Mulan

Elizabeth Rudnick · Capítulo 2 de 22

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Mulan

Dois

 

 

Mulan estava sentada atrás de Xiu, distraidamente escovando os longos cabelos pretos da irmã. À sua frente, a menina estava tranquila, perdida em seus pensamentos. Mulan não se importava com o silêncio. Seu cérebro já estava bastante ocupado.

Ela só conseguia ver seu pai e aquele olhar de decepção. Ele a assombrava como um pesadelo do qual não conseguia acordar, fazendo-a se sentir perturbada e inquieta. A última coisa que ela gostaria de ter feito era magoar o pai. Mas não tivera escolha. Ou, pelo menos, isso era o que dizia a si mesma. Seu pai não teria dado conta da perseguição com uma perna manca. Embora tivesse sido um herói na guerra, seu ferimento o impedia de trabalhar tão duro quanto gostaria. Mulan queria simplesmente ajudar.

De alguma forma, parecia que ela tinha feito exatamente o oposto.

– Mulan?

A voz calma de Xiu interrompeu os pensamentos sombrios de Mulan. Sua mão parou, a escova pairando sobre o cabelo de Xiu, esperando para ouvir o que a irmã tinha a dizer.

– O que aconteceu quando você caiu do telhado? – Xiu perguntou.

Mulan não precisou perguntar o que Xiu queria dizer. Ela tinha sentido uma coisa... estranha... enquanto caía. Como se sua mente tivesse visto um passo à frente, e seu corpo soubesse os movimentos necessários antes de ela mesma ter consciência deles. Mas ela não estava pronta para admitir esses seus pensamentos em voz alta, especialmente para a irmã mais nova.

– Eu estava perseguindo aquela galinha malvada – disse ela, voltando a pentear os cabelos de Xiu.

Sob a escova, Xiu balançou a cabeça.

– Não – ela insistiu. – Quando você escorregou, por um momento, foi como se você fosse um pássaro... – a voz da menina dissipou-se.

Mulan franziu a testa, surpresa pela observação astuta de sua irmã. Xiu estava certa. Ela se sentira como um pássaro. Como se tivesse flutuado e girado em torno daquele feixe de luz, sem medo. Ela se sentira viva. Mais viva do que nunca. Ela parecia um pássaro ganhando o céu, brincando com o vento. Não como uma galinha desajeitada, mas como uma graciosa ave de rapina.

Mas como era possível? Ela não ousara pensar sobre o assunto até esse momento, mas sabia que tinha escapado por pouco de se machucar, ou algo pior. Seja lá o que fosse, aquele sentimento dentro dela tinha conseguido salvá-la. O que era estranho. Não havia possibilidade de ela explicar isso para a irmã, porque Xiu, certamente, iria achar tudo muito esquisito. Então, Mulan mudou de assunto.

– Xiu – ela disse, parando o movimento da mão. – Não entre em pânico, mas há uma aranha subindo em seu cabelo.

Xiu ergueu os ombros em direção às suas orelhas e, então, virou-se com tudo para encarar a irmã, seu rosto inocente tomado de medo.

– Você sabe que eu tenho medo de aranhas – ela disse, e seu lábio inferior começou a tremer. Então, os seus olhos se estreitaram. – Este não é um de seus truques, né, Mulan?

Mulan tentou não sorrir.

– Não se mova – avisou. – Se você ficar quietinha, vou esmagá-la...

Mas a sua fala foi interrompida pela voz de sua mãe ressoando lá de baixo.

– Você mima demais essa menina – Li falou, sua voz alta vindo da sala de estar.

Mulan e Xiu pararam para ouvir. Fechando os olhos, Mulan prendeu a respiração. Ela podia imaginar o pai e a mãe em sua típica rotina noturna: a mãe arrumando a casa e o pai tirando a atadura de sua perna. Só que, naquela noite, eles não estavam realizando as suas tarefas silenciosamente, como sempre faziam.

– Não há nenhum mal em ajudar com as galinhas – Zhou respondeu.

Mulan ouviu os passos suaves e regulares de sua mãe caminhando em direção ao marido.

– Você sabe que não estou falando de galinhas – ela continuou. – Eu estou falando sobre ela... Esse seu espírito arrojado. Não podemos incentivá-lo.

– Mulan é jovem – Zhou argumentou. – Ela ainda está aprendendo a se controlar.

Lá em cima, no quarto, Mulan ficou nervosa. Sabia que o pai tinha boa intenção, mas ele estava falando dela como se fosse uma égua selvagem, não como sua filha. Ela se remexeu sobre o banco, desejando que pudesse parar a conversa, mas, ao mesmo tempo, estava curiosa para ver aonde iria dar. Ela não teve de esperar muito.

– Você justifica o que ela faz! – Li protestou, com frustração em sua voz. – Você se esquece de que Mulan é uma filha, não um filho. Uma filha traz honra para a família por meio do casamento.

– Qualquer homem seria sortudo de se casar com a nossa Mulan – disse Zhou.

Ouvindo a certeza na voz do seu pai, Mulan mordeu o lábio. Ela queria ser a garota que ele acreditava que ela fosse. Talvez perseguir a galinha tivesse sido um pouco imprudente. E talvez ela devesse ter escutado o pai quando ele lhe pediu que parasse. Mas será que as suas atitudes bobas realmente estavam arruinando a sua perspectiva de um casamento no futuro?

Como se estivesse ouvindo os pensamentos da filha, Li continuou:

– Xiu não me dá nenhum problema. A casamenteira vai encontrar um bom marido para ela.

Mulan não precisava estar na sala para imaginar a careta no rosto de sua mãe, ou a maneira nervosa como ela devia estar esfregando a testa. Quando falou de novo, sua voz soou triste, angustiada.

– É com Mulan que me preocupo. Sempre com Mulan. – Houve outra pausa e, então, ela continuou, sua voz quase impossível de ouvir: – Eu não sei qual é o lugar dela neste mundo.

O silêncio instalou-se na sala.

Mulan sentiu os olhos da irmã sobre ela, mas se recusou a levantar a cabeça. Em vez disso, olhou para a escova de cabelo em seu colo e esfregou ansiosamente as cerdas. A voz de sua mãe ecoou dentro de si. Será que ela estava certa? Não havia lugar para ela no mundo? Lentamente, Mulan soltou um suspiro irregular. Ela nunca sentira que verdadeiramente pertencesse ao grupo de meninas da aldeia. Era sempre a primeira a ir parar em uma poça de lama ou a rasgar a barra da camisa. Sempre se sentira mais confortável ao lado do pai, no campo, do que ao lado da mãe, no fogão. Mas nunca tinha pensado que isso pudesse ser errado... até agora.

– Ela não falou de coração – Xiu a consolou.

Mulan permaneceu em silêncio. Ela não estava pronta para falar.

Mas sua irmã era determinada.

– Fale da aranha – Xiu insistiu.

– Não há aranha nenhuma – murmurou Mulan. Ela não estava com cabeça para joguinhos.

– Quantas pernas ela tem? – Xiu continuou, ignorando a careta da irmã.

Mulan suspirou.

– Você sabe que as aranhas têm oito pernas – ela respondeu, incapaz de se controlar.

– Não é preta, ou é? – Xiu perguntou, fingindo um olhar assustado, como se uma aranha de verdade estivesse subindo nela.

Ela esperou para ver o que Mulan faria ou diria.

Mulan olhou para a irmã. O rosto de Xiu era inocente e cheio de esperança e, embora não quisesse mais nada além de se afundar em autopiedade por mais alguns momentos, Mulan nunca fora capaz de dizer não a Xiu. Ela ficava impotente diante do enorme coração da irmãzinha. Então, começou a assentir com a cabeça.

– Sim, ela é preta. Com bolinhas vermelhas – ela disse, envolvendo-se na história. – E sinto muito em dizer que é bem peluda! Está subindo pelo seu pescoço agora mesmo! Ela esticou os dedos e fez cócegas no pescoço de Xiu.

Em resposta, Xiu gritou. Um sorriso substituiu a careta de Mulan. Sua mãe podia não saber onde ela se encaixava no mundo, mas, agora, Mulan estava mais preocupada em fazer sua irmã rir e curtir aquele momento. Haveria tempo de sobra para se preocupar com o futuro – depois.

 

Infelizmente, não foi tão depois assim. Ao acordar de um pesadelo terrível, em que estava correndo atrás de uma galinha do tamanho de uma pessoa, Mulan se sentou na cama com o coração batendo rápido. Lá fora, o luar iluminava a noite. Ela se levantou, caminhou até a janela e olhou para o pátio lá embaixo.

No centro, o santuário ancestral estava brilhando sob feixes de luz branca. As chamas das velas tremulavam fracamente lá dentro, apenas o suficiente para lançar sombras sobre a estátua da Fênix – e sobre a asa que estava faltando.

Talvez, pensou Mulan, tudo ficará bem... Se eu consertar a Fênix.

Saindo do quarto na ponta dos pés, ela desceu as escadas até a cozinha, alcançou o armário e pegou uma tigela grande e um pilão de pedra. Passando para a mesa, organizou os utensílios e encheu a tigela com as sobras de arroz grudento do jantar. O mais silenciosamente possível, ela começou a amassar o arroz. Os grãos grandes rapidamente viraram uma papa, e depois uma pasta espessa. Satisfeita, Mulan pegou a tigela e saiu de casa.

Ao pisar lá fora, uma nuvem cobriu a lua, fazendo com que uma escuridão repentina tomasse conta do pátio e do santuário. Por um momento, Mulan parou. Talvez ela devesse simplesmente deixar as coisas como estavam; talvez já tivesse causado danos demais. Mas, então, a nuvem se moveu e, mais uma vez, o santuário ficou luminoso. A Fênix, sempre paralisada como se estivesse prestes a se erguer das cinzas, parecia manca com apenas uma asa. Mulan assentiu para si mesma. Ela iria consertar o que tinha quebrado.

Ao entrar no santuário, Mulan ajoelhou-se no chão. Em seguida, ergueu a asa quebrada e a colocou em seu colo. Lenta e cuidadosamente, ela espalhou a pasta espessa na extremidade da asa. Depois de cobrir toda a lateral, ela se levantou e caminhou até a estátua. Recolocou, então, a asa no corpo. Ficou ali quietinha, e seus dedos foram ficando brancos ao pressionar a asa contra o corpo do pássaro, esperando que colasse. Quando teve certeza de que tinha pressionado o suficiente, ela retirou a mão, dedo por dedo.

Mulan esperou, observando se a asa ficaria no lugar.

Mesmo ouvindo passos, Mulan manteve os olhos grudados no pássaro. Um instante depois, ela sentiu seu pai ao lado dela. Os olhos dele também se focaram no pássaro. Ambos ficaram em silêncio, cada um perdido nos próprios pensamentos.

– Mulan – Zhou finalmente disse. A voz dele era suave, mas firme. – O que aconteceu hoje, eu nunca mais quero ver acontecer novamente. – Ele parou, virando-se a fim de encarar a filha. Ao ver que Mulan não olhava para ele, estendeu a mão e colocou um dedo sob o seu queixo para levantar a sua cabeça. – Entendido? – ele perguntou.

Respirando profundamente, Mulan assentiu. Seu pai sorriu, mas a decepção ainda era visível em seus olhos. Mulan odiava ver isso. Os olhos dele nunca tinham demonstrado outra coisa que não carinho e admiração por ela. Afastando a cabeça, incapaz de suportar o olhar dele, Mulan virou de volta para a Fênix. Enquanto observava, a asa começou a se descolar.

Mulan, com os olhos cheios de lágrimas, percebeu o quão permanente era o dano que causara.

Sem falar, Zhou estendeu a mão e, com alguma dificuldade, pressionou a asa no lugar.

– Você sabe por que a Fênix fica sentada à direita do Imperador? – ele perguntou, sem tirar os olhos do pássaro. Mulan sacudiu a cabeça. Ele explicou: – Ela é a sua guardiã. Sua protetora.

– Mas eu a quebrei – sussurrou Mulan.

Zhou assentiu.

– Ah, você sabia que ela é metade macho e metade fêmea? Ela é bonita e forte ao mesmo tempo. – Mais uma vez, ele parou e olhou nos olhos de Mulan. Já não havia mais decepção. – O fracasso não é fatal, Mulan. Essa é a lição da Fênix. O que importa é levantar e continuar a cada dia. A Fênix vai cuidar de você. É o trabalho dela. E o seu trabalho é trazer honra para sua família. Você acha que pode fazer isso?

Mulan olhou para o pai. Ela nunca tinha ouvido a lição da Fênix dessa forma. Sabia que a Fênix protegia o Imperador. Mas ela também a protegia? Aí já era outra coisa. Se o pássaro mítico podia lhe oferecer proteção, o mínimo que Mulan podia fazer era oferecer um sacrifício para a sua família. Se isso significava seguir o mesmo caminho de sua irmã e ficar à sombra da mãe, é isso que ela faria. Se isso significava deixar as galinhas fugirem, ela as deixaria fugir. Faria o que seu pai lhe pedira. Deixaria a sua família orgulhosa, traria honra a eles, não importa que tipo de sacrifício tivesse de fazer.

Mulan segurou a mão de seu pai e eles caminharam de volta para casa. Atrás deles, a asa da Fênix caiu de novo.