Mulan

Elizabeth Rudnick · Capítulo 13 de 22

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Mulan

Treze

 

Toda vez que Mulan fechava os olhos, via-se girando no ar e sentindo o chão sob os pés quando aterrissava. Via os diferentes olhares dos outros soldados – alguns surpresos, outros impressionados, outros ainda incomodados. Porém, mais do que tudo, ela via Honghui olhando para ela, e foi esse olhar que permaneceu em sua memória. Ele parecia ter ficado surpreso. Como se não achasse que ela fosse capaz de derrotá-lo. Ela não sabia se isso a deixava orgulhosa ou um pouco ofendida. De qualquer maneira, o olhar dele – e dos outros – agora a assombravam.

Ela ainda não tinha certeza do que acontecera com ela. Seu corpo tinha começado a se mover por conta própria. Era como se um interruptor tivesse sido acionado e todo o treinamento e a prática tivessem se encaixado, em harmonia. Mas havia algo a mais naquilo. Algo que parecia mais profundo e maior que ela. Quando estava girando no ar, chicoteando sua lança como se fosse uma extensão de seu corpo, teve o mesmo sentimento daquele dia, na infância, quando perseguira a galinha pela aldeia e caíra do telhado. Naquele momento, assim como agora, não conseguiu explicar o que tomou conta dela.

E isso a assustava.

Agora ela estava deitada em sua cama dura, desejando que os seus olhos se fechassem. Mas, toda vez que ela se mexia, o odor do seu próprio corpo incomodava as suas narinas. Ela precisava de um banho para se limpar – e para deixar aquele dia para trás. Ela pegou roupas limpas e saiu da barraca na ponta dos pés.

O acampamento estava quieto e vazio, pois todos os soldados haviam se retirado para as suas tendas. Mulan moveu-se rapidamente. Seus passos mal emitiam um som, era como se ela flutuasse sobre o chão em direção ao lago, na beira do acampamento. Uma lua brilhante no céu iluminava a superfície imóvel da água. Mulan sorriu ao ver a água fresca.

Dando uma espiada por cima do ombro para se certificar de que ninguém estava olhando, Mulan se despiu. Soltando as suas roupas em uma pilha no chão, ela deslizou para dentro da água gelada. Um suspiro de pura felicidade escapou de seus lábios. A água lavou a sujeira que se agarrava à sua pele, e o frio fez bem aos seus músculos doloridos. Afundando sob a superfície, ela deixou o silêncio envolvê-la. Ela ficou lá mergulhada, suspensa entre o fundo escuro do lago e a superfície por um longo momento, e a sua mente foi se acalmando. Ali, em silêncio, ela era mais uma vez apenas Mulan. Não Hua Jun tentando provar a si mesmo. Ela não tinha percebido o quanto aquela atuação tinha sido mentalmente difícil até agora, quando permitiu que o seu corpo e a sua mente relaxassem.

Quando ficou sem fôlego, Mulan permitiu que seu corpo retornasse à superfície do lago. Mantendo os olhos fechados, ela sentiu o ar secando a água em sua face. Seus cabelos, pesados pelo líquido, fizeram seu couro cabeludo doer, e ela segurou o coque, ansiosa para soltá-lo. Mas, assim que os seus dedos tocaram os longos fios pretos, ela ouviu uma voz chamando.

– Hua Jun!

Os olhos de Mulan se abriram. Examinando a beira do lago, ela avistou Honghui.

– Precisamos conversar! – ele gritou enquanto tirava as próprias roupas.

Mulan entrou em pânico. Imediatamente, ela tentou submergir seu corpo enquanto desviava os olhos de Honghui. Ele tirou a roupa rapidamente e sem vergonha.

– Eu vim aqui para ficar sozinho... – Mulan gritou, espirrando água enquanto tentava se afastar. Desesperada, ela procurou algo, qualquer coisa, para cobrir seu corpo. Honghui ignorou seu protesto. Pulando na água, ele nadou em sua direção.

– O que foi aquilo hoje? – ele disse enquanto dava braçadas na água. – Você foi incrível.

– Eu não quero falar sobre isso – disse Mulan, virando as costas para ele.

Parando a alguns metros de distância, Honghui ficou em pé no lago. Ele olhou para ela com curiosidade. Quando Mulan não se moveu em sua direção, Honghui nadou para encará-la. Mas ela espelhava os seus movimentos, mantendo as costas para ele. Ele continuou assim mesmo.

– Ensine-me como você fez aquilo. Mostre-me.

Mulan balançou a cabeça.

– Deixe-me em paz – ela repetiu.

As palavras saíram mais duras do que ela pretendia. Mas Honghui não se incomodou.

– Por quê? – ele perguntou. – O que você tem? Pensei que éramos amigos.

– Não sou seu amigo! – Mulan gritou.

Sua voz ecoou na água. Ela se encolheu. Sabia tão bem quanto Honghui que isso não era verdade. Eles eram amigos. Ou, pelo menos, eles estavam se tornando amigos. Ela espiou por cima do ombro e viu os olhos confusos de Honghui. Ela sabia que doía, mas estava tentando protegê-lo. Ele não podia descobrir o segredo dela. Isso significaria desonra para os dois. Como Mulan permaneceu em silêncio e o ar ficou tenso, a confusão de Honghui se transformou em raiva.

– Então me olhe nos olhos e diga isso – ele exigiu. Mulan não falou nada. – Não vou embora daqui até que você me olhe nos olhos e diga que não somos amigos.

Mulan engoliu em seco. Ela sabia que Honghui estava falando sério. Ele ficaria lá o tempo que fosse para fazê-la se virar para ele. Mas o que ela poderia fazer? Então, Mulan viu um clarão branco se movendo ao longo da superfície da água. Erguendo os olhos, ela reconheceu a Fênix. A ave dobrou as asas e mergulhou em direção à superfície do lago. Ela perfurou a água atrás de Honghui com um SPLASH!

Ouvindo o som, Honghui se virou. Ele olhou dentro da água, tentando ver abaixo da superfície. Mas o mergulho da Fênix agitou o fundo do lago e tornou a água mais escura.

– O que foi isso? – Honghui perguntou, examinando nervosamente a superfície da água. – Tem algo lá embaixo!

Então, seus olhos se arregalaram e ele soltou um grito quando a Fênix mordeu suas pernas. Sem esperar para ver o que o estava mordendo, Honghui virou-se e começou a nadar freneticamente até a costa. Quando chegou à terra firme, pegou as roupas e correu, sem olhar para trás.

Vendo-o partir, Mulan deu um suspiro de alívio. Essa tinha sido por pouco. Ela estremeceu ao pensar no que teria acontecido se não fosse pela Fênix.

Como se fosse uma sugestão, o pássaro apareceu na frente dela. Aprumando-se, a Fênix lançou a Mulan um sorriso satisfeito, como se dissesse: “Existem maneiras piores para um pássaro passar o tempo”.

Mulan riu.

– Obrigada – disse ela com sinceridade.

A ave ergueu-se no ar e, com uma última piscadela em sinal de cumplicidade, saiu voando, seguindo Honghui de volta ao acampamento.

Mulan suspirou. A Fênix a ajudara a sair daquele enrosco. Mas o que ela faria quando visse Honghui de manhã? Ele estaria magoado e seu ressentimento se transformaria em raiva. Ela mal começara a encontrar o seu lugar no acampamento. E daí foi fazer aquela coisa ridícula com a lança... E agora isso? Ela parecia criar problemas para si mesma. Suspirou de novo. Ela realmente tinha estragado tudo – e agora teria de pagar o preço.

 

Parecia que Mulan tinha acabado de fechar os olhos quando ouviu o grito para acordar. Ela se levantou relutantemente. Ao seu redor, os outros soldados estavam vestindo as suas roupas e armaduras, amarrando botas e pegando seus vários equipamentos.

Avistando Honghui, Mulan abaixou a cabeça, tentando evitar contato visual. Mas o espaço era pequeno, e era impossível que um evitasse o outro o tempo todo. Indo para a fila de botas, Mulan se inclinou e quase engasgou quando seu ombro acidentalmente roçou o de Honghui. Ela pulou para trás e estava indo se recolher no dormitório quando a voz do Sargento Qiang soou atrás dela, ecoando por todo o acampamento.

– Hua Jun! – ele berrou.

Mulan parou com tudo e olhou para trás.

– Apresente-se ao Comandante Tung – ele continuou.

Mulan saiu da tenda, mas não antes de cruzar o olhar com o de Honghui. Ela não tinha certeza, mas julgou ter visto uma faísca de compaixão naquele olhar. Mas, assim que piscou, desapareceu e foi substituída novamente pela frieza. Os seus ombros despencaram de desânimo. O que ela esperava? Que Honghui do nada a perdoasse por ter agido friamente na noite anterior, só porque agora levaria uma bronca?

Mantendo a cabeça baixa, ela cruzou o acampamento em direção à tenda do Comandante Tung. Embora a sua posição no exército lhe permitisse desfrutar de aposentos luxuosos, ele preferia um espaço modesto. Ao entrar, Mulan notou a mobília simples e a cama de montar parecia nunca ter sido usada. O Comandante Tung era um soldado. Só dormiria após a vitória na batalha.

Sentado à sua escrivaninha, o Comandante olhou para cima ao ouvir Mulan chegando. Ele fez um gesto para que ela se aproximasse. Então, colocando sobre a escrivaninha o utensílio que estava usando para escrever, apoiou as palmas das mãos abertas. Mulan resistiu ao impulso de sair correndo.

Enfim, ele falou.

– Tenho observado você, Hua Jun – começou. – Tem treinado duramente e, com certeza, não lhe falta vontade – ele pausou, como se estivesse medindo o impacto das próximas palavras. – Mas há algo segurando você. Algo... Algo que você parece estar escondendo.

Mulan sentiu a sua boca abrir e fechar como a de um peixe. O que ele queria dizer? O que ele sabia? Ela ficou ali parada, sem saber o que fazer. Temia que, a qualquer momento, soldados entrarassem e a conduzissem à sua desonra.

– Comandante... – ela começou a dizer.

Sem noção do impacto que as suas palavras haviam causado, o Comandante levantou a mão, pedindo silêncio.

– Eu senti no momento que o conheci. Mas agora tenho certeza. Sabe, eu também tenho um segredo... – O Comandante olhou Mulan nos olhos. – Eu conheço o seu pai. – Vendo a expressão de surpresa de Mulan, o Comandante Tung assentiu. – Hua Zhou e eu lutamos juntos. Ele era um grande soldado. E, em você, Hua Jun, vejo a sombra da espada dele. Talvez essa sombra esteja pesando sobre os seus ombros.

Mulan abaixou a cabeça, sem coragem de encarar o Comandante. Ela não queria deixá-lo ver a emoção que tomara o seu rosto. Ele não fazia ideia do quão verdadeiras eram as suas palavras, embora não fossem verdadeiras no mesmo sentido que ele estava imaginando. O amor de seu pai, não a sua sombra, pesava sobre ela. Assim como a verdade que ela não podia compartilhar.

Entendendo o silêncio dela como consentimento, o Comandante Tung prosseguiu.

— Você não pode deixar que o legado de seu pai o impeça de lutar como poderia. Precisa cultivar o seu dom.

Dom? Mulan olhou para ele e sua confusão foi substituída por tristeza.

– Senhor? – ela perguntou.

– O seu chi, Hua Jun – o Comandante Tung respondeu. – É poderoso. Por que você o esconde?

Mais uma vez, Mulan ficou sem palavras. Chi. A força vital que corria por todas as pessoas. Ela ouvira o seu pai falar de guerreiros que possuíam uma força maior do que outros. Guerreiros cujo chi lhes permitia serem mais rápidos e mais fortes, e de se moverem com tanta graça e imponência que às vezes pareciam voar. O fato de o Comandante insinuar que assim era o chi de Mulan parecia-lhe... impossível. Mas, ali em pé, uma pequena chama começou a incendiá-la. Isso explicaria tanta coisa... A Fênix. A luta com Honghui. Talvez, só talvez, o Comandante Tung não estivesse errado. Mas ela não podia arriscar revelar qualquer coisa sobre si, pois poderia acabar revelando tudo.

– Eu... Eu não sei – disse ela.

Percebendo a luta interna pela qual ela estava passando, o Comandante Tung assentiu de forma compreensiva.

— Vamos expô-lo. Permitir que se desenvolva. A verdade nunca dói tanto quanto a descoberta de uma mentira.

E, com um aceno de cabeça, ele dispensou Mulan.

Lentamente, ela saiu com as palavras do Comandante na cabeça. Ele não adivinhara o seu segredo, mas, de alguma forma, é como se ele tivesse revelado algo ainda mais profundo.