
– Você entrou naquela taverna hoje à noite como se estivesse escondendo algo. – Dessa vez, ele imitou Mulan toda encolhida entrando na taverna.
Ramtish riu. Skatch parou e endireitou os ombros antes de continuar.
– Quando um homem entra em um lugar, ele age como se dominasse tudo ali. É o território dele. Você não precisa anunciar, mas tem que acreditar nisso.
Então, para a diversão de Mulan, ele realmente bateu no peito.
– Rá! – ele gritou. Depois, fez um gesto para Mulan ficar em pé ao lado dele. – Mostre-me.
Respirando fundo, Mulan caminhou até o monge. Ela plantou os pés no chão como ele. E também endireitou os ombros. Finalmente, bateu no peito, exatamente como ele tinha feito.
– RÁ! – ela gritou.
Aos seus ouvidos, a palavra pareceu um gritinho agudo. Mas Skatch pareceu satisfeito.
– Sim! – ele gritou. – É isso! Você não anda por aí à procura de problemas, mas você também não foge deles. Especialmente de um gerente de taverna desdentado e fedorento.
A mão dele agarrou rapidamente a espada que Mulan estava segurando. Antes que ela pudesse piscar, ele estava apontando a lâmina para o seu queixo.
– Pagar antes de comer? – ele disse, como se estivesse se dirigindo ao gerente. – O meu pagamento é a ponta da minha lâmina. Então, ou eu como... Ou você morre.
Mulan pensou que, para um monge, ele parecia muito desenvolto com a arma. Girando a espada em sua mão, Skatch estendeu o cabo para Mulan.
– Nunca deixe alguém pegar a sua espada, aliás – aconselhou ele. – É uma péssima ideia.
– Ah. Desculpe... – começou a Mulan.
– Não peça desculpas também – disse Skatch, cortando-a. – E outra coisa...
Desta vez, ele é quem foi interrompido. Soltando um arroto, Ramtish bateu no peito com o punho.
– Irmão Skatch – ele disse –, esse homem está tentando comer o seu jantar e você fica aí tagarelando como uma mulher.
Skatch colocou a mão sobre o coração.
– Peço perdão, Hua Jun – ele disse. – Vamos nos sentar. Relaxe. Aproveite sua refeição.
Ele se virou e se juntou a Ramtish, que estava sentado confortavelmente sobre um tronco. Passando a mão pelo cabelo escuro, ele sorriu para o seu amigo enquanto Ramtish enchia novamente os copos. Algumas gotas caíram, manchando o chão de vermelho claro.
Mulan estreitou os olhos enquanto observava os dois homens virando os copos e bebendo com vontade.
– Há muitos caminhos para a verdade – Skatch disse, em resposta ao julgamento que viu nos olhos de Mulan.
Houve silêncio na pequena clareira enquanto os dois monges assistiam à cintilação das chamas na fogueira e Mulan olhava para eles. Ela ainda não tinha certeza do que exatamente eles estavam fazendo lá. Eles a haviam alimentado, e ela era grata por isso, mas tinha imaginado que eles logo seguiriam seu caminho. Porém, eles permaneceram lá.
Já que não pareciam estar indo a lugar nenhum, Mulan pensou que deveria ao menos tentar conversar com eles.
– Você disse que havia outra coisa.
– Perdão? – Skatch disse, olhando por cima do copo. Os olhos dele já pareciam um pouco vidrados, e sua voz estava menos clara.
– Você sabe... – Mulan continuou. – Sobre ser homem. Há outra coisa que eu deveria saber?
Skatch franziu a testa, e Ramtish o cutucou. Ambos trocaram um olhar que Mulan não conseguiu interpretar, antes de Ramtish dizer:
– Ah, pode ir em frente. Já pode dizer a ele.
Por um momento, Skatch hesitou, e Mulan questionou se ele seguiria o conselho do amigo ou o ignoraria. Mulan sentiu um pouco de impaciência, mas, então, ele acenou com a cabeça.
– A coisa mais importante de todas – Skatch fez uma pausa, com os olhos focados em Mulan e a voz agora mais clara. – Um homem de verdade nunca recusa bebida.
Quando Skatch terminou a “aula”, Ramtish casualmente colocou um copo de vinho na frente de Mulan. Ela olhou para o líquido vermelho, depois para os monges e, em seguida, de novo para o vinho. Ela nunca tinha experimentado uma gota de vinho em sua vida. Mesmo nas poucas festas de que ela tinha participado em sua aldeia, sua mãe a proibira de beber, dizendo que não era o comportamento de uma dama. Mas agora ela não tinha escolha. Se recusasse, os monges iriam descobrir seu segredo.
Então, respirando fundo, ela agarrou o copo e levou-o aos lábios... E bebeu o vinho de uma vez só.
Skatch olhou para o jovem soldado, que agora estava deitado ao lado da lareira. Ele estava desmaiado. O vinho fizera efeito. No momento em que vira o jovem, Skatch sabia que ele seria um alvo fácil. O rapaz exalava inocência e ingenuidade. Bastou um copo de vinho para Hua Jun cair duro. Agora ele estava ali, metade de seu rosto coberto de poeira, alheio à movimentação ao seu redor.
Skatch coçou o queixo agora sem barba. A falsa barba estava pendurada no pescoço, dando à sua pele uma chance de sentir o ar fresco. Virando-se, ele viu Ramtish amarrando a espada do guerreiro na parte de trás da sela do cavalo. O enorme animal se remexia, claramente ciente de que algo estranho estava acontecendo.
– Temos o cavalo e a espada – Ramtish disse, dando à corda em torno da espada um último puxão para certificar-se de que estava bem presa. Ele apontou para o guerreiro no chão. – Vamos tirar a armadura dele.
Sem esperar a permissão de Skatch, Ramtish se abaixou para desamarrar a armadura do guerreiro. Mas, antes que pudesse terminar, um pássaro barulhento e feio apareceu do nada. Ramtish abriu os braços para espantar a ave, mas a criatura continuou vindo, com os seus olhos selvagens e suas penas esparsas. Com um grito, ele conseguiu golpear o pássaro, atirando-o para longe.
Mas ele voltou com tudo, atacando-o novamente. Ramtish, dessa vez, não usou a mão. Em vez disso, desembainhou a sua espada. Ele a ergueu no ar, com a extremidade apontada para o pássaro vindo em sua direção.
Dessa vez, o pássaro parou.
– Irmão? – Skatch perguntou, observando a interação com uma mistura de curiosidade e diversão. Ele não entendia por que o pássaro parecia ser tão protetor do guerreiro, mas estava claro que a criatura não queria que Ramtish chegasse perto dele. – Largue essa armadura. E a espada.
Ramtish olhou para ele surpreso.
– O quê? – ele disse. Ele e Skatch vinham trabalhando juntos por anos. Jamais, em todo esse tempo, Skatch deixara algo de valor para trás.
– Há algo nesse jovem de que eu gosto – Skatch disse, dando de ombros. Seus olhos permaneceram sobre o guerreiro.
Dormindo, o jovem parecia ainda mais inocente.
– Ele é um excluído, como nós – acrescentou.
– Fale por você – Ramtish retrucou. – Eu prefiro me considerar um campeão.
Skatch riu enquanto enganchava sua barba falsa atrás das orelhas e grudava-as de volta no lugar.
– Deixe o burro para ele também – Skatch disse. – Já que estou me sentindo muito generoso hoje.
Então, pegando as rédeas do cavalo, ele conduziu o grande animal para fora da clareira. Ramtish olhou uma última vez com desejo para a armadura e a arma, mas depois, com um suspiro, seguiu o companheiro.
Atrás deles, o guerreiro ainda estava em um sono pesado.