Mulan

Elizabeth Rudnick · Capítulo 18 de 22

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Mulan

Dezoito

 

Escondida no alto de um penhasco, Mulan olhou para a cordilheira onde o exército de rourans preparava o seu ataque. Viu um dos homens gritando ordens, enviando alguns soldados para a beira da cordilheira com arcos e flechas, enquanto outros carregavam uma pedra grande e pesada para o trabuco. Gemendo com o esforço, os homens a colocaram em posição, de modo que ela caísse com tudo sobre o vale – e os soldados imperiais.

Esperando um momento para se certificar de que estava pronta, Mulan olhou à sua frente. Os elmos que ela recolhera no campo de batalha estavam alinhados em uma fileira. Vento Negro estava escondido em segurança. Ela estava pronta. Erguendo o arco, ela se virou e mirou nos rourans.

Sua primeira flecha voou pelo ar. Houve um grito de surpresa quando um invasor caiu no chão. Depois, outro. E outro. Não demorou muito para os soldados perceberem o que estava acontecendo. Um deles virou-se e Mulan o viu vasculhando a cordilheira onde ela estava escondida. Avistando os elmos imperiais, ele soltou um grito de raiva. Dando novas ordens, ele fez os seus homens desviarem a atenção do vale. Eles moveram o trabuco até ficar apontado para a montanha onde Mulan estava.

Ao sinal do líder, os rourans dispararam flechas sobre a fila de elmos imperiais, sem saber que não passavam de um truque, manequins para enganar o inimigo. Quando pareceu que os soldados imperiais estavam ilesos, os rourans ficaram ainda mais irritados. A atenção deles voltou-se para o trabuco. Mulan assistiu, esperando que o seu plano desse certo.

No momento seguinte, o grupo de invasores tacou fogo na pedra coberta de combustível, já posicionada no trabuco. A pedra rapidamente se incendiou. Os invasores, então, a lançaram.

Diante da pedra flamejante cortando o ar, Mulan prendeu a respiração. A pedra era enorme e pesada e, embora tivesse sido lançada com grande força, parecia se mover em câmera lenta pelo céu. Para o plano de Mulan funcionar, ela precisava que a pedra voasse com toda a força.

Voando cada vez mais para perto, acabou batendo na encosta cheia de neve atrás dela com um estrondo alto. O barulho do impacto ecoou montanha e vale abaixo. O Exército Imperial, parecendo tão pequeno quanto formiguinhas lá embaixo, pareceu paralisar ao ouvir o barulho. Mulan esperou. Então, abaixou-se e colocou a mão no chão. E sentiu. Apenas a menor das vibrações foi suficiente para dizer a ela que seu plano havia funcionado.

Sem esperar para ver o resultado da avalanche que já começara a rolar penhasco abaixo, Mulan saiu correndo. Ela tropeçou e deslizou pela neve pesada, enquanto o chão ia tremendo mais violentamente conforme a avalanche ficava mais forte.

Mulan ouviu os gritos dos invasores conforme os estrondos aumentavam e, então, os gritos se transformaram em berros aterrorizados quando, atrás dela, formou-se uma parede branca. A avalanche avançou na direção deles, sem se importar com o exército que destruía em seu caminho. A neve, volumosa e silenciosa, agora era um animal livre, engolindo qualquer coisa à sua frente. Sentindo o vento da avalanche atrás dela, Mulan ganhou velocidade. Mas a neve continuava se aproximando. Ela assobiou alto, e Vento Negro apareceu. Ele correu para o lado dela e, pouco antes de a neve a engolir, ela pulou nas costas do cavalo.

Juntos, eles galoparam à frente da avalanche enquanto a neve beliscava os cascos do cavalo. Atrás dela, o exército invasor não teve a mesma sorte. Sem cavalos e carregando o peso de suas armaduras, eles desapareceram em meio à massa branca.

Mulan logo se esqueceu deles. Ela apenas continuou galopando, com a preocupação e o medo crescendo em seu estômago. Quando elaborara o plano, ela se esquecera do principal: ela não conseguiria controlar a neve. Ela queria que a avalanche destruísse o inimigo, mas não havia pensado no que aconteceria depois disso. Agora a neve estava indo em direção ao Exército Imperial. E sua velocidade não estava reduzindo.

Impulsionando Vento Negro, Mulan viu os rostos dos soldados imperiais mais claramente ao descer pela encosta da montanha. Ela assistiu, horrorizada, ao trabuco caindo descontroladamente, espatifando-se bem em cima de Cricket. Seu grito ficou preso na garganta enquanto observava Honghui correr e empurrar o trabuco de cima do amigo. Tirando Cricket dali, assim que ficou em pé, Honghui foi atingido por uma onda de neve que o tragou.

Mulan não hesitou. Batendo as pernas contra as laterais de Vento Negro e puxando as suas rédeas, ela virou o cavalo relutante em direção à neve. Vento Negro bufou com o esforço ao tentar se mover para o local onde Honghui havia desaparecido. Ele mal conseguia andar na neve e, sobre as suas costas, Mulan lutava para permanecer em cima dele.

De repente, Mulan viu a mão de Honghui surgindo de debaixo da neve. Estendendo o braço, ela conseguiu agarrar a mão dele e, então, com a sua última gota de força, ela o puxou sobre as costas de Vento Negro. Ele estava desfalecido sobre a sela, com os olhos fechados e a respiração superficial. Girando Vento Negro mais uma vez, Mulan galopou à frente. O solo foi ficando menos irregular e a neve começou a diminuir, depois parou por completo.

A avalanche terminara.

No silêncio que se seguiu, Mulan parou Vento Negro, que ofegava na tentativa de recuperar o fôlego. Ele a salvara – e também Honghui. Estendendo a mão, ela lhe deu um tapinha agradecido no pescoço antes de descer.

Com esforço, ela conseguiu tirar o corpo inconsciente de Honghui de cima do lombo de seu cavalo. Deitando-o gentilmente, ela olhou para ele por um longo momento, observando o seu peito subir e descer. Ele estava vivo. Ela o salvara a tempo.

Ouvindo os gritos dos outros homens que acordavam de seu estado de choque, Mulan dirigiu a Honghui um último olhar suplicante. Ela queria ficar para ter certeza de que ele realmente ficaria bem, mas precisava se certificar de que os ataques dos rourans tinham mesmo terminado. Virando-se, ela desapareceu na névoa.

 

O corpo de Honghui doía por completo. Quando abriu os olhos, ele viu que estava deitado perto do que restara do Exército Imperial. Sua cabeça latejava e, quando tentou ficar em pé, as suas pernas quase cederam. A última coisa de que ele se lembrava era de quando salvara Cricket. Depois, apenas uma cortina branca. Acordou, então, no chão.

Mas, pelo menos, estava acordado. Teve uma sensação estranha, quase uma lembrança de alguém o puxando, de alguém o ajudando, embora soubesse que isso era impossível. Apenas a mais louca das pessoas enfrentaria a avalanche. Afastando esse pensamento, ele foi até o Comandante Tung. Quando se aproximou, ouviu Cricket o chamando.

– Alguém viu Hua Jun? – perguntou Cricket, escaneando a área.

Honghui percebeu que o Comandante Tung também prestou atenção à pergunta. Seus olhos cansados da batalha procuraram os seus homens. Avistando Honghui, ele o chamou.

– Você viu Hua Jun? – perguntou o Comandante.

Honghui balançou a cabeça, com um buraco crescendo em seu estômago. Hua Jun tinha sido engolido pela neve? Ou derrubado pela flecha de um invasor, antes mesmo de a avalanche começar?

Um dos soldados deu um grito. Honghui viu, então, uma figura à distância. O nevoeiro tornava difícil distinguir detalhes, mas, quando a figura se aproximou, Honghui de repente conseguiu respirar profundamente. Era a mulher guerreira que ele tinha visto em batalha. Não havia nenhuma dúvida sobre isso. Os seus longos cabelos chacoalhavam para trás enquanto ela atravessava o vale no topo de seu cavalo gigante.

– Vento Negro?

Ao ouvir Cricket, Honghui virou-se assustado para o jovem soldado agora bem ao lado dele. Ele também estava olhando para a guerreira. Vento Negro? Honghui repetiu silenciosamente. Do que Cricket estava falando? Vento Negro era o cavalo de Hua Jun. Sua boca se abriu quando a amazona saiu da névoa e ficou bem em frente a eles. O cavalo era mesmo Vento Negro. O que significava que a mulher que o estava montando era...

– Hua Jun? – perguntou o Comandante Tung, dando voz aos pensamentos de Honghui.

A guerreira balançou a cabeça enquanto desmontava do cavalo.

– Eu sou Hua Mulan – respondeu ela, com sua voz forte, firme e feminina.

A cabeça de Honghui virou para o Comandante Tung e depois para o soldado que ele conhecia como Hua Jun. O rosto do Comandante empalideceu, e suas mãos tremeram um pouquinho enquanto olhava para Mulan. Honghui podia ver – e compreender – a dificuldade do Comandante de entender o que estava acontecendo.

Mulan também conseguia ver. Ela se endireitou, mantendo uma expressão estoica. Mas Honghui viu o desconforto surgindo no corpo dela. Os seus ombros caíram um pouco, e ela parecia estar tremendo de leve. A orgulhosa guerreira estava começando a desaparecer sob o olhar horrorizado do Comandante Tung.

Ao lado de Honghui, Cricket ofegou enquanto fazia a conexão.

– Ele é uma garota...? – perguntou ele, balançando a cabeça.

Os outros soldados também murmuraram baixinho, chocados e quase não acreditando no que estavam vendo. A raiva de Honghui só foi aumentando. Hua Jun mentira para ele. Ele, ou melhor, ela tinha sido capaz de lhe dizer como se dirigir a uma mulher não porque já tivesse falado com uma, mas porque ela era uma! Ele havia se permitido ficar vulnerável na frente dela, e ela até o vencera em batalha – mais de uma vez. Suas bochechas ficaram vermelhas quando ele se lembrou do episódio do lago.

Enquanto isso, a expressão do Comandante Tung estava gélida.

– Você é uma impostora – ele sussurrou, sua voz pesada com a decepção. – Você traiu o seu regimento.

Mulan abaixou a cabeça de vergonha. O Comandante Tung continuou:

– Você trouxe desgraça para a família Hua.

Suas palavras cortaram Mulan como uma espada em seu coração. Ela levantou a cabeça. Não havia nada pior que ele pudesse dizer.

– Comandante... – ela implorou.

Mas o Comandante não a deixou terminar.

– Sua mentira é minha vergonha – continuou. – Quando voltarmos para a capital, entregarei o meu posto.

Um murmúrio de choque se espalhou entre os soldados. Ele renunciaria ao cargo? Isso seria quase inédito! O Comandante Tung tinha uma carreira de décadas. Fora um dos comandantes mais poderosos e conhecidos de todo o Exército Imperial. E agora ele jogaria tudo fora por causa da mentira de Mulan? Os homens olhavam uns para os outros. Mulan podia até ter ajudado a derrotar os rourans na luta, mas será que valera a pena perder o seu líder graças a essa vitória? Enquanto os murmúrios ficavam mais altos, o Sargento Qiang deu um passo à frente.

– Qual é a punição atribuída a um impostor? – perguntou ele.

O Comandante Tung não hesitou:

– Expulsão.

Com isso, os murmúrios tornaram-se mais altos, o horror se misturando ao medo a cada palavra. Honghui viu Mulan balançar a cabeça. Ela deu um passo em direção ao Comandante, com os olhos implorando para que ele entendesse.

– Prefiro ser executada – disse ela.

O Comandante a ignorou, virando as costas para ela. O Sargento Qiang, dando um passo à frente, respirou fundo e, na presença de todos, sentenciou-a formalmente.

– A partir deste momento em diante – disse ele – você está expulsa do Exército Imperial do Imperador.

Quando as palavras do Sargento atingiram Mulan, o seu corpo pareceu se encolher. Os olhos dela perderam a luz. Honghui assistiu a isso sentindo um misto de emoções desenfreadas. Mulan merecia aquilo. Ela mentira para todos e os colocara em risco. Ela mexeu com a cabeça dele – e com o coração. Ainda assim, ele não conseguia deixar de pensar que ela fora imprudentemente corajosa em fazer o que fizera. Entrar para o exército, arriscando ser descoberta a cada passo. Mas ela tinha conseguido. E tinha se saído muito bem. Tinha os salvado. Todos eles.

Ele sacudiu a cabeça, endurecendo o seu coração. Isso não importava. Não mais. Ela estava expulsa. Passaria o resto de seus dias sozinha e envergonhada.

Mulan pegou as rédeas de Vento Negro e se afastou, mantendo os olhos no chão, envergonhada demais para fazer contato visual com qualquer um dos soldados. Honghui observou-a indo embora até se tornar apenas um pontinho no horizonte. Hua Jun, ele se deu conta enquanto se virava e caminhava até os seus camaradas, não existia mais. As coisas foram resolvidas como deveriam ter sido.

Mas, se foram resolvidas como deveriam ter sido, Honghui se perguntou, por que parecia tudo tão errado?