Mulan

Elizabeth Rudnick · Capítulo 15 de 22

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Mulan

Quinze

 

Acabeça de Mulan continuava inundada de pensamentos na manhã seguinte, quando eles marcharam para fora do acampamento, em direção ao Mercado das Estepes Montanhosas. As batidas de seu coração acompanhavam os passos dos jovens soldados.

Sua mentira estava pesando mais do que a mochila em suas costas. Ela queria manter o segredo, mas sentia que devia revelá-lo. Aqueles homens eram agora seus amigos. O Comandante Tung e o Sargento Qiang se tornaram seus mentores. Ela estava traindo todos eles e, para conseguir se concentrar no campo de batalha, ela precisava de uma mente clara, livre dessas preocupações. No entanto, o silêncio era seu amigo também. Não falar permitiria que ela mantivesse seu segredo, enquanto a outra opção resultaria em um castigo pior que a morte... a desonra.

Ela olhou para Honghui marchando, de cabeça erguida e olhos límpidos. O que, ela se perguntou, ele faria em seu lugar? Que conselho ele lhe daria, caso ela perguntasse? Uma imagem da Fênix, então, surgiu em sua mente. Seus ancestrais gostariam que ela revelasse quem era? Ou eles prefeririam que ela vivesse na mentira? Quando eles pararam para acampar naquela noite, Mulan tomou a sua decisão.

A caminho da tenda do comandante, ela fez uma pausa. Respirando fundo, conseguiu se recompor.

– Comandante Tung – disse ela, anunciando a sua entrada. – É Hua Jun.

– Entre, Hua Jun – a resposta do Comandante Tung foi rápida e concisa.

Ao entrar na tenda, Mulan prestou continência ao seu comandante. A atenção dele estava concentrada na espada sobre o seu colo. Ele a estava afiando de maneira delicada e metódica.

– Comandante Tung – começou Mulan. – Há algo pesando em meu coração. Preciso lhe fazer uma confissão – sua boca ficou seca quando o comandante olhou para ela. Ela abriu e fechou a boca várias vezes, tentando desesperadamente fazer sua língua formar as palavras certas. – Tem a ver com as três virtudes...

Foi o mais longe que ela conseguiu chegar. O Comandante Tung observou a sua luta interna. Para a sua surpresa, ela viu compaixão nos olhos dele, como se estivesse comovido. O comandante então ficou em pé e se aproximou dela.

– Não há vergonha em sentir medo antes de uma batalha – disse ele, confundindo o motivo de sua visita. – Na verdade, confessar a insegurança é uma prova de sua honestidade.

As palavras dele apunhalaram a consciência já cheia de culpa de Mulan. Honestidade? Ela estava lá para lhe dizer o quanto era desonesta. Ela balançou a cabeça, tentando colocar a conversa de volta nos trilhos e dizer o que precisava dizer.

– Sim, comandante – disse ela –, mas as outras virtudes...

O Comandante Tung a interrompeu.

– Hua Jun – ele falou, em tom sério. – Eu venho fazendo isso há muito tempo. A minha carreira é baseada em minha capacidade de julgar o caráter das pessoas. Você é um bom homem. Talvez um dia você me acompanhe até a minha aldeia, onde eu irei apresentá-lo à minha filha.

À filha dele? Mulan ficou perplexa. Aquelas eram as últimas palavras que ela esperava ouvir saindo da boca dele.

– E à nossa casamenteira – concluiu o Comandante Tung.

Os joelhos de Mulan fraquejaram quando ela entendeu o que as palavras do comandante implicavam. Sem saber como responder, ela se curvou. Não teve escolha senão acenar com a cabeça.

– Seria minha grande honra, comandante.

Ele sorriu, com alívio no rosto. Mulan percebeu que ele estava estranhamente nervoso em dizer uma coisa dessas a ela. O que fez com que a mentira que ela estava vivendo parecesse ainda mais vergonhosa. Ela viera dizer a verdade, mas acabou ainda mais enrolada na fraude que criara.

– Estou ansioso pelo olhar no rosto de seu pai quando você der essa notícia – disse o comandante, encerrando a conversa.

Saindo da tenda, Mulan soltou um suspiro trêmulo. Ao fazê-lo, viu a Fênix parada a alguns metros de distância. O pássaro ouvira toda a conversa, e seu olhar para Mulan parecia dizer: “Esse foi o máximo que você conseguiu?!”.

– Bem, o que eu deveria fazer? – Mulan sussurrou.

A Fênix lançou outro olhar para ela. Esse foi ainda mais fácil de ler: “Não sei. Talvez não concordar em se casar com uma mulher?”

– Obrigado por seu apoio – disse Mulan, sem se preocupar em sussurrar ou afastar o sarcasmo de sua voz. – De verdade.

Mas a Fênix tinha razão. Ela não devia ter concordado. Devia ter contado a verdade, conforme planejado. Em vez disso, ela alimentou a mentira, e agora as coisas não podiam ficar piores do que já estavam.

 

Felizmente, Mulan não teve tempo de se apegar ao caos crescente de sua situação. Chegando de volta à sua tenda, ela teve apenas algumas horas de sono inquieto antes que os soldados fossem novamente despertados e ordenados a seguir em frente.

Marcharam pela estepe, sobre o chão seco e coberto de arbustos, que lhes oferecia pouca proteção contra os elementos naturais ou quaisquer inimigos em potencial. O olhar de Mulan flutuou sobre a paisagem árida enquanto eles caminhavam, e sua mente parecia tão esgotada quanto a terra ao seu redor. Depois de algumas horas de marcha, o solo começou a ficar irregular sob os seus pés, e os arbustos deram lugar a uma paisagem rochosa.

À distância, erguia-se o Mercado da Estepe Montanhosa, protegido pelas encostas de um lado, mas vulnerável do outro, onde ficava a entrada. Chegando em frente à entrada, o Comandante Tung levantou a mão. Mulan e os outros pararam e esperaram pela abertura dos pesados portões. Conforme foram abrindo, o mercado lá de dentro foi ficando visível. Era como os outros mercados sob o domínio do Imperador: repleto de vendedores negociando os seus produtos, além de alguns edifícios menores. Havia muitas pessoas, mas não estava lotado. Em um canto, Mulan viu uma taverna. Então, seus olhos se arregalaram e ela soltou um grito de felicidade.

– Vento Negro!

Enquanto os outros soldados procuravam o que causara essa reação, Mulan correu pela guarnição em direção à taverna. Seu cavalo estava amarrado em frente. Ouvindo a voz dela, ele pareceu abrir um sorriso feliz e recuou, tentando se libertar das rédeas. Mulan o abraçou, sentindo o seu cheiro familiar e reconfortante. Por fim, ela se afastou. Com a mão ainda gentilmente esfregando o pescoço do cavalo, seus olhos se voltaram para a porta da taverna. Então, eles se estreitaram. Ela sabia exatamente quem estava lá dentro.

Dando um último tapinha em Vento Negro e prometendo que voltaria, Mulan invadiu a taverna. Ela avistou Skatch e Ramtish imediatamente. Eles estavam sentados à mesa, olhando para um mapa. Suas vestes e barbas pareciam mais sujas do que quando ela os vira pela última vez. Mulan aproximou-se com passos determinados. Ramtish a viu e ela ficou ainda mais furiosa ao vê-lo se remexer no banco.

– Lembra-se daquele recruta, aquele garoto... – ela ouviu Ramtish dizer para Skatch.

O outro homem assentiu.

– Hua Jun – disse ele.

– Lembra-se de que você o ensinou a defender a sua posição, a ser o dono do lugar?

Skatch resmungou um sim, mas continuou olhando o mapa. Ramtish continuou.

– Ponta da lâmina e tudo mais?

– E daí? – Skatch disse, irritado por estar sendo distraído.

– Ele levou a sua lição a sério – concluiu Ramtish.

Skatch olhou para cima – e deu de cara com os olhos brilhantes de Mulan.

– Hua Jun! – ele disse, dando um pulo com um sorriso nervoso no rosto.

Mulan não retribuiu o sorriso. Quando Honghui, Yao, Po, Ling e Cricket entraram atrás dela, Mulan saltou no ar e, em um movimento rápido, chutou Skatch com os dois pés. Com força. Ele recuou, caindo no chão com um baque. Sua barba falsa, solta pelo impacto, ficou pendurada no queixo. Girando, Mulan agora mirou Ramtish. O homem imediatamente levantou as mãos.

– Não no rosto… – ele começou a dizer.

Mas Mulan não o deixou terminar. Ela saltou de novo e, dessa vez, girou no ar antes de chutar Ramtish no peito. Então, foi a barba falsa dele que começou a descolar, deixando muitos espectadores confusos.

Enquanto os dois ladrões a encaravam com uma mistura de reverência e medo, Mulan se virou e saiu da taverna. Atrás dela, os outros soldados ficaram para lutar com Skatch e Ramtish. Quando encontrou o Comandante Tung, os dois monges falsos já estavam pendurados pelos colarinhos, com as cabeças pendendo desconfortavelmente entre as tábuas de madeira.

– Conte-nos o que houve, Hua Jun – pediu o Comandante Tung, enquanto o sol se punha sobre o pátio da guarnição.

Ao lado dele, estava o comandante do mercado. O Sargento Qiang e os outros soldados estavam a alguns passos de distância, observando com curiosidade. Mulan se adiantou.

– Eu conheci esses dois bandidos na estrada – explicou ela, olhando feio para eles. – Eles me ofereceram comida e bebida, e... – ela fez uma pausa com a voz insegura. Não queria admitir que a haviam enganado, que ela acreditara que eram monges e até tinha bebido com eles. Isso a faria parecer fraca e ridícula. – E... – ela gaguejou.

Para a sua surpresa, Skatch entrou em cena.

– Hua Jun nos mostrou uma rara generosidade de espírito – ele disse, olhando para ela através dos cabelos que caíam sobre seus olhos. – Oferecendo um lugar junto ao fogo dele. Em troca, nós traimos a sua confiança.

Os olhos de Mulan se arregalaram. Skatch estava protegendo a sua honra. Mas por quê? O que conseguiria com isso? Ela olhou para ele, curiosa para ver o que diria a seguir.

– É verdade – continuou Skatch. – Nós não somos monges. Na verdade, somos bandidos. Uma escolha de carreira estranha, talvez, mas é uma profissão muito tradicional. Nós, bandidos, somos um elemento integrante da Rota da Seda. Elimine-nos e a delicada construção de toda a empreitada se desfaz.

Inacreditável, pensou Mulan. Skatch estava fazendo parecer que roubar era honroso. Uma tarefa que outros precisavam que ele realizasse. Ela olhou para o rosto do Comandante Tung e viu que ele também parecia incrédulo. Ramtish, cuja expressão Mulan não conseguia entender direito, concordou.

– Posso acrescentar, Comandante, que também poderíamos ter roubado a espada do rapaz, mas eu, pessoalmente, senti que isso seria errado.

Mulan resistiu à vontade de rir alto. Ela duvidava muito que fosse esse o caso. É verdade que ela não conhecia bem esses homens, mas podia apostar que fora Skatch que deixara a espada. Dos dois, ele parecia ser o mais gentil, se é que esse termo podia ser usado para qualquer um dos dois.

Percebendo que o comandante e os outros estavam perdendo a paciência, Skatch continuou argumentando.

– Portanto, se Hua Jun acha que, no seu coração, consegue nos perdoar – ele fez uma pausa e virou-se para o Comandante Tung – e o sábio comandante também encontrar uma forma de nos perdoar, podemos nos soltar daqui e...

O comandante já ouvira o suficiente. Ele levantou a mão, silenciando Skatch. Chamou o Sargento Qiang.

– Sargento, qual é a penalidade por roubar o cavalo de um soldado durante a guerra? – perguntou ele.

– Morte – respondeu o Sargento Qiang.

Os rostos agora sem barba de Skatch e Ramtish empalideceram. E os olhos de Mulan se arregalaram.

– Hua Jun – disse o Comandante Tung, voltando-se para ela. – Esses malfeitores roubaram seu cavalo?

Mulan hesitou, mas, depois de um segundo, ela assentiu:

– Sim.

Foi impedida de dizer mais, porém, porque se ouviu um grito repentino de um soldado atrás dela.

– Batedores no portão!

Um momento depois, as grandes portas se abriram e dois homens correram. Seus cavalos estavam ensopados de suor, seus rostos, pálidos. Desmontando, eles apressaram-se até o comandante.

– Böri Khan está a menos de meio dia daqui – relatou o primeiro. – Eles se preparam para a batalha. Estamos em menor número.

Imediatamente, os soldados começaram a murmurar. Virando-se para os guardas posicionados no topo dos portões, o comandante do mercado gritou:

– Fechem o cerco! – sua voz expressava medo, o que alarmou os homens ao seu redor.

Ao lado, o Comandante Tung permaneceu calmo. Mais uma vez, ele levantou a mão. Na mesma hora, a guarnição ficou quieta.

– Não! – ele disse ao comandante do entreposto. – Apareceremos de surpresa. Deixe Khan descarregar as suas flechas em território de nossa escolha. Quem se move primeiro controla o inimigo.

Ele fez uma pausa e olhou para os seus soldados, encarando por mais tempo Mulan. Então, virou-se para o Sargento Qiang.

– Prepare os homens – ordenou.

Os soldados não hesitaram. Imediatamente, entraram em ação, preparando-se para a batalha. Mas o sargento hesitou. Mulan o viu acenar com a cabeça para Skatch e Ramtish, que estavam esquecidos.

– Comandante Tung... E os bandidos? – ele perguntou.

O comandante mal registrou a pergunta, distraído com a notícia. Mas Mulan ouviu. E ela pensou em uma maneira de talvez salvar os dois homens da pena de morte. Ela não gostava deles, mas não queria a sua morte pesando em sua consciência. Ela se dirigiu ao Comandante Tung.

– Com licença, Comandante... – ela começou.

Ele fez sinal com a cabeça para ela continuar.

– Como estamos em menor número, talvez esses malfeitores possam ajudar?

Um olhar de surpresa e aprovação cruzou o rosto do Comandante Tung. Ele assentiu.

– Bem pensado. Se eles perecerem no campo de batalha, pelo menos terão feito algum serviço. Arme-os.

Depois de sua ordem, o comandante se afastou. Atrás dele, soltaram Skatch e Ramtish. Ambos pareciam chateados com a sua repentina liberdade.

– Arme-os? – disse Skatch, repetindo as palavras do Comandante Tung.

– Como? Lutaremos contra os rourans? – acrescentou Ramtish, balançando a cabeça e tentando voltar para onde estavam.

Ao lado dele, Skatch fez o mesmo.

– Posso sugerir que todas as opções sejam consideradas antes de embarcarmos em uma decisão tão precipitada? – disse ele aos soldados.

– Certamente existem outras maneiras de prestarmos serviço... – acrescentou Ramtish. – Aliás, nós bem que poderíamos... – ele lutou para pensar em algo, qualquer outra coisa que pudessem fazer para ajudar. – Limpar cocô de cavalo!

– Sim! – exclamou Skatch, concordando com a ideia. – A superabundância de estrume no campo de batalha tem sido uma questão empurrada para debaixo do tapete por tempo demais...

Mulan perdeu a paciência.

– Chega! – ela disse. E, para a sua surpresa, os dois homens se acalmaram. – Vocês me protegeram. Agora eu protegi vocês – ela puxou a espada. – Não me façam me arrepender.

Dando-lhes as costas, ela foi se juntar aos outros. Enquanto se afastava, podia sentir o olhar de aprovação de Skatch sobre ela. Ela conteve um sorriso. Eles eram desagradáveis, mas não eram pessoas horríveis. Não mereciam morrer. Ela os salvou. Agora eles teriam de usar os seus truques para sobreviverem no campo de batalha.