Mulan
Três
Conforme os dias passavam, Mulan tentava, tentava e tentava ser a filha honrosa que traria orgulho à família. Obedientemente, ela se sentava ao lado de sua mãe para praticar tecelagem. Ela deixava as galinhas fugirem, mesmo que os seus pés coçassem de vontade de ir atrás delas. Quando os meninos da aldeia se reuniam no pátio a fim de brincar, ela se esforçava ao máximo para não chutar a bola que cruzava o seu caminho.
Apesar das suas melhores intenções, era difícil ser sempre boazinha. Às vezes, Mulan não conseguia controlar seus impulsos. Como quando ela só quis chutar a bola de volta para os meninos e o chute acabou saindo muito mais forte do que previra, derrubando a cabeça da estátua da Fênix. Ou quando galopou em seu cavalo, Vento Negro, um pouco rápido demais e acabou derrubando a roupa da vizinha do varal... De novo.
Conforme os dias e os anos se passavam, Mulan continuava com os seus rompantes de imprudência. Ela se esforçava para manter o cabelo preso em um coque bem arrumado – pelo menos no início do dia. E passava longe do santuário e do galinheiro... na maior parte do tempo. Quando completou dezesseis anos, o seu corpo já não parecia tão desajeitado – ela se tornara uma moça esbelta, alta e linda. Às vezes, porém, a menina que quebrara a estátua se sentia ansiosa para fazer algo selvagem e audacioso.
Ao chegar em casa depois de uma tarde no campo, onde havia galopado em alta velocidade em seu Vento Negro, Mulan desmontou às pressas do cavalo e o levou ao celeiro. Sentiu o aroma do jantar e sabia que estava atrasada. Ela tremeu um pouco. Sua mãe não ficaria feliz. Rapidamente, atravessou o pátio e entrou em casa.
Sua família estava sentada à mesa de jantar. Correndo, Mulan pegou um prato e juntou-se a eles.
– Vento Negro e eu conseguimos acompanhar dois coelhos, correndo lado a lado – ela disse, pegando uma porção de arroz da tigela. – Eu acho que um era macho e outra, uma fêmea... – Então, parou de falar, percebendo que a família mal havia se movido. Todos estavam olhando para ela, e a sala estava em silêncio, exceto por sua própria voz. – O que foi? – ela perguntou, preocupada. Será que havia mato em seu cabelo? Lama em seu rosto?
Li estava esfregando as mãos de modo nervoso. Ela abriu a boca e, em seguida, a fechou. Mulan estreitou os olhos. Não podia ser coisa boa. Sua mãe nunca se mostrava tímida quando tinha de falar algo. Mas agora ela parecia estar quase... com medo.
– O que foi? – Mulan insistiu.
– Temos uma excelente notícia – Li anunciou, embora a sua voz demonstrasse certa insegurança. – A casamenteira encontrou um pretendente ideal para você.
A respiração de Mulan ficou presa na garganta. Ela sentiu o seu rosto perder a cor e apoiou a mão para não perder o equilíbrio. Casamenteira? Pretendente ideal? Essas eram as palavras que ela vinha temendo desde que entrara na idade de se casar. Por meses, tinha ouvido outras meninas na aldeia dando risadinhas sobre os seus respectivos pretendentes. A cada dia que passava, ela ficava secretamente aliviada por não ter recebido notícia nenhuma da velha mal-humorada que arrumava casamentos para as garotas da aldeia. Seu sonho era que, talvez, nunca encontrassem um pretendente para ela. E, assim, ela poderia continuar a viver a sua vida como sempre fizera.
Sua irmã era quem sonhava com um pretendente ideal. Sempre que podia, Xiu falava sobre as alegrias de ser a esposa de alguém. Toda noite, ela contava a Mulan sobre as receitas que queria cozinhar e as roupas que gostaria de tecer. Xiu tagarelava por horas sobre como viveria para servir o homem que seria seu marido. Quão feliz o faria – e quão feliz ficaria a sua família. Para Mulan, aquela parecia ser uma vida aprisionada e desprovida de aventura.
Mulan sabia que não traria a honra que sua família queria, e ela nunca admitiria isso em voz alta, mas não queria se casar. Poderia ficar em casa e ajudar os seus pais, ela imaginava. Talvez pudesse deixá-los orgulhosos de outras maneiras. Mulan olhou para o pai, esperando que ele pusesse fim à conversa.
Vendo o olhar desesperado de sua filha, a expressão de Li endureceu.
– Seu pai e eu conversamos sobre isso – afirmou.
Zhou assentiu, embora parecesse triste.
– Sim, Mulan. Está decidido.
– Mas... – Mulan começou a dizer.
Seu pai a cortou com um aceno de cabeça.
– É o melhor para a nossa família.
Mulan levantou a cabeça e encontrou o olhar de seu pai. Naquele momento, sentiu o tempo parar e retroceder. Ela se lembrou de quando estava no santuário, olhando para o pai do mesmo jeito que estava fazendo agora. Recordou-se da asa quebrada da Fênix. A Fênix que, disse seu pai, iria protegê-la. Ela tinha de acreditar que a Fênix a estava protegendo agora e continuaria a cuidar dela mesmo depois de seu casamento. Com Fênix ou sem Fênix, Mulan tinha prometido ao pai que traria honra à família. Mesmo que isso significasse sacrificar sua própria felicidade.
Respirando profundamente, ela assentiu:
– Sim – ela disse com a voz suave. – É melhor assim. Trarei honra para todos nós.
Sua mãe suspirou de alívio, e Mulan afundou em sua cadeira. Enquanto a família retomava a conversa rotineira do jantar, Mulan ficou em silêncio, perdida nos próprios pensamentos. Em um momento, a sua vida e o seu destino tinham sido decididos. Ela nunca havia se sentido tão arrasada.
Longe do tulou, um destino diferente estava sendo decidido.
O ar do deserto estava limpo. No céu, o sol brilhava intensamente, fazendo com que os muros do mercado cintilassem tais quais uma miragem. O lugar era um dos poucos pontos de compra e venda na vasta estepe desértica, e estava muito movimentado. Pessoas de todo o mundo entravam e saíam, trazendo mercadorias para vender ou trocar. O mercado lotado estava borbulhando ao som de comerciantes negociando seda colorida, tapetes, joias e frutas. Uma miríade de línguas misturava-se no ar. Às vezes, a voz de um tradutor ajudando determinado comprador a conseguir uma barganha sobrepunha-se à balbúrdia. Apesar da adrenalina, a ordem reinava no lugar. Funcionários supervisionavam as operações comerciais, de modo a manter a honestidade de todos os envolvidos.
Montado em seu imponente cavalo, Böri Khan avistou o mercado no horizonte. Os seus músculos estavam protegidos sob uma armadura leve, e a sua pele, coberta com uma fina camada de poeira. Como a maioria dos homens ao seu redor, seu longo cabelo era escuro e despenteado. Mas Böri Khan não se preocupava com a aparência. Ele e seus homens haviam viajado uma grande distância para chegar até ali e, embora parecessem exaustos, não estavam nem cansados.
Os olhos escuros de Böri Khan estreitaram-se ao observar os comerciantes concentrados em seus negócios, completamente expostos e desprotegidos. Sob a autoridade do Imperador, o povo tinha ficado preguiçoso. Não houvera guerras, nem mesmo a ameaça de uma guerra, por anos. As pessoas haviam se esquecido dos dias em que rourans saqueavam desenfreadamente por todo o Império, instilando o medo com a simples menção de seu nome. Os famosos Guerreiros das Sombras haviam provocado o fechamento de postos como esse. Então, o Imperador conseguira derrotar o líder rouran e, durante anos, não houve sinal dos terríveis Guerreiros das Sombras. O Império voltara a acreditar que era um lugar seguro.
Contudo, Böri Khan estava prestes a mostrar-lhes quão errados eles estavam quando acreditaram que a força rouran fora destruída. Seu pai havia lhe ensinado tudo o que sabia antes de o Imperador matá-lo. E agora Böri Khan tinha ressuscitado os rourans. Está na hora, pensou, enquanto seus olhos avistaram a porta aberta do mercado, de dar início à vingança.
Voltando-se para os seus guerreiros, Böri Khan levantou a mão. Doze cavalos empinaram-se e galoparam em frente, montados por doze homens vestidos de preto, com os rostos totalmente cobertos, exceto por uma fenda nos olhos. Um dos guerreiros carregava um mastro. Uma bandeira preta e dourada estava presa à ponta, com a cabeça de um lobo flamulando com a brisa leve. Böri Khan esperou mais um momento.
Ele queria ver o medo nos olhos dos guardas quando notassem que ele e os seus homens estavam indo em sua direção.
Não teve de esperar muito. Sobre a muralha, um guarda virou a esquina. No mesmo momento, o vento abriu a bandeira, mostrando claramente a cabeça do lobo. O som ecoou por toda a estepe quando o guarda avistou Böri Khan e seus guerreiros. Um sorriso de satisfação espalhou-se pelo rosto do líder rouran ao ver o pânico tomar conta dos olhos do guarda. Enquanto ele tentava, inutilmente, avisar os outros oficiais e fechar as portas do mercado, Böri Khan baixou o braço.
Em um instante, os Guerreiros das Sombras dispararam pelo deserto. Os cascos dos seus cavalos batiam na areia, levantando uma enorme nuvem de poeira. Os animais gigantes logo alcançaram o mercado. Da muralha, os guardas começaram a atirar flechas. Mas o alvo era difícil, e as suas mãos estavam trêmulas. As flechas passavam longe, conforme os Guerreiros das Sombras se aproximavam.
– Mirem no líder! – Böri Khan ouviu um dos guardas gritando. Erguendo os olhos, viu outro guarda mirando em sua direção. Böri Khan não hesitou. Continuou galopando adiante enquanto a flecha voava diretamente contra o peito dele. Quando estava prestes a atravessá-lo, ele ergueu as mãos, agarrando-a no ar. Enquanto os guardas ficaram boquiabertos, Böri Khan puxou uma flecha sua e a encaixou no arco. Soltou-a.
Para a surpresa dos guardas, a flecha não foi dirigida a uma pessoa, mas sim ao céu, passando por cima da muralha e atingindo um mastro bem no meio do mercado com um ZUMP alto. Os negociadores e comerciantes, que não tinham noção do perigo que se aproximava, olharam para a flecha, assustados.
Um mercador usando um fez vermelho ergueu os olhos para a flecha. Um brilho calculista tomava conta de seus olhos quando ele ergueu uma mão e sacou uma agulha longa de trás da orelha. Então, com um grito, ele chutou uma banca de especiarias. O pó colorido encheu o ar, e o homem de fez vermelho começou a se transformar. Seu cabelo cresceu e caiu, em cascata, sobre os seus ombros. Enquanto isso, o seu rosto entrou em metamorfose: suas bochechas diminuíram e a sua pele ficou macia. Sob o manto, a sua cintura se estreitou. Alguns comerciantes gritaram quando a transformação chegou ao fim.
Onde antes estava o homem de fez vermelho havia agora uma bela – e perigosa – mulher. Não era uma mulher qualquer. Era Xianniang.
– Bruxa! – gritou um dos guardas, cuja atenção foi desviada de Böri Khan para o centro do mercado. – Ela é uma bruxa!
Com o seu grito, o mercado entrou em uma erupção de pânico. Foi um empurra-empurra de comerciantes, todos tentando escapar da bruxa. A poeira subiu. Em pé no meio do tumulto, imóvel e indiferente, Xianniang assistiu ao caos.
Lentamente, ela flexionou os joelhos e levantou um braço. Com seu outro braço, ela tocou no cinto e, rápida como um relâmpago, puxou quatro adagas. Com um grito de falcão, a bruxa fez as adagas saírem voando. Uma por uma, elas atravessaram o mercado, derrubando quatro guardas de uma vez.
Na muralha, os outros guardas mal tiveram tempo para ver a queda de seus companheiros. Estavam ocupados demais lidando com Böri Khan. Sob ele, seu garanhão galopava como se não houvesse flechas vindo em sua direção. Com uma velocidade alucinante, o cavalo aproximou-se da muralha. Böri Khan agarrou a sua crina. Então, com um movimento suave, ficou em pé sobre o lombo do cavalo. Desembainhou sua espada e esperou, com as pernas firmes apesar do galope. Justo quando parecia que ele daria com a cabeça contra a murada, Böri Khan saltou.
Suspensas no ar, suas pernas se moveram como se ele estivesse correndo. Determinação e raiva tomaram o seu rosto e, com um rugido poderoso, ele pousou sobre a muralha. Os guardas não eram páreo para a espada cortante de Khan. Mal dava para ver o metal chicoteando o ar.
Seguindo o seu líder, os outros Guerreiros das Sombras subiram a muralha também. Espalhou-se, então, o tilintar das espadas de guardas e guerreiros.
Ao avistar Xianniang, Böri Khan derrotou mais dois guardas e, em seguida, pulou para dentro do mercado. Sem perceber a sua presença, a bruxa continuou a lutar por si mesma. Rodeada por cinco guardas, todos maiores e mais fortes do que ela, Xianniang parecia nem se importar. Seu rosto era como uma máscara de tranquilidade e as suas mãos, constantes em seus movimentos. Ela parecia estar esperando que eles fizessem o primeiro movimento, mesmo que estivesse sozinha contra os cinco.
Cientes de sua vantagem, os guardas sinalizaram uns para os outros. Então, atacaram. Sacaram as suas longas lanças, mas as extremidades das suas armas não encontraram nada. Em um piscar de olhos, Xianniang agarrou a ponta da lança mais próxima e virou-a de volta para os homens. Seu corpo tornou-se um borrão de seda preta conforme ela girava. Quando parou, quatro dos guardas estavam no chão. O quinto estava de joelhos, tremendo. Mais jovem que os outros, ele encarou a expressão concentrada de Xianniang, seus olhos cheios de terror.
Böri Khan avançou. Detectando a presença dele, a bruxa desviou o olhar. Seus olhos se encontraram. Então, lentamente, Xianniang abaixou a lança. Böri Khan assentiu. O plano deles, o plano que ele tinha mantido em segredo até mesmo de seus próprios homens, funcionara. Ele estava satisfeito. Outros duvidaram que a bruxa lhe seria fiel, mas ele sabia o que estava fazendo. Xianniang não era apenas poderosa, mas também tinha fome de poder. Ter uma vida de solidão, de exclusão da sociedade que temia os membros de sua espécie, muitas vezes forçada a se transformar em falcão para evitar o julgamento, ou pior, a punição, só aumentara a sua raiva e a sua sede de vingança. E agora eles tinham dado um passo em direção a essa vingança. O mercado era deles.
Juntos, Xianniang e Böri Khan caminharam de volta para o portão. Atrás deles, os sons de batalha diminuíram conforme os Guerreiros das Sombras derrotavam os últimos guardas.
– Outra fortaleza derrubada, Böri Khan – disse Xianniang com a voz rouca, mas com a respiração calma.
O guerreiro acenou com a cabeça. O Imperador não poderia ignorá-lo por mais tempo. Os rourans estavam de volta, e logo o Império seria deles.