Mulan

Elizabeth Rudnick · Capítulo 16 de 22

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Mulan

Dezesseis

 

No campo dos rourans, os guerreiros também se preparavam para a batalha. As espadas estavam sendo afiadas e os arcos, esticados. Böri Khan também estava se preparando. Seu peito nu brilhava enquanto ele se banhava. Era um ritual que lhe permitia preparar-se física e mentalmente para a luta que tinha pela frente.

Khan estava satisfeito. Seu exército havia crescido e agora centenas de yurts cheios de centenas de homens pontilhavam a paisagem árida ao seu redor. Levara mais tempo do que ele esperava, mas, com a morte de Duba Tegin, ele havia garantido a lealdade de todas as tribos.

Agora só precisavam dominar o Império.

Ouvindo o familiar grito de um falcão, ele se virou quando o pássaro voou para a sua tenda. Enquanto ele observava, a criatura se transformou. Asas se tornaram braços, garras viraram pés, e logo Xianniang materializou-se diante dele.

– Você tem notícias do mercado? – perguntou Khan, sem parar de se lavar.

A bruxa assentiu. Ela estivera em patrulha na maior parte da noite e parecia incomodada por não ter toda a atenção dele.

– Novos soldados – ela relatou. – Crianças. Cairão facilmente. Antes da lua nova, você tomará o reino. Você terá sua vingança. Isso se o nosso plano continuar em pé.

Com as palavras dela, a mão de Böri Khan parou e ele ergueu o olhar para encontrar o dela. Ele não gostou do tom desafiador de sua fala.

– O que colocaria o nosso plano em risco? – ele perguntou, dando um passo ameaçador em direção à bruxa.

– Preciso confiar em você – disse Xianniang friamente.

Ela não se afastou do corpo musculoso de Böri Khan. Em vez disso, estufou o peito, como se tentasse se igualar a ele.

– Você não pode confiar em mim – respondeu ele, com um pouco de satisfação diante da surpresa que cintilou no rosto da bruxa. – Mas você não tem escolha. Quando a encontrei nas estepes, vagando sozinha, você não passava de uma exilada. Como um vira-lata desprezado. Seus poderes não significariam nada sem mim.

Ele parou, suas palavras pairando pesadas no ar. Ele olhou para Xianniang, esperando por sua resposta.

Em um piscar de olhos, as garras de Xianniang estavam em seu pescoço.

– Eu poderia rasgar você em pedaços em um instante – ela disse entredentes.

Böri Khan sentiu as garras na garganta e viu a raiva nos olhos da bruxa, mas permaneceu calmo. Quando falou, sua voz saiu calma e gélida.

– Lembre-se do que você quer. Um lugar onde seus poderes não serão difamados. Um lugar onde você será aceita por quem você é.

Ele viu a expressão da bruxa ficar mais irritada ao ouvir as palavras que ela havia compartilhado com ele em um momento de vulnerabilidade.

– Você não conseguirá o que deseja sem mim. E quer saber o porquê? – ele fez uma pausa, embora soubesse que ela não responderia. – Nenhum exército seguirá uma mulher – e deixou as palavras pairarem no ar. – Confiando em mim ou não, sou sua única opção.

Böri Khan viu a raiva esmaecer em seus olhos. Xianniang sabia que ele estava certo.

– Lembre-se de que você também precisa de mim, Böri Khan – ela respondeu após uma breve pausa, apertando ainda mais o pescoço dele.

– Não nego – disse Böri Khan.

Eles se entreolharam por um longo momento. Xianniang retirou as suas garras da garganta de Böri Khan.

– Vamos terminar o que começamos – disse ela.

Dessa vez, Böri Khan assentiu.

– Sim – ele concordou. – E você cuidará para que nada, nem ninguém, nos impeça.

Empurrando-a, Böri Khan vestiu uma túnica e caminhou até a porta do yurt. Sim, as coisas estavam se encaixando. Ele tinha o seu exército. Tinha a sua bruxa. E logo teria o seu reino.

 

Mulan olhou para a névoa espessa diante dela. O sol tentava atravessar a massa cinzenta que tornava difícil distinguir objetos reais de sombras. Montada em Vento Negro, ela conseguia enxergar um pouco mais do que os soldados no chão. Mas não muito mais.

Ela ficou surpresa quando o Comandante Tung ordenou que parassem no meio do vale enevoado. Parecia que isso os colocaria em desvantagem estrategicamente. Mas, aparentemente, não. Dessa forma, o Comandante lhes explicou, eles contariam com o elemento surpresa. Sabiam de que direção o exército de Rouran estava vindo, enquanto o inimigo não tinha ideia do que estava à sua espera.

À medida que o sol ficava mais forte, a névoa ia se dissipando. Lentamente, as sombras desapareceram. Quando o horizonte clareou, revelando um exército enorme em frente ao batalhão imperial, a respiração de Mulan ficou presa na garganta.

Os rourans pareciam cobrir o horizonte inteiro, com bandeiras de dezenas de tribos flamejando no ar. À frente de todos, estava Böri Khan montado em seu garanhão escuro como a meia-noite, com os olhos frios e calculistas, visíveis mesmo àquela distância. Mulan ficou tensa e, sob ela, Vento Negro empinou de nervoso. Como parte da cavalaria, Mulan estaria em um dos últimos grupos a atacar. Mas não importava quando ela iria. Agora que vira o inimigo, a sua última fagulha de esperança de que seria possível evitar a batalha havia desaparecido.

Virando-se, ela viu os amigos em pé na infantaria: Po, Yao e Ling. A confiança usual desaparecera de seus rostos e fora substituída pela apreensão. Procurando ainda mais, Mulan avistou Skatch e Ramtish. Sem as suas barbas falsas e roupas de monge, eles pareciam menores. E o medo estava gravado em todas as rugas do rosto deles. Mulan sentiu uma pontada de compaixão pela dupla. Eles não queriam fazer parte dessa guerra, e ainda assim ela os trouxera para lá. Se sobrevivessem à batalha que estava por vir, ela prometeu descobrir uma maneira de se desculpar – mesmo que ainda não os tivesse perdoado por roubar Vento Negro.

Os olhos dela pararam em Honghui. Para a sua surpresa, ele estava olhando para ela. Por um momento, eles se encararam. Os outros sons desapareceram, e tudo que Mulan podia ouvir eram os suspiros irregulares de sua própria respiração e as batidas do seu coração. Ela viu em Honghui o mesmo olhar interrogativo, o mesmo pedido de desculpas silencioso que ela sabia que estavam em seus próprios olhos. Ambos reconheceram que essa poderia ser a última vez que se veriam vivos. E, naquele momento, toda a competição e a animosidade entre eles diminuíram. Havia agora algo que nenhum deles admitiria: respeito... mas também algo mais profundo. Algo que eles não sabiam explicar, mas que fazia Mulan corar e Honghui se remexer.

O som de tambores ecoou pelo vale, assustando Mulan. Ela desviou o olhar do de Honghui. Afastando a sensação estranha que estava se instalando em seu estômago, Mulan voltou-se para o vale e para o inimigo no horizonte. Estava na hora de focar.

Era a hora da batalha.

À medida que as batidas se tornavam mais altas e rápidas, a linha de frente dos soldados imperiais se ajoelhava. Atrás deles, os arqueiros avançaram, preparando os seus arcos. Cricket estava no meio deles, com os olhos límpidos e os ombros firmes. Mulan ficou impressionada. O garoto se tornara um guerreiro.

O Comandante Tung levantou a mão. O exército parecia respirar todo junto. E, então, o Comandante deu o sinal. Quando a bandeira imperial acenou, os arqueiros fizeram as suas flechas voarem. Elas se arquearam sobre o vale – agora um campo de batalha – em direção ao exército rouran.

Se o Comandante Tung pensara que a primeira onda de ataque intimidaria Böri Khan, logo se provou que ele estava errado. O guerreiro nem esperou que as flechas pousassem antes de dar o seu próprio sinal. Em um instante, o som dos tambores foi abafado pelos cascos de centenas de cavalos, com Böri Khan liderando o seu exército pelo vale.

Os arqueiros continuaram atirando flechas. Algumas encontraram os seus alvos, derrubando rourans de suas selas, mas eles mal causaram um pequeno estrago. O exército rouran era enorme. Seria preciso mais do que arqueiros para derrubá-lo.

Esperando ansiosamente pelo sinal do Comandante Tung, Mulan observou Böri Khan gritar para alguns de seus homens. Mais de uma dúzia de guerreiros afastaram-se das tropas principais e avançaram à frente, puxando todo o exército atrás. Agindo rapidamente, o Comandante Tung gritou ordens para a cavalaria – da qual Mulan fazia parte – atacar o líder rouran. Enquanto o resto da infantaria e os arqueiros se arriscavam contra a horda que se aproximava, a cavalaria investiu contra Böri Khan.

A crina de Vento Negro chicoteava ao galope. À frente, Mulan podia ver Böri Khan, e os guerreiros, que agora ela reconhecia como os Guerreiros das Sombras, notaram o ataque. Com um grito, um deles virou-se sobre o seu cavalo, ficando de frente para eles. Enquanto o seu cavalo galopava normalmente, o Guerreiro das Sombras atirou duas flechas contra os inimigos.

Um soldado imperial próximo gritou quando foi atingido e derrubado do cavalo. Mulan não teve tempo de registrar o medo; um momento depois, a outra flecha passou raspando por ela. Ela ouviu um baque quando outro soldado tombou. Ainda assim, continuaram galopando naquela direção.

Enquanto o solo mudava embaixo deles, ficando mais rochoso, Mulan começava a apontar as suas próprias flechas. Ela mal percebeu o ambiente montanhoso e úmido em que haviam entrado. Só tinha olhos para os guerreiros rourans. Mais soldados inimigos giravam sobre os seus cavalos, disparando flechas cada vez mais rapidamente. Os soldados imperiais começaram a cair com mais e mais frequência. Alguns foram derrubados por flechas, outros quando os seus cavalos tropeçavam no terreno rochoso. O vapor causado pelo ar quente subia das aberturas vulcânicas, obscurecendo a visão de Mulan, mas ela continuava galopando conforme, um a um, os soldados imperiais decidiam que o líder rouran estava longe demais e batiam em retirada para o campo de batalha.

Logo Mulan ficou sozinha.

O ritmo de Vento Negro diminuiu. Mulan olhou por cima de seu ombro, vendo que os outros soldados galopavam para longe. A vontade de segui-los era forte. Mas ainda mais forte era o som da voz do Comandante Tung em sua mente, falando dos Pilares da Virtude. Como membro do Exército Imperial, era seu dever ser leal e corajosa. Ela podia não ser capaz de viver de acordo com a virtude da Verdade, mas isso não significava que não poderia lutar pelos outros pilares. Afastando o olhar do exército em fuga, ela viu Böri Khan desaparecendo no vapor à sua frente.

Cheia de coragem, ela incentivou Vento Negro a seguir em frente.