O Imperador-Deus de Duna
— Eu não poderia falar com ela e...
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 2 partes.
A areia esm agou-se abaixo dele enquanto ele rolava, flexionando o corpo num puro gozo anim al. Podia sentir seu lado ver-m e sendo restaurado, um a sensação elétrica que enviava m ensagens de saúde através dele.
O sol encontrava-se agora bem acim a do horizonte, pintando um a linha dourada sobre um dos lados da torre. Havia o cheiro de poeira no ar e o odor de distantes plantas espinhudas que haviam respondido aos vestígios de orvalho na m anhã. Suave-m ente a principio, depois com m ais rapidez, ele descreveu um largo círculo em torno da Torre, pensando em Siona enquanto o fazia.
Não podiam ocorrer m ais atrasos. Ela tinha de ser testada, e Moneo sabia disso tanto quanto Leto.
Ainda naquela m anhã, Moneo dissera:
— Senhor, existe um a violência terrível guardada dentro dela.
— Ela está com eçando a se viciar em adrenalina — dissera Leto. — E hora do escaldam ento.
— Hora do quê, Senhor?
— E um a expressão m uito antiga. Significa que Siona deve ser subm etida a um a privação com pleta. Deve passar pelo choque da carência.
— Oh... percebo.
Ao m enos dessa vez, Leto notou que Moneo estava m esm o vendo. Ele passara pelo seu escaldam ento.
— Os j ovens são geralm ente incapazes de tom ar decisões difíceis, a m enos que essas decisões estej am associadas à violência im ediata e ao conseqüente fluxo de adrenalina — explicara Leto.
Moneo m antivera-se num silêncio reflexivo, relem brando então:
— E um grande perigo.
— Essa é a violência que está vendo em Siona. Até m esm o as pessoas m ais velhas podem prender-se a ela, m as os j ovens se entregam .
Enquanto circundava a Torre à luz crescente do dia, apreciando ainda m ais a sensação que a areia lhe proporcionava na m edida em que ia secando, Leto pensava a respeito dessa conversa. Dim inuiu a velocidade de sua passagem através da areia e o vento atrás dele trouxe às suas narinas hum anas o cheiro do oxigênio exalado e o odor do pó de pedra aquecido. Ele inalou profundam ente, erguendo sua consciência am pliada até outro nível.
Esse dia prelim inar tinha um propósito m últiplo. Ele pensava no encontro que se avizinhava da m aneira com o um antigo toureiro teria j ulgado seu prim eiro exam e do adversário chifrudo. Siona possuía sua própria versão dos chifres, em bora Moneo pudesse certificar-se de que ela não traria arm as físicas para esse encontro. No entanto, Leto tinha de estar certo de conhecer cada força e cada fraqueza de Siona. E teria de criar suscetibilidades especiais sobre ela sem pre que fosse possível. Ela precisava ser preparada para o teste, seus m úsculos psíquicos paralisados por gram pos bem plantados.
Pouco depois do m eio-dia, seu lado verm e saciado, Leto retornou à torre, arrastou-se para cim a de sua carreta e se ergueu nos suspensores até o ápice, onde um portal se abria apenas ao seu com ando. Pelo resto do dia ele ficou lá naquele ninho, pensando, tram ando.
O esvoaçar das asas de um ornitóptero, sussurrando no ar logo ao cair da noite, assinalou a chegada de Moneo.
“Fiel Moneo.”
Leto fez com que a plataform a de pouso se estendesse de seu ninho e o tóptero deslizou para ela com as asas em concha, pousando suavem ente. Ele olhou através da escuridão que se adensava. Siona em ergiu e correu em direção a ele, tem erosa dessa altura desprotegida. Usava um m anto branco sobre um uniform e negro sem insígnias. Deu um rápido olhar para trás ao parar na entrada da torre e então voltou sua atenção para Leto, que esperava na carreta, bem no centro do ninho. O tóptero decolou, m ergulhando na escuridão. Leto deixou o portal aberto e a plataform a estendida.
— Existe um a sacada do outro lado da torre — ele disse. — Irem os para lá.
— Por quê?
A voz de Siona era pura suspeita.
— Disseram -m e que é um lugar frio. E de fato há um a sensação de frio em m inha face quando eu a exponho à brisa deste lugar.
A curiosidade a trouxe m ais para perto dele.
Leto fechou o portal atrás dela.
— A visão noturna desta sacada é m agnífica — disse Leto.
— Por que estam os aqui?
— Porque aqui não serem os ouvidos.
Ele virou-se em sua carreta e se deslocou silenciosam ente para a sacada. Um a fraca ilum inação oculta dentro do ninho revelava seus m ovim entos. Ouviu que ela o seguia.
A sacada era um m eio anel no arco sudeste da torre, com um etéreo balaústre correndo à altura do peito em torno do perím etro. Siona cam inhou até o balaústre e olhou em volta para aquela extensão de terra.
Leto sentiu sua receptividade expectante. Algum a coisa seria dita ali, e som ente para os ouvidos dela. O que quer que fosse ela iria ouvir e responderia a partir do poço de seus próprios m otivos. Leto olhou por sobre ela em direção à extrem idade do Sareer, onde a m uralha artificial de sua fronteira não passava de um a linha chata e baixa vista dali, quase invisível à luz da Prim eira Lua que se erguia sobre o horizonte. Ele am pliou sua visão, identificando o distante m ovim ento de um com boio vindo de Onn, o brilho baço das luzes de veículos de tração anim al cam inhando ao longo da estrada elevada em direção à Vila de Tabur.
Podia relem brar em sua m em ória a im agem do vilarej o aninhado entre as plantas que cresciam num a área úm ida ao longo da base interior da m uralha. Seus Frem en de Museu cultivavam tam areiras, altas gram íneas e até m esm o hortas por lá. Não era com o nos velhos tem pos, quando qualquer lugar habitado, até m esm o um a m inúscula depressão com algum as plantas rasteiras alim entadas por um a única cisterna dotada de arm adilha de vento, poderia parecer luxuriante quando com parada com as areias sem fim . A Vila de Tabur era um paraíso em com paração com o Sietch Tabr. Todos no vilarej o sabiam que bem além da m uralha da fronteira do Sareer se encontrava o rio Idaho, deslizando para o Sul num a longa linha reta que estaria prateada agora, à luz da lua. Os Frem en de Museu não podiam subir à íngrem e face da m uralha, m as sabiam que a água estava lá. A terra sabia tam bém . Se um habitante de Tabur colocasse o ouvido contra o solo, ouviria a terra lhe falando com o som de distantes corredeiras.
Haveria pássaros noturnos ao longo da barragem agora, pensou Leto, criaturas que viveriam sob a luz do sol em qualquer outro m undo. Duna exercera sua m agia evolutiva sobre eles, que ainda viviam à m ercê do Sareer. Leto vira os pássaros lançarem som bras fracas sobre a água e, quando eles m ergulhavam para beber, produziam ondulações que o rio apagava.
Mesm o a essa distância, Leto sentia o poder da água longínqua, um a coisa vigorosa vinda de seu passado, que se afastava dele com o a corrente fluindo para o sul nas extensões de fazendas e florestas. A água descia através de colinas ondulantes, ao longo das m argens de um a abundante vida vegetal que substituíra todo o deserto de Duna, exceto por esse últim o lugar, esse Sareer, esse santuário do passado.
Leto lem brava-se do im pulso rosnante das m áquinas Ixianas que haviam im posto à paisagem esse curso de água. Parecia ter sido pouco tem po atrás, pouco m ais de 3 m il anos.
Siona rem exeu-se e olhou para trás, m as Leto perm anecia em silêncio, sua atenção fixa além dela. Um a pálida luz de cor âm bar brilhava acim a do horizonte, reflexo de um a cidade em nuvens distantes. Pela direção e pela distância, Leto sabia ser a cidade de Wallport, transplantada para um clim a m ais quente, ao sul de sua antiga e austera localização, sob a fria e enviezada luz do norte. O brilho da cidade era com o um a j anela para o passado. Ele sentia um raio daquela luz golpeando através de seu peito, ultrapassando a espessa e escam osa m em brana que lhe substituíra a pele hum ana.
“Eu sou vulnerável”, pensou.
E no entanto sabia ser o senhor desse lugar. E o planeta era o senhor dele.
“Eu sou parte dele.”
Ele devorava o solo diretam ente, rej eitando apenas a água. Sua boca e seus pulm ões hum anos haviam sido relegados a respirarem apenas o suficiente para sustentar o vestígio de hum anidade que lhe restava... e para falar.
Leto disse para Siona, que estava de costas:
— Gosto de falar e tenho horror ao dia em que não m ais serei capaz de m anter um a conversa.
Com certa desconfiança, ela se voltou, olhando para ele à luz do luar, um desgosto m uito óbvio em sua expressão.
— Concordo em que, aos olhos de m uitos hum anos, eu sou um m onstro.
— Por que estou aqui?
“Direto ao ponto!” Ela não se desviaria. A m aioria dos Atreides tinha sido assim , ele pensou. Era um a característica que procurava m anter ao fazê-los procriar. Revelava um forte senso de identidade interior.
— Preciso descobrir o que o Tem po fez com você — ele disse.
— Por que precisa saber disso?
“Há um pouco de m edo na voz dela”, pensou ele. “Pensa que vou interrogá-la a respeito de sua tola rebelião e dos nom es de seus com panheiros sobreviventes.”
Com o ele perm anecesse quieto, ela perguntou:
— Pretende m e m atar do m odo com o m atou m eus am igos?
“Então ela ouviu a respeito da luta na Em baixada. E presum e que eu sei tudo a respeito de suas antigas atividades na rebelião. Moneo andou instruindo-a, m aldito! Bem ... eu teria feito o m esm o em tais circunstâncias.”
— Você é realm ente um deus? — perguntou ela. — Não entendo por que m eu pai acredita nisso.
“Ela tem algum as dúvidas”, pensou ele. “Ainda disponho de espaço para m anobrar.”
— As definições variam — respondeu ele. — Para Moneo eu sou um deus... e isso é um a verdade.
— Um dia você foi hum ano.
Ele com eçou a apreciar os saltos da inteligência de Siona. Ela tinha aquela curiosidade segura que era a m arca dos Atreides.
— Você está curiosa quanto a m im — ele disse. — o m esm o com igo: estou curioso quanto a você.
— Que o faz pensar que estou curiosa?
— Você costum ava m e observar cuidadosam ente quando era criança. Vej o o m esm o olhar em seus olhos esta noite.
— Sim , tenho im aginado com o é ser com o você.
Ele a observou por um m om ento, notando com o a luz do luar desenhava som bras sobre os olhos dela, ocultando-os. Podia im aginar que os olhos de Siona fossem de azul total com o os seus, o azul do vício da especiaria. Com esse acréscim o im aginário, Siona guardava curiosa sem elhança com sua irm ã Ghani, m orta há m uito tem po. Eram os contornos do rosto dela e a disposição de seus olhos. Quase disse isso a Siona, depois achou m elhor não fazê-lo.
— Você com e com ida hum ana? — perguntou ela.
— Por longo tem po, depois que coloquei a pele da truta da areia, senti m eu estôm ago com fom e. Ocasionalm ente, tentava ingerir alim ento. Meu estôm ago geralm ente o rej eitava. Os cílios da truta da areia propagavam -se por toda parte em m inha carne hum ana. Com er tornou-se um a coisa incôm oda. Atualm ente, costum o ingerir apenas substâncias secas que por vezes contêm um pouquinho de especiaria.
— Você... com e m elange?
— Às vezes.
— Mas não possui m ais apetites hum anos?
— Eu não disse isso.
Ela olhou para ele com expectativa.
Leto adm irava o m odo com o ela deixava que as questões não respondidas funcionassem em seu favor. Ela era brilhante e aprendera m uito em sua curta vida.
— A fom e do estôm ago era um sentim ento terrível, um a dor que eu não conseguia aliviar. Então eu corria, corria pelas dunas com o um a criatura insana.
— Você... corria?
— Minhas pernas eram m ais longas em relação ao m eu corpo naqueles dias. Eu podia cam inhar com m uita facilidade. Mas a dor da fom e nunca m e abandonava. Creio que era a fom e da m inha hum anidade perdida.
Ele notou nela o início de um a sim patia relutante, o questionam ento.
— Ainda sente essa... dor?
— Agora é apenas um a ligeira ardência. Esse é um dos sinais de m inha m etam orfose final. Dentro de m ais alguns séculos terei voltado para a areia.
Ele viu os punhos dela se contraírem .
— Por quê? — ela exigiu saber. — Por que fez isso?
— Essa m udança não é de todo ruim . Hoj e, por exem plo, está m uito agradável. Sinto-m e bem j ovial.
— Há m udanças que não podem os ver — ela disse. — Sei que deve haver. — Relaxou as m ãos.
— Minha visão e m inha audição tornam -se extrem am ente agudas, m as não o m eu tato. Exceto pelo rosto, não sinto as coisas do m odo com o sentia outrora. Isso m e faz falta.
Novam ente ele notou nela a sim patia relutante, um im pulso em direção a um a com preensão em pática. Ela queria saber!
— Quando se vive tanto tem po — ela disse —, com o se sente a passagem do Tem po? Será que ele se acelera à m edida que os anos passam ?
— Essa é um a coisa estranha, Siona. O Tem po às vezes passa correndo por m im , às vezes se arrasta.
Gradualm ente, à m edida que conversavam , Leto foi dim inuindo a ilum inação oculta de seu ninho e m ovendo a carreta para m ais perto de Siona. Agora ele desligou as luzes, deixando apenas a lua. A frente de seu carro proj etava-se da sacada, seu rosto a apenas dois m etros de Siona.
— Meu pai m e disse que, quanto m ais velho você se torna, m ais lentam ente o tem po passa. Foi isso que disse a ele?
“Testando a veracidade das m inhas palavras”, pensou ele. “Então ela não é um a reveladora da verdade.”
— Todas as coisas são relativas, m as, com parado ao sentido hum ano do tem po, isso é verdade.
— Por quê?
— Tem relação com aquilo em que m e tornei. No fim , o Tem po vai parar para m im e eu estarei congelado com o um a pérola apanhada no gelo. Meus novos corpos se dispersarão, cada qual com um a pérola oculta em seu interior.
Ela virou-se, olhando na direção oposta a ele, perscrutando o deserto e falando sem olhar para trás.
— Quando falo com você aqui na escuridão, quase consigo esquecer quem você é.
— Foi por isso que escolhi esta hora para o nosso encontro.
— Mas por que este lugar?
— Porque é o últim o lugar em que posso m e sentir em casa.
Siona virou as costas para o balaústre, apoiando-se nele e olhando para Leto.
— Quero vê-lo.
Ele acendeu todas as luzes do ninho, inclusive os ofuscantes globos lum inosos brancos ao longo da borda exterior do teto da sacada. À m edida que as luzes se acendiam , um escudo transparente Ixiano escorregava para fora de um recesso na parede e fechava a sacada atrás de Siona. Ela sentiu aquilo m over-se atrás dela e se espantou, m as assentiu com o se entendesse. Pensava que aquilo fosse um a defesa contra um ataque qualquer. Não era, servia apenas para evitar os insetos noturnos.
Siona olhou para Leto, percorrendo o corpo dele com o olhar, parando nos tocos que tinham sido suas pernas, voltando então a atenção para os braços e as m ãos, para o rosto.
— Suas histórias oficiais nos dizem que todos os Atreides são descendentes de você e de sua irm ã Ghanim a. A História Oral discorda.
— A História Oral está correta. Seu ancestral foi Harq al-Ada. Ghani e eu nos casam os apenas no nom e, um m ovim ento para consolidar o poder.
— Com o o seu casam ento com essa m ulher Ixiana?
— Isto é diferente.
— Vai ter filhos com ela?
— Nunca fui capaz de ter filhos. Escolhi esta m etam orfose antes que isso fosse possível.
— Você era um a criança e então — ela apontou — virou isto?
— Nada entre as duas coisas.
— Com o um a criança sabia o que escolher?
— Eu era um a das crianças m ais velhas que o universo j á viu. Ghani era a outra.
— Aquela história sobre suas m em órias ancestrais!
— Um a história verdadeira. Estam os todos aqui. A História Oral não concorda?
Ela virou-lhe as costas e ficou rígida. Um a vez m ais, Leto sentiu-se fascinado por este gesto hum ano: a rej eição unida à vulnerabilidade. Daí a pouco ela se voltou, concentrando seu olhar nas feições dentro das dobras do capuz de truta da areia.
— Você tem a aparência dos Atreides — ela disse.
— Cheguei a essa conclusão tão honestam ente quanto você.
— Você é tão velho, por que não tem rugas?
— Nada com relação à m inha parte hum ana envelhece do m odo habitual.
— Foi por isso que fez essa coisa consigo m esm o?
— Para ter vida longa? Não.
— Não vej o por que m otivo alguém poderia fazer tal escolha — m urm urou ela. E depois, m ais alto: — Jam ais conhecer o am or...
— Você está bancando a tola! — ele disse. — Não quer dizer am or, quer dizer sexo.
Ela encolheu os om bros.
— Pensa que a coisa m ais im portante a que renunciei foi o sexo? Não, a m aior perda foi algo m uito diferente.
— O quê? — indagou ela com relutância, traindo quão profundam ente isso a sensibilizava.
— Não posso cam inhar entre m eus sem elhantes sem que eles notem . Eu não sou m ais um de vocês. Estou sozinho. Am or? Muitas pessoas m e am am , m as m inha form a nos m antém afastados. Estam os separados, Siona, por um abism o que nenhum outro hum ano se atreve a cruzar.
— Nem a sua m ulher Ixiana?
— Sim , ela o faria se pudesse, m as não pode. Não é um a Atreides.
— Quer dizer que eu.. . poderia? — Ela tocou o peito com o dedo.
— Se houvesse um a quantidade suficiente de trutas da areia por aí. Infelizm ente, todas elas envolvem a m inha carne. Se eu m orresse, contudo...
Ela sacudiu a cabeça horrorizada com o pensam ento.
— A História Oral diz a verdade — ele disse. — E nunca devem os nos esquecer de que você acredita na História Oral.
Ela continuou a sacudir a cabeça de um lado para o outro.
— Não há qualquer segredo quanto a isso — disse ele. — Os prim eiros m om entos da transform ação é que são críticos. Sua consciência deve m ergulhar para dentro e para fora sim ultaneam ente, tornando-se una com o Infinito. Eu poderia fornecer-lhe suficiente m elange para que conseguisse isso. Dada um a quantidade suficiente de especiaria, você pode sobreviver àqueles terríveis prim eiros m om entos... e a todos os outros m om entos.
Ela estrem eceu incontrolavelm ente, seu olhar fixo nos olhos dele.
— Sabe que estou lhe dizendo a verdade, não sabe?
Ela assentiu com a cabeça e inspirou fundo de m odo trêm ulo. Depois perguntou:
— Por que fez isso?
— A alternativa era m uito m ais terrível.
— Que alternativa?
— Com o tem po, você poderá entendê-la, tal com o Moneo a entendeu.
— Seu m aldito Cam inho Dourado!
— Maldito não. Muito sagrado.
— Pensa que sou um a tola que não pode...
— Penso que lhe falta experiência, m as que possui um a grande capacidade de cuj o potencial nem m esm o você suspeita.
Ela respirou fundo três vezes e então recuperou um pouco da com postura.
— Se não pode unir-se sexualm ente à Ixiana, então...
— Criança, por que insiste em não m e entender? Não se trata de sexo. Antes de Hwi eu não tinha com quem form ar um par. Não havia ninguém com o eu. Em todo o vazio cósm ico, eu era único.
— Ela é... com o você?
— Deliberadam ente. Os Ixianos a fizeram desse m odo.
— Fizeram -na.
— Não sej a um a idiota com pleta! — retrucou ele. — Ela é a essência da arm adilha para deuses. Mesm o a vítim a não pode rej eitá-la.
— Por que m e diz essas coisas? — sussurrou ela.
— Você roubou duas cópias dos m eus diários — ele disse.
— Você leu as traduções da Corporação e j á sabe o que poderia m e apanhar.
— Então sabia?
Ele viu o atrevim ento retornar ao olhar dela, um sentim ento de seu próprio poder.
— E claro que você sabia — ela disse, respondendo sua própria pergunta.
— Era o m eu segredo — ele disse. — Não im agina quantas vezes eu am ei um com panheiro e vi esse com panheiro m e escapar.. . com o seu pai está m e escapando agora.
— Você... o am a?
— E am ei sua m ãe. Algum as vezes eles se vão rapidam ente, outras vezes com agonizante lentidão. A cada vez eu fico destroçado. Posso bancar o em pedernido e tom ar as decisões necessárias, m esm o decisões que causam a m orte, m as não posso escapar ao sofrim ento. Por m uito, m uito tem po — aqueles diários que roubou dizem a verdade —, essa foi a única em oção que conheci.
Ele viu a um idade nos olhos dela, m as a linha do m axilar ainda revelava um a decisão firm e.
— Nada disso lhe dá o direito de governar.
Leto suprim iu um sorriso. Finalm ente alcançavam a raiz da rebelião de Siona.
“Por que direito? Onde está a j ustiça em m eu governo? Ao im por m inhas leis sobre eles, usando o peso do braço das Oradoras Peixes, estarei sendo j usto para com o im pulso evolutivo da hum anidade? Conheço todo o cântico da evolução, a ladainha e as frases de efeito.”
— Em nenhum lugar você vê sua m ão rebelde no poder que eu m antenho — disse ele.
A j uventude dela ainda exigia o seu m om ento.
— Nunca o escolhi para m e governar — disse ela.
— Mas você m e dá forças.
— Com o?
— Opondo-se a m im . Eu afio m inhas garras em gente com o você.
Ela deu um a rápida olhada nas m ãos dele.
— Figura de linguagem — explicou ele.
— Assim , finalm ente o ofendi — ela disse, ouvindo apenas a raiva nas palavras e no tom de voz.
— Você não m e ofendeu. Som os parentes e podem os falar asperam ente um com o outro dentro da fam ília. O fato é que eu tenho m ais a tem er de você do que você de m im .
Isso a deixou desconcertada, m as apenas por um m om ento. Ele viu a crença enrij ecer-lhe os om bros, e então a dúvida. Ela abaixou o queixo e olhou para cim a em direção a ele.
— O que o Grande Deus Leto poderia tem er de m im ?
— Sua violência ignorante.
— Está m e dizendo que é fisicam ente vulnerável?
— Não vou avisá-la de novo, Siona. Há lim ites aos j ogos de palavras que podem os fazer. Você e os Ixianos sabem que aqueles a quem am o é que são fisicam ente vulneráveis. Logo, a m aior parte do Im pério vai saber disso. É o tipo de inform ação que viaj a com rapidez.
— E todos se perguntarão que direito tem de governar!
Havia um a satisfação na voz dela que fez subir em Leto um a raiva abrupta. Achou difícil controlá-la. Esse era um lado das em oções hum anas que ele detestava. Rigozij ar-se com a desgraça alheia. Dem orou algum tem po antes que ele se atravesse a responder, e então resolveu golpear através das defesas dela até atingir a parte vulnerável que j á tinha visto.
— Eu governo pelo direito da solidão, Siona. Minha solidão é em parte liberdade e em parte escravidão. Ela diz que não posso ser com prado por nenhum grupo hum ano. Minha escravidão a vocês diz que servirei a todos com o m elhor das m inhas habilidades.
— Mas os Ixianos o pegaram ! — ela disse.
— Não, eles m e deram um a dádiva que m e fortalece.
— Ela o enfraquece!
— Isso tam bém — adm itiu ele. — Mas forças m uito poderosas ainda m e obedecem .
— Oh, sim — concordou ela. — Eu entendo isso.
— Você não entende.
— Então tenho certeza de que vai m e explicar — desafiou ela.
Ele falou tão suavem ente que ela teve de se inclinar para m ais perto dele a fim de ouvir.
— Não existem outros, de espécie algum a, em parte algum a, que possam m e atrair para coisa algum a — para com partilhar algum a coisa, para assum ir com prom issos ou m esm o para a m enor tentativa de criar outro governo. Eu sou único.
— Nem m esm o essa m ulher Ixiana pode...
— Ela é tão sem elhante a m im que não m e enfraqueceria desse m odo.
— Mas quando a Em baixada Ixiana foi atacada...
— Ainda posso ser irritado pela estupidez.
Ela olhou zangada, franzindo a testa.
Leto j ulgou ser esse um bonito gesto naquela situação, inteiram ente inconsciente. Sabia que a tinha feito pensar. E estava certo de que ela nunca antes considerara o fato de que ser único im plicasse algum direito.
Ele olhou para a silenciosa irritação dela, dizendo:
— Nunca antes houve um governo exatam ente com o o m eu. Em toda a nossa história. Sou responsável apenas perante m im m esm o, extraindo um pagam ento com pleto por aquilo que sacrifiquei.
— Sacrificou! — disse ela com sarcasm o, m as ele ouviu as dúvidas im plícitas. — Cada déspota diz algum a coisa sem elhante — ela continuou. — Você é responsável apenas perante você m esm o!
— O que torna cada coisa viva m inha responsabilidade. Eu zelo por vocês através destes tem pos.
— Através de que tem pos?
— Os tem pos que poderiam ter sido e não são m ais.
Ele notou indecisão nela. Ela não confiava em seus instintos, em suas habilidades de previsão não-treinadas. Podia dar um salto ocasional, com o acontecera ao roubar os seus diários, m as a m otivação para o salto se perdia na revelação conseqüente.
— Meu pai diz que você pode ser m uito hábil com as palavras.
— E ele deve saber. Mas existe um tipo de conhecim ento que só se pode adquirir através da participação. Não há m eios de aprender sim plesm ente se levantando, olhando e falando.
— E isso que ele quer dizer.
— Você está certa. Não é lógico. E um a luz, um olho que pode ver, m as que não vê a si próprio.
— Estou cansada de falar — ela disse.
— Com o eu. — E pensou: “Já vi o bastante, fiz o bastante. Ela está com pletam ente aberta às suas dúvidas. Com o eles são vulneráveis na sua ignorância!”
— Não m e convenceu de coisa algum a — ela disse.
— Não era esse o propósito deste encontro.
— Qual era o propósito?
— Verificar se j á está pronta para ser testada.
— Test... — Ela inclinou a cabeça um pouco para a direita e olhou para ele.
— Não brinque de inocente com igo. Moneo lhe contou e eu digo que você está pronta!
Ela tentou engolir em seco e então com eçou:
— Que está...
— Já m andei que Moneo a levasse de volta à Cidade — disse Leto. — Quando nos encontrarm os de novo, você aprenderá realm ente de que têm pera é feita.
Conhecem o mito do Grande Depósito de Especiaria? Sim, eu também conheço essa história. Um majordomo me contou um dia, para me divertir. A história diz que há um tesouro de melange, um gigantesco tesouro, tão grande quanto uma montanha, escondido nas profundezas de um planeta distante. Esse planeta não é Arrakis, não é Duna. A especiaria foi oculta muito tempo atrás, antes mesmo do Primeiro Império e da Corporação Espacial. A história diz que Paul Muad’Dib foi para lá e ainda vive ao lado do tesouro, que o mantém vivo e esperando. O majordomo não entendeu por que essa história me perturbou.
— Os diários roubados
Idaho trem ia de raiva enquanto cam inhava ao longo dos corredores de plaspedra em direção a seus aloj am entos na Cidadela. A cada posto de guarda por que passava, um a m ulher batia continência. Ele não respondia. Sabia estar causando inquietação entre elas. Ninguém podia ter dúvidas quanto ao estado de espírito do com andante. Mas ele não perdia o passo firm e. A pesada batida de suas botas ecoava pelas paredes.
Ainda podia sentir o gosto do alm oço — um fam iliar cardápio Atreides com posto de costeleta, cereais cozidos com um a porção azeda de pseudocarne, tudo acom panhado de um copo de claro suco cidrit. Moneo o encontrara num a m esa de canto, no refeitório da Guarda, com um a tabela regional de operações colocada ao lado do prato.
Sem esperar por um convite, Moneo sentara-se diante dele e puxara para o lado a tabela de operações.
— Trago um a m ensagem do Im perador-Deus.
O tom m uito controlado preveniu Idaho de que esse não era um encontro casual. Outros sentiram isso. Um silêncio perceptível propagou-se pelas m ulheres nas m esas próxim as, espalhando-se pela sala.
Idaho abandonou suas costeletas.
— Sim ?
— Estas foram as palavras do Im perador-Deus — disse Moneo. — “Foi m á sorte m inha que Duncan Idaho se tornasse enam orado de Hwi Noree. Esse infortúnio não deve continuar.”
A raiva fez Idaho com prim ir os lábios, m as ele perm aneceu em silêncio.
— Essa tolice nos coloca a todos em perigo — disse Moneo.
— Noree é a prom etida do Im perador-Deus.
Idaho tentou controlar sua raiva, m as as palavras o traíam :
— Ele não pode casar-se com ela!
— Por que não?
— Qual é o j ogo dele, Moneo?
— Sou um m ensageiro com um a única m ensagem . Nada m ais — disse Moneo.
A voz de Idaho era baixa e am eaçadora.
— Mas ele lhe faz confidências.
— O Im perador-Deus tem com paixão de você — m entiu Moneo.
— Com paixão! — gritou Idaho, aprofundando o silêncio na sala.
— Noree é um a m ulher de óbvios atrativos. Mas não é para você.
— O Im perador-Deus falou — zom bou Idaho — e não há apelação.
— Percebo que entendeu a m ensagem .
Idaho fez m enção de se levantar da m esa.
— Aonde vai? — quis saber Moneo.
— Vou acertar essa situação com ele agora!
— Isso é suicídio certo — advertiu Moneo.
Idaho olhou furioso para ele, subitam ente consciente das m ulheres que ouviam atentam ente nas m esas à sua volta. Um a expressão que o Muad’Dib teria reconhecido im ediatam ente surgiu no rosto dele: “Jogando com o Diabo”, era com o o Muad’Dib a cham ava.
— Sabe o que os Duques Atreides originais sem pre diziam ?
— perguntou Idaho, e havia um tom de zom baria em sua voz.
— É pertinente?
— Diziam que todas as suas liberdades desaparecem quando você olha para um governante absolutista.
Rígido com o m edo, Moneo inclinou-se na direção de Idaho e seus lábios quase não se m overam . Sua voz era pouco m ais que um sussurro.
— Não diga tais coisas.
— Porque um a dessas m ulheres poderia relatar?
Moneo sacudiu a cabeça, descrente.
— Você é m ais descuidado que todos os outros.
— Realm ente?
— Por favor! É extrem am ente perigoso tom ar essa atitude.
Idaho ouviu um rem exer nervoso propagando-se pelo salão.
— Ele pode apenas nos m atar — disse Idaho.
Moneo falou num sussurro nervoso:
— Seu tolo! O Verm e pode dom iná-lo ante a m enor provocação!
— O Verm e, você diz? — E a voz de Idaho era desnecessariam ente alta.
— Você deve confiar nele — disse Moneo.
Idaho olhou para a esquerda e para a direita.
— Sim , acho que elas ouviram isso.
— Ele é bilhões e bilhões de pessoas unidas num único corpo — disse Monco.
— Assim m e disseram .
— Ele é Deus e nós som os m ortais.
— Então, com o pode um deus fazer coisas m ás?
Moneo em purrou a cadeira para trás e se levantou bruscam ente.
— Eu lavo m inhas m ãos quanto a você! — Virou-se e saiu apressado do salão.
Idaho olhou para o refeitório, descobrindo-se no centro das atenções de todas as guardas.
— Moneo não j ulga, m as eu o faço — disse ele.
Para sua surpresa, descobriu alguns sorrisos m aldosos entre as m ulheres. Todas elas voltaram a com er.
Enquanto cam inhava ao longo de um corredor da Cidadela, Idaho repetia essa conversa em sua m ente, buscando singularidades no com portam ento de Moneo. O terror podia ser reconhecido e até m esm o entendido, m as ali parecia haver m uito m ais que o m edo da m orte... m uito, m uito m ais.
“O Verm e pode dom iná-lo.”
Idaho sentia que isso tinha escapado sem que Moneo o desej asse. Que poderia significar?
— Você é m ais descuidado que qualquer um dos outros.
Idaho se incom odava por ter de ouvir com parações entre si m esm o e um desconhecido. Quão cuidadosos os outros teriam sido?
Chegou à porta do seu aloj am ento, colocou a m ão no fecho de palm a e hesitou. Sentia-se com o um anim al caçado recuando para o seu covil. As guardas do refeitório certam ente teriam relatado a conversa para Leto a essa altura. O que iria fazer o Im perador-Deus? A m ão de Idaho m oveu-se sobre o fecho e a porta girou para dentro. Ele entrou na ante-sala de seu apartam ento e trancou a porta olhando para ela.
“Será que ele vai m andar suas Oradoras Peixes m e buscarem ?”
Olhou em volta da área de entrada. Tratava-se de um espaço convencional, com prateleiras para roupas e sapatos, um espelho para o corpo inteiro, um arm ário de arm as. Olhou para a porta fechada do arm ário. Nenhum a das arm as ali dentro oferecia qualquer am eaça real ao Im perador-Deus. Não havia sequer um a arm a laser... em bora até m esm o pistolas laser fossem ineficazes contra o Verm e, de acordo com todos os relatos.
“Ele sabe que irei desafiá-lo.”
Idaho suspirou e olhou para a frente, em direção ao portal arqueado que conduzia à sala de estar. Moneo substituíra a m obília por peças m ais pesadas, m ais rígidas, algum as delas reconhecivelm ente Frem en — escolhidas nas arcas dos Frem en de Museu.
Frem en de Museu!
Idaho cuspiu e passou pelo portal. Dois passos para dentro do quarto e ele parou, chocado. A luz suave das j anelas do norte revelava Hwi Noree sentada num longo divã.. Ela usava um vestido azul-brilhante que se colava ao seu corpo, bem revelador. Olhou para ele quando entrou.
— Graças aos deuses você não foi ferido — disse ela.
Idaho olhou para trás, para a porta de fecho. Depois olhou especulativam ente para Hwi. Ninguém a não ser algum as guardas selecionadas deveriam ser capazes de abrir aquela porta.
Ela sorriu ante a sua confusão:
— Nós Ixianos fabricam os esses fechos — ela disse.
Ele se sentiu tem eroso por ela.
— Que está fazendo aqui?
— Precisam os conversar.
— Sobre o quê?
— Duncan... — Ela sacudia a cabeça. — Sobre nós!
— Elas a avisaram — disse ele.
— Disseram -m e para rej eitá-lo.
— Moneo a enviou!
— Duas m ulheres da Guarda que o ouviram no refeitório. elas trouxeram a noticia até m im . Acham que você está correndo um perigo terrível.
— E por isso que está aqui?
Ela se levantou num m ovim ento gracioso que fez Idaho lem brar-se do m odo com o a avó de Leto, Jessica, se m ovia. O m esm o controle fluido dos m úsculos, cada m ovim ento cheio de beleza.
A com preensão veio com o um choque.
— Você é um a Bene Gesserit.
— Não! Elas estavam entre as m inhas instrutoras, m as não sou um a Bene Gesserit.
Suspeitas enevoaram -lhe a m ente. Que alianças estariam funcionando no Im pério de Leto? Que saberia um ghola a respeito de tais coisas?
“As m udanças desde a época em que eu vivi. .
— Suponho que você ainda sej a sim plesm ente Ixiana.
— Por favor, não zom be de m im , Duncan.
— Afinal, que é você?
— Sou a noiva destinada ao Im perador-Deus.
— E vai servi-lo fielm ente!
— Vou.
— Então nada há para conversarm os.
— Exceto esta coisa entre nós.
Ele pigarreou.
— Que coisa?
— Esta atração. — Ela ergueu um a das m ãos quando ele com eçava a falar. — Quero m e lançar em seus braços, encontrar o am or e o abrigo que sei que existe aí. E você desej a isso tam bém .
Ele ficou rígido.
— O Im perador-Deus o proíbe!
— Mas eu estou aqui.
Ela deu dois passos em direção a ele, o vestido ondulando sobre o corpo.
— Hwi... — Ele tentou engolir com a garganta seca. — E m elhor você sair.
— E prudente, m as não é m elhor.
— Se ele descobrir que você esteve aqui.
— Não é m eu costum e deixar você deste m odo. — Novam ente ela lhe deteve a resposta erguendo a m ão. — Fui criada e treinada com um único propósito.
Suas palavras o encheram de gélida cautela.
— Que propósito?
— Seduzir o Im perador-Deus. Oh, ele sabe disso. E não m udaria coisa algum a em m im .
— Nem eu.
Hwi chegou um passo m ais perto de Idaho e este sentiu o perfum e leitoso de seu hálito.
— Eles m e fizeram m uito bem — ela disse. — Fui proj etada para agradar um Atreides. E Leto diz que seu Duncan é m ais Atreides do que m uitos nascidos com o nom e.
— Leto?
— De que outro m odo eu trataria aquele com quem vou m e casar?
Enquanto falava, Hwi inclinou-se na direção de Idaho. E, com o se um ím ã tivesse encontrado seu ponto de atração crítica, eles se aproxim aram um do outro. Hwi com prim iu o rosto contra a túnica de Idaho, os braços em torno do corpo dele, sentindo-lhe os m úsculos rij os. Idaho repousou o queixo sobre os cabelos dela, o alm íscar enchendo-lhe os sentidos.
— Isto é loucura — sussurrou ele.
— Sim .
Ele ergueu o queixo dela e a beij ou.
Hwi pressionou o corpo contra o dele.
Nenhum dos dois teve dúvidas sobre aonde isso levaria. Ela não resistiu quando ele a ergueu nos braços e a carregou para o quarto.
Apenas um a vez Idaho falou:
— Você não é virgem .
— Nem você, am or.
— Am or — sussurrou ele. — Am or, am or, am or...
— Sim ... sim !
Na paz posterior ao coito, Hwi colocou am bas as m ãos por trás da cabeça e se espreguiçou, contorcendo-se na cam a. Idaho sentou-se de costas para ela, olhando para a j anela.
— Quem foram seus outros am antes? — ele indagou.
Ela se apoiou sobre um cotovelo.
— Não tive outros am antes.
— Mas... — Ele se virou, olhando para ela.
— Na m inha adolescência — explicou ela —, havia um j ovem que precisava m uito de m im . — Ela sorriu. — Depois m e senti m uito envergonhada. Com o eu tinha sido confiante! Pensei que tivesse falhado diante daqueles que dependiam de m im . Mas eles descobriram e ficaram entusiasm ados. Sabe, acho que estava sendo testada.
Idaho ficou carrancudo.
— E foi assim com igo? Eu precisava de você?
— Não, Duncan. — As feições dela ficaram sérias. — Nós dem os prazer um ao outro porque assim é que é com o am or.
— Am or! — repetiu ele num tom am argo.
Ela com entou:
— Meu tio Malky costum ava dizer que o am or é um m au negócio porque nele não se tem garantias.
— Seu tio Malky era um hom em sábio.
— Ele era estúpido! O am or não precisa de garantias.
Um sorriso torceu os cantos da boca de Idaho.
Ela tam bém sorriu para ele.
— Você sabe que é am or quando quer proporcionar prazer e m anda para o inferno as conseqüências.
Ele assentiu com a cabeça.
— Eu penso apenas no perigo que você corre.
— Nós som os o que som os — ela disse.
— E que vam os fazer?
— Vam os lem brar com carinho o que aconteceu aqui pelo resto de nossas vidas.
— Você fala... de m odo tão definitivo.
— Falo sim .
— Mas nos verem os um ao outro a cada...
— Nunca m ais deste m odo.
— Hwi!
Ele se lançou através da cam a, colocando o rosto sobre o peito dela. Ela acariciou-lhe o cabelo.
Com sua voz abafada contra ela, ele disse:
— E se eu a tiver fecund...
— Shh! Se houver um a criança, haverá um a criança.
Idaho ergueu a cabeça e olhou para ela.
— Mas ele saberá com certeza!
— Ele vai saber de qualquer m odo.
— Você acha que ele j á sabe de tudo?
— Não de tudo, m as saberá disto.
— Com o?
— Eu vou lhe dizer.
Idaho afastou-se bruscam ente dela e se sentou na cam a. A raiva confundia-se com a perplexidade em sua expressão.
— Sou obrigada — ela disse.
— E se ele se voltar contra você... Hwi, contam histórias. Você pode ficar num perigo terrível!
— Não. Tenho necessidades tam bém . Ele sabe disso. Não irá ferir nenhum de nós.
— Mas ele...
— Ele não irá destruir a m im . E sabe que, se o ferir, isso m e destruirá.
— Com o pode se casar com ele?
— Querido Duncan, ainda não viu que ele precisa m ais de m im do que você?
— Mas ele não pode... quero dizer, você não pode...
— Esse prazer que tivem os um com o outro. Não vou tê-lo com Leto, isso é im possível para ele. Ele m e confessou.
— Então por que não... se ele am a você...
— Ele tem planos m aiores, necessidades m aiores. — Ela se aproxim ou e pegou a m ão direita de Idaho entre as suas. — Eu soube disso desde que com ecei a estudar a respeito dele. Suas necessidades são m aiores do que qualquer um a das nossas.
— Que planos? Que necessidades?
— Pergunte a ele.
— Você sabe?
— Sim .
— Quer dizer que acredita nessas histórias a respeito de.
— Há honestidade e bondade nele. Sei por m inhas próprias reações a ele. O que m eus m estres Ixianos fizeram em m im , creio, foi um a espécie de reagente que revela m ais do que aquilo que eles desej avam que eu soubesse.
— Então acredita nele! — acusou Idaho. Tentou tirar a m ão de entre as m ãos dela.
— Se for vê-lo, Duncan, e...
— Ele nunca m ais m e verá!
— Verá.
Ela puxou a m ão dele para j unto de sua boca e lhe beij ou os dedos.
— Sou um refém — ele disse. — Você m e deixou tem eroso... vocês dois j untos...
— Nunca pensei que seria fácil servir a Deus — ela disse.
— Mas não pensava que seria tão duro.
A Memória tem um significado curioso para mim, um significado que espero outros possam compartilhar. Continuamente me admiro com a maneira como as pessoas podem ocultar-se de suas memórias ancestrais, abrigando-se por trás de uma espessa barreira de mitos. Oh, não espero que elas busquem a terrível proximidade de cada momento vivo que sou obrigado a vivenciar. Posso compreender que não desejem mergulhar numa sopa de insignificantes detalhes ancestrais. Você tem razão em temer que os seus momentos de vida possam ser tomados por outros. E no entanto o significado está lá dentro dessas memórias! Nós carregamos em frente toda a nossa ancestralidade como uma onda viva, com todas as esperanças, alegrias, mágoas, agonias e triunfos do nosso passado. Nada dentro dessas memórias permanece totalmente desprovido de significado ou influência, não enquanto houver uma humanidade em alguma parte. Nós temos esse brilhante Infinito à nossa volta, esse Caminho Dourado da eternidade ao qual podemos continuamente dedicar nossa fraca mas inspirada lealdade.
— Os diários roubados
— Eu o convoquei, Moneo, devido ao que m inhas guardas m e disseram — disse Leto.
Eles se encontravam na escuridão da cripta onde, Moneo se lem brou, algum as das decisões m ais dolorosas do Im perador-Deus se haviam originado. Moneo tam bém ouvira os relatórios e estivera esperando pelo cham ado durante toda a tarde, até que ele veio logo depois do j antar. Um m om ento de terror o engolfara.
— É a respeito... a respeito do Duncan, Senhor?
— É claro que é a respeito do Duncan!
— Contaram -m e, Senhor... seu com portam ento...
— Com portam ento term inal, Moneo?
Moneo curvou a cabeça.
— Se diz assim , Senhor.
— Quanto tem po até que os Tleilaxu nos possam fornecer um outro?
— Eles dizem que têm tido problem as, Senhor. Pode levar até dois anos.
— Sabe o que m inhas guardas m e disseram , Moneo? Moneo prendeu a respiração. Se o Im perador-Deus soubesse da últim a... Não! Até m esm o as Oradoras Peixes estavam aterrorizadas com a afronta. Se fosse outro que não um Duncan, as m ulheres se teriam encarregado de elim iná-lo.
— Bem , Moneo?
— Disseram -m e, Senhor, que ele cham ou um grupo de guardas e lhes fez perguntas sobre suas origens. Em que m undos elas tinham nascido? Qual o seu parentesco, sua infância?
— E as respostas não o satisfizeram .
— Ele as assustou, Senhor. Ficou insistindo.
— Com o se a repetição pudesse produzir a verdade. Sim .
Moneo perm itiu-se a esperança de que essa pudesse ser toda a preocupação do seu Senhor.
— Por que os Duncans sem pre fazem isso, Senhor?
— Foi o treinam ento inicial deles. O Treinam ento Atreides.
— Mas com o isso difere do...
— Os Atreides viviam a serviço das pessoas que eles governavam . A m edida de seus governos era. encontrada nas vidas dos governados. Assim , os Duncans sem pre desej avam saber com o as pessoas viviam .
— Ele passou um a noite em um vilarej o, Senhor. Esteve em algum as das cidades. Viu.
— Tudo reside na m aneira com o você interpreta os resultados, Moneo. A evidência não é coisa algum a sem os j ulgam entos.
— Tenho observado que ele j ulga, Senhor.
— Nós todos fazem os isso, m as os Duncans tendem a acreditar que este universo está subm etido à m inha vontade. E eles sabem que não se pode agir errado em nom e do certo.
— E o que ele diz que o Senhor...
— E o que eu digo, o que todos os Atreides dentro de m im dizem . Este universo não perm itirá isso. As coisas que você tenta fazer não perm anecem caso...
— Mas o Senhor não age de m aneira errada!
— Pobre Moneo. Não percebe que criei um veículo para as inj ustiças.
Moneo não podia falar. Percebeu que fora distraído por um aparente retorno da brandura no Im perador-Deus. Mas agora sentia m udanças ocorrendo no grande corpo, e essa proxim idade... Olhou à volta, percorrendo com o olhar a câm ara central da cripta e lem brando a si m esm o das m uitas m ortes que haviam acontecido ali e que ali estavam sepultadas.
“Será que a m inha hora chegou?”
Leto falou em tom m editativo:
— Você não pode ter sucesso fazendo reféns. Essa é um a form a de escravidão. Um ser hum ano não pode possuir outro ser hum ano. Este universo não vai perm itir.
As palavras ficaram brilhando na consciência de Moneo, um contraste aterrorizante com os ruídos da transform ação que ele sentia em seu Senhor.
“O Verm e está chegando!”
Novam ente Moneo olhou para a cripta à sua volta. Esse lugar era m uito pior do que o ninho! O refúgio era m uito rem oto.
— Bem , Moneo, você tem algum a resposta?
Moneo arriscou um sussurro.
— As palavras do Deus m e ilum inam .
— Ilum inam ? Você não está ilum inado!
Moneo falou desesperado:
— Mas eu sirvo ao m eu Senhor!
— Você pede para servir ao seu Deus?
— Sim , Senhor.
— Quem criou a sua religião, Moneo?
— O Senhor.
— Essa é um a resposta sensata.
— Obrigado, Senhor.
— Não m e agradeça! Diga-m e o que é que as instituições religiosas perpetuam !
Moneo recuou quatro passos.
— Fique onde está! — ordenou Leto.
Com todo o corpo trem endo, Moneo sacudiu a cabeça, atônito. Finalm ente encontrara um a pergunta sem resposta. E deixar de responder precipitaria sua m orte. Ele esperou por ela, a cabeça curvada.
— Então eu lhe direi, pobre servo.
Moneo perm itiu-se ter esperanças. Ergueu o olhar para o rosto do Im perador-Deus, notando que os olhos dele ainda não estavam vidrados... e suas m ãos ainda não trem iam . Talvez o Verm e não viesse.
— As instituições religiosas perpetuam um relacionam ento senhor-servo que é m ortífero — explicou Leto. — Elas criam um a arena que atrai os seres hum anos orgulhosos e sedentos de poder, possuidores de todos os preconceitos daqueles cuj a visão e’ estreita!
Moneo só podia assentir com a cabeça. Estaria havendo um trem or nas m ãos do Im perador-Deus? Aquela face terrível estaria se encolhendo dentro das dobras do seu capuz?
— Secretas revelações de infâm ia, isso é o que os Duncans buscam — disse Leto. — Os Duncans possuem m uita com paixão por seus com panheiros e um lim ite m uito definido de lealdade.
Moneo estudara os holos dos antigos verm es da areia de Duna, as gigantescas bocas cheias de dentes de faca cristalina em torno de um fogo consum idor. Notou a tum escência dos anéis latentes na superfície tubular de Leto. Estariam m ais proem inentes? Um a nova boca se abriria abaixo daquela face envolvida nas dobras?
— Os Duncans sabem em seu coração que deliberadam ente ignorei a advertência de Maom é e de Moisés — disse Leto. — Até m esm o você sabe disso, Moneo!
Era um a acusação. Monco com eçou a assentir, então sacudiu a cabeça de um lado para o outro. Im aginou se deveria atrever-se a tentar outra fuga. Sabia de sua experiência que palestras sobre esse tem a não podiam continuar por m uito tem po sem a chegada do Verm e.
— Que poderia ser essa advertência? — perguntou Leto. Havia um tom zom beteiro em sua voz.
Monco perm itiu-se um ligeiro encolher de om bros.
Abruptam ente, a voz de Leto trovej ou pela câm ara, um barítono ancestral que falava através dos séculos:
Vocês são servos de Deus, não servos de servos! Moneo entrelaçou as m ãos e im plorou:
— Eu sirvo ao Senhor!
— Moneo, Moneo — disse Leto, a voz baixa e ressonante.
— Um m ilhão de erros não podem criar um a coisa certa, direita. O que é certo se conhece porque perdura.
Moneo só podia esperar em trêm ulo silêncio.
— Eu destinara Hwi a procriar com você, Moneo — disse Leto. — Agora é m uito tarde.
As palavras levaram um instante para penetrar na consciência de Moneo. Ele sentia que o significado delas estava fora de qualquer contexto conhecido. “Hwi? Quem era Hwi? Oh, sim — a noiva Ixiana do Im perador-Deus. Procriar com igo?” Moneo sacudiu a cabeça.
Leto falou com infinita tristeza:
— Você tam bém deverá passar. Será que todos os nossos trabalhos serão esquecidos com o o pó?
Sem o m enor aviso, ainda enquanto falava, o corpo de Leto saltou em convulsão, rolando para fora do carro. A velocidade e a m onstruosa violência daquele m ovim ento lançaram -no a centím etros de Moneo, que gritou e fugiu correndo pela cripta.
— Moneo!
O cham ado de Leto deteve o m aj ordom o na entrada do elevador
— O teste, Moneo! Vou testar Siona am anhã!