O Bazar dos Sonhos Ruins
Milha 81
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 2 partes.
— Nossa, é tão macio! — exclamou Blake.
Carla nunca tinha visto o filho ficar tão impressionado. Por que nunca levamos essas crianças para uma fazendinha?, ela se perguntou, e na mesma hora incluiu esse item em sua lista mental de coisas a fazer.
— Minha vez! Minha vez! — Rachel ficou repetindo, dançando ao redor com impaciência.
A moça grande colocou Blake no chão.
— Pode lamber o sorvete enquanto eu levanto sua irmã — disse ela para ele —, mas não vai contaminar nada aí, tá?
Carla pensou em dizer para Blake que comer comida de outras pessoas, principalmente de estranhos, não era legal. Mas notou o sorriso divertido de Johnny e resolveu deixar pra lá. As crianças iam para a escola, que era basicamente uma fábrica de germes. Ela dirigia com elas por centenas de quilômetros da rodovia, onde qualquer idiota bêbado ou adolescente usando o celular podia atravessar a faixa divisória de pistas e matar todo mundo. Como ia proibir uma lambida no sorvete de outra pessoa? Isso seria levar a mentalidade da cadeirinha de carro e do capacete de bicicleta longe demais, talvez.
A moça do cavalo levantou Rachel para que ela pudesse fazer carinho no focinho do cavalo.
— Uau! Que legal! — disse Rachel. — Qual é o nome dela?
— DeeDee.
— Que nome lindo! Eu te amo, DeeDee!
— Eu também te amo, DeeDee — disse a moça do cavalo, e deu um beijo estalado no focinho de DeeDee. Isso fez todo mundo rir.
— Mãe, a gente pode ter um cavalo?
— Claro! — disse Carla calorosamente. — Quando fizer vinte e seis anos!
Isso fez Rachel fechar a cara (testa franzida, bochechas infladas, cantos da boca virados para baixo), mas quando a moça do cavalo riu, Rachel cedeu e riu também.
A mulher se inclinou até Blake, as mãos apoiadas nos joelhos cobertos pela saia-calça de montaria.
— Posso pegar minha casquinha de volta, rapazinho?
Blake ofereceu o sorvete. Quando ela o pegou, ele começou a lamber os dedos, que estavam cobertos de pistache derretido.
— Obrigada — disse Carla para a moça do cavalo. — Foi muita gentileza sua. — E, para Blake: — Vamos lá para dentro lavar essas mãos. Depois vocês podem tomar um sorvete.
— Eu quero o mesmo sabor que o dela — pediu Blake, e isso fez a moça do cavalo rir ainda mais.
Johnny insistiu para que eles tomassem os sorvetes antes de entrarem no carro porque não queria que o Expedition ficasse sujo de pistache. Quando terminaram e saíram para o estacionamento, a moça do cavalo já tinha ido embora.
Foi mais uma daquelas pessoas que se conhecia na estrada e que eram às vezes cruéis, mais vezes simpáticas, algumas vezes até incríveis, mas que depois nunca mais se encontrava.
Só que ali estava ela, ou ao menos a picape, parada no acostamento com cones de trânsito atrás do trailer. E Carla estava certa, a moça do cavalo foi legal com as crianças. Pensando assim, Johnny Lussier tomou a pior (e última) decisão de sua vida.
Ele ligou a seta e parou na rampa como Carla sugeriu, na frente do Prius de Doug Clayton, que ainda estava com o pisca-alerta ligado, e ao lado da perua enlameada. Botou o câmbio na posição estacionar, mas deixou o motor ligado.
— Quero fazer carinho no cavalinho — pediu Blake.
— Eu também quero fazer carinho no cavalinho — exigiu Rachel no tom arrogante de dona do pedaço que ela aprendera sabia-se lá onde. Deixava Carla louca, mas ela se recusava a reclamar com a filha. Se fizesse isso, Rachel iria usá-lo ainda mais.
— Não sem a permissão da moça — disse Johnny. — Vocês vão ficar dentro do carro. Você também, Carla.
— Sim, senhor — disse Carla na voz zumbi que sempre fazia as crianças rirem.
— Que engraçadinha, coelhinha.
— A cabine da picape está vazia — disse Carla. — Os dois carros parecem vazios. Você acha que foi um acidente?
— Não sei, mas não parece ter nada amassado. Eu já volto.
Johnny Lussier abriu a porta, contornou a traseira do Expedition que nunca terminaria de pagar e foi até a cabine do Dodge Ram. Carla não tinha visto a moça do cavalo lá, mas ele queria ter certeza de que ela não estava deitada no banco, talvez tendo um ataque cardíaco. (Como corredor convicto, Johnny secretamente acreditava que havia um ataque cardíaco esperando por qualquer pessoa que tivesse mais de quarenta e cinco anos e estivesse pelo menos três quilos acima do peso ideal indicado pelo Medicine.Net.)
Ela não estava caída no banco (claro que não, Carla teria visto uma mulher grande daquele jeito mesmo deitada) e também não estava no trailer. Só a égua estava, e ela botou a cara pelo vão e farejou o rosto de Johnny.
— Oi… — Por um momento, o nome não veio. — … DeeDee. Como estão as coisas?
Ele fez um carinho no focinho da égua e voltou para a rampa para investigar os outros dois veículos. Viu que houve uma espécie de acidente, embora bem pequeno. A perua tinha derrubado alguns dos cones laranja que bloqueavam a rampa.
Carla abriu a janela, uma coisa que as crianças não podiam fazer no banco de trás devido à trava de segurança.
— Algum sinal dela?
— Não.
— Algum sinal de alguém?
— Carla, dá um t… — Ele viu os celulares e a aliança ao lado da porta parcialmente aberta da perua.
— O que foi? — Carla esticou o pescoço para ver.
— Só um segundo. — A ideia de mandar a esposa trancar as portas passou por sua cabeça, mas ele a ignorou. Estavam na I-95 em plena luz do dia, caramba. Havia carros passando a cada vinte ou trinta segundos, às vezes dois ou três de cada vez.
Ele se inclinou e pegou os celulares, um em cada mão. Virou-se para Carla e não viu a porta da perua se abrindo mais e mais, como uma boca.
— Carla, acho que tem sangue neste aqui. — Ele levantou o celular rachado de Doug Clayton.
— Mãe? — disse Rachel. — Quem está naquele carro sujo? A porta está se abrindo.
— Volte — pediu Carla. Sua boca ficou seca de repente. Ela queria gritar, mas parecia haver uma pedra em seu peito. Era invisível, mas bem grande. — Tem alguém naquele carro!
Em vez de se afastar, Johnny se virou e se inclinou para olhar dentro da perua. Quando fez isso, a porta se fechou na cabeça dele. Houve um som terrível. A pedra no peito de Carla sumiu de repente. Ela inspirou e gritou o nome do marido.
— O que está acontecendo com o papai? — gritou Rachel. A voz dela soou alta e aguda. — O que está acontecendo com o papai?
— Papai! — gritou Blake. Ele estava examinando seu mais novo Transformer, mas agora olhava ao redor, desesperado, para ver onde o papai em questão tinha ido.
Carla não pensou. Ela via o corpo do marido ali, mas com a cabeça dentro da perua suja. Ele ainda estava vivo; os braços e as pernas se debatiam. Ela saiu do Expedition sem nem saber que havia aberto a porta. O corpo parecia agir por vontade própria, o cérebro atordoado só acompanhando.
— Mamãe, não! — gritou Rachel.
— Mamãe, NÃO! — Blake não fazia ideia do que estava acontecendo, mas sabia que era ruim. Ele começou a chorar e a lutar contra os cintos que o prendiam na cadeirinha.
Carla segurou Johnny pela cintura e puxou com a superforça impressionante da adrenalina. A porta da perua se abriu parcialmente, e sangue escorreu para o chão como uma pequena cachoeira. Por um momento horrível ela viu a cabeça do marido no assento da perua enlameada, inclinada em um ângulo impossível. Apesar de ele ainda estar tremendo nos braços dela, Carla entendeu (em um daqueles momentos de clareza que podiam surgir mesmo em meio a uma tempestade de pânico) que era assim que vítimas de enforcamento ficavam quando eram retiradas da forca. Porque os pescoços estavam quebrados. Naquele momento breve e intenso, naquele vislumbre veloz, ela achou que o marido parecia burro e surpreso e feio, com toda a essência de Johnny extraída de si, e soube que ele já estava morto, estrebuchando ou não. Era assim que uma criança ficava quando caía de cabeça nas pedras em vez de na água, ao mergulhar. Como uma mulher ficava após bater o carro no guarda-corpo de uma ponte e se descobrir empalada pelo volante. Era como uma pessoa ficava quando uma morte por desfiguração lhe acontecia de repente, dando as boas-vindas de braços abertos.
A porta do carro bateu com força. Carla ainda estava com os braços ao redor da cintura do marido, e quando foi puxada para a frente, ela teve outro brilho de lucidez.
É o carro, preciso ficar longe do carro!
Ela soltou a cintura de Johnny um segundo tarde demais. Uma mecha de cabelo encostou na porta e foi sugada. Sua testa bateu na porta do carro antes de ela conseguir se soltar. De repente, o alto da cabeça estava ardendo enquanto a coisa consumia seu couro cabeludo.
Corra!, ela tentou gritar para a filha muitas vezes problemática, mas inegavelmente inteligente. Corra e leve seu irmão com você!
Mas, antes que ela pudesse começar a articular o pensamento, sua boca foi consumida.
Só Rachel viu a perua se fechar na cabeça do pai como uma dioneia se fechando em um inseto, mas os dois viram a mãe ser puxada através da porta lamacenta feito uma cortina. Eles viram um dos sapatos dela cair, tiveram um vislumbre das unhas do pé cor-de-rosa, e ela sumiu. Um momento depois, o carro branco perdeu a forma e se fechou como um punho. Pela janela aberta do banco do carona, eles ouviram um som de esmagamento.
— O que foi isso? — gritou Blake. Os olhos jorravam lágrimas e o lábio inferior estava cheio de catarro. — O que tá acontecendo, Rach, o que tá acontecendo, o quê?
Os ossos deles, pensou Rachel. Ela só tinha seis anos e não podia ver filmes não recomendados para menores de doze anos, nem na TV (muito menos os não recomendados para menores de dezesseis anos), mas sabia que aquele era o som de ossos se partindo ao meio.
O carro não era um carro. Era algum tipo de monstro.
— Cadê a mamãe e o papai? — perguntou Blake, virando os olhos grandes, ainda maiores agora por causa das lágrimas, para ela. — Cadê a mamãe e o papai, Rach?
Ele está falando como se tivesse dois anos de novo, pensou Rachel, e talvez pela primeira vez na vida, ela sentiu uma coisa diferente de irritação (ou, quando extremamente provocada pelo comportamento dele, puro ódio) pelo irmãozinho. Não achou que esse novo sentimento fosse amor. Era uma coisa ainda maior. A mãe não pôde dizer nada no final, mas, se tivesse tido tempo, Rachel sabia o que teria sido: Tome conta do Blake.
Ele estava se debatendo na cadeirinha. Sabia soltar o cinto, mas no estado de pânico, tinha esquecido.
Rachel soltou o cinto de segurança, desceu do assento elevatório e tentou soltar o cinto dele. Uma das mãos de Blake acertou a bochecha dela num tapa estalado. Em circunstâncias normais, ela teria retaliado com um soco no ombro (e ficaria um tempo de castigo no quarto, olhando para a parede e fervendo de raiva), mas agora ela segurou a mão dele com firmeza.
— Para! Quero ajudar! Eu posso te tirar daí, mas não se você fizer isso!
Ele parou de se debater, mas continuou chorando.
— Onde está papai? Onde está mamãe? Eu quero a mamãe!
Eu também quero, babaca, pensou Rachel, e soltou o cinto da cadeirinha dele.
— Nós vamos sair agora, e vamos…
O quê? O que eles iam fazer? Ir até o restaurante? Estava fechado, por isso havia os cones laranja na rampa. Por isso as bombas do posto de gasolina tinham sido retiradas e o mato havia tomado o estacionamento vazio.
— Nós vamos sair daqui — concluiu ela.
Ela saiu do carro e foi até o lado de Blake. Abriu a porta dele, mas ele só ficou olhando para ela, os olhos marejados.
— Eu não consigo sair, Rach, vou cair.
Não seja um bebê medroso!, ela quase disse, mas não falou. Não era hora para isso. Ele já estava bem nervoso. Ela abriu os braços e disse:
— Escorregue. Eu seguro você.
Ele olhou para ela com dúvida, depois escorregou. Rachel o pegou, mas ele era mais pesado do que imaginava, e os dois caíram no chão. Foi pior para ela porque estava embaixo, mas Blake bateu a cabeça e arranhou a mão e começou a chorar alto, desta vez de dor em vez de medo.
— Para — ordenou ela, saindo de debaixo dele. — Está na hora de virar homem, Blake.
— Hã?
Rachel não respondeu. Estava olhando para os dois celulares ao lado da perua horrível. Um deles parecia quebrado, mas o outro…
Ela se aproximou do aparelho engatinhando, sem tirar os olhos do carro dentro do qual a mãe e o pai tinham desaparecido de forma tão repentina e apavorante. Quando estava se aproximando do celular bom, Blake passou por ela seguindo na direção da perua, esticando a mão arranhada.
— Mãe? Mamãe? Sai! Eu me machuquei. Você tem que sair e dar um beijinho pra melh…
— Fique onde está, Blake Lussier.
Carla teria ficado orgulhosa; era a voz que não deixava abertura para desobediência. E funcionou. Blake parou a pouco mais de um metro da lateral da perua.
— Mas eu quero a mamãe! Eu quero a mamãe, Rach!
Ela segurou a mão dele e o puxou para longe do carro.
— Agora, não. Me ajude a mexer nesse troço.
Ela sabia perfeitamente bem como usar um celular, mas tinha que distraí-lo.
— Me dá, eu sei mexer! Me dá, Rach!
Ela passou o aparelho para ele, e enquanto Blake examinava os botões, ela se levantou, agarrou-o pela camiseta do Wolverine e o puxou três passos para trás. Blake nem reparou. Ele encontrou o botão de ligar do celular de Julianne Vernon e apertou. Rachel tirou o aparelho da mão dele, e pela primeira vez em sua vida de garotinho pateta, ele não protestou.
Ela ouviu com atenção quando McGruff, o Cão que lutava contra o Crime, foi falar com as crianças na escola (apesar de saber perfeitamente bem que era um homem usando a roupa do McGruff) e não hesitou nem um segundo. Discou 911 e levou o celular ao ouvido. Tocou uma vez antes de ser atendido.
— Alô. Meu nome é Rachel Ann Lussier e…
— Esta ligação está sendo gravada — disse uma voz masculina junto à dela. — Se você quer registrar uma emergência, aperte um. Se quer relatar condições adversas na estrada, aperte dois. Se quer relatar um motorista com problemas…
— Rach? Rachel? Onde está mamãe? Onde está pap…
— Shhh! — fez Rachel com severidade, e apertou o 1. Foi difícil. A mão estava tremendo, e a visão, turva. Ela percebeu que estava chorando. Quando tinha começado a chorar? Não conseguia lembrar.
— Alô, aqui é da emergência — disse uma mulher.
— Você é de verdade ou também é uma gravação?
— Eu sou de verdade — respondeu a mulher, parecendo achar um pouco de graça. — Você deseja relatar uma emergência?
— Sim. Um carro mau comeu nossa mamãe e nosso papai. Está no…
— Pare enquanto está em tempo — aconselhou a mulher. Ela pareceu achar mais graça do que nunca. — Quantos anos você tem, querida?
— Tenho seis, quase sete. Meu nome é Rachel Ann Lussier, e um carro, um carro mau…
— Escute, Rachel Ann ou quem quer que você seja, eu consigo rastrear esta ligação. Você sabia? Aposto que não. Agora desligue ou vou ter que mandar um policial para a sua casa para te dar umas palmadas…
— Eles morreram, sua mulher burra do telefone! — gritou Rachel ao celular, e ao ouvir a palavra-chave, Blake começou a chorar de novo.
A mulher do serviço de emergência não disse nada por um momento. Em seguida, com a voz séria de quem não estava mais achando graça:
— Onde você está, Rachel Ann?
— No restaurante vazio! O que tem cones laranja!
Blake se sentou, abraçou os joelhos e escondeu o rosto. Isso doeu em Rachel de uma forma que ela nunca tinha sentido antes. Doeu no fundo do coração.
— Isso não é informação suficiente — disse a moça do telefone. — Você pode ser um pouco mais específica, Rachel Ann?
Rachel não sabia o que específica queria dizer, mas sabia o que estava vendo: o pneu de trás da perua, o mais próximo deles, parecia estar derretendo. Um tentáculo do que parecia borracha líquida estava se deslocando lentamente pelo asfalto na direção de Blake.
— Preciso desligar — disse Rachel. — Nós temos que ir para longe do carro mau.
Ela fez Blake se levantar e o arrastou mais um pouco para trás, olhando para o pneu derretido. O tentáculo de borracha começou a retroceder para o local de onde tinha vindo (porque sabe que estamos fora de alcance, pensou ela) e voltou à forma de pneu, mas isso não era o suficiente para Rachel. Ela continuou levando Blake pela rampa na direção da rodovia.
— Aonde estamos indo, Rach?
Eu não sei.
— Para longe do carro.
— Eu quero meus Transformers!
— Agora não, depois. — Ela segurou Blake com firmeza e foi recuando na direção da rodovia, onde o tráfego ocasional passava em disparada entre cento e dez e cento e vinte quilômetros por hora.
Nada era tão penetrante quanto o grito de uma criança; era um dos mecanismos de sobrevivência mais eficientes da natureza. O sono pesado de Pete Simmons já havia regredido a um leve cochilo, e quando Rachel gritou com a moça da emergência, ele ouviu e finalmente acordou.
Ele se sentou, fez uma careta e colocou uma das mãos na cabeça. Estava doendo, e ele sabia que tipo de dor era: a temida RESSACA. A língua parecia peluda e o estômago estava embrulhado. Não a ponto de ter ânsias de vômito, mas embrulhado mesmo assim.
Graças a Deus eu não bebi mais, pensou ele, e se levantou. Ele foi até uma das janelas cobertas pela rede de arame para descobrir quem estava gritando. Não gostou do que viu. Alguns dos cones laranja bloqueando a rampa de entrada da área de descanso tinham sido derrubados, e havia carros ali. Muitos.
Ele viu também duas crianças: uma garotinha de calça rosa e um garotinho de short e camiseta. Só os viu de vislumbre, o bastante para saber que estavam recuando, como se alguma coisa os tivesse assustado, e depois desapareceram atrás do que parecia um trailer de transportar cavalos.
Havia alguma coisa errada. Um acidente tinha acontecido, talvez, apesar de nada ali parecer acidental. Seu primeiro impulso foi o de sair dali correndo, antes de se envolver no que quer que tivesse acontecido. Ele pegou sua bolsa e foi na direção da cozinha e da plataforma de carga e descarga. Mas parou. Havia crianças lá fora. Crianças pequenas. Pequenas demais para estarem perto de uma estrada de alta velocidade como a I-95 sozinhas, e ele não tinha visto nenhum adulto.
Tem que ter algum adulto, você não viu aqueles carros todos?
Sim, ele tinha visto os carros, e uma picape presa ao trailer do cavalo, mas nenhum adulto.
Eu tenho que ir lá. Mesmo que fique encrencado, eu tenho que impedir aqueles garotos imbecis de serem atropelados na estrada.
Pete correu até a porta da frente do Burger King, viu que estava trancada e fez a si mesmo a pergunta que Normie Therriault teria feito: Ei, resto de placenta, sua mãe teve algum filho sem danos cerebrais?
Pete se virou e correu para a área de carga e descarga. Correr fez a dor na cabeça piorar, mas ele ignorou a sensação. Largou a bolsa na beirada da plataforma de concreto, começou a baixar o corpo e se soltou. Caiu de mau jeito, com a bunda no chão, mas também ignorou essa sensação. Levantou-se e lançou um olhar desejoso na direção do bosque. Ele podia desaparecer. Fazer isso talvez o poupasse de muita dor no futuro. A ideia era terrivelmente tentadora. Não era como nos filmes, onde o mocinho sempre tomava a decisão certa sem nem pestanejar. Se alguém sentisse vodca no hálito dele…
— Jesus — disse ele. — Ah, Jesus Cristinho!
Por que ele foi até ali? Isso que era ser uma criança imbecil!
Segurando Blake pela mão com firmeza, Rachel o levou até o fim da rampa. Quando eles chegaram lá, um caminhão-cegonha passou explodindo a mais de cem quilômetros por hora. O vento soprou o cabelo deles, sacudiu as roupas e quase derrubou Blake.
— Rachie, estou com medo! A gente não pode ir pra estrada!
Me diga alguma coisa que não sei, pensou Rachel.
Em casa, eles não podiam sair do jardim da frente, e quase não tinha trânsito na via Fresh Winds em Falmouth. O tráfego na rodovia não era constante, mas quando um carro passava, ia rápido à beça. Além do mais, para onde eles podiam ir? Podiam seguir pelo acostamento, mas seria horrivelmente arriscado. E não havia nenhuma saída ali, só bosque. Eles podiam ir até o restaurante, mas aí teriam que passar pelo carro mau.
Um carro esportivo vermelho passou disparado, e o cara atrás do volante apertou a buzina sem parar, o que fez Rachel ter vontade de tapar os ouvidos.
Blake a estava puxando, e Rachel se permitiu ser puxada. De um lado da rampa havia uma divisória. Blake se sentou em um dos cabos grossos entre as hastes que a formavam e cobriu os olhos com as mãos gorduchas. Rachel se sentou ao lado dele. Estava sem ideias.
5. JIMMY GOLDING (Crown Victoria 2011)
Um grito de criança podia ser um dos mecanismos de sobrevivência mais eficientes da mãe natureza, mas quando se tratava de pegar a estrada, nada chamava tanta atenção quanto um carro de polícia estacionado. Principalmente se o visor vazio e preto de um radar estivesse virado para o tráfego que se aproximava. Os motoristas a cento e dez quilômetros por hora reduziam para cem; os motoristas a cento e trinta pisavam no freio e começavam a calcular mentalmente quantos pontos iam perder nas habilitações se as luzes azuis surgissem atrás deles. (Era um efeito salutar que passava rapidamente; os apressados estavam correndo de novo entre quinze e vinte quilômetros depois.)
A beleza da viatura estacionada, pelo menos na opinião do policial estadual do Maine, Jimmy Golding, era que ele não precisava fazer nada. Só parava o carro e deixava a natureza (a natureza humana, nesse caso) seguir seu curso de culpa. Naquela tarde nublada de abril, seu radar Simmons SpeedCheck não estava nem ligado, e o tráfego seguindo pela I-95 no sentido sul era só um ruído leve em segundo plano. Sua atenção estava voltada para o iPad apoiado no volante.
Ele estava no meio de uma partida de Words With Friends, um joguinho on-line estilo Palavras Cruzadas, e sua internet era provida pela Verizon. Seu oponente era um antigo colega chamado Nick Avery, agora da Patrulha Estadual de Oklahoma. Jimmy não conseguia imaginar por que alguém trocaria o Maine por Oklahoma, parecia uma decisão ruim em sua opinião, mas não podia haver dúvida de que Nick era um excelente jogador de Words With Friends. Ele vencia Jimmy em nove a cada dez partidas, e estava com a vantagem no jogo atual. Mas a liderança de Nick estava por poucos pontos de diferença, o que era incomum, e todas as letras estavam fora da bolsa eletrônica. Se ele, Jimmy, conseguisse jogar as quatro letras que ainda tinha, conquistaria uma vitória merecida. No momento, estava olhando para FAZ. As três letras que ele possuía eram um E, um R e outro A. Se conseguisse modificar FAZ, não só venceria, mas também daria uma surra no velho amigo. Mas suas chances não pareciam boas.
Ele estava examinando o resto do tabuleiro, onde as perspectivas pareciam ainda mais infrutíferas, quando o rádio apitou duas vezes. Era um alerta a todas as unidades do serviço de emergência de Westbrook. Jimmy deixou o iPad de lado e aumentou o volume.
— Atenção, todas as unidades. Quem está mais perto da área de descanso da Milha 81? Alguém?
Jimmy pegou o microfone.
— Nove-um-um, aqui é Dezessete. Estou na Milha 85, ao sul da saída Lisbon-Sabattus.
A mulher que Rachel Lussier chamara de moça do telefone não se deu ao trabalho de perguntar se alguém estava mais perto; com uma das novas viaturas Crown Vic, Jimmy estava a três minutos de distância, talvez menos.
— Dezessete, eu recebi uma ligação três minutos atrás de uma garotinha que disse que os pais estão mortos, e depois recebi várias ligações dizendo que tem duas crianças desacompanhadas na entrada dessa área de descanso.
Ele nem perguntou por que nenhuma dessas pessoas parou. Já tinha visto isso antes. Às vezes, era medo de complicações legais. Mas na maioria das vezes, era um caso severo de não estar nem aí. Havia muito disso no mundo. Mesmo assim… crianças. Jesus, era de se imaginar…
— Nove-um-um, eu cuido disso. Dezessete desligando.
Jimmy acendeu as luzes azuis, verificou o retrovisor para ter certeza de que a estrada estava vazia e saiu da passagem de cascalho com a placa de PROIBIDO FAZER RETORNO, SOMENTE VEÍCULOS OFICIAIS. O motor V-8 do Crown Vic rosnou; o velocímetro digital subiu até cento e cinquenta e ficou. As árvores passavam como manchas dos dois lados da estrada. Ele alcançou um Buick velho e lerdo que se recusou a lhe dar passagem e o ultrapassou. Quando voltou para a pista principal, Jimmy viu a área de descanso. E outra coisa. Duas criancinhas — um garoto de short e uma garota de calça rosa — sentadas nos cabos da cerca ao lado da rampa de entrada. Eles pareciam os menores caronistas do mundo, e o coração de Jimmy se apertou tanto que doeu. Ele tinha filhos também.
Eles se levantaram quando viram as luzes da viatura, e por um segundo terrível Jimmy achou que o garotinho ia se jogar na frente do carro. Graças a Deus a garotinha o segurou pelo braço e puxou.
Jimmy desacelerou rápido o bastante para jogar o bloco de multas, o livro de registros e o iPad do banco do carona no chão. A parte da frente do Vic derrapou um pouco, mas ele controlou o carro e estacionou bloqueando a rampa, onde vários outros carros já estavam parados. O que estava acontecendo ali?
O sol surgiu detrás das nuvens nessa hora, e uma palavra totalmente desconectada com a situação brotou na mente de Jimmy Golding: AFAZER. Posso montar AFAZER e ganhar o jogo.
A garotinha estava correndo para o lado do motorista da viatura, arrastando o irmão, chorando e tropeçando, atrás dela. Seu rosto, pálido e apavorado, parecia anos mais velho do que deveria, e tinha uma mancha grande e molhada no short do menino.
Jimmy saiu, tomando cuidado para não acertar as crianças com a porta. Apoiou um joelho no chão para ficar da altura delas, que correram para seus braços, quase o derrubando.
— Opa, opa, calma. Vocês estão be…
— O carro mau comeu a mamãe e o papai — disse o garotinho, e apontou. — Aquele carro mau ali. Comeu eles como o lobo mau comeu a Chapeuzinho Vermelho. Você tem que salvar eles!
Era impossível saber para qual veículo o dedo gordinho estava apontando. Jimmy viu quatro: uma perua que parecia ter rodado por uma longa estrada de terra no meio da floresta, um Prius brilhando de tão limpo, um Dodge Ram puxando um trailer de transporte de cavalo e um Ford Expedition.
— Menina, qual é o seu nome? Eu sou o policial Jimmy.
— Rachel Ann Lussier — respondeu ela. — E este é Blake. Ele é meu irmãozinho. Nós moramos na rua Fresh Winds, 19, Falmouth, no Maine, zero-quatro-um-zero-cinco. Não chegue perto dele, policial Jimmy. Parece um carro, mas não é. Come gente.
— De qual carro você está falando, Rachel?
— Do primeiro, do lado do carro do meu pai. O cheio de lama.
— O carro cheio de lama comeu o papai e a mamãe! — proclamou o garotinho, Blake. — Você pode salvar eles, você é policial e tem uma arma!
Ainda apoiado no joelho, Jimmy abraçou as crianças e olhou para a perua cheia de lama. O sol sumiu de novo; as sombras deles desapareceram. Na rodovia, o tráfego passava veloz, mas um pouco menos agora que as luzes azuis da viatura estavam acesas.
Não havia ninguém no Expedition, no Prius nem na picape. Ele supunha que também não havia ninguém no trailer, a não ser que a pessoa estivesse encolhida, mas nesse caso o cavalo provavelmente pareceria mais nervoso do que já estava. O único veículo que ele não conseguiu ver por dentro era o que as crianças diziam ter comido os pais. Jimmy não gostou da forma como a lama estava cobrindo as janelas. Parecia deliberadamente sujo, de alguma forma. Também não gostou do celular quebrado ao lado da porta do motorista. Nem da aliança no chão. A aliança era bem apavorante.
Como se o resto não fosse.
A porta do motorista de repente se abriu um pouco, aumentando o quociente de pavor em pelo menos trinta por cento. Jimmy ficou tenso e levou a mão ao cabo da Glock, mas ninguém saiu de dentro do carro. A porta só ficou ali, entreaberta quinze centímetros.
— É assim que ele tenta fazer você entrar — disse a garotinha com uma voz que era pouco mais que um sussurro. — É um carro monstro.
Jimmy Golding não acreditava em carros monstro desde que vira o filme Christine quando era criança, mas acreditava que às vezes monstros se escondiam dentro de carros. E tinha alguém ali dentro. De que outra forma a porta teria se aberto? Podia ser um dos pais das crianças, ferido e sem conseguir gritar por ajuda. Também podia ser um homem deitado no banco, para que Jimmy não identificasse uma forma pela janela suja de lama. Talvez um homem armado.
— Quem está na perua? — gritou Jimmy. — Sou policial estadual e preciso que você se identifique.
Ninguém se identificou.
— Saia com as mãos para cima, quero vê-las vazias.
A única coisa que saiu foi o sol, projetando a sombra da porta no asfalto por um ou dois segundos antes de se esconder novamente atrás das nuvens. Depois disso, só ficou a porta ali, entreaberta.
— Venham comigo, crianças — pediu Jimmy, e levou os dois até a viatura. Ele abriu a porta de trás. Eles olharam para o banco, com sua bagunça de papéis, para a jaqueta forrada de Jimmy (da qual ele não precisava naquele dia) e para a escopeta presa e travada na parte de trás do assento. Principalmente para a arma.
— Mamãe e papai sempre dizem para não entrarmos no carro de um estranho — disse o menino Blake. — Dizem isso na escola também. Estranhos são perigosos.
— Ele é policial em um carro da polícia — disse Rachel. — Não tem problema. Entra logo. E se você tocar naquela arma, vou te dar um tapa.
— É um bom conselho sobre a arma, mas está presa e a trava está acionada — comentou Jimmy.
Blake entrou e espiou por cima do banco.
— Ei, você tem um iPad!
— Cala a boca — disse Rachel. Ela começou a entrar, mas olhou para Jimmy Golding com olhos cansados e horrorizados. — Não toque no carro. É grudento.
Jimmy quase sorriu. Ele tinha uma filha talvez um ano mais nova do que aquela garotinha, e ela talvez dissesse a mesma coisa. Ele achava que garotinhas se dividiam naturalmente em dois grupos distintos: as molecas e as que odiavam sujeira. Como sua Ellen, aquela era uma das que odiavam sujeira.
Foi com essa interpretação enganosa, e em breve fatal, do que Rachel Lussier quis dizer com grudento que ele bateu a porta de trás da Unidade 17. Jimmy se inclinou pela janela da frente da viatura e pegou o rádio. Não tirou os olhos da porta aberta da perua, e por isso não viu o garotinho parado ao lado do restaurante da área de descanso, segurando uma bolsa de couro falso contra o peito como se fosse um bebezinho azul. Um momento depois, o sol apareceu de novo, e Pete Simmons foi engolido pela sombra do restaurante.
Jimmy chamou a central.
— Dezessete, na escuta.
— Estou na velha área de descanso da Milha 81. Tem quatro veículos abandonados, um cavalo abandonado e duas crianças abandonadas. Um dos veículos é uma perua. As crianças disseram… — Ele fez uma pausa, mas pensou que se dane. — As crianças disseram que ela comeu os pais deles.
— Pode repetir?
— Acho que querem dizer que alguém lá dentro os puxou. Quero que você envie todas as unidades disponíveis para cá, entendido?
— Entendido, todas as unidades disponíveis, mas vai demorar dez minutos para que a primeira chegue aí. É a unidade Doze. Ele está em Código Setenta e Três em Waterville.
Al Andrews, certamente comendo alguma coisa no Bob’s Burgers e discutindo política.
— Entendido.
— Preciso da marca, do modelo e da placa da perua, Dezessete, para checar no sistema.
— Negativo para os três. Não tem placa. Quanto à marca e ao modelo, a coisa está tão coberta de lama que não consigo identificar. Mas é americano. — Eu acho. — Um Ford ou um Chevy. As crianças estão na viatura. Os nomes são Rachel e Blake Lussier, da rua Fresh Winds, Falmouth. Esqueci o número.
— Dezenove! — gritaram Rachel e Blake ao mesmo tempo.
— Eles disseram…
— Eu ouvi, Dezessete. E em que carro eles estavam?
— O do papai é o Expundition! — gritou Blake, feliz em ajudar.
— No Ford Expedition — respondeu Jimmy. — Placa 3772IY. Vou me aproximar da perua.
— Entendido. Tome cuidado, Jimmy.
— Entendido. Ah, e você pode procurar o atendimento do 911 e dizer que as crianças estão bem?
— Quem está falando é você ou Pete Townshend?
Engraçadinho.
— Dezessete desligando.
Ele foi colocar o rádio no lugar, mas decidiu entregá-lo para Rachel.
— Se acontecer alguma coisa, qualquer coisa ruim, aperte este botão na lateral e grite “Trinta”. Isso quer dizer “Policial precisando de ajuda”. Entendeu?
— Sim, mas você não deveria chegar perto daquele carro, policial Jimmy. Ele morde e come e é grudento.
Blake, impressionado de estar em uma viatura de polícia de verdade, tinha esquecido temporariamente o que tinha acontecido com os pais, mas então lembrou e começou a chorar de novo.
— Eu quero a mamãe e o papai!
Apesar da esquisitice e do perigo em potencial da situação, a ação de revirar os olhos de está vendo o que eu tenho que aguentar? de Rachel Lussier quase fez Jimmy rir. Quantas vezes ele tinha visto exatamente a mesma expressão no rosto de Ellen Golding, de cinco anos?
— Escute, Rachel — disse Jimmy —, sei que você está com medo, mas vocês estão protegidos aqui dentro, e eu tenho que fazer o meu trabalho. Se seus pais estiverem naquele carro, não vamos querer que eles fiquem machucados, não é?
— VAI BUSCAR A MAMÃE E O PAPAI, POLICIAL JIMMY! — berrou Blake. — NÓS NÃO QUEREMOS QUE ELES FIQUEM MACHUCAAAADOS!
Jimmy viu uma centelha de esperança surgir nos olhos de Rachel, mas não tanto quanto esperava. Como o agente Mulder na antiga série Arquivo X, ela queria acreditar… mas, como a parceira de Mulder, a agente Scully, não conseguia. O que aquelas crianças tinham visto?
— Tome cuidado, policial Jimmy. — Ela levantou um dedo. Era um gesto de professora que ficou ainda mais lindo por um ligeiro tremor. — Não toca no carro.
Quando Jimmy se aproximou da perua, pegou a Glock automática, mas deixou a trava acionada. Pelo menos por enquanto. Aproximando-se mais da porta aberta, ele mais uma vez convidou qualquer pessoa que estivesse lá dentro a sair do veículo com as mãos para cima. Ninguém saiu. Ele esticou a mão para a porta, mas se lembrou da última recomendação da garotinha e hesitou. Esticou o cano da arma para abrir a porta. Só que a porta não se abriu, e o cano da pistola grudou. A coisa parecia um pote de cola.
Ele foi puxado para a frente, como se uma mão poderosa tivesse segurado o cano da Glock e puxado. Houve um instante em que ele poderia ter soltado a arma, mas uma ideia dessas nem passou por sua cabeça. Uma das primeiras coisas que ensinavam na academia de polícia depois da entrega das armas era que você nunca deveria soltar sua arma de fogo. Nunca.
Então, ele continuou segurando, e o carro, que já havia comido a arma, comeu também sua mão. E seu braço. O sol saiu detrás das nuvens de novo, e sua sombra no asfalto ficava cada vez menor. Em algum lugar, as crianças gritavam.
A perua faz do policial seu AFAZER, ele pensou. Agora eu sei o que ela quis dizer com grudent…
Naquele momento, a dor ficou enorme e todos os seus pensamentos sumiram. Houve tempo para um grito. Só um.
6. AS CRIANÇAS (Richforth 2010)
De onde estava, a uns setenta metros de distância, Pete viu tudo. Viu o policial esticar a arma para abrir a porta da perua com o cano; viu o cano desaparecer na porta como se o carro todo não passasse de uma ilusão de óptica; viu o policial ser puxado para a frente e o chapéu grande e cinza cair da cabeça dele. Em seguida, o policial foi puxado pela porta, e só sobrou o chapéu, ao lado do celular de alguém. Após um momento, o carro se encolheu, como dedos se fechando em um punho. Depois, veio o som de raquete de tênis acertando a bola, plack!, e o punho fechado e lamacento voltou à forma de carro.
O garotinho começou a chorar; a garotinha por algum motivo estava gritando trinta sem parar, como se achasse que era uma palavra mágica que J. K. Rowling deixou de fora dos livros do Harry Potter.
A porta de trás da viatura policial se abriu. As crianças saíram. As duas estavam chorando muito, e Pete não as culpava. Se não estivesse tão atordoado pelo que viu, provavelmente também choraria. Um pensamento maluco ocorreu a ele: mais um ou dois goles daquela vodca poderiam melhorar a situação. Ajudariam-no a sentir menos medo, e, se estivesse com menos medo, talvez conseguisse pensar em que porra deveria fazer.
Enquanto isso, as crianças estavam recuando de novo. Pete achou que eles podiam entrar em pânico e sair correndo a qualquer segundo. Tinha que impedi-los; eles correriam para a estrada e seriam atropelados pelo trânsito da rodovia.
— Ei! — gritou ele. — Ei, vocês!
Quando os dois se viraram para olhar para ele, olhos grandes e esbugalhados em rostos pálidos, Pete acenou e começou a andar na direção deles. Nesse momento, o sol saiu de novo, desta vez para valer.
O garotinho começou a andar na direção de Pete. A garota o segurou. A princípio, achou que ela estava com medo dele, mas percebeu que era do carro.
Ele fez um gesto circular com a mão.
— Andem ao redor! Contornem o carro e venham pra cá!
Eles pularam a cerquinha do lado esquerdo da rampa, passando o mais longe possível da perua, depois atravessaram o estacionamento. Quando se aproximaram de Pete, a garotinha soltou o irmão, se sentou no chão e tapou o rosto com as mãos. Ela estava com tranças que a mãe devia ter feito. Olhar para elas e saber que a mãe nunca mais as arrumaria fez Pete se sentir péssimo.
O garotinho olhou para ele solenemente.
— O carro comeu a mamãe e o papai. Comeu a moça do cavalo e o policial Jimmy também. Vai comer todo mundo, acho. Vai comer o mundo.
Se Pete Simmons tivesse vinte anos, ele talvez fizesse um monte de perguntas idiotas que não teriam importância nenhuma. Como tinha metade dessa idade e era capaz de aceitar o que tinha acabado de ver, ele perguntou uma coisa mais simples e pertinente.
— Ei, garotinha. Tem mais policiais vindo? Era por isso que você estava gritando “trinta”?
Ela baixou as mãos e olhou para ele. Os olhos estavam inchados e vermelhos.
— Sim, mas Blake está certo. O carro vai comer eles também. Eu falei pro policial Jimmy, mas ele não acreditou.
Pete acreditava nela porque tinha visto tudo. Mas ela estava certa. A polícia não acreditaria. Acabaria acreditando, teria que acreditar, mas talvez só depois que o carro monstro comesse mais deles.
— Acho que veio do espaço — disse ele. — Que nem em Doctor Who.
— Mamãe e papai não nos deixam ver esse programa — respondeu o garotinho. — Dizem que dá muito medo. Mas isso dá mais.
— O carro está vivo. — Pete falou mais consigo mesmo do que com eles.
— Dã — disse Rachel, e deu uma fungada longa e infeliz.
O sol se escondeu brevemente atrás de uma das nuvens maiores. Quando saiu de novo, uma ideia brotou junto. Pete queria mostrar a Normie Therriault e ao resto dos Invasores Fodões uma coisa que os impressionaria a ponto de eles deixarem que ele fizesse parte da gangue. Mas George jogou a verdade na cara dele: Todos já viram esse truque bobo umas mil vezes.
Podia ser, mas talvez aquela coisa ali não tivesse visto aquilo mil vezes. Talvez nem uma única vez. Talvez não houvesse lupas lá no lugar de onde ela vinha. Nem sol, na verdade. Ele se lembrou de um episódio de Doctor Who sobre um planeta onde era escuro o tempo todo.
Ele ouviu uma sirene ao longe. Tinha um policial chegando. Um policial que não acreditaria em nada que as criancinhas dissessem, porque, no que dizia respeito aos adultos, criancinhas eram poços de baboseiras.
— Fiquem aqui. Vou tentar uma coisa.
— Não! — A garotinha segurou o pulso dele com dedos que pareciam garras. — Vai comer você também!
— Acho que não consegue se mover — respondeu Pete, soltando seu braço. A menininha deixou alguns arranhões com sangue para trás, mas ele não ficou com raiva nem a culpou. Provavelmente teria feito o mesmo se fossem seus pais. — Acho que está grudado no lugar.
— Mas consegue se esticar — disse ela. — Consegue se esticar com os pneus. Eles derretem.
— Eu vou tomar cuidado — prometeu Pete —, mas preciso tentar isso. Porque você tem razão. Os policiais vão chegar, e o carro vai comer eles também. Fiquem aqui.
Ele andou até a perua. Quando chegou perto (mas não perto demais), abriu a bolsa. Preciso tentar isso, disse ele para as crianças, mas a verdade era um pouco mais simples: ele queria tentar. Seria como um experimento científico. Poderia parecer bizarro se ele contasse para alguém, mas não precisava contar. Só precisava fazer. Com muito… muito… cuidado.
Pete estava suando. Agora que o sol brilhava com força, o dia havia esquentado, mas esse não era o único motivo, e ele sabia. Olhou para cima e estreitou os olhos para a luz. Fez a RESSACA dele doer, mas e daí? Não volte para trás da nuvem. Nem pense. Eu preciso de você.
Ele pegou a lupa Richforth na bolsa e se inclinou para colocá-la no chão. As juntas dos joelhos estalaram, e a porta da perua se abriu mais alguns centímetros.
Essa coisa sabe que estou aqui. Não sei se consegue me ver, mas com certeza me ouviu. E talvez sinta meu cheiro.
Ele deu outro passo. Agora, estava perto o bastante para tocar na lateral da perua. Se fosse idiota o bastante para fazer isso, claro.
— Cuidado! — gritou a garotinha. Ela e o irmão estavam de pé agora, abraçados. — Cuidado com o carro!
Com cuidado, como uma criança enfiando a mão na jaula de um leão, Pete esticou a lupa. Um círculo de luz apareceu na lateral da perua, mas era grande demais. Suave demais. Ele aproximou a lupa.
— O pneu! — gritou o garotinho. — Cuidado com o PII-NEEU!
Pete olhou para baixo e viu um dos pneus derretendo. Um tentáculo cinza se espalhava pelo asfalto na direção do tênis dele. Ele não podia recuar sem desistir do experimento, então levantou o pé e se equilibrou como uma cegonha. O tentáculo de gosma cinza mudou de direção na mesma hora, seguindo para o outro pé.
Não tenho muito tempo.
Ele moveu a lupa mais para perto. O círculo de luz encolheu até virar um ponto branco brilhante. Por um momento, nada aconteceu. E então filetes de fumaça começaram a subir. A superfície branca lamacenta embaixo do ponto ficou preta.
De dentro da perua veio um rosnado inumano. Pete teve que lutar contra todos os instintos no cérebro e no corpo para não sair correndo. Os lábios se abriram, revelando dentes cerrados em uma careta de desespero. Ele segurou a Richforth com firmeza, contando os segundos em pensamento. Tinha chegado a sete quando o rosnado virou um guincho vítreo que ameaçou partir sua cabeça. Atrás dele, Rachel e Blake se soltaram para poder tapar os ouvidos.
No começo da rampa da área de descanso, Al Andrews parou a Unidade 12. Ele saiu, estremecendo por causa daquele som agudo horrível. Era como uma sirene antibombas transmitida pelos amplificadores de uma banda de heavy metal, ele diria mais tarde. Ele viu um garoto esticando uma coisa bem próxima da lataria de uma perua velha e lamacenta, Ford ou Chevy. O garoto estava fazendo uma careta de dor, ou de determinação, ou das duas coisas.
O ponto preto fumegante na lateral da perua começou a aumentar. A fumaça branca subindo dele ficou mais densa. Ficou cinza e, depois, preta. O que aconteceu em seguida foi muito rápido. Pete viu chamas azuis pequenininhas surgirem ao redor do ponto preto. Elas se espalharam, parecendo dançar acima da superfície do carro monstro. Era como o carvão em blocos ficava nos churrascos no quintal quando o pai os molhava com fluido de isqueiro e jogava um fósforo.
O tentáculo cinza gosmento, que tinha quase chegado ao tênis ainda no asfalto, recuou. O carro se encolheu de novo, mas desta vez as chamas azuis se espalharam ao redor dele, como uma coroa. Ele se encolheu mais e mais, se tornando uma bola de fogo. E então, enquanto Pete, as crianças Lussier e o policial Andrews olhavam, a perua disparou para o céu azul de primavera. Por um momento, ficou ali, brilhando como uma brasa, antes de desaparecer. Pete se viu pensando na escuridão fria acima do envoltório da atmosfera da Terra, as léguas infinitas onde qualquer coisa podia viver e se esconder.
Eu não matei, só o espantei. Teve que ir embora para apagar o fogo, como um galho em chamas indo para dentro de um balde de água.
O policial Andrews olhava para o céu, estupefato. Um dos poucos circuitos que ainda funcionavam no seu cérebro se perguntou como faria um relatório sobre o que tinha acabado de ver.
Havia mais sirenes se aproximando ao longe.
Pete andou até as duas criancinhas com a bolsa em uma das mãos e a lupa Richforth na outra. Queria que George e Normie estivessem ali, mas e daí se não estavam? Ele teve uma tarde e tanto sozinho, sem eles, e não se importava se ia ficar de castigo ou não. Aquilo fazia pular de bicicleta em um campo de areia idiota parecer a Vila Sésamo.
Quer saber? Sou foda.
Ele talvez tivesse rido se as criancinhas não estivessem encarando-o. Elas tinham visto os pais serem comidos por algum tipo de alienígena, comidos vivos, e mostrar felicidade seria muito errado.
O garotinho esticou os braços gordinhos, e Pete o pegou no colo. Não riu quando o garoto beijou sua bochecha, mas sorriu.
— Obigado — disse Blake. — Você é bonzinho.
Pete o colocou no chão. A garotinha também o beijou, o que foi legal, mas teria sido mais legal se ela fosse mais velha.
O policial estava correndo na direção deles agora, e isso fez Pete se lembrar de uma coisa. Ele se inclinou na direção da garotinha e soltou uma baforada na cara dela.
— Sentiu cheiro de alguma coisa?
Rachel Lussier olhou para ele por um momento, parecendo mais sábia do que sua idade indicava.
— Você não vai se dar mal — respondeu ela, e sorriu. Não foi um sorriso grande, mas foi um sorriso. — Só não respira em cima dele. E chupa uma bala antes de ir pra casa.
— Eu estava pensando em chiclete Teaberry.
— Isso — disse Rachel. — Boa ideia.
Para Nye Willden e Doug Allen,
que compraram minhas primeiras histórias
Minha mãe tinha um dito popular para cada ocasião. (“E Steve se lembra de todos”, consigo ouvir minha esposa, Tabitha, dizendo, a frase sempre acompanhada de um revirar de olhos.)
Um dos favoritos era “O leite sempre pega o gosto do que está ao lado dele na geladeira”. Não sei se é verdade, mas é isso que acontece quando o assunto é o desenvolvimento estilístico de jovens escritores. Quando era mais novo, escrevia como H. P. Lovecraft sempre que lia Lovecraft, e como Ross Macdonald sempre que lia as aventuras do detetive particular Lew Archer.
A cópia estilística um dia retrocede. Aos poucos, os escritores desenvolvem o próprio estilo, cada um tão particular quanto uma impressão digital. Traços dos autores que uma pessoa lia nos anos de formação continuam presentes, mas o ritmo dos pensamentos de cada escritor, uma expressão das ondas cerebrais dele ou dela, poderia se dizer, acaba se tornando dominante. No fim, ninguém soa como Elmore Leonard além do próprio Leonard, e ninguém parece Mark Twain além de Twain. Mas, de vez em quando, a cópia estilística reaparece, sempre quando o escritor encontra um modo de expressão inovador e maravilhoso que mostra a ele um novo jeito de ver e falar. Salem foi escrito sob a influência da poesia de James Dickey, e se algumas partes de Rose Madder parecem ter sido escritas por Cormac McCarthy, é porque eu estava lendo qualquer texto de McCarthy em que conseguisse botar as mãos enquanto escrevia esse livro.
Em 2009, um editor do The New York Times Book Review perguntou se eu faria uma resenha dupla de Raymond Carver: A Writer’s Life, de Carol Sklenicka, e dos contos reunidos de Carver publicados pela Library of America. Eu concordei, principalmente para poder entrar em um território inexplorado. Embora eu seja um leitor onívoro, por algum motivo tinha deixado Carver passar. Era um vazio grande para um escritor que atingiu a maioridade literária mais ou menos na mesma época que Carver, você poderia afirmar, e estaria certo. Só posso dizer em minha defesa que quot libros, quam breve tempus — muitos livros e tão pouco tempo (e, sim, eu tenho a camiseta).
De qualquer forma, fiquei atordoado com a clareza do estilo de Carver e com a bela tensão de sua narrativa. Tudo está na superfície, mas essa superfície é tão cristalina que o leitor consegue ver um universo vivo logo abaixo. Adorei aqueles contos e adorei os fracassados americanos sobre quem Carver escreveu com tanto conhecimento e carinho. Sim, o sujeito era um alcoólatra, mas tinha uma escrita segura e um grande coração.
Escrevi “Premium Harmony” logo depois de ler mais de duas dúzias de contos de Carver, e não deve ser surpresa que ele pareça um conto de Carver. Se eu o tivesse escrito aos vinte anos, acho que não seria mais do que uma cópia tosca de um escritor bem melhor. Como foi escrito aos sessenta e dois, meu estilo se mistura ao dele, para o bem ou para o mal. Como muitos grandes escritores americanos (Philip Roth e Jonathan Franzen me vêm à mente), Carver não tinha muito senso de humor. Eu, por outro lado, vejo graça em quase tudo. O humor aqui é sombrio, mas, na minha opinião, esse é muitas vezes o melhor tipo. Porque, veja bem, quando se trata da morte, o que podemos fazer além de rir?